Do SNI a ABIN, o Ministério do Silêncio

ABIN_400x400Leia aqui artigo publicado pelo Sul21 sobre meu livro Ministério do Silêncio: a história do serviço secreto de Washington Luís a Lula (1927-2005).

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Orvil, o livro secreto do Exército: a gênese do bolsonarismo

Reportagem publicada pela Folha de S.Paulo em 16 de maio de 2020.

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As mulheres esquecidas na história de Tiradentes e da Conjuração Mineira

Reportagem publicada na Folha de S.Paulo em 21 de abril de 2020

 

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14/05/2020 · 1:30 PM

Página 5: Lembrar de Tiradentes é necessário quando um presidente ataca a liberdade

51T3pvo0OCL._SR600,315_SCLZZZZZZZ_Ano passado, na categoria Biografia, Documentário e Reportagem, o prêmio Jabuti foi para Josélia Aguiar pelo trabalho feito em “Jorge Amado” (Todavia). Tivesse ido para um dos outros quatro finalistas, no entanto, também estaria em ótimas mãos. Falo de Lucas Figueiredo e seu “O Tiradentes”, que busca reconstruir a história de vida do revolucionário cuja morte completa 228 anos hoje. “Biografar Joaquim José da Silva Xavier é embrenhar-se numa fresta escura. De um lado, pela cavilação das fontes disponíveis; de outro, pela escassez de registros – basta dizer, de início, que é impraticável descrever os aspectos físicos de Tiradentes”, escreve o jornalista no final do volume.

Tateando por uma infinidade de documentos, Lucas sai dessa fresta escura com um rico material em mãos e oferece ao leitor uma ótima reconstituição histórica, com destaque para a maneira como o autor trabalha os cenários e os ânimos da época

Ler “O Tiradentes” é fazer uma viagem no tempo. É, de cara, deixar um pouco de lado esses dias tão complicados para se situar no Brasil do final do século 18, quando alguns rebeldes ousaram imaginar um país independente, livre da opressão da Coroa Portuguesa. Enquanto a produção de ouro diminuía nas minas gerais e a realeza entuchava impostos goela abaixo dos mineiros, os ares locais pareciam cada vez mais propensos à ruptura. “A Coroa não estava interessada em fazer de Minas – ou do Brasil – um lugar decente para se viver. Portugal não tinha um projeto para a colônia; queria apenas lucrar o máximo possível da forma mais rápida e com o menor custo”, lembra Lucas. Mesmo vivendo em um lugar onde a impressão de livros e a edição de jornais eram proibidos, intelectuais mineiros estavam por dentro do que acontecia na Europa e na América do Norte. O Iluminismo ganhava força, os Estados Unidos conseguiam sua independência após a Revolução Americana e, na França, o pescoço do rei começava a ser ameaçado pelas tramas que culminariam na Revolução Francesa.

A trajetória de Tiradentes ajudou a forjar o revolucionário tupiniquim. Numa época em que certos profissionais apostavam em tratamentos feitos com osso de coxa de sapo, dente de toupeira viva, gordura de rã ou pó de lagarto, foi um dentista competente, o que lhe abriu muitas portas. Atuando como mascate, também se aproximou de humildes e poderosos, além de conhecer a fundo as picadas de Minas e do Rio. Como militar, enfim, encontrou apoio para tramar contra o rei e sonhar com a liberdade. Mas, não tem jeito, sempre que olhamos para a história do Brasil, notamos que o presente reflete muitos traços do nosso passado. Thomas Jefferson, um dos líderes da Revolução Americana, esteve à sombra dos revolucionários mineiros, já indicando uma dependência (ou, pior, subserviência) que viríamos a ter dos Estados Unidos. A Justiça, por sua vez, era assumidamente arbitrária. Leis estipulavam que os “homens bons”, “bem reputados”, os cidadãos de outrora, não deveriam ser importunados com processos ou prisões, mesmo que, por ventura, cometessem algum crime. Nesse ponto, dois séculos depois, estamos mais dissimulados, fingimos ter leis que se aplicam da mesma forma a qualquer brasileiro.

O final da história de Tiradentes todos conhecem. Apunhalado pelas costas, viu a revolução fracassar. Foi pintado como demente, bêbado, devasso…. Acusado de trair a sua majestade, passou anos preso. Alvo de um julgamento manipulado, terminou enforcado e esquartejado. Sobre seu cadáver, gente graúda enchia a boca para falar dos “benefícios da colonização” e as “delícias da subserviência”. “No alto do patíbulo, enquanto o cadáver de Tiradentes pendulava preso à corda, o frei Penaforte recitou o versículo 20 do capítulo 10 de Eclesiastes: ‘Não digas mal do rei, nem mesmo em pensamento; mesmo sozinho dentro do teu quarto, não digas mal do poderoso. Porque um passarinho pode ouvir e depois repetir tuas palavras’. Terminada a leitura, em tom de repreensão, o frade apontou a causa de todo aquele horror: o ‘louco desejo de liberdade”‘, escreve Lucas ao reconstituir a morte de seu biografado. O louco desejo de liberdade. Num Brasil em que o próprio presidente bate continência para a bandeira de outro país e prega a favor da ditadura (ou seja, contra a liberdade de seu povo), a memória de Tiradentes se faz necessária. Num país em que o presidente diz ser a própria Constituição, olhar para o que acontecia em alguns cantos do mundo naquele final de século 18 pode ser inspirador.

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Folha de S.Paulo: Mulheres que ajudaram Tiradentes viraram nota de rodapé na história

Foi escrito por uma mulher o bilhete destinado a três líderes da Conjuração Mineira de 1789 que os avisou da prisão de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

“Dou-vos parte com certeza [de] que se acham presos, no Rio de Janeiro, Joaquim Silvério [dos Reis] e o alferes Tiradentes para que vos sirva, ou se ponham em cautela; e quem não é capaz para as coisas, não se meta nelas; e mais vale morrer com honra que viver com desonra.”

A autora dessas palavras, Hipólita Jacinta Teixeira de Melo, é a única mulher que se conhece hoje com papel ativo na inconfidência, mas virou uma nota de rodapé.

A referência ao bilhete de Hipólita está nos Autos da Devassa, o processo instaurado pela Coroa contra os conspiradores de Minas Gerais, que queriam dar fim ao domínio português.
Apesar de terem seus nomes em documentos públicos desde o século 18, a memória sobre essas mulheres vem sendo resgatada em livros recentes como a biografia “O Tiradentes”, do jornalista Lucas Figueiredo, e “Ser Republicano no Brasil Colônia”, da historiadora Heloísa M. Starling.
“Os documentos falam, mas a gente tem que saber perguntar a eles. Os historiadores que olharam para os Autos, olharam com outras perguntas”, diz Starling.

Hipólita e o marido viviam na fazenda da Ponta do Morro, localizada em um ponto estratégico entre o Rio de Janeiro e a antiga Vila Rica —hoje Ouro Preto—, em Minas Gerais.

O local recebeu várias reuniões dos conspiradores, por onde passaram Tiradentes, Alvarenga Peixoto, padre Toledo, entre outros, como lembra Starling.

Mulher rica, respeitada, com idade em torno de 40 anos, era Hipólita quem escrevia as cartas enviadas pelo marido, Francisco Antônio de Oliveira Lopes, semianalfabeto, ao movimento. O nome dele está no Panteão dos Inconfidentes, criado por Getúlio Vargas em 1942, depois da repatriação de restos mortais dos conspiradores que morreram no degredo na África.

Os registros que existem sobre Hipólita não permitem afirmar o que a levou a se tornar uma conspiradora. Mas são suficientes para notar o papel fora da curva que assumiu em um meio que não era para as mulheres nem na Europa, nem nas colônias: a política.

Com a Conjuração desidratando, já sem povo e desorganizada, Hipólita é quem tenta colocar o movimento no eixo, e acredita nele o bastante para instruir a deflagração da rebelião, afirmam Figueiredo e Starling. A tentativa, porém, fracassa, e as estradas de Minas se enchem de comboios de presos.

“Independente do destino da Conjuração Mineira, esse bilhete mostra que tem uma mulher, que estava informada da questão política e militar, e que ela era valente o suficiente para dizer aos homens: quem não tem competência para as coisas, não se meta nelas. Não é pouca coisa”, diz a historiadora.

O aviso de Hipólita ecoou na resistência de alguns, mas também ajudou quem tinha documentos e provas da conspiração a ter tempo de se livrar deles e poupar-se das punições, afirma Figueiredo. O papel dela saltou aos olhos assim que ele leu os Autos, porque acabou sendo mais efetivo do que o de muitos conjurados célebres.

O processo não a lista entre os conspiradores, mas a punição imposta a ela foi mais dura do que a de qualquer outra esposa. Enquanto mulheres como Bárbara Heliodora, casada com Alvarenga Peixoto, puderam manter metade dos bens, depois que os maridos foram enviados ao degredo na África, de Hipólita foi retirado tudo.

A justificativa para a punição imposta pelo então governador de Minas Gerais, o Visconde de Barbacena, foi a efetiva participação de Hipólita na rebelião. Nos anos seguintes, ela usou de todo tipo de expediente —suborno, aliciamento de testemunhas, ocultação de bens— para reaver junto à Coroa o que era seu, como fazendas, lavras e escravos (todos eles foram alforriados por ela depois). E teve sucesso.

A companheira de Tiradentes, Antônia do Espírito Santo, e a filha Joaquina, também ficaram sem nada, segundo Figueiredo. Apesar das promessas do alferes, os dois nunca se casaram.

“Sempre que tinha uma mulher do outro lado, a Coroa passava por cima. A sentença recai sobre os filhos homens de Tiradentes, a condenação diz que filhos varões passam a sofrer, não podem ter emprego público, nem comendas [que eram remuneradas], que eles ficam proscritos”, diz o biógrafo, lembrando que Joaquina sequer é citada.

O único bem que Antônia conseguiu preservar foi um lote passado para seu nome, por Tiradentes, em 1788, antes de se separarem e ele voltar aos planos da revolta.

Em 1804, um censo realizado em Vila Rica apontou que mãe e filha viviam em uma casa construída no terreno, com outras 17 pessoas —a mãe de Antônia, cinco tias e nove primos. É o último registro sobre as duas.

Também há poucos registros conhecidos sobre Inácia Gertrudes de Almeida, viúva de um porteiro da Casa da Moeda, no Rio de Janeiro, que ajudou Tiradentes a encontrar esconderijo na casa de um artesão na rua dos Latoeiros. O anfitrião o recebeu atendendo a um pedido dela.

Tiradentes foi preso no local após tentar contato com Silvério dos Reis, o delator da Conjuração, que teve uma vida próspera depois graças à Coroa.

A ação de Inácia foi uma dívida de gratidão, por Tiradentes ter curado uma ferida grave no pé da filha dela. As duas acabaram presas e tiveram seus bens sequestrados, segundo relata o historiador José Vieira Fazenda no livro “Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro”.

“Se a Conjuração tivesse dado certo, a gente ia dever esse movimento a duas mulheres que agiram em um momento crítico”, diz Figueiredo. “Se os conjurados conseguissem reorganizar o movimento, isso se daria em função delas, que foram corajosas, audaciosas, muito cerebrais, e agiram para jogar o movimento para frente.”

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G1: Falante, namorador e defensor do conhecimento: saiba quem foi Tiradentes além do mártir

O feriado desta terça-feira (21) marca a morte de Joaquim José da Silva Xavier que, além de símbolo da Inconfidência Mineira, foi um homem tagarela, namorador, teimoso, corajoso, apaixonado por livros e defensor do conhecimento.

“Tem gente que quer que Tiradentes seja um ‘santo’, mas ele foi um homem, com paixões, defeitos e qualidades”, diz o professor do departamento de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Luiz Villalta, que pesquisa o tema há quase quatro décadas.

Após ficar três anos preso no Rio de Janeiro, Tiradentes foi enforcado em 1792. Esquartejado, teve as partes do corpo expostas em diferentes locais públicos de Vila Rica, atual Ouro Preto.

Em um destes pontos, há hoje uma estátua e uma placa onde se lê “aqui em poste de ignominia esteve exposta sua cabeça”. A rota do inconfidente pela cidade foi relembrada pelo G1 em 2018, quando o jornalista Lucas Figueiredo publicou a biografia moderna “O Tiradentes”.

“No começo, Tiradentes se envolveu na trama pelo mesmo motivo da maioria de seus companheiros: insatisfação pessoal com a Coroa. Com o passar do tempo, já dentro do movimento, Joaquim adquiriu consciência política e compreendeu que a luta em que estava envolvia causas nobres, como a instalação da República e o fim da cruel dominação portuguesa”, conta o biógrafo.

Segundo Villalta, entre os legados deixados pela Inconfidência Mineira estão “as falhas permanentes de nosso poder judiciário, desde aquela época notabilizado por produzir injustiças”. Apesar de ter sido um movimento que pregava a liberdade, o professor destaca que os inconfidentes não tocaram na questão da escravidão. “Não tinham a menor sensibilidade social”, explica.

Tanto para Villalta quanto para Figueiredo, o que há de interessante em Tiradentes ultrapassa a traição à Coroa. Entre as profissões exercidas por ele estão a de dentista (“tira-dentes”), minerador, comerciante e, claro, alferes. “Um bom militar, diga-se de passagem”, afirma Villalta.

O apreço pela leitura e pelo conhecimento técnico também tem destaque na personalidade de Tiradentes. Lendo obras estrangeiras e nacionais, montava suas próprias estratégias de intervenção. Ele circulava bem por diferentes grupos sociais e tinha uma alma inquieta.

Na vida afetiva, teve um relacionamento com Antônia do Espírito Santo, 25 anos mais nova do que ele. Os dois moraram juntos, mas não chegaram a se casar. “Há registros de que, com ela, teve uma filha. Mas não é improvável que tenha deixado outros descendentes. Ele viajava demais. Era obcecado pela conspiração. Ao que tudo indica, a amante se cansou dele e o traiu”, relata Luiz Villalta.

A entrega da Medalha da Inconfidência, maior honraria concedida pelo governo de Minas Gerais, teve que ser suspensa neste ano por conta da pandemia de coronavírus. Mesmo sem a tradicional cerimônia, Tiradentes segue lembrado e admirado neste 21 de abril.

“Ele era alguém que queria muito vencer na vida, que acreditava que o esforço seria recompensado. Mas, ao mesmo tempo, uma pessoa muito teimosa e inocente. Às vezes, confuso; sempre generoso e com uma coragem infinita”, descreve Figueiredo.

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“O livro é bom”. Na quarentena do covid-19, Lula leu “Boa Ventura: a corrida do ouro no Brasil (1697-1810)”.

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