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Domingo, 17 de abril de 2016: uma reflexão sobre o Brasil

bandeira-brasil-rasgada1O que passa na cabeça de um corrupto e de um corruptor? Dorme tranquilo de noite? No restaurante, quando pede ao garçom um vinho de R$ 10 mil reais, sua consciência sussurra algo como “seu luxo é alimentado com dinheiro desviado de escolas, hospitais, estradas”? Ele sofre em algum momento ou é 100% cinismo. O que sente o corrupto?
Nos meus 25 anos de jornalismo, muitas vezes eu me fiz essas perguntas. Tentei ir além, buscando respostas com os corruptos que conheci. Foram vários. Com alguns deles, fontes que cultivei durante anos, cheguei a desfrutar de certa intimidade. Frequentava suas casas, conhecia seus filhos, comíamos à mesma mesa, o que nos permitia, a eles e a mim, falar com mais transparência. Sondei suas almas. Rodei a América do Sul, fui aos Estados Unidos e à Europa para falar com corruptos. Alguns se deixaram revelar parcialmente, porém nunca encontrei uma resposta completa para minhas questões.
Em 1994, no governo Itamar Franco, fiz minha primeira reportagem investigativa sobre corrupção. Um caso clássico: obras superfaturadas do Ministério dos Transportes tocadas por empreiteiras gigantes – Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, entre outras. (Reconhece esses nomes? Pois é…) Perdi as contas de quantas matérias escrevi que citavam essas e outras empreiteiras em episódios de desvio de dinheiro público. Posso nunca ter descoberto o que se passa nos corações e nas mentes dos corruptos, mas, a partir de certo momento, entendi como funcionavam os esquemas que alimentavam corruptos e corruptores.
Na segunda metade da década de 1990, já no governo Fernando Henrique Cardoso, o esquema das grandes empreiteiras estava tão manjado que os corruptos começaram a operar com agências de publicidade. Funcionou – e funcionou bem. Essa história está contada no meu livro O Operador – como (e mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT, publicado dez anos atrás. Como o subtítulo do livro mesmo diz, ali também está contada a história de como o PT,ao chegar ao poder em 2003, se apropriou do esquema de corrupção dos tucanos (o mesmo modus operandi, os mesmos operadores, os mesmos laranjas, os mesmos bancos, os mesmos doleiros, os mesmos corruptores…).
Em matéria de corrupção, portanto, posso dizer que já bati tanto em Chico quanto em Francisco.
Tendo dedicado boa parte da minha atuação profissional às investigações de corrupção, tive um interesse especial pela operação Lava Jato, promovida pelo Ministério Público, pela polícia e pela Justiça federais. Conheço muitos dos personagens envolvidos, alguns deles muito bem aliás.
É inegável que as provas colhidas nas investigações revelam um gigantesco esquema criminoso encabeçado e guiado pelo PT. As bases de sustentação dos governos Lula e Dilma se fartaram com dinheiro grosso desviado da Petrobras. Não há dúvidas: o Partido dos Trabalhadores se corrompeu.
O esquema em que o PT se deliciou, é preciso dizer, não é novo: as empreiteiras, os doleiros e os burocratas são os mesmos que, há décadas, roubam em governos de direita e de centro. Os corruptores não têm ideologia.
Muitos petistas graúdos foram pegos com a boca na botija. Lula foi pego com a boca na botija.
O caso de Lula é, em particular, curioso. Ele cobrava por palestra US$ 200 mil (na cotação de hoje, R$ 704 mil), e sua agenda era cheia. Ou seja, ganhava uma fortuna por meios legais, porém enredou-se numa relação promíscua com grandes empreiteiras. Lula poderia, com o fruto de seu trabalho, ter comprado dezenas de sítios em Atibaia e dezenas de tríplex no Guarujá, mas preferiu render-se a um esquema de “agrados” inaceitáveis.
Lula se corrompeu. E precisa responder por isso na Justiça. (Como eu gostaria de ter uma conversa franca com Lula e ouvir dele uma explicação para ele ter se associado a alguns dos maiores corruptores do país…)
A bem da verdade, porém, é preciso dizer que Lula agiu do mesmo modo que Fernando Henrique Cardoso. Ao deixar a Presidência, FHC também se enredou em num esquema promíscuo com grandes empreiteiras que abarcava favores para membros de sua família e ocultação de patrimônio. Nesse ponto, Lula e FHC são farinha do mesmo saco.
Se é verdade que a Lava Jato mostrou que o Brasil está carcomido pela corrupção, é verdade também que a operação foi (e ainda é) conduzida de forma absolutamente seletiva, portanto viciada. Não é sério um juiz que vaza áudios de grampo em que um investigado que sequer é réu conversa com seu advogado. O nome disso é crime (as comunicações entre advogado e cliente são invioláveis). Não é sério um juiz que vaza o áudio de uma conversa íntima entre a nora de um investigado e um amigo dela, ou o áudio de uma conversa pessoal entre a mulher e o filho de um investigado, conversas que nada tinham a ver com a investigação. O nome disso é perseguição, linchamento moral.
Como juiz, Sérgio Moro se corrompeu. Tornou-se um justiceiro que se considera acima da lei. Assim como Lula, FHC, PT, PSDB, Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez, Moro precisa responder por seus desvios.
A Lava Jato tem outro defeito de origem. Foca apenas a corrupção praticada pela base do governo. É no mínimo escandaloso como as investigações deixam passar batido os corruptos de partidos de oposição. Quem em sã consciência acredita, por exemplo, que a Odebrecht, no mercado desde 1944, só fez parcerias criminosas com o PT e seus aliados? Quem engole a seletiva delação premiada dos executivos da Andrade Gutierrez, que por décadas foram associados ao PSDB e agora só se lembram das falcatruas cometidas no governo do PT?
Na Lava Jato, a PF, o MPF e a Justiça Federal tiveram grande competência ao se debruçarem sobre a corrução do PT, mas fecharam os olhos em relação à oposição. O alvo era Lula, e apenas Lula. Afinal, todos sabemos, Lula era um fortíssimo candidato à eleição presidencial de 2018.
A Lava Jato é uma operação contra a candidatura de Lula em 2018 e não um processo criminal de combate à corrupção. Se fosse diferente, as investigações também teriam como alvo Aécio Neves, citado diversas vezes nas delações premiadas mas jamais investigado.
O que explica que a maioria da população tenha abraçado a sanha anti-corrupção no PT, mas dê de barato as práticas corruptas dos adversários do PT? O que explica o ódio contra Dilma, uma presidente incompetente mas honesta, e a indiferença com o figura de Eduardo Cunha, detentor de contas não declaradas na Suíça, cujos recursos foram congelados por fortes suspeitas de terem sua origem em propinas da Petrobras? Resposta: a ação partidária de boa parte da mídia. De dia, de tarde e de noite, os brasileiros são bombardeados por propaganda anti-petista em jornais, TVs, rádios, revistas e portais da internet. O PT é pintado como um lobo mau cercado de chapeuzinhos vermelhos, vovós e valentes caçadores. A verdade, porém, é outra: não há heróis nessa história.
O nome disso é manipulação.
No campo da corrupção, o PT tem grandes pecados, mas também um mérito. Sob Lula e Dilma, o Estado pode finalmente investigar, denunciar e julgar corruptos e corruptores. Parafraseando Lula, nunca antes na história desse país isso tinha acontecido. O PT se corrompeu, è vero, mas nunca deixou de ser um partido republicano, nunca enquadrou a Polícia Federal, nunca calou o Ministério Público. Já os que querem o lugar do PT também se corromperam, mas nada tiveram de republicanos. Alguém imaginaria, por exemplo, que o procurador-geral da República de Lula ou de Dilma fosse chamada todo dia pela imprensa de “engavetador-geral da República”? Isso aconteceu com Fernando Henrique Cardoso. Alguém imaginaria numa administração do PT a existência de um esquema de mordaça do Ministério Público e da imprensa que impedisse o vazamento de qualquer notícia ruim. Isso aconteceu nos oito anos em que o tucano Aécio Neves governou Minas Gerais.
Hipocrisia é o nome do gesto dos que hoje manobram para tomar o poder do PT.
O que vamos assistir neste domingo nada tem a ver com a luta contra a corrupção. Trata-se da luta pelo poder – no caso da oposição, da luta dos que sempre estiveram envolvidos na corrupção, dos que nunca permitiram que a corrução fosse investigada, dos que não tiveram votos suficientes para serem eleitos em 2002, 2006, 2010 e 2014 e agora querem pegar um atalho na história para voltar ao Palácio do Planalto, e obviamente continuar operando com seus esquemas de corrupção.
E a presidente Dilma Rousseff? Qual o seu lugar nessa história? Bom, ela de fato se revelou de uma incompetência administrativa e de uma falta de compreensão da política ímpares. Dilma é uma péssima presidente. Porém, não há um único indício sequer, que dirá uma prova, de que ela seja corrupta. Entendo e me solidarizo com aqueles que contam os dias para que seu governo acabe. Porém, não posso aceitar que seu mandato seja interrompido antes do tempo regulamentar sem que haja prova de que ela tenha comedido crime de responsabilidade, condição cabal para o impeachment.
O impeachment é um instrumento radical. Tem potencial para deixar traumas políticos duradouros. Existe para casos extremos. E exige um motivo concreto: crime de responsabilidade. Em 1992, Fernando Collor sofreu impeachment porque cometeu crime de responsabilidade. Na época, descobriu-se que a reforma da casa que pertencia a ele e um carro de seu uso pessoal haviam sido pagos com dinheiro de fraude. Os recursos tinham saída de uma conta bancária aberta em nome de um “fantasma”, ou seja, uma pessoa que não existia. O nome disso é falsidade ideológica, ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro. É crime de responsabilidade. Já as pedaladas fiscais de Dilma (um recurso contábil ignóbil que é adotado como regra na administração púbica de A a Z no espectro político) pode ser considerado um desvio administrativo, mas nunca um crime de responsabilidade. Dilma é um desastre, mas, pelo que se viu até agora, depois de remexidas as entranhas de seu governo, não é corrupta. E se não é corrupta, se não cometeu crime de responsabilidade, o processo de impeachment é indevido. Em outras palavras, golpe de estado.
Há 31 anos, quando terminou a ditadura civil-militar, iniciamos um penoso período de transição democrática. Encontramo-nos ainda nesse período. Saímos da ditadura, mas ainda não alcançamos a democracia plena. Estamos em algum lugar entre uma coisa e outra. Muitos fatores impediram que terminássemos a viagem. Contudo, até pouco tempo atrás, pelo menos podíamos dizer que estávamos no caminho.
Neste domingo, 17 de abril de 2016, caso a Câmara dos Deputados aprove o início do processo de impeachment de Dilma sem que ela tenha cometido crime de responsabilidade, estaremos finalmente terminando a transição democrática. Não para conquistar a democracia plena, mas para voltar ao passado. Em todos os sentidos.
Michel Temer será um presidente sem legitimidade, terá chegado ao poder por meio de trapaça nas regras do jogo. E que ninguém se iluda: a corrupção continuará a grassar, pois os patrocinadores do impeachment, seja no campo dos que agora desembarcam do governo, seja no campo da oposição, são profissionais no desvio de verbas públicas.
O nome do impeachment é golpe de estado.
Neste domingo, o que está em jogo não é o combate à corrupção, mas sim a frágil democracia do Brasil.

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Boa Ventura! agora em ebook

Boa Ventura! é oferecido em duas versões de capa

Enfim, trago uma notícia muito cobrada pelos leitores: meu livro Boa Ventura! já está disponível no formato ebook.

A versão digital de Boa Ventura! está sendo oferecida no formato ePub, o mais aceito nos variados aparelhos em que se pode ler livros digitais, dos eReaders (Nook, Sony Reader, Alpha e outros) aos Smartphones, do iPad ao iPhone, passando ainda pelos PCs.

Além de Boa Ventura!, outros dois livros meus já estão disponíveis em ebook: O Operador e Olho por Olho.

As versões e-book de Boa Ventura!, O Operador e Olho por Olho podem ser baixadas, entre outras, nas livrarias virtuais Cultura, Submarino/TheCopia e Iba.

A Editora Record trabalha para oferecer em breve outros dois livros meus na versão digital: Ministério do Silêncio e Morcegos Negros.

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Marcos Valério e o PSDB

Reproduzo abaixo artigo de minha autoria publicado neste domingo n’O Estado de S.Paulo (caderno Aliás) sobre as ligações perigosas entre Marcos Valério e o PSDB.

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Mensalidades atrasadas

Por Lucas Figueiredo*, para O Estado de S.Paulo (caderno Aliás), 4 de novembro de 2012

Está tudo muito bom, está tudo muito bem. É o que parece quando olhamos ao redor e vemos uma parcela da sociedade a bradar: desvendamos o mensalão! Desvendamos mesmo?

José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, João Paulo Cunha e que tais foram abatidos. Mas o mensalão só será totalmente dissecado quando sua gênese for revelada. Marcos Valério não operou apenas em uma campanha eleitoral ou serviu apenas a um partido ou um governo.

Marcos Valério Fernandes de Souza tinha 34 anos quando em 1995 teve início a era de ouro do PSDB (naquele ano, Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência da República e, em Minas Gerais, Eduardo Azeredo foi empossado no governo do Estado). Valério era desimportante. Não tinha poder, não circulava nas rodas políticas e seu patrimônio era modesto.

Um ano após a assunção de Eduardo Azeredo ao governo, Valério se materializou como sócio da semifalida agência de publicidade SMPB. Não entrou com dinheiro, mas com capacidade operativa. A fim de levantar a SMPB, obteve um empréstimo de R$ 1,6 milhão com o hoje extinto banco estatal mineiro Credireal, numa operação que posteriormente o Ministério Público de Minas classificaria como “de pai para filho” ou, em palavra ainda mais forte, “escusa”.

Na estrada aberta para a SMPB pelo governo tucano em Minas, Valério trafegava nas duas vias. Em 1998, tornou-se operador financeiro da campanha de reeleição de Azeredo. Primeiro, botou sua assinatura num contrato de empréstimo de R$ 2 milhões no Rural (o dinheiro foi retirado do banco numa caixa de papelão pelo tesoureiro da campanha). Depois, mais um empréstimo, de R$ 9 milhões.

Ainda naquele ano, no período que vai de 40 dias antes da eleição até o interregno entre o primeiro e o segundo turnos, três estatais de Minas – Cemig, Copasa e Comig, hoje Codemig – alimentaram as empresas de Valério com R$ 4,7 milhões. Segundo o Ministério Público, o dinheiro entrava de um lado (estatais de Minas e Banco Rural) e saía pelo outro (os cofres da coligação formada pelo PSDB, PFL, hoje DEM, PTB e PPB, hoje PP). Registros bancários e do próprio Valério indicam que ele pagou parte dos custos da campanha publicitária de Azeredo e distribuiu recursos para 75 candidatos e colaboradores da coligação encabeçada pelo PSDB.

Em poucos dias terminará o julgamento do processo do mensalão do PT no STF. Já o mensalão do PSDB mineiro será apreciado em processos fatiados, pelo STF e pela Justiça de Minas. E só Deus sabe quando.

De qualquer forma, quando o passado vier à luz, talvez seja possível esclarecer algumas dúvidas. Por exemplo: o que levou a SMPB de Valério a ganhar grandiosos contratos de publicidade no governo de FHC (Banco do Brasil, Ministério do Trabalho, Ministério dos Esportes, Eletronorte e Fundacentro)? Por que Valério, por intermédio da SMPB, doou R$ 50 mil à campanha de reeleição de Fernando Henrique, em 1998? Por que Danilo de Castro – um dos principais articuladores políticos do senador Aécio Neves – foi avalista de um empréstimo do Rural para a SMPB? Quais provas fizeram do jornalista Eduardo Pereira Guedes, integrante graduado do staff de marketing político de Aécio, réu no processo do mensalão mineiro? Por que o PSDB continuou a defender Azeredo após o mensalão mineiro ser revelado (Arthur Virgílio, então líder do partido no Senado, disse que, a despeito das acusações, a bancada tucana reafirmava sua “plena confiança na honradez e na lisura desse companheiro”)? Por que o PSDB lançou Azeredo a deputado federal (ele se elegeu e seu mandato vai até 2015) mesmo sabendo que o Ministério Público Federal o acusava de ser “um dos mentores e principal beneficiário” do mensalão mineiro? O que explica o fato de que, entre 1997 e 2002, período em que operava para o PSDB, Valério fez seu patrimônio declarado no Imposto de Renda saltar de R$ 230 mil para R$ 3,9 milhões (1.600% de aumento em cinco anos, com uma inflação de 42%)?

Como se vê, o filme ainda não acabou.

* Lucas Figueiredo é jornalista, escritor, autor, entre outros, de O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT (Record)

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“Olho por Olho” e “O Operador” agora em e-book

Para aqueles que cobram a conversão de meus livros no formato e-book, finalmente uma boa notícia. Olho por Olho e O Operador já estão à venda nas livrarias digitais.

Ambos estão sendo oferecidos no formato ePub, o mais aceito nos variados aparelhos em que se pode ler livros digitais, dos eReaders (Nook, Sony Reader, Alpha e outros) aos Smartphones, do iPad ao iPhone, passando ainda pelos PCs. O ePub só não é aceito, por enquanto, no Kindle, que exige o formato Mobi, exclusivo da Amazon.  Mas negociações estão em curso e imagina-se que no meio do ano haja um acordo.

A Editora Record está trabalhando para converter meus outros livros (Boa Ventura!, Ministério do Silêncio e Morcegos Negros) em e-book. Assim que tiver uma novidade, aviso.

As versões e-book de Olho por Olho e O Operador podem ser baixadas nas seguintes livrarias virtuais: Cultura, Submarino/TheCopia, Livraria Curitiba e Livraria Abril, entre outras.

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Mares Guia opera

Reunião de tucanos e “socialistas” hoje em BH: na cabeceira, tomando nota, Mares Guia

Nos últimos dias, distraído, o noticiário voltou a esbarrar num personagem dos mais enigmáticos da fauna política nacional: Walfrido dos Mares Guia.

Ex-ministro de Lula (Turismo e, depois, Relações Institucionais), raposa política mineira (espécie em extinção), Mares Guia havia encenado uma saída de cena, em 2007, quando seu nome apareceu no escândalo do mensalão do PSDB mineiro. Um azar – que fique registrado – ele ter deixado o governo Lula naquela época e, ato contínuo, ter sumido, pois era o homem talhado para contar como se dera o “nascimento” de Marcos Valério. Em 1998, Mares Guia fora o coordenador de fato da campanha à reeleição do então governador de Minas Gerais, o tucano Eduardo Azeredo, campanha esta que tirou do limbo um pobretão desimportante chamado Marcos Valério e o elevou à condição de operador de caixa dois de campanhas eleitorais. Naquela empreitada política, com escrevi no meu livro O Operador, Mares Guia discutia e Marcos Valério pagava.

Pois bem, na semana passada o novo ministro do Turismo, Gastão Veira, veio trazer à luz outros feitos de Mares Guia. Em entrevista à Folha de S.Paulo, Vieira foi questionado sobre o porquê de, seguidamente, as emendas do Orçamento da União darem origem a desvios no Ministério do Turismo. Vieira respondeu: “O ministério nasce assim. Não estou criticando, mas o ministério nasce com um grande trabalho do [ex-] ministro Walfrido dos Mares Guia, que usou seu prestígio para conseguir emenda, porque praticamente não tinha orçamento”.

Hoje, em Belo Horizonte, exercitando um de seus dons, a onipresença, Mares Guia apareceu ao lado de tucanos e comunistas, em dois eventos diferentes, a articular a reeleição do prefeito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda (PSB), produto de uma exótica parceria PSDB-PT-PSB. Como de costume, Mares Guia não fez barulho, não deu declarações bombásticas, não demonstrou o imenso poder que tem. Esfinge, camaleão, misturou-se aos demais presentes dando a impressão de que era apenas mais um na foto (vejam as imagens). Não era! Walfrido é o pai da criança (dessa e de outras).

Outra reunião política ocorrida hoje em BH, desta vez entre comunistas e “socialistas”. No canto direito, ele, Mares Guia

Um mistério de Minas (mais um): um empresário milionário (Mares Guia) dirigente de um partido “socialista” (o PSB) consegue unir Lula e Aécio Neves (dois possíveis candidatos a presidente em 2014 e 2018) e os comunistas do PCdoB num mesmo projeto político. Vai entender qual o cimenta dessa estrovenga.

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Carta aberta a Marcos Valério

Solte a voz, Marcos Valério…

Prezado Marcos Valério

Não me esqueci e acredito que você também não. No meu livro O Operador: como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT, publicado em 2005, mostro como, ao apresentar você como o grande vilão do mensalão do PT (e ignorar o mensalão do PSDB), parte da mídia serviu a grandes corruptores e a grandes corruptos, que saíram apenas chamuscados da história, quando não incólumes. Permita-me relembrá-lo de um trecho do livro:

“E a história se repete. Ainda que Marcos Valério permaneça livre da cadeia, sua ruína moral e sua quase exclusão do convívio social serão servidas ao país como compensação para a falta de justiça. Como aconteceu antes, aliás, com PC Farias, operador de outro esquema, integrado pelos corruptores de sempre. Quem foram os grandes financiadores de Collor? De onde saiu o dinheiro do caixa dois do PSDB? Quem encheu as burras do PT? Isso não vem ao caso, desde que a história tenha um vilão e que este vilão pague por todos os outros. Por que Marcos Valério dançou? Porque ele estava lá justamente para isso, caso alguém precisasse dançar. Valério caiu, mas o esquema, não. Seguirá firme, fazendo deputados e senadores, influindo em votações do Congresso, tangendo governadores e se escondendo atrás de presidentes.

Poucos se deram conta, mas, num depoimento ao Congresso, Marcos Valério revelou a verdade que todos ali já sabiam:

– Nós devemos deixar claro para a sociedade brasileira e acabar com a hipocrisia: eu não sou a única empresa que ajudou e ajudará políticos. […] O Marcos Valério não é detentor de tecnologia para ajudar campanhas políticas. Isso já acontece no Brasil desde Rui Barbosa.

O que Marcos Valério tentava dizer era que, no esquema, ele era só o operador. Ou como ele próprio definiu na CPI:

– Eu sou um grande areia. Um grão…”

Passados seis anos, eis que, na sua defesa apresentada ao Supremo Tribunal Federal, você enfim assume seu verdadeiro papel naquela trama: o de operador. E sugere uma certa indignação por ter sido apresentado como o grande vilão da história quando havia vilões bem mais parrudos e maléficos. Diz sua defesa:

“O operador do intermediário aparece como a pessoa mais importante da narrativa, ficando mandantes e beneficiários em segundo plano, alguns, inclusive, de fora da imputação, embora mencionados na narrativa, como o próprio presidente Lula.”

Beleza, Marcos Valério, nós sabemos que você é “o operador do intermediário”, um grão de areia. Mas então pare com esses textos cifrados e cheio de reticências e nos diga, de uma vez por todas, quem são o mar, o sol, o rochedo, os tubarões… Conte o que fez, para quem fez e como fez quando você operava nas sombras dos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e, em Minas Gerais, nas administrações tucanas de Eduardo Azeredo (1995-1999) e Aécio Neves (2003-2010). Fale tudo. Dê nomes de políticos, autoridades, empresários… Vire a mesa, transforme a história. Prove que o Brasil, para além dos operadores, é um país de corruptos e corruptores. Seja o nosso herói!

Saudações cordiais.

Lucas Figueiredo

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Afinal, o que é jornalismo investigativo?

O repórter Luiz Gustavo Pacete, da revista Imprensa, fez uma longa entrevista comigo na semana passada sobre jornalismo. Conversamos sobre livros-reportagem, blog e o chamado “jornalismo investigativo”, um termo do qual não gosto e que, na minha opinião, é usado para embalar boas reportagens e também muita picaretagem.
A entrevista sairá no próximo número da Imprensa, mas uma palhinha já está na internet, no Portal Imprensa (veja reprodução abaixo).
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“Tem jornalista investigativo que acha que é juiz e delegado. É um picareta”, critica repórter
Luiz Gustavo Pacete, da revista Imprensa, enviado especial a Belo Horizonte
O jornalista e escritor mineiro Lucas Figueiredo esteve entre os quinze jornalistas brasileiros mais premiados durante os anos de 1995 e 2010. Ganhou os prêmios Esso (2007, 2005 e 2004), Jabuti (2010), Vladimir Herzog (2009 e 2005), Imprensa Embratel (2005) e Folha (1997). Formado na PUC Minas, ele diz que começou o jornalismo com o “pé no barro”. “Eu trabalhava em um jornal comunitário que tratava de temas da periferia. Cobria o que ninguém queria cobrir”, lembra.
Em 1994, Figueiredo foi para Brasília trabalhar para a Folha de S.Paulo. Ficou na capital até 2001 quando mudou para a sede do jornal em São Paulo. Em 2000, sem nenhuma pretensão comercial lançou seu primeiro livro Morcegos Negros pela editora Record. A obra foi fruto de apurações anteriores sobre escândalos e corrupção no governo Collor. “Fez um sucesso que nem eu e a editora esperava. Isso acabou me rendendo uma grana e permitiu que saísse da redação para escrever”, lembra.

O jornalista destaca que essa é sua dinâmica, alternando períodos em que escreve e momentos em que se dedica à redação e reportagens especiais. Após o sucesso do primeiro livro, Figueiredo seguiu produzindo. Escreveu, em 2005, o Ministério do Silêncio; em 2006, o O Operador; Olho por Olho em 2009 e, neste ano, o Boa Ventura!, todos publicados pela Record.
Figueiredo recebeu o Portal IMPRENSA em seu apartamento na capital mineira. Sem nenhum tipo de pudor falou sobre o que lhe incomoda no termo “jornalismo investigativo”, o que para ele é uma verdadeira “picaretagem”. Outra coisa que deixa o jornalista nervoso é o fato de muitos repórteres que recebem tal nomenclatura se acharem acima do bem e do mal. “Um perigo já que a pessoa começa a misturar as coisas, vai se envolvendo e depois acha que é juiz, delegado e promotor, uma verdadeira picaretagem”, diz.
Portal IMPRENSA – Seu primeiro livro [Morcegos Negros] foi feito para aproveitar uma apuração?
Lucas Figueiredo – Eram histórias que eu já tinha apurado. Aquilo era um peso que eu precisava tirar das costas. Tinha crime, sangue, perseguição e muita bandidagem. Passei anos diante desta história e precisava tirar de dentro de mim, exorcizar esse negócio e botar na estante. Decidi fazer o livro, falei com a editora Record e ela deixou clara a realidade sobre o mercado – não muito animadora – mesmo assim publiquei e o livro ficou por várias semanas na lista dos mais vendidos. Vendeu muito e me deu uma grana. Eu já tinha me apaixonado pelo livro-reportagem – em minha opinião a melhor plataforma para se fazer reportagem – e quando vi aquele dinheiro decidi me dedicar ao livro; é o que tenho feito. Hoje já consigo passar períodos fora da redação me dedicando exclusivamente aos livros, mas eventualmente volto.

IMPRENSA – Neste momento você está se dedicando a um novo trabalho?
Figueiredo – Estou trabalhando em um livro que sai o ano que vem, ele vai ser no formato reportagem.
IMPRENSA – Qual o assunto?
Figueiredo – Infelizmente ainda não posso contar.
IMPRENSA – E reportagem especial. Para quem você está trabalhando?
Figueiredo – Não tenho nada muito fixo. Até agora eu estava trabalhando com a GQ, que acabou de chegar ao Brasil. Eles possuem um miolo que é para a grande reportagem. É uma revista masculina super sofisticada, mas você tem dez páginas ali que falam da vida real. Eu tinha um contrato com eles que era uma reportagem de quatro em quatro meses, uma grande reportagem, mais uma coluna mensal de política, e o meu blog que era hospedado no site da revista. Só que isso estava me consumindo demais, e os caras queriam reportagens que fossem matadoras, e isso dá trabalho. Querem coisas robustas, matérias de trinta mil toques… Você não vê hoje na imprensa, um texto deste porte, com exceção da Rolling Stone, da Piauí e da GQ
IMPRENSA – Qual o custo de fazer este tipo de jornalismo?
Figueiredo – A questão é a seguinte: todo mundo quer ir para o céu, mas ninguém quer pagar. Todo mundo fala que curte a grande reportagem, o jornalismo investigativo, mas não valorizam. Mas o que é jornalismo investigativo? São pessoas com poderes paranormais? Eu não gosto deste termo, acho isso uma bobagem, acho que isso virou uma enganação. Parece que o cara tem poderes e descobre coisas, é meio um astro. E na verdade não é isso, este tipo de jornalismo é sola de sapato e grana. Igual fez a Piaui: acompanhar o Jobim por um mês. Isso é pauta, pesquisa pra cacete. É o cara antes de ir para a rua ler três, quatro livros, e na redação isso é impensável. É o cara passar dois meses em cima de uma história pesquisando. E tudo isso custa muito; você precisa ter alguém qualificado, preparado, alguém mais sênior, mas é basicamente dinheiro e tempo.

IMPRENSA – E as redações não têm nem tempo e nem dinheiro, concorda?
Figueiredo – Todo mundo quer, acha bonito, fala “nossa é jornalismo investigativo e tal”. Muitas vezes pedem a reportagem em quatro dias. Poxa, em quatro dias? Eu não tenho poderes sobrenaturais, isso não é jornalismo investigativo. Então, reforço que não gosto do termo jornalismo investigativo, o que eu vejo é a velha e boa reportagem. Você pega a New Yorker, o cara publica uma entrevista na revista e depois pega e transforma em um livro gigante com tudo o que apurou e esse material vira Best-seller.
IMPRENSA – Você não gosta do termo por que acredita que o jornalismo é investigativo por natureza?
Figueiredo – Na verdade, não. Você tem linguagens diferentes, tem a cobertura diária que demanda alguém dedicado para dar informações mais rápidas. Alguém com o gravador na cola do ministro Mantega, como eu já fiz milhares de vezes. Você precisa de alguém na bolsa para ver como fechou o pregão. Agora você tem outra coisa que é a grande reportagem [enfatiza] que é aquela que tenta identificar onde vai estourar a próxima sacanagem no governo. Ver onde que estão “mamando” e roubando. Para isso, você precisa entrar nos bastidores, demanda entrar no subterrâneo e o que você vai encontrar no subterrâneo só vai descobrir lá. E hoje cada dia menos as redações têm essa disposição.

IMPRENSA – Principalmente por questões financeiras…
Figueiredo – As redações empobreceram, elas foram enxugando, os veículos estão em uma situação delicada há décadas. Então, a realidade é que cada dia você tem menos gente produzindo e menos gente sênior. Quando eu entrei na Folha, em 1994, era uma coisa de louco, a redação era habitada por estrelas, tinha “nego” assim que fazia matérias de um mês, cinco meses. Hoje isso é quase impossível, porque se você quer fazer uma coisa bacana, não adianta, tem que gastar. Cada dia a cobertura aumenta, o número de pessoas diminui e você tem menos pessoas com experiência. E aí o que eu vejo de ruim é que quando essas redações dedicam um tempinho a mais para uma reportagem chamam aquilo de jornalismo investigativo, mesmo sendo uma pauta que veio da direção, se aquilo é um dossiê pronto, não importa, botam lá “exclusivo, jornalismo investigativo”. Esse termo está embalando um monte de picaretagem. Ai você tem uma coisa que eu acho grave: tem muito jornalista acreditando que tem poderes sobrenaturais, que se apresenta dizendo que é o cara do jornalismo investigativo, ai ele começa se achar, começa confundir a relação de poder, começa a achar que é promotor, que é delegado, que é juiz… Aí acabou.
IMPRENSA – Acaba ficando refém das relações que criou…
Figueiredo – Isso mesmo. Ele é investigativo e judiciário, aí o cara acaba fazendo o pacote inteiro. O problema é que a imprensa está dando corda para isso. Por isso que eu não gosto do termo [jornalismo investigativo], porque embala muita picaretagem. É claro, tem coisa séria, mas também muita picaretagem. Eu gosto de chamar de velha e boa reportagem. O que acontece hoje com essa diversidade de meios, internet e mudança do mercado é que você tem espaço para pessoas trabalharem como autônomas. Hoje, por exemplo, eu escolho para quem vou escrever. 
IMPRENSA – Mas essa escolha, além da questão financeira também está baseada no melhor fluxo da informação?
Figueiredo – Claro, eu pego uma boa pauta e posso falar assim: “essa pauta é a cara da Carta Capital“, ai eu ofereço; se não interessa, ligo para a Rolling Stone: ‘te interessa?’, não; aí ligo para outro. Claro que é muito mais confortável ter o salário no final do mês, não ter esse salário te obriga a ter flexibilidade.
IMPRENSA – E no blog, que tipo de conteúdo você oferece?
Figueiredo – Lá no blog eu tento fazer o contrário do que fazem hoje na blogosfera. O que acontece é o seguinte: existe hoje uma bipolaridade tremenda, você vai ao blog do Reinaldo Azevedo e já sabe o que vai encontrar lá. Acabou aquela coisa de dizer “vamos pegar algo um pouco mais plural, com pontos de vista diferentes”. Coisas menos viciadas, acho que tem espaço para isso: poder aumentar os ângulos do debate. E eu acho que o leitor está precisando disso, algo que vá além do que o leitor vê no blog do Reinaldo e no do Paulo Henrique Amorim. 
IMPRENSA – O que representa uma associação como a Abraji para você?
Figueiredo – Eu gosto da Abraji, acho que tem gente muito séria lá. Muitos colegas meus, que passaram ou estão na Abraji. Acho que eles fazem um trabalho muito bom no sentido de oferecer uma sustentação para um tipo de jornalismo mais sensível, oferecem encontros e seminários, para oferecer boas coisas na área de capacitação. Acho legal existir um tipo de entidade como ela. O termo que eu não gosto; este termo [jornalismo investigativo] é uma picaretagem.
IMPRENSA – Então as empresas apostarão mais em caras independentes?
Figueiredo – Eu acho que as empresas não, elas não têm muito fôlego para apostar. Muitas vezes me ligam e dizem: “olha tem uma pauta aqui, uma história investigativa, te pagamos x com base na tabela”, eu digo “poxa amigo, você está querendo que eu vá lá e tire leite de pata?”. Então, sempre tem essa coisa da tabela, número de toques. Ai eu entro em uma história que eu não sei primeiro se vai dar certo; segundo, não sei se vai demorar; terceiro, eu não sei o que vou encontrar pela frente. Por exemplo, vou fazer uma matéria que envolve crime organizado, eu estou arriscando a minha vida. Agora todo mundo quer dar porrada, mas quer pagar uma miséria. Dizem que é jornalismo investigativo, mas estão pagando o mesmo que pagam para fazer uma matéria de agenda. As empresas não dão valor para aquilo que dizem ter valor. Não adianta querer fazer um negócio legal vai morrer numa grana. Você vê: a Piaui está morrendo numa grana. A própria Rolling Stone está fazendo isso. Vão chegar outras revistas… Está todo mundo de saco cheio de commoditie. 
IMPRENSA – Demanda existe?
Figueiredo – Por um lado existe, mas é o seguinte: você não está gastando uma puta grana todo mês para fazer uma New Yorker. O Brasil não tem esse mercado ainda. Você pega as revistas, mas pode investir um pouco mais de grana e o leitor está buscando isso em outras plataformas, nos livros, na internet.  
IMPRENSA – Você vê tendência no mercado de livro-reportagem?
Figueiredo – Cada dia mais vejo um mercado promissor de não-ficção. E agora você está indo para outra vertente que é a de livros com reportagens históricas. Outra coisa é que você não tem uma cultura de leitura de história por parte do leitor jovem. Muita gente diz “por que tem tanto jornalista escrevendo livro agora”?. Isso não é verdade: os jornalistas sempre escreveram livros de história, desde Euclides da Cunha, que era reportagem de Canudos, mas você vai fazer um registro com um olhar histórico até Gabeira, Zuenir Ventura, Fernando Morais. Eu fui ler pela primeira vez sobre Getulio Vargas no livro de um jornalista. Sempre houve um vácuo para contar a história do Brasil dentro de um produto acessível.

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