Aécio se separa da irmã Andrea Neves (ou a divisão que multiplica)

Andrea entre o avô Tancredo e o irmão Aécio, em foto de Marcelo Prates. Da velha raposa, ela herdou mais que ele.

Em Minas Gerais, nos quase oito anos em que Aécio Neves foi governador (2003-2010), um naco significativo do poder no Estado, talvez até mesmo excepcional, esteve nas mãos de Andrea Neves, irmã mais velha de Aécio. Formalmente, Andrea era apenas a presidente do Servas (Serviço Voluntário de Assistência Social). Na prática, comandava com mãos de ferro o núcleo de comunicação (imprensa + publicidade + marketing político) e se fazia ouvir, com muita facilidade, nas secretarias de Estado, nas estatais e nos órgãos públicos locais. Enquanto à luz dos holofotes Aécio esbanjava charme, simpatia e leveza e, como Tancredo Neves, seu avô, se esmerava em personificar a conciliação na política, Andrea era, nos bastidores, a general de campo de sangrentas batalhas, o tira mau da dupla, o desgraçado dr. Hyde que assumia os pecados do impoluto dr. Jekyll.

Se Aécio chegou aonde chegou, deve grande parte disso a Andrea.

Contudo, em 2011, ou seja, daqui a poucos dias, a dupla irá se separar. Aécio assumirá, em Brasília, uma cadeira no Senado, enquanto Andrea permanecerá em Minas, provavelmente à frente do Serviço Voluntário de Assistência Social. O que a princípio pode parecer uma divisão, na verdade, é uma multiplicação. Com Andrea no Servas, Aécio continuará a mandar no governo de Minas, que, ao fim e ao cabo, é a principal plataforma com que ele almeja alcançar a Presidência da República em 2014 (ou 2018, ou 2022, ou 2026…).

O nome de Andrea chegou a ser cotado para assumir, em 2011, a Secretaria de Cultura de Minas Gerais. Porém, na semana passada, em declaração ao jornal O Tempo, de Belo Horizonte, ela própria antecipou que prefere continuar à frente do Servas. “Não estando em nenhuma secretaria, poderia continuar conversando com todas”, afirmou Andrea, no seu peculiar estilo soft panzer.

Se se confirma um dia a profecia sussurrada nas Gerais, Aécio será presidente da República, saldando assim, no imaginário mineiro, uma dívida do Brasil com Minas. É bom, então, prestar atenção em Andrea Neves.

O presidente Ernesto Geisel teve Golbery do Couto e Silva, Fernando Henrique Cardoso teve Sérgio Motta, e Lula, por um tempo, contou com José Dirceu. Caso Aécio chegue ao Planalto, ele terá por trás de si a irmã, uma mistura dos três.

Aécio, ao lado de Andrea, aplaude evento do Servas em 2009: assistência social, controle do Estado, controle da mídia... (Wellington Pedro/Imprensa MG)

Há quem diga que Andrea (um ano e 23 dias mais velha que Aécio) é a verdadeira herdeira da malícia de Tancredo. Quando Aécio ainda pegava onda no Rio e jamais se imaginava defendendo uma causa política, Andrea era uma ardorosa militante de esquerda, sustentando o título de fundadora do PT fluminense. Sua vocação para a História se revelou no dia 30 de abril de 1981, quando, prestes a entrar no show em comemoração ao Dia do Trabalhador, no Riocentro, Andrea foi abordada por um sujeito banhado em sangue, com a barriga aberta, segurando as vísceras, suplicando para que o levassem a um hospital. Era o capitão do serviço secreto do Exército Luís Chaves Machado, um dos autores do frustrado atentado do Riocentro. (Andrea o salvou.)

Obsessiva, geniosa e dona de uma inteligência rara, Andrea é uma mulher alta e corpulenta, de semblante tenso e perturbador. Avessa ao flash dos fotógrafos e à badalação, ela trabalha em proveito do sucesso de Aécio desde a hora em que levanta até a hora de dormir (costuma disparar ordens, por e-mail, depois da meia-noite). Sua mesa de trabalho, com pilhas de papel de boa altura, parece uma instalação contemporânea. Não raro, participa de duas ou mesmo três reuniões simultâneas, entrando e saindo de salas onde todos estão à espera de suas ordens. Como não admite erros, sua equipe trabalha em permanente estado de tensão.

No final de março passado, quando deixou o governo de Minas para disputar o Senado, Aécio foi a estrela de uma festa na praça da Liberdade, com crianças soltando balões coloridos no ar, desfile de globais (Luciano Huck, Maitê Proença, Christiane Torloni…) e corais cantando Ó Minas Gerais e Está chegando a hora. Da coxia, Andrea controlava tudo pelo celular.

Os adversários invejam sua capacidade de trabalho e a temem; os aliados se jactam por tê-la a seu lado e também a temem. Os jornalistas apenas a temem.

Nos quase oito anos em que coordenou o esquema de comunicação do governo do irmão, Andrea blindou Aécio na imprensa. Ela monitora com o mesmo rigor uma revista de circulação nacional e um jornalzinho do interior. Para que Aécio aparecesse bem na fita, Andrea chegou ao limite de tentar controlar até torcida em estádio, literalmente. Foi o que aconteceu em 2005, nas comemorações dos 40 anos do Mineirão, quando o então governador de Minas decidiu jogar uma preliminar do clássico Atlético x Cruzeiro. Nas vésperas da partida, Andrea orientou sua assessoria a fazer uma discreta reunião com a torcida organizada do Atlético para solicitar que Aécio, cruzeirense empedernido, não fosse vaiado. Não adiantou.

Fica então um aviso para os que, vindo na direção contrária à de Aécio Neves, pretendem vaiá-lo. Preparem-se. Atrás dele, vem Andrea.

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24 Comentários

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  16. Como se pode ver pelo comentário da Sonia Seidel nest post e pelo link abaixo, monitora e se posiciona também nos blogs e nos veículos de comunicação internacionais:
    http://www.cjr.org/currents/blame_it_on_aecio_1.php
    abs, Lucas.

  17. Como se pode ver pelo comentário acima e pelo link abaixo, monitora e se posiciona também nos blogs e nos veículos de comunicação internacionais:
    http://www.cjr.org/currents/blame_it_on_aecio_1.php
    abs, Lucas.

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  20. Lu Pereira

    Ótimo artigo! Como é bom governar com o apoio da imprensa, não!? Tudo está certo, não há nada de errado em Minas. Uma vergonha essa ditadura em tempos tão modernos. Uma pena os contratos publicitários calarem mais que os cacetetes na ditadura. Já imaginou esses irmãos na presidência do Brasil? Não quero nem pensar! Continue com sua liberdade de pesquisa ética, inteligente e esclarecedora. Abraços, Lucas!

  21. evandro barreto

    Lucas,
    O perfil de Andréa Neves une a elegância, a acuidade e a precisão do texto a um tipo de jornalismo cada vez mais difícil de encontrar nos jornalões: história dentro da História.

  22. Sonia Seidel

    O seu artigo retrata fielmente o que nós mineiros pensamos de Andrea. Uma irmã que todos gostariam de ter. Que apóia seu irmão o tempo todo. Sem querer aparecer, com discreção e muito rigor. Sorte de Aécio ter uma irmã assim. Acredito que qualquer homem público gostaria de ter uma Andrea ao seu lado.
    Mas ela não é só isso . O seu trabalho desenvolvido no Servas é digno de muita promoção. Ele é excelente!
    Valeria a pena um comentário sobre ele.

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