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Boa Ventura! agora em ebook

Boa Ventura! é oferecido em duas versões de capa

Enfim, trago uma notícia muito cobrada pelos leitores: meu livro Boa Ventura! já está disponível no formato ebook.

A versão digital de Boa Ventura! está sendo oferecida no formato ePub, o mais aceito nos variados aparelhos em que se pode ler livros digitais, dos eReaders (Nook, Sony Reader, Alpha e outros) aos Smartphones, do iPad ao iPhone, passando ainda pelos PCs.

Além de Boa Ventura!, outros dois livros meus já estão disponíveis em ebook: O Operador e Olho por Olho.

As versões e-book de Boa Ventura!, O Operador e Olho por Olho podem ser baixadas, entre outras, nas livrarias virtuais Cultura, Submarino/TheCopia e Iba.

A Editora Record trabalha para oferecer em breve outros dois livros meus na versão digital: Ministério do Silêncio e Morcegos Negros.

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O sucesso da Bienal do Livro de MG (apesar do teto…)

A Bienal do Livro de Minas de 2012 foi sensacional (noves fora o lamentável encerramento abrupto do evento, dois dias antes da data prevista, devido à inadmissível incompetência dos administradores do Expominas, que durante uma semana expuseram uma multidão sob um teto em risco de desabamento). Encontrei amigos escritores, como Zuenir Ventura, Mary Del Priore e Frei Betto, e fiz outros, como Alberto Villa, Luís Rufatto e Luís Giffoni.

Tive também a alegria de participar de uma edição especial do Imagem da Palavra (abaixo), um dos meus programas preferidos na Rede Minas.

Parabéns à Fagga, responsável pelo evento, e a Afonso Borges, curador do Café Literário. E que venha e Bienal 2013 (sob um teto sólido).

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“Olho por Olho” e “O Operador” agora em e-book

Para aqueles que cobram a conversão de meus livros no formato e-book, finalmente uma boa notícia. Olho por Olho e O Operador já estão à venda nas livrarias digitais.

Ambos estão sendo oferecidos no formato ePub, o mais aceito nos variados aparelhos em que se pode ler livros digitais, dos eReaders (Nook, Sony Reader, Alpha e outros) aos Smartphones, do iPad ao iPhone, passando ainda pelos PCs. O ePub só não é aceito, por enquanto, no Kindle, que exige o formato Mobi, exclusivo da Amazon.  Mas negociações estão em curso e imagina-se que no meio do ano haja um acordo.

A Editora Record está trabalhando para converter meus outros livros (Boa Ventura!, Ministério do Silêncio e Morcegos Negros) em e-book. Assim que tiver uma novidade, aviso.

As versões e-book de Olho por Olho e O Operador podem ser baixadas nas seguintes livrarias virtuais: Cultura, Submarino/TheCopia, Livraria Curitiba e Livraria Abril, entre outras.

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Afinal, o que é jornalismo investigativo?

O repórter Luiz Gustavo Pacete, da revista Imprensa, fez uma longa entrevista comigo na semana passada sobre jornalismo. Conversamos sobre livros-reportagem, blog e o chamado “jornalismo investigativo”, um termo do qual não gosto e que, na minha opinião, é usado para embalar boas reportagens e também muita picaretagem.
A entrevista sairá no próximo número da Imprensa, mas uma palhinha já está na internet, no Portal Imprensa (veja reprodução abaixo).
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“Tem jornalista investigativo que acha que é juiz e delegado. É um picareta”, critica repórter
Luiz Gustavo Pacete, da revista Imprensa, enviado especial a Belo Horizonte
O jornalista e escritor mineiro Lucas Figueiredo esteve entre os quinze jornalistas brasileiros mais premiados durante os anos de 1995 e 2010. Ganhou os prêmios Esso (2007, 2005 e 2004), Jabuti (2010), Vladimir Herzog (2009 e 2005), Imprensa Embratel (2005) e Folha (1997). Formado na PUC Minas, ele diz que começou o jornalismo com o “pé no barro”. “Eu trabalhava em um jornal comunitário que tratava de temas da periferia. Cobria o que ninguém queria cobrir”, lembra.
Em 1994, Figueiredo foi para Brasília trabalhar para a Folha de S.Paulo. Ficou na capital até 2001 quando mudou para a sede do jornal em São Paulo. Em 2000, sem nenhuma pretensão comercial lançou seu primeiro livro Morcegos Negros pela editora Record. A obra foi fruto de apurações anteriores sobre escândalos e corrupção no governo Collor. “Fez um sucesso que nem eu e a editora esperava. Isso acabou me rendendo uma grana e permitiu que saísse da redação para escrever”, lembra.

O jornalista destaca que essa é sua dinâmica, alternando períodos em que escreve e momentos em que se dedica à redação e reportagens especiais. Após o sucesso do primeiro livro, Figueiredo seguiu produzindo. Escreveu, em 2005, o Ministério do Silêncio; em 2006, o O Operador; Olho por Olho em 2009 e, neste ano, o Boa Ventura!, todos publicados pela Record.
Figueiredo recebeu o Portal IMPRENSA em seu apartamento na capital mineira. Sem nenhum tipo de pudor falou sobre o que lhe incomoda no termo “jornalismo investigativo”, o que para ele é uma verdadeira “picaretagem”. Outra coisa que deixa o jornalista nervoso é o fato de muitos repórteres que recebem tal nomenclatura se acharem acima do bem e do mal. “Um perigo já que a pessoa começa a misturar as coisas, vai se envolvendo e depois acha que é juiz, delegado e promotor, uma verdadeira picaretagem”, diz.
Portal IMPRENSA – Seu primeiro livro [Morcegos Negros] foi feito para aproveitar uma apuração?
Lucas Figueiredo – Eram histórias que eu já tinha apurado. Aquilo era um peso que eu precisava tirar das costas. Tinha crime, sangue, perseguição e muita bandidagem. Passei anos diante desta história e precisava tirar de dentro de mim, exorcizar esse negócio e botar na estante. Decidi fazer o livro, falei com a editora Record e ela deixou clara a realidade sobre o mercado – não muito animadora – mesmo assim publiquei e o livro ficou por várias semanas na lista dos mais vendidos. Vendeu muito e me deu uma grana. Eu já tinha me apaixonado pelo livro-reportagem – em minha opinião a melhor plataforma para se fazer reportagem – e quando vi aquele dinheiro decidi me dedicar ao livro; é o que tenho feito. Hoje já consigo passar períodos fora da redação me dedicando exclusivamente aos livros, mas eventualmente volto.

IMPRENSA – Neste momento você está se dedicando a um novo trabalho?
Figueiredo – Estou trabalhando em um livro que sai o ano que vem, ele vai ser no formato reportagem.
IMPRENSA – Qual o assunto?
Figueiredo – Infelizmente ainda não posso contar.
IMPRENSA – E reportagem especial. Para quem você está trabalhando?
Figueiredo – Não tenho nada muito fixo. Até agora eu estava trabalhando com a GQ, que acabou de chegar ao Brasil. Eles possuem um miolo que é para a grande reportagem. É uma revista masculina super sofisticada, mas você tem dez páginas ali que falam da vida real. Eu tinha um contrato com eles que era uma reportagem de quatro em quatro meses, uma grande reportagem, mais uma coluna mensal de política, e o meu blog que era hospedado no site da revista. Só que isso estava me consumindo demais, e os caras queriam reportagens que fossem matadoras, e isso dá trabalho. Querem coisas robustas, matérias de trinta mil toques… Você não vê hoje na imprensa, um texto deste porte, com exceção da Rolling Stone, da Piauí e da GQ
IMPRENSA – Qual o custo de fazer este tipo de jornalismo?
Figueiredo – A questão é a seguinte: todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer pagar. Todo mundo fala que curte a grande reportagem, o jornalismo investigativo, mas não valorizam. Mas o que é jornalismo investigativo? São pessoas com poderes paranormais? Eu não gosto deste termo, acho isso uma bobagem, acho que isso virou uma enganação. Parece que o cara tem poderes e descobre coisas, é meio um astro. E na verdade não é isso, este tipo de jornalismo é sola de sapato e grana. Igual fez a Piaui: acompanhar o Jobim por um mês. Isso é pauta, pesquisa pra cacete. É o cara antes de ir para a rua ler três, quatro livros, e na redação isso é impensável. É o cara passar dois meses em cima de uma história pesquisando. E tudo isso custa muito; você precisa ter alguém qualificado, preparado, alguém mais sênior, mas é basicamente dinheiro e tempo.

IMPRENSA – E as redações não têm nem tempo e nem dinheiro, concorda?
Figueiredo – Todo mundo quer, acha bonito, fala “nossa é jornalismo investigativo e tal”. Muitas vezes pedem a reportagem em quatro dias. Poxa, em quatro dias? Eu não tenho poderes sobrenaturais, isso não é jornalismo investigativo. Então, reforço que não gosto do termo jornalismo investigativo, o que eu vejo é a velha e boa reportagem. Você pega a New Yorker, o cara publica uma entrevista na revista e depois pega e transforma em um livro gigante com tudo o que apurou e esse material vira Best-seller.
IMPRENSA – Você não gosta do termo por que acredita que o jornalismo é investigativo por natureza?
Figueiredo – Na verdade, não. Você tem linguagens diferentes, tem a cobertura diária que demanda alguém dedicado para dar informações mais rápidas. Alguém com o gravador na cola do ministro Mantega, como eu já fiz milhares de vezes. Você precisa de alguém na bolsa para ver como fechou o pregão. Agora você tem outra coisa que é a grande reportagem [enfatiza] que é aquela que tenta identificar onde vai estourar a próxima sacanagem no governo. Ver onde que estão “mamando” e roubando. Para isso, você precisa entrar nos bastidores, demanda entrar no subterrâneo e o que você vai encontrar no subterrâneo só vai descobrir lá. E hoje cada dia menos as redações têm essa disposição.

IMPRENSA – Principalmente por questões financeiras…
Figueiredo – As redações empobreceram, elas foram enxugando, os veículos estão em uma situação delicada há décadas. Então, a realidade é que cada dia você tem menos gente produzindo e menos gente sênior. Quando eu entrei na Folha, em 1994, era uma coisa de louco, a redação era habitada por estrelas, tinha “nego” assim que fazia matérias de um mês, cinco meses. Hoje isso é quase impossível, porque se você quer fazer uma coisa bacana, não adianta, tem que gastar. Cada dia a cobertura aumenta, o número de pessoas diminui e você tem menos pessoas com experiência. E aí o que eu vejo de ruim é que quando essas redações dedicam um tempinho a mais para uma reportagem chamam aquilo de jornalismo investigativo, mesmo sendo uma pauta que veio da direção, se aquilo é um dossiê pronto, não importa, botam lá “exclusivo, jornalismo investigativo”. Esse termo está embalando um monte de picaretagem. Ai você tem uma coisa que eu acho grave: tem muito jornalista acreditando que tem poderes sobrenaturais, que se apresenta dizendo que é o cara do jornalismo investigativo, ai ele começa se achar, começa confundir a relação de poder, começa a achar que é promotor, que é delegado, que é juiz… Aí acabou.
IMPRENSA – Acaba ficando refém das relações que criou…
Figueiredo – Isso mesmo. Ele é investigativo e judiciário, aí o cara acaba fazendo o pacote inteiro. O problema é que a imprensa está dando corda para isso. Por isso que eu não gosto do termo [jornalismo investigativo], porque embala muita picaretagem. É claro, tem coisa séria, mas também muita picaretagem. Eu gosto de chamar de velha e boa reportagem. O que acontece hoje com essa diversidade de meios, internet e mudança do mercado é que você tem espaço para pessoas trabalharem como autônomas. Hoje, por exemplo, eu escolho para quem vou escrever. 
IMPRENSA – Mas essa escolha, além da questão financeira também está baseada no melhor fluxo da informação?
Figueiredo – Claro, eu pego uma boa pauta e posso falar assim: “essa pauta é a cara da Carta Capital“, ai eu ofereço; se não interessa, ligo para a Rolling Stone: ‘te interessa?’, não; aí ligo para outro. Claro que é muito mais confortável ter o salário no final do mês, não ter esse salário te obriga a ter flexibilidade.
IMPRENSA – E no blog, que tipo de conteúdo você oferece?
Figueiredo – Lá no blog eu tento fazer o contrário do que fazem hoje na blogosfera. O que acontece é o seguinte: existe hoje uma bipolaridade tremenda, você vai ao blog do Reinaldo Azevedo e já sabe o que vai encontrar lá. Acabou aquela coisa de dizer “vamos pegar algo um pouco mais plural, com pontos de vista diferentes”. Coisas menos viciadas, acho que tem espaço para isso: poder aumentar os ângulos do debate. E eu acho que o leitor está precisando disso, algo que vá além do que o leitor vê no blog do Reinaldo e no do Paulo Henrique Amorim. 
IMPRENSA – O que representa uma associação como a Abraji para você?
Figueiredo – Eu gosto da Abraji, acho que tem gente muito séria lá. Muitos colegas meus, que passaram ou estão na Abraji. Acho que eles fazem um trabalho muito bom no sentido de oferecer uma sustentação para um tipo de jornalismo mais sensível, oferecem encontros e seminários, para oferecer boas coisas na área de capacitação. Acho legal existir um tipo de entidade como ela. O termo que eu não gosto; este termo [jornalismo investigativo] é uma picaretagem.
IMPRENSA – Então as empresas apostarão mais em caras independentes?
Figueiredo – Eu acho que as empresas não, elas não têm muito fôlego para apostar. Muitas vezes me ligam e dizem: “olha tem uma pauta aqui, uma história investigativa, te pagamos x com base na tabela”, eu digo “poxa amigo, você está querendo que eu vá lá e tire leite de pata?”. Então, sempre tem essa coisa da tabela, número de toques. Ai eu entro em uma história que eu não sei primeiro se vai dar certo; segundo, não sei se vai demorar; terceiro, eu não sei o que vou encontrar pela frente. Por exemplo, vou fazer uma matéria que envolve crime organizado, eu estou arriscando a minha vida. Agora todo mundo quer dar porrada, mas quer pagar uma miséria. Dizem que é jornalismo investigativo, mas estão pagando o mesmo que pagam para fazer uma matéria de agenda. As empresas não dão valor para aquilo que dizem ter valor. Não adianta querer fazer um negócio legal vai morrer numa grana. Você vê: a Piaui está morrendo numa grana. A própria Rolling Stone está fazendo isso. Vão chegar outras revistas… Está todo mundo de saco cheio de commoditie. 
IMPRENSA – Demanda existe?
Figueiredo – Por um lado existe, mas é o seguinte: você não está gastando uma puta grana todo mês para fazer uma New Yorker. O Brasil não tem esse mercado ainda. Você pega as revistas, mas pode investir um pouco mais de grana e o leitor está buscando isso em outras plataformas, nos livros, na internet.  
IMPRENSA – Você vê tendência no mercado de livro-reportagem?
Figueiredo – Cada dia mais vejo um mercado promissor de não-ficção. E agora você está indo para outra vertente que é a de livros com reportagens históricas. Outra coisa é que você não tem uma cultura de leitura de história por parte do leitor jovem. Muita gente diz “por que tem tanto jornalista escrevendo livro agora”?. Isso não é verdade: os jornalistas sempre escreveram livros de história, desde Euclides da Cunha, que era reportagem de Canudos, mas você vai fazer um registro com um olhar histórico até Gabeira, Zuenir Ventura, Fernando Morais. Eu fui ler pela primeira vez sobre Getulio Vargas no livro de um jornalista. Sempre houve um vácuo para contar a história do Brasil dentro de um produto acessível.

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Memória de um tempo não vivido

O passado no banco dos réus.

Finalmente a Justiça irá se debruçar sobre o caso do jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, assassinato há 40 anos nos porões do famigerado DOI-Codi de São Paulo, então sob comando do coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra, um dos maiores torturadores da ditadura.

Eu conhecia o caso de Merlino, mas nunca tive visto uma foto sua. Nesta semana, ao ver pela primeira vez uma fotografia dele, fiquei impactado com a imagem daquele garoto com um bigode de homem maduro (Merlino tinha 23 anos quando foi morto).

Hoje, li um belo artigo sobre ele escrito pela jornalista Tatiana Merlino, publicado na revista Caros Amigos e no site Pública. Sobrinha do jornalista, Tatiana começa seu texto justamente pela imagem perturbadora de Merlino. Leiam abaixo.

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Merlino, mais uma vítima de Brilhante Ustra

Merlino x Ustra: Memória de um tempo não vivido

Por Tatiana Merlino

Sobre a cômoda, ao lado do vaso onde quase sempre há uma flor, há um porta-retrato prateado. Na foto, um jovem de perfil: cabelos negros, pele clara, olhos grandes, óculos de aro escuro. Quando eu ainda olhava o porta-retrato de baixo para cima, com uns sete anos, já sabia que ele era alguém muito importante para a família.

Os anos se passaram, o porta-retrato mudou de casa, mas seguiu junto com a cômoda e o vaso. O homem da foto continuava jovem, olhando insistentemente para o infinito. Outros anos se seguiram, e a dona do porta-retrato e da cômoda morreu. Hoje, o porta-retrato mudou de casa e de dona. E eu o olho de cima para baixo.

O jovem é meu tio, o jornalista Luiz Eduardo da Rocha Merlino, torturado e assassinado aos 23 anos, em São Paulo, em 19 de julho de 1971, nas dependências do DOI-Codi, centro de tortura comandado pelo coronel reformado do Exército brasileiro, Carlos Alberto Brilhante Ustra. Sua mãe, Iracema da Rocha Merlino, dona do porta-retrato, faleceu em 1995 sem que o Estado tivesse reconhecido a responsabilidade pela morte do filho.

Não poderá ver, por exemplo, que no mês em que se completam 40 anos do assassinato do jovem, ocorrerá a audiência das testemunhas de uma ação por danos morais movida contra Ustra por sua ex-companheira, Angela Mendes de Almeida, e sua irmã, Regina Maria Merlino Dias de Almeida, que dão continuidade à luta de Iracema.

Na próxima quarta-feira, 27 de julho, a Justiça de São Paulo ouvirá os testemunhos dos que presenciaram a tortura e morte de Merlino, como os ex-militantes do POC (Partido Operário Comunista), organização na qual ele militava, Otacílio Cecchini, Eleonora Menicucci de Oliveira, Laurindo Junqueira Filho, Leane de Almeida e Ricardo Prata Soares; o ex-ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vanucchi; e o historiador e escritor Joel Rufino dos Santos.

Já Ustra arrolou como suas testemunhas o ex-ministro Jarbas Passarinho; um coronel e três generais da reserva, Gélio Augusto Barbosa Fregapani Paulo Chagas, Raymundo Maximiano Negrão Torres e Valter Bischoff; além do atual presidente do Senado e ex-presidente da República, José Sarney (PMDB-AP), que recentemente defendeu a manutenção do sigilo eterno de documentos oficiais ultrassecretos, com o argumento de que a divulgação desses dados pode motivar a abertura de “feridas”.

A audiência está marcada para às 14h30, no Fórum João Mendes, centro de São Paulo. Na ocasião, serão ouvidas as testemunhas de acusação. As de defesa serão ouvidas por carta precatória.

Torturador declarado

Para chegar à audiência das testemunhas, a família percorreu um longo caminho. Subscrita pelos advogados Fábio Konder Comparato, Claudineu de Melo e Aníbal Castro de Souza, esse é o segundo processo movido pela família de Merlino contra o coronel da reserva. Em 2008, Regina e Angela moveram uma ação civil declaratória na qual requeriam apenas o reconhecimento da Justiça sobre a responsabilidade de Ustra nas torturas e assassinato de Merlino. Porém, o ex-militar conseguiu paralisar e extinguir o processo por meio de artifício jurídico acatado pelo Tribunal de Justiça paulista. Assim, ambas entraram com uma segunda ação em 2010, também na área cível, que prevê uma indenização por danos morais.

Ustra já foi declarado torturador pela Justiça de São Paulo, em ação movida pela família Teles: Maria Amélia de Almeida Teles, César Teles e Criméia de Almeida. Conhecido como “major Tibiriçá”, ele comandou o DOI-Codi entre setembro de 1970 e janeiro de 1974. Em relação a esse período, houve 502 denúncias de torturas praticadas por homens sob o seu comando e por ele diretamente, além de 40 assassinatos decorrentes da violência utilizada nos interrogatórios. “Apanhei muito e apanhei do comandante. Ele foi o primeiro a me torturar e me espancou até eu perder a consciência, sendo que era uma gestante bem barriguda. Eu estava no sétimo mês de gravidez”, afirmou Criméia em dezembro de 2010.

Prisão e morte

Em 15 de julho de 1971, Merlino foi preso por três homens na casa de sua mãe, em Santos, no litoral de São Paulo. “Logo estarei de volta”, disse à mãe, irmã e tia. Foi a última vez que o viram. Jornalista e militante do POC, ele tinha recém-chegado de uma viagem à França, onde havia aderido à Quarta Internacional. O jornalista havia viajado com passaporte legal, já que contra ele não constava nenhuma acusação dos órgãos repressivos.

Da casa de sua mãe, foi levado ao DOI-Codi de São Paulo, localizado à rua Tutóia, no bairro do Paraíso, onde “foi barbaramente torturado por 24 horas ininterruptas e abandonado numa solitária, a chamada cela forte, ou x-zero”, de acordo com o livro Direito à memória e à verdade, editado pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, ligada à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Muitos presos políticos testemunharam as torturas às quais o jornalista foi submetido, entre eles Guido Rocha, escultor que também estava preso no DOI-Codi na época e esteve com Merlino na “cela forte”. Guido estava há alguns dias na cela, quando o militante do POC foi trazido. “Ele estava muito machucado. Trouxeram ele carregado, ficou deitado, imobilizado. Mas muito tranquilo. Me impressionei muito com a segurança e tranquilidade dele”, disse Guido, em 1979, em entrevista ao jornalista Bernardo Kucinski.

Apesar da serenidade, seu estado de saúde piorava. As pernas estavam dormentes por conta do tempo que passara pendurado no “pau-de-arara” e, mesmo queixando-se de dor, não recebeu assistência médica. No dia seguinte, foi retirado da solitária e colocado sobre uma mesa, no pátio em frente às celas, fato que foi presenciado por diversos presos, que puderam ver seu estado. Ele queixava-se de dormência nas pernas, que não mais obedeciam. “À noite, começou a se sentir mal, estava bem pior. Ele falou: ‘chama o enfermeiro rápido que eu estou muito mal, a dormência está subindo, está nas duas pernas e nos braços também’. Aí eu bati na porta com força e gritei. Vieram o enfermeiro e alguns torturadores, policiais, os mesmos que já haviam me torturado e torturado a ele também. Vieram e o levaram. Nunca mais eu vi ele”, relatou Guido, falecido há dois anos.

Versão falsa

Em 20 de julho, cinco dias após a prisão, a família recebeu a notícia de que ele teria cometido suicídio, jogando-se embaixo de um caminhão na BR-116, na altura de Jacupiranga, em São Paulo, quando estaria sendo conduzido para o Rio Grande do Sul para “reconhecer” militantes. A família, porém, não acreditou na versão oficial da morte.

Como o corpo não foi entregue, dois tios e o cunhado do jornalista, Adalberto Dias de Almeida, que era delegado de polícia, foram ao Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo, mas o diretor do órgão negou que o corpo ali estivesse. Adalberto burlou as regras do IML e, alegando procurar o cadáver de um bandido, foi em busca do corpo do cunhado. Encontrou-o ali, numa gaveta, com torturas e sem identificação. Só assim a família pôde enterrar o jornalista, que teve o corpo entregue em caixão fechado. O laudo necroscópico atestando aversão do suicídio e que vinha grafado com a letra “T” (de terrorista), escrita a mão, foi assinado pelos médicos legistas Isaac Abramovich e Abeylard de Queiroz Orsini.

Jornalistas amigos de Merlino estiveram no local onde ele supostamente teria se suicidado e não encontraram nenhum sinal de atropelamento ou outro acidente de trânsito ocorrido nas redondezas no dia indicado. Pouco mais de um mês depois do assassinato, o jornal o Estado de S. Paulo anunciou a missa de trigésimo dia de seu falecimento, ocorrida em 28 de agosto. Cerca de 770 jornalistas compareceram à celebração, e os mesmos três homens que buscaram o jornalista em Santos foram ao local e deram os “pêsames” à sua mãe e irmã.

Nascido em Santos, em 1948, Merlino participou, como secundarista, do movimento do Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE). Mudou-se para São Paulo, onde completou o ensino médio e, em 1966, com 17 anos, ingressaria como “foca” na primeira equipe de jornalistas do recém-fundado Jornal da Tarde, do grupo o Estado de S. Paulo. Ali escreveu reportagens de repercussão, como a que denunciava as atividades do “mau patrão” Abdala, da Fábrica de Cimento Perus-SP.

Também trabalhou na publicação Folha da Tarde, para onde cobriu o 30º Congresso da UNE, em Ibiúna, ocorrido em setembro de 1968, época em que já havia ingressado no POC. Detido e transferido para o presídio Tiradentes, depois de solto Merlino reportou os fatos e levou mensagens dos militantes que permaneceram presos. Estudante de história da Universidade de São Paulo (USP), também trabalhou no Jornal do Bairro e participou da fundação do jornal alternativo Amanhã.

Fundado em 1968, o POC foi resultado da fusão entre a Política Operária (Polop), fundada em 1961, e a Dissidência Leninista do Partido Comunista Brasileiro (PCB), no Rio Grande do Sul. Um pouco antes de morrer, Merlino havia aderido à Quarta Internacional.

A companheira Angela e os amigos, como Tonico Ferreira e Joel Rufino dos Santos, costumam imaginar o que ele estaria fazendo hoje, pelo que lutaria, como estaria. A mim, a sobrinha nascida seis anos após sua morte, não cabem tais pensamentos. O que serve de alento é pensar que, quarenta depois, o coronel Ustra poderá ser reconhecido como o responsável pela morte do jovem da foto do porta-retrato prateado.

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Ebook, novas edições e cinema

Breves notícias sobre meus livros:

* A Editora Record prepara para o segundo semestre o lançamento da versão ebook dos cinco livros de minha autoria (Morcegos Negros, Ministério do Silêncio, O Operador; Olho por Olho e Boa Ventura!);

* Em julho, chegará às livrarias uma nova edição (versão em papel) de Ministério do Silêncio, atualmente esgotado;

Boa Ventura !, lançado há menos de três meses e com 15 mil exemplares vendidos, caminha para a quarta edição;

* Em breve, espero anunciar novidades sobre a versão para o cinema de dois de meus livros.

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Depois de 23 anos, o livro secreto do Exército será publicado

Depois de 23 anos, será finalmente publicado o Orvil, o livro produzido no Exército entre 1985 e 1988 para contar a versão da força terrestre sobre a luta armada. A publicação do livro foi vetada na época pelo então presidente José Sarney.

A edição do Orvil é uma resposta do CD-ROM Direito à Memória e à Verdade, produzido pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República e distribuído em escolas públicas. “Considerando provocação e uma verdadeira agressão aos militares brasileiros, os autores tomaram a iniciativa de publicá-la [a obra o Orvil]”, anunciou, na sua última edição, o Jornal Inconfidência, importante canal de expressão dos militares de extrema direita.

Um dos editores do Orvil será o coronel Lício Maciel, veterano dos combates à Guerrilha do Araguaia.

De 1988 a 2007, o Orvil (a palavra “livro” escrita de trás para frente) circulou apenas entre militares e civis de extrema direita em 15 cópias que passavam de mão em mão. Em 2007, eu obtive uma das cópias do Orvil e publiquei uma séria de reportagens sobre ele no Estado de Minas que ganhou o Prêmio Esso de Reportagem. Em 2009, publiquei Olho por Olho – Os livros secretos da ditadura, contando como o Exército relatava no Orvil os últimos momentos de 24 desaparecidos políticos, o que confirmava que a força terrestre escondera os casos durante décadas.

Hoje, já é possível acessar as quase mil páginas do Orvil na internet, por meio do site A verdade sufocada, controlado pelo ex-torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra.

O anúncio da publicação do Orvil coincide com os preparativos da Comissão de Direitos Humanos do Senado para a reunião em que irá avaliar justamente o relatório da Procuradoria Geral da República sobre o Orvil.

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