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[ARQUIVO DE REPÓRTER] Anatomia de uma reportagem

No post que abriu a série ARQUIVO DE REPÓRTER, reproduzi a reportagem O livro secreto do Exército, a primeira de um conjunto de matérias publicadas nos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas que me deu o Prêmio Esso de Reportagem de 2007. Hoje publico, uma espécie de making off da investigação que me levou ao livro secreto: a reportagem O livro das sombras, publicada na revista Rolling Stone em julho de 2007.
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O livro das sombras
Lucas Figueiredo, para a Rolling Stone (julho/2007)

O nome dele não vem ao caso. O importante é contar o que ele fez. E, sobretudo, o que aconteceu depois. Estávamos eu e ele em sua casa, diante da estante de livros. Ele me mostrava seu acervo pessoal, composto basicamente de obras com temas militares: Guerra do Paraguai, inteligência, doutrina, depoimentos sobre o regime militar, Guerrilha do Araguaia etc. Ele sabia que eu gostava do assunto. Já eu desconfiava que, além de livros, ele tinha também informações. Não poderia imaginar, contudo, que ele guardava um tesouro em sua casa, e que esse tesouro era justamente um livro.

Eu já estava com uma pilha de livros nas mãos quando ele disse: “Ah, este aqui você vai gostar”, alcançando em seguida, no alto da estante, dois grossos volumes de capa preta. Antes de entregá-los a mim, alertou em tom solene: “Aqui está a verdade!”. Li o título da obra – O Livro Negro do Terrorismo no Brasil, tomos I e II – e fiz um grande esforço para não demonstrar a surpresa que experimentava naquele momento. Minha busca havia terminado! Depois de anos e anos tentando ter acesso a um dos mais bem guardados documentos secretos das Forças Armadas, ele estava ali, nas minhas mãos. Eu era o primeiro jornalista a segurar uma das 15 cópias existentes do livro secreto do Exército Brasileiro, um megadocumento inédito, de 966 páginas, escrito 19 anos atrás por oficiais do serviço secreto da força terrestre, com a versão da linha-dura sobre os Anos de Chumbo. Baseado em documentos confidenciais e no relato de militares e policiais que atuaram na repressão, o livro era uma das peças mais importantes dos chamados arquivos secretos das Forças Armadas. Minha vontade era uivar, dar socos no ar, subir pelas paredes, ajoelhar e, por fim, gritar: “Yeeeeessssss!”. Mas apenas comentei: “Parece interessante”.

A primeira vez que ouvira falar no livro secreto do Exército foi em 1998, quando iniciei as pesquisas do meu livro Ministério do Silêncio – A História do Serviço Secreto Brasileiro de Washington Luís a Lula (1927-2005). Uma de minhas fontes, um ex-torturador que trabalhara na comunidade de informações durante o regime militar (1964-85), me contou sobre o livro. Era homem bem informado, que tinha acesso privilegiado a documentos e segredos militares. Apesar de nunca ter visto a obra, ele sabia um bom pedaço de sua história.

Segundo seu relato, a odisséia do livro secreto tivera início em 1985, logo nos primeiros meses do pós-ditadura. Aproveitando o clima de liberdade, depois de 21 anos de escuridão, a Arquidiocese de São Paulo lançara o livro Brasil: Nunca Mais, com relatos de tortura e morte de presos políticos nos porões da repressão. Com detalhes aterrorizantes – como as aulas de tortura em que presos eram usados como cobaias, e os centros clandestinos das Forças Armadas, onde desafetos do regime eram assassinados com injeção para cavalo – a obra-denúncia causou espanto em boa parte da sociedade brasileira e no exterior. De quebra, despertou a ira nos quartéis.

O então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, foi um dos que não gostaram. Para não deixar o Brasil: Nunca Mais sem resposta, o general ordenou ao Centro de Informações do Exército (CIE), o serviço secreto da força terrestre, um dos braços mais mortíferos da repressão, que preparasse um livro contando a versão dos militares para a luta armada promovida por organizações de esquerda entre 1967 e 1974. A idéia era contar passagens pouco edificantes da vida daqueles que combateram a ditadura, sobretudo dos que haviam pegado em armas para tentar derrubar o regime. Depois de derrotar a esquerda nas armas, as Forças Armadas entravam novamente em guerra, desta vez combatendo com a informação.

No CIE, o projeto recebeu um código secreto: Orvil (a palavra livro ao contrário). Os trabalhos tiveram início em 1986, sob a coordenação do então coronel Agnaldo Del Nero Augusto, chefe da Seção de Informações do CIE. Durante quase três anos, no mais absoluto sigilo, cerca de 30 oficiais trabalharam no projeto. Para tanto, tiveram acesso aos arquivos (até hoje inéditos) do serviço secreto do Exército, que guarda documentos produzidos pelo órgão e por seus parceiros na ditadura, como o Serviço Nacional de Informações (SNI), o Cenimar (serviço secreto da Marinha), o Cisa (serviço secreto da Aeronáutica), o DOI-Codi (aparelho da repressão), a Polícia Federal e os Dops (Departamentos Estaduais de Ordem Política e Social). Os integrantes do Projeto Orvil também entrevistaram oficiais e policiais que haviam participado da luta contra a esquerda armada, tanto em funções de coordenação quanto nas de combate.

Em 1988, o livro do exército ficou pronto. Batizado de As Tentativas de Tomada do Poder, ele citava (sempre de forma pejorativa) mais de 1.700 inimigos das Forças Armadas. Leônidas tratou de reunir-se com o então presidente da República, José Sarney, para discutir a sua publicação. Explicou-lhe que a obra era uma arma para defender as Forças Armadas das campanhas sórdidas que vinham sendo desferidas pelas esquerdas. No futuro, disse Leônidas, sempre que uma voz se levantasse contra a ditadura, lá estaria o livro do CIE para contra-atacar, revelando “a verdade”. Sarney ouviu Leônidas quieto, sorriu amarelo e em seguida começou a desarmar a bomba que estava em seu gabinete.

O presidente argumentou que a publicação do livro reabriria feridas que começavam a cicatrizar. Como a Lei da Anistia, de 1979, tinha beneficiado tanto os adversários da ditadura quanto os agentes da repressão, melhor seria esquecer o tema, sugeriu Sarney. O general não gostou, mas, como bom soldado, obedeceu. E assim o livro foi engavetado, passando a compor o extenso rol de documentos secretos do CIE.

No correr dos anos, entretanto, o livro acabou sendo contrabandeado para fora do QG do Exército. Ao passar para a reserva, um oficial que participara do Projeto Orvil levou consigo uma cópia da obra. A edição correu de mão em mão, num círculo ultra-fechado de oficiais da ativa e da reserva. Algumas cópias foram feitas e deixadas com pessoas-chave, a maioria delas ligada a organizações de extrema direita que congregam militares e civis, como o grupo Terrorismo Nunca Mais (Ternuma), sediado no Rio de Janeiro. Assim, com aproximadamente apenas 15 cópias disponíveis, o livro secreto – rebatizado de O Livro Negro do Terrorismo no Brasil – se tornou uma espécie de Santo Graal dos militares linha-dura. Era essa a relíquia que eu buscava.

No ano 2000, sem identificar a origem dos textos, o Ternuma divulgou em seu site (www.ternuma.com.br) cerca de 40 das 966 páginas do livro (pouco mais de 4% do total). A novidade atiçou a imprensa, e o general Leônidas acabou confirmando a existência do documento. Seu conteúdo, no entanto, continuava misterioso. Sempre que havia espaço, eu perguntava a minhas fontes do meio militar se conheciam o tal livro. Uns diziam que não, outros falavam que já tinham visto, alguns poucos contavam uma ou outra passagem da obra, mas ninguém se dispunha a me ajudar a conseguir uma cópia. Em 2005, depois de sete anos de pesquisa, publiquei Ministério do Silêncio sem ter conseguido um dos meus objetivos: revelar o conteúdo do livro secreto. Tive informações seguras apenas para escrever, em singelos dois parágrafos, que a obra existia e que continuava desconhecida.

Apesar da frustração, não desisti de encontrar o Santo Graal do CIE. Prossegui questionando fontes, mas, como ocorrera anteriormente, fui acumulando negativa atrás de negativa. Até que, em fevereiro deste ano, o livro secreto caiu no meu colo, ou melhor, nas minhas mãos.

“Aqui está a verdade”, disse ele. “Parece interessante”, retruquei. Num primeiro momento, tive receio em demonstrar muito interesse pelo documento e acabar provocando o recuo da minha fonte. Enquanto folheava o livro, fiquei imaginando se minha fonte me deixaria copiá-lo. Resolvi arriscar: “Posso levar esse livro comigo para ler em casa?”. “Ah, esse não”, respondeu ele. “Você pode consultar sempre que quiser, aqui na minha casa, mas não pode levar.” Continuei então fazendo o tipo desinteressado. Conversamos mais um pouco, folheamos outros livros e acabei indo embora de mãos vazias.

No táxi, fui fazendo planos e contas: se eu fosse à casa da minha fonte uma vez por semana e lesse 15 páginas por dia, copiando o que havia de mais importante, em um ano e quatro meses teria lido todo o livro. De volta à redação do jornal onde trabalho, comentei com um colega que tinha encontrado um pote de ouro, mas não pudera carregá-lo. “Como assim?”, ele perguntou. Expliquei o caso, e o sujeito compreendeu meu drama. “Putz, se você quiser podemos ir lá juntos tentar resolver isso”, sugeriu em tom de deboche. “Eu seguro o cara enquanto você pega o livro e sai correndo.” A piada era fraca, e meu humor não estava lá essas coisas. Fui embora para casa refazendo meus cálculos e tentando traçar novas estratégias.

Esperei uma semana para ligar de novo para minha fonte. Falei de vários assuntos antes de entrar no tema que me interessava. “E aquele livro da capa preta que você me mostrou? Queria dar mais uma olhada nele. Posso passar aí?” O sujeito estava atrasado para um compromisso e ficaria fora a tarde toda. Contudo, não queria fazer uma desfeita para mim. “Olha, passa aqui e pega o livro. Depois você me devolve.” Essa chance eu não deixaria passar. “Estou indo praí agora”, respondi.

Fui à casa dele, peguei o livro e voltei para a redação. No mesmo dia, fiz pessoalmente duas cópias do documento, para desespero da fila do xerox. Era uma brochura artesanal, escrita a máquina de datilografia, com capa dura e título na cor dourada. No lugar do nome do autor, um enigmático “Grupo de pesquisadores anônimos”. Passei o resto do dia assobiando e pensando baixinho: “Ele é meu! Ele é meu! Ele é meeeeeeeu!”. Agora, o próximo passo era digerir o bicho.

Nos dois meses seguintes, me enfurnei numa salinha vazia ao lado da redação com o livro secreto e mais 12 obras de referência histórica. Comparei relatos, chequei datas e confrontei versões referentes a centenas de passagens da história recente do país, como o golpe militar (1964), a morte do estudante Edson Luís, no Rio (1968), a instauração do AI-5 (1968), o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick (1969), assaltos a bancos praticados por grupos de esquerda, as campanhas militares contra a Guerrilha do Araguaia (1972-75) e o movimento das Diretas-Já (1984).

Os campeões de aparições no livro – os guerrilheiros Carlos Lamarca, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), e Carlos Marighella, da Aliança Libertadora Nacional (ALN), com 51 e 41 citações, respectivamente – eram descritos como bestas-feras, assassinos frios e traidores da pátria. Na lista de personagens, figuravam militantes de organizações de esquerda que haviam participado da luta armada e que mais tarde ocupariam altos cargos da República, como Dilma Rousseff (atual ministra-chefe da Casa Civil), Franklin Martins (ministro da Comunicação Social), Fernando Gabeira e José Genoino (deputados federais) e Fernando Pimentel (prefeito de Belo Horizonte). Também eram citadas pessoas que não tinham pegado em armas e mesmo assim eram consideradas inimigas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de São Paulo, José Serra, o religioso Frei Betto e o escritor Antonio Callado. No meio artístico, figuravam músicos como Chico Buarque e Geraldo Vandré. O autor de “Apesar de você” (“Hoje você é quem manda/Falou, tá falado/Não tem discussão”), uma das canções mais odiadas nos quartéis, era classificado como comunista infiltrado nos meios artísticos. Já o compositor de “Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores” (“Caminhando e cantando e seguindo a canção/Somos todos iguais braços dados ou não”) levava a pecha de agente de Fidel Castro propositalmente transformado em mártir da censura.

Enquanto a esquerda apanhou feio no livro, sobraram loas para torturadores, assassinos e dois presidentes-generais que comandaram o país nos momentos mais brutais da repressão. O finado Sérgio Fleury (delegado do Dops de São Paulo, líder do Esquadrão da Morte, torturador de presos políticos e assassino de opositores do regime militar, retratado recentemente pelo ator Cássio Gabus Mendes no filme Batismo de Sangue) recebeu a denominação de “incansável lutador contra o terrorismo no Brasil”. Já Octávio Gonçalves Moreira Júnior – o Otavinho, torturador do Dops paulista, assassinado em 1973 por guerrilheiros da ALN, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) – é chamado de “doutor Octávio” e merece tratamento de mártir.

O general Arthur da Costa e Silva – ditador que comandou o Brasil entre 1967 e 1969, período marcado pela tortura e morte de centenas de presos políticos em instalações militares – é descrito como tintas amenas. Sua posse no Palácio do Planalto é relatada no livro secreto como um “reencontro (do país) com a ordem constitucional e o estado de direito”. Com seu “tom franco”, sua “mensagem de renovação” e a “clareza com que encarnava a realidade vivida pelo país”, o general “abriu esperanças” no Brasil, afirma a obra. Segundo o livro, “iniciava-se a volta à normalidade”. Detalhe: Costa e Silva foi o mentor e fundador do CIE.

Em relação ao general Emílio Garrastazu Médici, em cujo governo (1969-74) desapareceram quase 150 militantes políticos, o livro secreto é todo candura. Ao narrar os seqüestros de diplomatas estrangeiros realizados por grupos engajados na luta armada, em 1969 e 1970, e ao comentar a decisão do governo Médici de aceitar trocá-los por presos políticos, conforme exigiam os seqüestradores, a obra do CIE afirma que a postura do general representava o “respeito aos direitos humanos sem aspas”, que “se ajustava aos sentimentos humanitários da população”.

Entre um e outro juízo de valor, o documento comprova que o serviço secreto do Exército vigiou adversários mesmo depois do fim da ditadura. Um guerrilheiro que havia renunciado às armas e se exilara no Chile começou a ser seguido quando, já anistiado, retornou ao Brasil. O livro do CIE anota que, “depois de ter passado anos reprimindo o seu homossexualismo”, o ex-guerrilheiro deu “vazão aos seus instintos” e foi viver com outro homem. Em 1985, já no governo José Sarney, portanto, o serviço secreto do Exército continuou no encalço de seu alvo. O documento do CIE afirma que, naquele ano, o ex-guerrilheiro trabalhava em uma sauna gay.

Escrito na ordem cronológica e em forma de relatório (no dia 1º aconteceu isso; no dia 2 aconteceu aquilo; no dia 3, aquilo outro…), o texto do documento do CIE é mais desagradável que um porre de gim. Saltam das páginas expressões típicas da caserna e das delegacias. Um guerrilheiro que conseguia escapar ao cerco policial ao ser descoberto em seu esconderijo era descrito como um “subversivo” que fugia em “desabalada carreira” ao ser flagrado em seu “homizio”. Dureza!

Em alguns trechos, contudo, era impossível não achar graça dos recursos utilizados pelos agentes-escritores do CIE no cumprimento da missão de denegrir a esquerda. Ao contar como a Polícia Militar paulista havia dissolvido o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado clandestinamente em 1968, em um sítio em Ibiúna (SP), o redator escreveu: “No local, foram encontrados drogas, bebidas alcoólicas e grande quantidade de preservativos, muitos já utilizados”. Ainda segundo o livro, “alguns estudantes chegaram a declarar inclusive que havia uma escala de serviço de moças para atendimento sexual” dos líderes estudantis. Pelo sim, pelo não, telefonei para Vladimir Palmeira, um dos estudantes presos em Ibiúna e que na época presidia a União Metropolitana de Estudantes (UME). Li para ele o trecho e, do outro lado da linha, Vladimir não conteve o riso. “Se de fato havia esse atendimento sexual, não me informaram. Fui isolado”, disse entre gargalhadas. Depois, já sério, voltou a comentar: “Isso é uma chacota”.

A graça, contudo, acabou logo em seguida, quando comecei a ler os trechos do livro em que eram descritas as mortes de militantes de esquerda e de guerrilheiros que atuaram no campo e nas cidades. Era a parte mais dramática e também a mais importante do documento. Ao comparar as narrativas contidas no livro com os processos oficiais das 380 vítimas fatais da ditadura, descobri que minha fonte realmente tinha razão: a obra trazia verdades. Mais que isso: jogava luz sobre alguns dos episódios mais sombrios da história do país.

O livro do Exército desmente o próprio Exército ao relatar o destino de 23 militantes e guerrilheiros mortos em diversos pontos do país e no exterior. Oficialmente, a força terrestre sempre negou que tivesse participado da morte ou do desaparecimento daquelas pessoas – 16 integrantes do PCdoB que atuavam na Guerrilha do Araguaia (Pará), três militantes do Movimento de Libertação Popular (Molipo), três da VPR e um da ALN. A força terrestre dizia ainda não possuir informações a respeito delas. O livro secreto provava, no entanto, que o Exército mentia.

As páginas 724 e 725 do documento, por exemplo, demoliam a versão de que a força terrestre nada sabia sobre o desaparecimento de Antônio Carlos Monteiro Teixeira, José Toledo de Oliveira e Francisco Manoel Chaves, em 1972, quando o trio se encontrava engajado na Guerrilha do Araguaia. O Exército, como revelava o documento, tinha matado os três. O livro secreto conta a história:

“No dia 29 (de setembro de 1972), um grupo de quatro ou cinco terroristas tentou emboscar um GC do 10º BC. Os terroristas montaram uma emboscada numa capoeira. Percebida a ação, em razão dos ruídos produzidos pelos subversivos, foi montada uma contra-emboscada, na qual morreram três terroristas: Antônio Carlos Monteiro Teixeira, José Toledo de Oliveira e José Francisco Chaves (N.R. O nome correto é Francisco Manoel Chaves).”

Outros três guerrilheiros desaparecidos no Araguaia há 35 anos, os quais o Exército nega ter matado, têm seus últimos momentos descritos na página 725 do documento: “Ainda nesse dia (29 de setembro de 1972), um grupo de terroristas aproximou-se de um casario. Um deles foi visto, no momento em que retrocedia, por um dos componentes de uma patrulha do 6º BC. A patrulha empreendeu perseguição aos subversivos e no tiroteio travado, acabou por matar três terroristas do grupo: Ciro Flávio Salazar de Oliveira (Flávio) e Manoel José Nurchis (Gil), do destacamento B, e João Carlos Haas Sobrinho (Juca), da Comissão Militar (…)”

O documento narra a prisão do guerrilheiro Boanerges de Souza Massa, do Molipo:
“No dia 21 de dezembro (de 1971), foi preso em Pindorama, em Goiás, utilizando nome falso, Boanerges de Souza Massa.”

Oitenta e sete páginas adiante, o livro conta que Boanerges foi submetido a interrogatórios e chega a dizer as informações que ele teria “aberto”. Curioso é que o guerrilheiro desapareceu naquele ano e nunca mais voltou a ser visto. Até hoje, o Exército não reconhece a prisão nem a morte de Boanerges. Para a família não resta dúvida: ele foi assassinado no cárcere.

Outro trecho revelador do livro refere-se a Wânio José de Mattos, integrante da VPR que desapareceu no Chile em setembro de 1973, após o golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende. Só em 1992, quando os arquivos chilenos foram abertos, a família de Wânio foi informada, pelas autoridades daquele país, de que, por falta de atendimento médico, ele morrera de peritonite aguda no Estádio Nacional, onde se encontrava preso.

Contudo, pelo menos quatro anos antes da abertura dos arquivos chilenos, o Exército brasileiro já tinha conhecimento da versão, como mostra a página 788 do livro secreto. O trecho em que se lê “Wânio José de Mattos morreu no Chile, em 1973, com peritonite” é mais uma prova de que, a partir do início da década de 1970, as ditaduras do Cone Sul atuavam em estreita sintonia na guerra suja que travavam contra seus opositores, parceria que ficou conhecida com o nome de Operação Condor.

Dois outros casos macabros que o livro secreto traz são os de Antônio dos Três Reis Oliveira (ALN) e Alcery Maria Gomes da Silva (VPR). Até o documento do CIE vir à tona, sabia-se apenas que Antônio fora assassinado pela repressão em 1970 e enterrado como indigente no Cemitério de Vila Formosa, em São Paulo. Seu corpo nunca foi encontrado. Já em relação a Alcery, era conhecido o fato de que ela morrera no mesmo ano pelas mãos dos agentes da Operação Bandeirantes (Oban) e que o destino de seu corpo era ignorado. Apesar de todos os apelos feitos por parentes e grupos de direitos humanos, o Exército sempre negou que tivesse informações que pudessem ajudar na localização dos restos mortais de Antônio e Alcery. Pior: nem ao menos reconheceu que ambos estivessem mortos. Entretanto, o livro do CIE revela na página 544 que o Exército sempre soube da verdade: “No dia 17 (de maio de 1970), em São Paulo, foi preso o recém-designado comandante da UC, Oswaldo Soares, que entregou seu aparelho, como já narrado, onde morreram sua companheira Alcery Maria Gomes da Silva e Antônio dos Três Reis Oliveira.” O documento do serviço secreto do Exército mostra que a força terrestre escondeu informações até mesmo sobre a morte de seus homens. Um deles é o sargento Mário Ibrahim da Silva. O militar tombou no Araguaia, em 1972, quando combatia guerrilheiros do PCdoB. A família de Mário nunca recebeu do Exército uma versão oficial do que aconteceu a ele. O caso foi investigado pelo jornalista Eumano Silva, autor de Operação Araguaia (Geração Editorial, 2005), um dos melhores livros sobre o episódio, vencedor do Prêmio Jabuti. No capítulo intitulado “Mistério: como morreu o sargento Ibrahim”, o jornalista conta que entrevistou a viúva do militar. “Ela diz que ouviu muitos boatos. Um deles dizia que o Ibrahim havia sido morto por engano por outro militar”, afirma Eumano. Com 35 anos de atraso, a versão do Exército aparece agora no livro secreto: “No dia 27 (de setembro de 1972), os terroristas investiram contra uma base do 2º Batalhão de Infantaria da Selva, situada na localidade de Pavão. O comandante do grupo de combate que estabelecera a base, 2º sargento Mário Ibrahim da Silva, ao tentar chegar ao local da incursão, foi atingido por um disparo desferido por um dos terroristas. Contam seus companheiros que o sargento Mário, mesmo ferido e após haver descarregado sua arma, deu ordens ao grupo (…), (falou) de sua família, esposa, filhos e mãe e faleceu”.

Ao terminar a análise do livro, um raciocínio óbvio vinha à minha cabeça. Se o CIE sabia o dia e o local da morte de militantes e guerrilheiros – em alguns casos, conhecia até a guarnição a que pertenciam seus algozes – é provável também que soubesse onde eles tinham sido enterrados. Por que então o Exército insistia em dizer que não tinha informações sobre eles, negando às famílias o direito de enterrar seus entes? Quem eram os responsáveis pela violação da mais elementar regra de guerra, prevista na Convenção de Genebra, de 1864, que determina a identificação, o sepultamento e a posterior devolução dos inimigos mortos em combate?

A bomba que Sarney desarmara em 1988 estava pronta para explodir em 2007. Faltava só uma coisa: conseguir provar que a cópia que eu possuía era autêntica.

A internet (louvada seja!) me deu a primeira prova de que o que eu tinha em mãos era um exemplar verdadeiro do livro secreto e não uma fraude. Comparei trechos do exemplar em meu poder com as 40 páginas do documento divulgadas há sete anos no site do Ternuma, que trazem entre outros relatos o seqüestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em 1970. Bingo! Na maioria dos casos, os textos eram idênticos. Quando não o eram, podia-se ver claramente que eram adaptações.

Para obter a segunda prova, entrevistei pessoas que figuravam como personagens do livro, como os professores Daniel Aarão Reis Filho e Cid Queiroz Benjamin, o engenheiro Maurício Paiva e o frei dominicano Oswaldo Resende Júnior. Ao tomarem conhecimento dos trechos em que eram citados, todos apontaram erros e manipulações, mas confirmaram a veracidade de inúmeros detalhes que ainda não são de conhecimento público. Frei Oswaldo, por exemplo, surpreendeu-se em saber que o Exército tinha informações pormenorizadas sobre uma reunião da ALN realizada em Roma, em 1971, na qual se discutiu o racha vivido pela organização. Já Cid Queiroz Benjamin, que participara do seqüestro do embaixador norte-americano, observou que, apesar de alguns pequenos erros, o livro secreto trazia muitos detalhes sobre a ação, como a cor de veículos usados pelos guerrilheiros e as senhas utilizadas nos contatos por telefone. “Só faltou dizer qual era a cor das nossas camisas”, afirmou o hoje professor de jornalismo. “As informações contidas no livro sem dúvida foram tiradas dos arquivos dos DOI-Codi”, deduz Cid.

Para não deixar um fiapo de dúvida em relação à autenticidade do livro, passei depois a compará-lo com outros documentos confidenciais do Exército. Constatei então, em três oportunidades, que trechos do livro tinham sido baseados ou mesmo copiados de documentos secretos da força terrestre. Era o que acontecia, por exemplo, nas páginas 721 e 722 do livro, referentes ao combate à Guerrilha do Araguaia, onde se lia: “A localidade de Santa Cruz, por exemplo, dista 600 quilômetros da sede do município, em Conceição do Araguaia, e a única ligação existente entre elas é o rio, demorando a viagem entre uma localidade e outra uma média de 5 dias”.

Texto praticamente idêntico aparece em documento do Ministério do Exército de 30 de outubro de 1972, classificado como secreto. Compare:

“(&) A localidade de Santa Cruz dista 600 quilômetros da sede do município em Conceição do Araguaia e a viagem pelo rio, único meio de ligação, demora da ordem (sic) de 5 dias”.

O livro do Exército era, pois, verdadeiro e já não era mais secreto. Em abril, um resumo do seu conteúdo foi tornado público nas páginas dos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense. A reação foi imediata. O Ministério Público Federal criou uma comissão de cinco procuradores para analisar possíveis providências a serem tomadas. Já a Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos, que tem a dupla incumbência de julgar a responsabilidade do Estado na morte de militantes políticos e procurar restos mortais de desaparecidos, começou a discutir a provável reabertura de pelo menos um caso, o de Wânio José de Mattos, que morreu no Chile.

Há ainda a esperança de que as informações contidas no livro possam auxiliar na localização dos corpos dos 69 guerrilheiros desaparecidos no Araguaia entre 1972 e 1975.

O Exército calou-se. A Presidência da República, idem. Desde que tomou posse, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem se esforçando ao máximo para ignorar a questão dos desaparecidos políticos. Apesar dos reiterados pedidos, nunca, por exemplo, recebeu a comissão de familiares dos militantes que foram à luta contra a ditadura e não voltaram para casa. Outros dois gestos do presidente revelam sua vontade de jogar o tema para debaixo do tapete. Ainda em 2003, Lula mandou a Advocacia Geral da União (AGU) recorrer da decisão judicial que condenou a União a abrir as informações das Forças Armadas referentes aos combates contra a Guerrilha do Araguaia. A ação, iniciada em 1982, era movida por 22 familiares de desaparecidos e tinha como advogados Sigmaringa Seixas e Luiz Eduardo Greenhalgh, que mais tarde se tornariam destacados deputados federais pelo PT. O recurso da AGU acabou sendo derrotado, mas, ainda assim, até hoje o governo não acatou a sentença da Justiça.

Lula fez mais (ou melhor, menos): manteve a regra criada na última semana do governo Fernando Henrique Cardoso que instituiu a esdrúxula figura do sigilo eterno para documentos confidenciais. Até então, uma lei de 1991 determinava o prazo limite de 60 anos para a abertura de papéis oficiais classificados como sigilosos. A chiadeira foi geral, mas Lula deu de ombros. A coisa, entretanto, promete não acabar assim. No final de maio, o Ministério Público Federal patrocinou o simpósio Debate Sul-Americano sobre a Verdade e Responsabilidade em Crimes contra os Direitos Humanos. Ao final dos trabalhos, foram tiradas várias recomendações, entre elas uma solicitação para que o procurador-geral da República, Antônio Fernando Souza, proponha uma ação de inconstitucionalidade contra a lei do sigilo eterno.

A pressão sobre o presidente também vem de dentro do governo. No final de abril, a Comissão Interministerial do Araguaia encerrou suas atividades sem ter conseguido avançar na questão da localização dos corpos dos 69 guerrilheiros desaparecidos. A comissão deixou claro, entretanto, que poderia ter tido algum sucesso caso tivesse contado com a colaboração das Forças Armadas. Ao se ver impossibilitada de seguir adiante, a comissão acabou devolvendo o abacaxi, sugerindo a Lula que exija, no prazo de 120 dias, que os militares abram os arquivos secretos do Araguaia.

Ainda neste semestre, o tema Araguaia voltará a assombrar o Palácio do Planalto.

A Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos (formada por representantes dos familiares, do governo, das Forças Armadas, do Ministério Público, da Câmara dos Deputados e da sociedade) fará uma expedição ao sul do Pará para uma nova tentativa de localizar restos mortais de guerrilheiros. O mínimo que pode acontecer é o retorno do assunto às primeiras páginas dos jornais.

Como se vê, será difícil para o presidente ignorar por muito mais tempo que os mortos assombram seu governo. A gritaria também acontece fora do país. A Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) deverá ainda neste ano julgar o Brasil em um caso que se arrasta há 12 anos e que é acompanhado, com interesse, internacionalmente. Acusação: falta de investigação por parte do Estado a respeito da destruição e da ocultação de cadáveres ocorridas durante os combates à Guerrilha do Araguaia. Caso o Brasil seja condenado, possibilidade hoje bastante grande, será um vexame internacional. Lula, que construiu sua imagem como defensor dos oprimidos, passará a figurar no rol de presidentes cujos governos violaram os Direitos Humanos. “Por que esta dificuldade em abrir os arquivos da repressão, em especial os do Araguaia? Quem não deve não teme”, questiona Jorge Zaverucha, cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um dos maiores especialistas do país em questões militares.

O Exército insiste na versão de que os documentos da repressão, incluindo os relativos às campanhas no Araguaia, foram destruídos. O governo Lula finge acreditar. O livro secreto do CIE, porém, está aí para quem quiser consultar. Lá está escrita “a verdade”.

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[ARQUIVO DE REPÓRTER] O segredo dos índios Aikewara

Para sua estreia no Brasil, no ano passado, a revista GQ pediu a mim que fizesse uma reportagem especial. Por sorte, eu tinha uma pauta já em andamento: a história de como a ditadura, no início dos anos 1970, a fim de combater a Guerrilha do Araguaia, havia transformado pacatos índios da Amazônia em mercenários.

Eu tinha uma prova incontestável da operação do Exército, uma mensagem de e-mail de um ex-oficial (na reportagem, explico o que é), mas faltava ainda falar com os índios.

Depois de negociar minha entrada na tribo e arrumar um tradutor de akwáwa (ramo do tupi-guarani), parti para lá acompanhado do brilhante repórter-fotográfico Daniel Kfouri. Passamos alguns dias conversando com os índios da aldeia, trançando de um lado a outro da Transamazônica.

Num dia, demoramos mais que o recomendável na aldeia e voltamos para a cidade já de noite. Os índios nos avisaram que a estrada era perigosa e os assaltos eram frequentes. Como não recebemos convite para pernoitar na aldeia, o jeito foi encarar a Transamazônica de noite.

No caminho, porém, nos deparamos com um caminhão parado, com os faróis acesos, bem no meio da estrada. Parei o carro a cerca de 500 metros. Eu e Daniel ficamos observando, mas nada acontecia. Para nós, aquilo cheirava à emboscada. Decidimos então tomar o rumo contrário da estrada, deserta àquela altura da noite.

Dali a pouco, um carro nos ultrapassou a toda velocidade (nem precisa dizer que nossos corações quase saíram pela boca). De novo, demos meia volta e retomamos nosso rumo original. Chegando mais perto do caminhão suspeito, descobrimos que não era cilada. O caminhão simplesmente havia atolado na rodovia, que apesar de asfaltada tinha buracos onde cabia um fusca inteiro.

Nosso medo nos fez rodar uns 50 quilômetros para nada.

A seguida, a reportagem.

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O SEGREDO DOS ÍNDIOS AIKEWARA

Lucas Figueiredo, para a GQ (abril-2011)

Sob um céu grande angular de nuvens pesadas, o território brasileiro dá um nó – o Norte se encontra com o Nordeste; a Amazônia lambe o Cerrado e três Estados dividem fronteiras (Pará, Maranhão e Tocantins). Talvez poucos lugares do país sejam tão indicados para guardar um segredo como o que ali foi enterrado. Naquele rincão perdido, conhecido como Bico do Papagaio, quatro décadas atrás, teve lugar um dos episódios mais obscuros da história do Brasil: a transformação de índios em mercenários de guerra do Exército para combater a Guerrilha do Araguaia. Agora, o segredo acabou.

Em quatro meses de investigação, GQ reuniu provas que mostram que, no início dos anos 1970, no governo do general-ditador Emílio Garrastazu Médici, a força terrestre fez de pacíficos índios Aikewara – da aldeia Suruí Sororó, no sudeste do Pará – máquinas de caçar e matar homens. Um militar da reserva que participou das operações afirma que, na caçada humana, os índios feitos mercenários não se limitaram a matar. Cortaram cabeças. Era a prova que o Exército exigia do dever cumprido.

Hoje, para chegar à aldeia Suruí Sororó é necessário disposição e paciência. Do aeroporto de Marabá (Pará) – também conhecida como Marabala por causa de seus altos índices de violência com arma de fogo – o carro alugado saltita em zig zag pela Transamazônica, levando a mim e ao fotógrafo e tentando sem muito sucesso evitar as crateras. Quarenta e cinco quilômetros adiante, viramos à direita e pegamos a BR-153, antiga OP-2, construída na época da guerrilha para facilitar a internação de tropas na região. A BR-153, uma via de pistas simples sem acostamento, consegue ser ainda pior que a Transamazônica. A cena é pouco crível, mas real: caminhões atolam no asfalto. Logo à frente, surge São Domingos do Araguaia, uma cidade com pequenas casas de madeira, tristes e feias, muito parecidas com as dos cenários de filmes do velho oeste americano. Mais 50 quilômetros adiante e finalmente alcançamos a entrada da Reserva Indígena Suruí Sororó.

Na aldeia a recepção é tensa. Os Aikewara já sabem qual é o assunto que me traz até lá. Sou conduzido à tenda central da aldeia, a taquapucu, onde, estirados em redes ou sentados em grandes bancos de madeira, cerca de quarenta índios me esperam. São crianças, algumas de colo, jovens e adultos. Entre eles, idosos que, suponho, talvez tenham testemunhado a guerrilha. Mais tarde eu saberia: sob a sombra da taquapucu estavam os sete sobreviventes dos 11 índios feitos mercenários pelo Exército Brasileiro.

Um dos líderes da aldeia, entre gentil e imperial, sugere que eu me sente no banco de madeira à minha frente. Seu nome é Ikatu Suruí (para efeito legal, todos os índios têm o nome da aldeia como sobrenome). Ele tem 34 anos e é o Aikewara mais forte e alto do grupo. Ikatu é amável, o que não o impede de ser firme e extremamente seguro de sua autoridade. É ele quem comanda um quase interrogatório com a palavra franqueada aos demais índios – e muitos perguntam, de forma direta, quando falam português ou, no caso dos monoglotas em akwáwa (ramo do tupi-guarani), por intermédio do intérprete: “O que vem fazer aqui?”, “Por que quer saber as histórias dos índios?”, “Para quem vai contar as histórias os índios?”

A nova geração se empenha em evitar que os mais velhos assumam ter cometido atos de violência. “Os velhinhos são muito inocentes. Nós, que somos novos, respondemos por eles”, assume Ikatu, que grudaria em mim nos dois dias seguintes. O tempo passa e aos poucos, ainda que desconfiados, os índios param de perguntar e começam a responder. Porém, qualquer questão dirigida a um dos sete Aikewara feitos mercenários que envolva as palavras combate, prisioneiro, morto ou corpo é cortada por Ikatu, que nega ter havido confronto direto entre índios e guerrilheiros. No segundo dia na aldeia, entretanto, nos raros momentos em que Ikatu e outros Aikewara jovens se afastam, os mais velhos se aproximam para contar suas histórias.

Desde tempos imemoriais, a vida dos Aikewara é um constante fugir. Primeiro, fugiam da perseguição de índios inimigos. Depois, fugiam de massacres praticados pelos brancos e do risco de extinção. Agora, tentam fugir do passado.

Foi correndo de seus primeiros algozes, os Kayapó Xikrin, no início do século XX, que algumas centenas de Aikewara chegaram à área que ocupam hoje. Era uma gleba de mata tropical fechada, com poucos rios, mas caça abundante. Por ali ficaram. Com a palha das palmeiras, construíram ocas redondas, e com o arco e flecha caçaram macacos, veados, caititus (animal parecido com o javali), tatus e cotias. A ração diária era complementada com o que conseguiam coletar (jabutis, peixes, castanha) e plantar (mandioca, batata doce, milho e banana). Eles não contavam a idade porque isso não era importante, e na aldeia não existia disputa de poder, já que os caciques se sucediam em linha hereditária.

Pela descrição, pode parecer que eram prósperos e felizes, o que não é verdade. Tudo indicava que o destino da tribo era desaparecer.

Como não tinham meios de resistir aos ataques dos Kayapó Xikrin, os Aikewara cultivavam uma tradição terrível: para facilitar as fugas, evitam que as mulheres tivessem dois filhos de colo simultaneamente, e para isso recorriam a meios abortivos ou mesmo ao infanticídio.

O primeiro contato com os Kamará (homem branco) se deu em 1953. Começaram trocando presentes, mas em pouco tempo estavam morrendo pelo chumbo das armas de fogo ou pelas doenças (como varíola e gripe) trazidas por fazendeiros e castanheiros. O impacto do contato com o homem branco, aliado à tradição do controle radical da prole, fez com que os Aikewara entrassem em rota de extinção. Em 1961, sobravam na aldeia apenas 34 índios.

Anos mais tarde, a partir de 1966, os Aikewara começaram a ganhar novos vizinhos: militantes do então clandestino Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que chegavam àquele fim de mundo com a idéia de promover uma revolução armada no país. Era a Guerrilha do Araguaia.

Os índios não tinham a menor idéia do que queriam aqueles homens e mulheres que os habitantes locais chamavam de “paulistas”. “Índio não sabia nada”, explica, num precário português, Warikasú, um dos Aikewara feitos mercenários pelo Exército.

Seis anos depois da chegada dos guerrilheiros, vieram os militares com a missão de destruir o foco de insurreição. Eram 3.400 soldados contra 76 guerrilheiros (69 já estavam no local e sete, a caminho). Ou seja, uma vantagem para as Forças Armadas de 45 para um – vantagem, aliás, ilusória, já que os insurretos dominavam o terreno e os militares, não. Resultado: sem conseguir abafar a guerrilha, a campanha do Exército empacou. Warani, outro ex-mercenário da aldeia, um velho de cabelos brancos na altura dos ombros, encena a desorientação dos militares ao entrar na selva. “Soldado não sabe andar na mata”, sentencia. Foi assim, a partir de uma dificuldade operacional (leia-se, falta de treinamento adequado da tropa para aquele tipo específico de terreno), que surgiu no Exército a idéia de usar os índios para guiar os soldados e, em alguns casos, para assumir os combates. Começava a descida dos Aikewara ao inferno do homem branco.

Na tenda central da aldeia, Tawé se aproxima a passos rápidos, pára abruptamente diante de mim e começa a falar em tom grave. Ele parece ser um dos mais jovens índios feitos mercenários, arregimentado pelo Exército ainda na adolescência. Como nenhum dos índios da geração mais antiga sabe a própria idade, é difícil imaginar com precisão quantos anos aqueles homens à minha frente têm.

Tawé conta que, depois de invadir e tomar a aldeia, os militares semearam o pânico entre os índios. Começaram por queimar as roças e impedir os Aikewara de caçar. “Amarraram o índio e bateram muito, apontaram metralhadora, estupraram mulher do índio”, relata exaltado. “Um dia, soldado pegou Tawé e pai de Tawé [Kuimuá, já falecido] e levou de helicóptero para a mata. Índio tinha muito medo e pensava que tinha feito alguma coisa errada.” Só quando chegaram à selva fechada, Tawé, que na época já falava um pouco de português, soube o motivo do sequestro. “Soldado mostrou fotografia do povo da mata [os guerrilheiros] e disse para índio caçar”. Nos quatro dias em que ficaram na selva, Tawé e Kuimuá não puderam acender fogueiras para cozinhar ou para se aquecer porque corriam o risco de virar alvo dos guerrilheiros. Para sobreviver, comeram jabá cru e alimentos enlatados frios, fornecidos pelos militares.

Umassu, um Aikewara de gestos calmos e sorriso doce, diz que também foi levado para a mata de helicóptero, primeiro para servir de guia dos soldados, depois para “caçar o povo da mata”. Com a ajuda de um intérprete, Warini – aparentemente, o mais velho da aldeia, como demonstram os vincos profundos que cobrem todo seu rosto – conta que quase foi atingido num tiroteio entre soldados e guerrilheiros. Viveu para relatar a história, mas ficou surdo, segundo ele, por causa dos estampidos. Já Warani, o mais bem humorado da aldeia, pára por um momento de rir e de fazer rir e, em português precário, descreve como os soldados o enganaram. “Levaram índio para a mata dizendo que era para caçar macacos e caititus. Mentira! Era para caçar terrorista”, diz ele, usando o termo que aprendeu com os militares. Com sua voz firme e excepcionalmente lenta para um Aikewara, Waiwera narra que, ainda adolescente, foi levado à Serra das Andorinhas, próxima da aldeia, por um homem identificado como cabo Lima, para “caçar guerrilheiros”. Com o dorso nu pintado com pontos pretos a imitar o rasto de um caititu, Massara descreve, com a ajuda do tradutor, que durante “a guerra” ele foi obrigado a passar muitos dias na mata com fome.

Quando pergunto a qualquer um dos ex-mercenários Aikewara como eles lutaram e se no confronto houve vítimas, o clima pesa em torno de nós e os índios se mostram extremamente perturbados. Desviando o olhar, não param de repetir: “Índio tinha muito medo”. Eles admitem ter caçado os militantes do PCdoB – Umassu conta ter presenciado a prisão de Mariadina (Dinaelza Santana Coqueiro), cuja ossada continua desaparecida. E admitem ter visto corpos – Tawé diz que viu cadáveres, e Warini, que presenciou enterros à beira de uma estrada. Mas os Aikewara nada falam sobre as mortes. É como se existisse apenas o antes e o depois, e não o momento em que as vidas foram tiradas.

Para decifrar o limite dos índios, é preciso investigar outra ponta da história, a dos militares. Uma luz surge num documento inédito e de grande valor histórico produzido pelo coronel da reserva Aluisio Madruga de Moura e Souza, veterano dos combates no Araguaia. Num e-mail enviado a um amigo, também coronel da reserva, no dia 6 de abril de 2007, Madruga atesta que os índios de fato participaram da terceira e última campanha militar no Araguaia, a Operação Marajoara. Na mensagem, depois de tecer uma série de comentários sobre os combates, o coronel Madruga faz uma afirmação grave: “O único caso de cabeças cortadas – duas – que tenho conhecimento foi protagonizado pelos índios [da aldeia] Suruí já mais para o final da Operação Marajoara (…)”. Madruga diz também que o caso ficou “restrito” e que mesmo ele desconhece os detalhes.

É a primeira vez que um oficial que serviu no Araguaia atesta no papel que o Exército cooptou índios para a campanha contra a guerrilha. Mais: é a primeira vez que um oficial afirma, por escrito, que, ao cumprir sua missão, os mercenários mutilaram corpos.

Não há porque duvidar da autenticidade do e-mail. Primeiro, porque o endereço do remetente é o mesmo que Madruga usa para vender, pela internet, os livros de sua autoria sobre a luta armada. Segundo porque quem repassou a cópia da mensagem a GQ foi seu destinatário, que datou e assinou o papel de próprio punho.

O coronel Madruga, um carioca de cabelo cuidadosamente penteado e bigode triangular, não é um militar de passado ordinário na caserna. Ele serviu por 35 anos em algumas das instituições mais barra pesada da ditadura – DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna), SNI (Serviço Nacional de Informações) e CIE (Centro de Informações do Exército). Em 1973, sua experiência na caça a comunistas o levou ao Araguaia. Naquele ano, por seis meses, sob a patente de capitão e o codinome doutor Melo, Madruga participou do comando da Operação Sucuri, que levantou dados sobre a população local (como o grau de simpatia de cada morador em relação à guerrilha) e desvendou o esquema dos insurretos (localização, armamentos e estrutura). Na fase seguinte da campanha, com as informações obtidas pela Sucuri e a ajuda de mercenários (índios e brancos), o Exército dizimou, calcula-se, 56 guerrilheiros.

Hoje, Madruga prefere se calar. “Faz tempo que por decisão pessoal decidi esquecer o assunto Guerrilha do Araguaia”, diz ele. No livro que escreveu 29 anos depois da luta (Guerrilha do Araguaia – Revanchismo – a Grande Verdade), o coronel reconhece que a força terrestre contratou mateiros (homens que conhecem a mata profundamente) para servirem de guias das tropas. Nada diz, porém, sobre os Aikewara. Já no e-mail, ao citar as decapitações, ele insinua que a conduta teria sido de exclusiva responsabilidade dos índios. “(…) [O corte das cabeças de guerrilheiros] causou constrangimento na maioria [dos militares]. Mas índio é índio”, escreveu o coronel.

A suposta vexação dos militares em relação à mutilação de corpos não encontra sustentação na realidade. Uma prova viva disso se acha em Palestina, minúsculo e sombrio município do Pará, distante cerca de 120 quilômetros da aldeia Surui Sororó. Lá, num pequeno sítio com bananeiras, mangueiras e pés de milho, vive Sinésio Martins Ribeiro, de 86 anos, mateiro que serviu de guia para o Exército no Araguaia. Enquanto veste uma camisa para cobrir o dorso com a pele trincada de sol, ele dá um testemunho que ajuda a colocar mais uma peça no quebra-cabeça.

Ribeiro morava em São Geraldo do Araguaia, cidade paraense localizada na divisa com o atual Estado do Tocantins, quando, no final de 1973, o Exército chegou por lá arrepiando. “Queimaram nossas roças e mandaram a gente cortar os pés de banana. O Exército acabou com tudo”, relata. A estratégia das Forças Armadas era estabelecer o controle absoluto sobre a população local, por intermédio do terror, e impedi-la de continuar ajudando os guerrilheiros com alimentos, como vinha acontecendo havia anos. Ribeiro e cerca de 70 moradores da região, todos homens adultos, foram presos e levados para uma base militar montada em Xambioá, outro município do Bico do Papagaio. De acordo com o mateiro, nos dias que se seguiram, os presos foram espancados e alguns deles, obrigados a se sentar em formigueiros ou confinados em buracos escavados no chão e tampados com arame farpado, ao estilo da Guerra do Vietnã. Outros foram mortos. “Mataram muita gente sem necessidade”, diz ele.

As sessões de tortura e maus tratos eram intercaladas com triagens que visavam identificar os melhores mateiros da região – melhores de mata e melhores de tiro. Ribeiro se destacou. Depois de passar dois dias limpando armas do Exército e de mostrar aos militares a diferença de um bagaço de fruta comida por um humano, um boi e uma pipira (ave), ele foi selecionado. É Ribeiro quem conta: “O povo da mata estava isolado, ninguém sabia notícia deles. Aí, [os militares] me chamaram e disseram para eu descobrir onde eles [os guerrilheiros] estavam.”

Para sair dos suplícios da cadeia militar, Ribeiro aceitou a missão. Arregimentou então outros dois experientes mateiros, Iomar Galego e Raimundo Baixinho, e saiu à caça dos guerrilheiros levando como arma apenas a própria espingarda. Antes de partir, o grupo assistiu uma preleção. “Eles [os militares] davam um saco de plástico branco forte e diziam: ‘Derruba o papagaio e tira o bico dele’. Papagaio era como eles chamavam os guerrilheiros, e bico era a cabeça”, relata Ribeiro.

Sentado numa cadeira armada à sombra de uma árvore, o mateiro desenha no chão de terra de seu quintal, com os dedos, para melhor reconstituir a primeira operação do Exército da qual participou. Era final de 1973. Ele e seus companheiros varejavam um local de selva fechada, conhecido como Grota do Cristal, próximo ao município de São Raimundo do Araguaia (PA), quando avistaram três guerrilheiros. Sem serem notados pelos militantes do PCdoB, os mercenários atiraram. Dois insurretos conseguiram fugir, mas Arildo Aírton Valadão, o Ari, ex-estudante de física de 25 anos, caiu morto. No relato, diferentemente dos Aikewara, Ribeiro vai até o fim. “Tiramos a cartucheira e o relógio do Ari. Aí eu peguei meu facão e cortei a cabeça dele. Foi rápido”, conta o mateiro, sem demonstrar qualquer sinal de arrependimento ou orgulho. “Não é difícil, mas tem de arrancar os ossos.” O corpo mutilado foi deixado na Grota do Cristal; a cabeça, levada para uma base do Exército instalada próxima à aldeia Suruí Sororó e entregue a um militar conhecido como dr. César, provavelmente um codinome. “Era a ordem. Não podíamos passar por cima”, explica o mateiro.

Logo depois da operação que resultou na morte de Ari, a primeira realizada exclusivamente por não militares, o Exército soltou todos os moradores da região que ainda se encontravam presos. O tratamento dispensado pelo Exército à população local então mudou – ou, nas palavras de Ribeiro, “amoderou o sofrimento”. O mateiro, na verdade, passou a ser tratado como herói, tanto pela população local, que o via como responsável pela liberdade reconquistada, como pelos militares, que reconheceram nele uma expertise que não possuíam. “Eu cresci lá dentro [no Exército]. Passei a comer na mesa dos militares e tinha intimidade de falar com qualquer comandante”, descreve Ribeiro, agora sim com orgulho.

Diante do resultado considerado satisfatório na ação que terminou com a morte e degola de Ari, a força terrestre formou outros grupos de mercenários (mateiros e índios) e os enviou à mata. “Cortaram cabeças demais”, conta Ribeiro.

Numa dessas novas investidas, o mateiro confirma ter lutado ao lado de índios da aldeia Suruí Sororó. “Diziam que os índios conseguiam rastrear um veado num lajedo. Então, a pedido do Exército, o chefe deles [dos Aikewara] cedeu dois índios”. Ribeiro relata que, nos últimos dias de 1973, retornou à mata com esses dois índios, acompanhado de outros mateiros e alguns militares. Rastreia daqui, procura de lá, e mais uma vez Ribeiro se viu diante dos guerrilheiros, num confronto de vida e morte. “O povo da mata atirou primeiro, de mosquetão, e nós atiramos de volta”, narra ele. “Os índios ficaram assombrados e correram para dentro da mata, chorando. Eles eram frouxos.” (Possivelmente, os índios eram Tawé e Kuimuá, filho e pai que foram levados em pânico à mata. Na aldeia, Tawé foi o único a confirmar ter conhecido Ribeiro.) Terminado o tiroteio, ainda de acordo com o Ribeiro, um militar rastejou até a frente inimiga, encontrando o corpo de Jaime Petit da Silva, ex-professor de 28 anos. “O Jaime estava todo esbagaçado de tiro de FAL (Fuzil Automático Leve, arma utilizada apenas pelos militares)”, descreve o mateiro. Segundo Ribeiro, ele e seus companheiros decapitaram o guerrilheiro.

É verdade que, antes de aderir ao Exército, índios e mateiros foram torturados pelos militares. Mas é verdade também que os mercenários receberam recompensas pelos guerrilheiros abatidos. Quem afirma é Hugo Studart, historiador e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), observador independente do Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), criado pelo Ministério da Defesa para buscar os corpos dos guerrilheiros, e autor do livro A Lei da Selva: Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares na Guerrilha do Araguaia (Geração Editorial). “A tabela de preços, de 5 mil a 15 mil cruzeiros, variava de acordo com a importância e a localização do alvo”, diz o historiador, que prepara um segundo livro sobre a guerrilha. ”Os mateiros cortaram sete ou oito cabeças. Os índios mataram outros tantos, inclusive com decapitados. Ambos, mateiros e índios, foram obrigados a isso para sobreviver. Deve haver até nove corpos de guerrilheiros enterrados em algum ponto da reserva Suruí Sororó”, sustenta Studart.

Outra observadora do GTT que está em contato com os Aikewara, Maria Mercês Pinto de Castro, afirma que, por falta de preparo para o combate na selva, o Exército de fato terceirizou a luta no Araguaia, obrigando índios e mateiros a matar e a mutilar os guerrilheiros. “Todos os homens da região acima de 19 anos, índios e brancos, foram recrutados”, afirma ela. Maria Mercês viaja ao Araguaia desde 1979 a procura da ossada do irmão, o guerrilheiro Antônio Theodoro de Castro (Raul), ex-estudante de farmácia morto aos 28 anos. Hoje, ela auxilia os Aikewara nos processos que eles movem na Comissão da Anistia para receber, na condição de vítimas do regime militar, o benefício financeiro estabelecido pela lei.

Neste trecho da nossa História, a verdade é – e sempre será – perturbadora. Do mesmo modo que é correto dizer que os índios foram vítimas do Exército, é correto também admitir que foi a adesão dos índios à força terrestre que “assegurou-lhes a sobrevivência”. Quem diz isso é Roque de Barros Laraia, professor da UnB e ex-presidente da Associação Brasileira de Antropologia, maior especialista em índios Aikewara no Brasil, com 40 anos de estudos de campo na tribo.

De fato, o fim das operações militares no Araguaia, no início de 1975, coincidiu com uma melhora nas condições de vida dos índios. Em 1977, ainda na ditadura, finalmente a terra dos Aikewara foi demarcada pelo governo federal, alcançando 26,2 mil hectares (o equivalente a 26 mil campos de futebol ou ainda 5% da área de Brasília). É inegável que a posse definitiva da terra e a proteção do Estado trouxe para os índios uma estabilidade até então inédita. Dali em diante, mesmo estando no centro de uma região que crescia com desordem e violência, a aldeia sempre foi um oásis.

Nas duas décadas seguintes, num raio de 150 quilômetros a partir da reserva Suruí Sororó, a terra tremeu com quatro eventos, todos ocorridos no Pará: a construção da maior hidrelétrica 100% brasileira, Tucuruí (1975-84); a invasão de Serra Pelada por 80 mil garimpeiros (1980-92); o início da exploração da maior reserva de mineiro de ferro do mundo, Carajás (1980); e o massacre de 19 sem-terra em Eldorado de Carajás, o pior conflito no campo ocorrido no Brasil (1996). Na região que cerca a aldeia, é possível encontrar hoje, sem grande esforço, quase todos os sinônimos de tragédia social: altos índices de violência, prostituição infantil, extração ilegal de madeira, garimpo, mineração, conflitos por disputa de terra, desmatamento, queimadas, tráfico de drogas, tráfico de armas etc. Não se pode dizer que os Aikewara estejam completamente imunes a tudo isso, mas a vida na aldeia segue tranquila.

Em sua porção de terra, última área de mata nativa da região, os índios têm escola bilíngue, posto de saúde, água encanada e eletricidade. Já são trinta as casas de alvenaria, todas com puxadinho (uma oca de palha e madeira).

De acordo com levantamento feito pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), a aldeia abrigava 330 índios no ano passado. Hoje são aproximadamente 400, segundo os próprios Aikewara. Com o fim da disputa por terra com os Kayapó Xicrin, a tradição de evitar o segundo filho de colo e o infanticídio foram abolidos. As crianças são muitas e brincam descalças na terra fingindo serem onças.

Entre crianças, jovens e adultos, antigos hábitos permanecem inalterados: eles ainda pintam o corpo com tinta de jenipapo e urucum e dançam o Saporahái, evocando seu herói mítico, Mahyra, pai do sol e da lua. E, entre eles, falam preferencialmente o tupi-guarani.

As histórias que os velhos gostam de contar não têm guerrilheiros nem soldados. Só animais que fazem uma grande escada com as flechas dos índios para poder dançar no céu.

Não é difícil entender por que os índios preferem manter no passado o que no passado aconteceu. Mas para uma instituição como as Forças Armadas a coisa não é tão simples assim. Jorge Zaverucha, cientista político e coordenador do Núcleo de Estudos de Instituições Coercitivas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), defende que a cooptação de índios e de mateiros pelo Exército seja investigada e seus autores, punidos. “Mesmo nas guerras há regras, como a Convenção de Genebra. Mutilar é crime, pois o inimigo já está derrotado, no caso morto.”

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[ARQUIVO DE REPÓRTER – 1] O livro secreto do Exército

Na inauguração da série Arquivo de repórter, a primeira matéria do conjunto que me deu o Prêmio Esso de Reportagem de 2007: O livro secreto do Exército.

É uma história incrível. Em 1998, quando fazia a pesquisa do meu segundo livro, Ministério do Silêncio, tomei conhecimento da existência deste importante documento secreto do Exército, que continha a até então inédita versão da força terrestre sobre a luta armada. Na época, tentei obtê-lo mas não consegui. Não era tarefa fácil: havia apenas 15 cópias que circulavam de mão em mão num círculo fechadíssimo de militares e civis de extrema direita.

Ministério do Silêncio foi lançado, em 2005. Nele, fiz apenas uma vaga menção ao Livro secreto do Exército.

Nos anos seguintes, continuei a perseguir o documento. A cada tentativa, novo fracasso.

Em 2007,  ao visitar uma fonte da área militar, ele me levou até a biblioteca de sua casa e começou a mostrar seu acervo. Na estante, estava o Livro secreto do Exército, encadernado artesanalmente. Soube então que minha fonte era um dos 15 guardiões do documento. Depois de alguma insistência, a fonte aceitou emprestar o documento.

Depois de 19 anos sendo mantido em sigilo, finalmente o Livro secreto do Exército seria tornado público.

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Livro secreto do Exército é revelado

Lucas Figueiredo, para o Estado de Minas e Correio Braziliense (15/4/2007)

O mistério que dura duas décadas chega ao fim. Há 19 anos, uma dúzia de oficiais da reserva esconde uma espécie de “santo graal” da linha-dura das Forças Armadas: um livro produzido pelo serviço secreto do Exército, que conta o que seria “a verdade” sobre a luta armada promovida por organizações de esquerda, entre 1967 e 1974. A obra nunca foi publicada e até mesmo seu título foi mantido em sigilo. Alguns poucos exemplares artesanais passaram de mão em mão, num círculo fechado. Apenas 40 páginas da obra (menos de 4% do total) circulam livremente pela Internet, postadas no site do grupo Terrorismo Nunca Mais (Ternuma), que reúne militares e civis de extrema direita.

A reportagem do Correio/Estado de Minas obteve uma cópia do megadocumento, que tem 966 páginas divididas em dois tomos. A obra tem uma enorme importância histórica. Ela comprova, por exemplo, que o Exército possui informações sobre mortos e desaparecidos políticos que oficialmente nega ter (leia reportagem às páginas 3 e 4). Contém ainda mentiras, manipulações, mas também verdades incômodas, tanto para as Forças Armadas quanto para organizações de esquerda.

A obra começou a ser feita em 1986 como forma de responder às acusações contidas no livro Brasil: Nunca Mais, lançado no ano anterior, pela Arquidiocese de São Paulo, para denunciar a tortura e o assassinato de presos políticos na ditadura militar (1964-1985). Durante dois anos, por ordem direta do então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, cerca de 30 oficiais do Centro de Informações do Exército (CIE) — o serviço secreto da Força — trabalharam de forma sigilosa no chamado Projeto Orvil (orvil é a palavra livro ao contrário). Quando o livro ficou pronto, em 1988, foi batizado com o título de As tentativas de tomada do poder. Na época, porém, Leônidas desistiu de publicar a obra, que, rebatizada como Livro negro do terrorismo no Brasil, acabou se tornando uma relíquia militar.

Os dois tomos do livro secreto

Ao descrever o dia-a-dia de dezenas de organizações de esquerda, o livro cita mais de 1.700 pessoas, muitas delas ainda em atividade, como o ministro Franklin Martins (Comunicação Social), o ex-ministro José Dirceu, o governador José Serra (São Paulo) e o cantor e compositor Chico Buarque. Os dados, como é dito na apresentação do livro, foram retirados de documentos dos arquivos secretos militares.

Quatro fontes distintas comprovam que é autêntica a cópia obtida pelo Correio/Estado de Minas:

1) Trechos do livro foram copiados de documentos secretos do próprio Exército. Um caso concreto: nas páginas 721 e 722, está escrito: “A localidade de Santa Cruz, por exemplo, dista 600 km da sede do município, em Conceição do Araguaia, e a única ligação existente entre elas é o rio, demorando a viagem entre uma localidade e outra uma média de 5 dias”. Texto praticamente idêntico aparece em documento do Exército de 30 de outubro de 1972, classificado como secreto: “(…) A localidade de Santa Cruz dista 600 km da sede do município em Conceição do Araguaia e a viagem pelo rio, único meio de ligação, demora da ordem (sic) de 5 dias”.

2) Outros trechos do livro — como o relato do seqüestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em 1970 — são cópias ou adaptações de textos publicados no site do grupo do Ternuma (www.ternuma.com.br), guardião da obra.

3) Consultadas pelo Correio/Estado de Minas, pessoas citadas no livro — entre elas Cid Queiroz Benjamim e Maurício Paiva, que participaram da luta armada — apontam erros e manipulações na obra, mas confirmam a veracidade de inúmeros detalhes, que ainda não são de conhecimento público.

4) Um oficial do Exército que possui um exemplar do livro confirmou que a cópia em poder da reportagem é autêntica.

Durante dois meses, o Correio/Estado de Minas confrontou o conteúdo do livro secreto do Exército com outras 12 obras de referência histórica e com dezenas de documentos das Forças Armadas. Também entrevistou 32 pessoas envolvidas direta ou indiretamente com os fatos narrados. O resultado do trabalho começa a ser publicado a partir de hoje numa série de reportagens especiais. O Livro negro do terrorismo no Brasil agora faz parte da história.

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O relato inédito sobre 23 mortos

Há mais de 30 anos o Exército nega ter informações sobre as condições em que morreram e/ou desapareceram centenas de pessoas ligadas a organizações de esquerda durante a ditadura militar (1964-1985). Em pelo menos 23 casos, contudo, é falsa a versão de que do Exército nada sabe. A prova está no livro secreto produzido pela Força entre 1986 e 1988. A obra do Exército desmente o próprio Exército ao relatar o destino de 16 guerrilheiros do PCdoB na região do Araguaia (Pará) e de outros sete militantes — três do Movimento de Libertação Popular (Molipo), três da Vanguarda Popular Revolucionário (VPR) e um da Ação Libertadora Nacional (ALN) — em diversos pontos do país e até o exterior.

João Carlos Haas Sobrinho (esq.) pouco antes de se juntar à Guerrilha do Araguaia

Os relatos contêm informações corretas e falsas. O Exército omitiu, por exemplo, o dado de que vários foram mortos quando se encontravam presos. Mas, quando se ateve a colocar no papel informações verídicas, chegou a dar detalhes. É o que acontece, por exemplo, no relato da morte de seis guerrilheiros no Araguaia (Ciro Flávio Salasar de Oliveira, Manoel José Nurchis, João Carlos Haas Sobrinho, Francisco Manoel Chaves, José Toledo de Oliveira e Antônio Carlos Monteiro Texeira). Ao descrever os últimos momentos dos seis guerrilheiros, o livro informa a quais batalhões pertenciam os militares que os mataram (6º e 10º Batalhão de Caça).

No livro, o Exército também narra a prisão de Boarnerges de Souza Massa (Molipo) e Kleber Lemos da Silva (PCdoB), cujos corpos nunca foram encontrados. O fato reforça o indício de que ambos foram assassinados quando se encontravam presos. O caso de Boanerges é ainda mais revelador. Sabia-se apenas que ele treinara guerrilha em Cuba e que desaparecera ao voltar clandestino ao Brasil em 1971. Desconhecia-se, porém, se tinha sido preso, se morrera em combate ou se simplesmente deserdara. Sabe-se agora, de acordo com a página 607 do livro secreto do Exército, que naquele ano ele “foi preso em Pindorama, em Goiás, utilizando nome falso”, e que passou por interrogatórios.

Outro trecho revelador do livro refere-se a Wânio José de Mattos, integrante da VPR que desapareceu no Chile em setembro de 1973, após o golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende. Só em 1992, quando os arquivos chilenos foram abertos, a família foi informada pelas autoridades daquele país que, por falta de atendimento médico, Wânio morrera de peritonite aguda no Estádio Nacional, onde se encontrava preso. Contudo, pelo menos quatro anos antes da abertura dos arquivos chilenos, o Exército brasileiro já tinha conhecimento da versão, como mostra a página 788 do livro secreto. O trecho em que se lê “Wânio José de Mattos morreu no Chile, em 1973, com `peritonite´”, é mais uma prova de que, a partir do início da década de 1970, as ditaduras latino-americanas atuavam em estreita sintonia na guerra suja que travavam sobre seus opositores, parceria que ficou conhecida com o nome de Operação Condor.

Das 23 mortes relatadas no livro secreto do Exército e que ainda não tinham sido assumidas oficialmente pela Força, 22 corpos nunca foram encontrados. Se o Exército tem uma versão para essas 22 mortes, é presumível que tenha informações do que foi feito com os corpos.

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Cronologia do Projeto Orvil

1985

O então presidente José Sarney

José Sarney toma posse na Presidência, pondo fim a 21 anos de ditadura militar. No mesmo ano, a Arquidiocese de São Paulo lança o livro Brasil: nunca mais, com relatos de tortura e assassinato de presos políticos ocorridos durante a ditadura.

1986
Para responder ao Brasil: nunca mais, o ministro Leônidas Pires (Exército) manda o serviço secreto da Força produzir um livro com a versão dos militares para a luta armada. Inicia-se assim o Projeto Orvil (a palavra livro ao contrário).

1988
O livro do Exército fica pronto e é batizado com o título As tentativas de tomada do poder. Leônidas (foto), contudo, volta atrás e decide não publicá-lo. O documento então passa a circular entre militares da reserva rebatizado de Livro negro do terrorismo no Brasil.

2000
Integrantes do grupo de extrema direita Terrorismo Nunca Mais (Ternuma), que reúne militares e civis, têm acesso ao livro e colocam na internet cerca de 40 páginas da obra. Não informam, porém, a origem dos textos.

2007
O Correio/Estado de Minas obtém uma cópia do livro. Com 966 páginas, o documento cita mais de 1,7 mil pessoas ligadas a organizações de esquerda, muitas delas ainda em atividade. A obra comprova que o Exército esconde informações sobre desaparecidos.

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Suzana Lisboa

Processos podem ser reabertos

As informações contidas no livro secreto do Exército podem provocar a revisão de casos já apreciados pela Comissão Especial que julga a responsabilidade do Estado na morte e desaparecimento de ativistas políticos. A opinião é de Suzana Lisboa, ex-membro da Comissão Especial e integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Ela cita o caso de Wânio José de Mattos, que, segundo o livro do Exército, morreu de peritonite no Chile, em 1973, quando se encontrava preso no Estádio Nacional. A mesma versão só foi tornada pública pelas autoridades chilenas em 1992, ou seja, quatro anos após a conclusão do livro secreto do Exército. “A Comissão Especial negou a indenização no caso de Wânio por considerar que o Estado brasileiro não tinha relação com a morte. Pelo que revela o livro do Exército, no entanto, vê-se agora que essa relação existia”, afirma Suzana.

Para ela, o Ministério Público deve inquirir militares que participaram da elaboração do livro, a começar pelo ex-ministro Leônidas Pires Gonçalves, a fim de que eles esclareçam como a obra foi feita e como cópias dela chegaram às mãos de particulares. “A história do país foi roubada por uns poucos”, diz Suzana. “Sempre se soube que esse livro existia, mas ele nunca tinha sido manuseado fora do meio militar. É importante que o Exército responda algumas questões: Onde estão os documento que serviram de base para o livro? Quem colaborou na realização do livro? Quanto custou? Como foi parar nas mãos de terceiros?”

Conselheira da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos e presidente do grupo Tortura Nunca Mais da Bahia, Diva Soares de Santana também considera que o Exército deve explicações em relação ao livro secreto. “O livro foi feito com dinheiro público, por isso os militares têm a obrigação de abrir as informações referentes a ele”.

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Livro era uma arma, diz general

“Eu disse ao (José) Sarney: ‘Eu fiz esse livro. É uma arma que eu tenho na mão’.” Às vésperas de completar 86 anos, saudável e com a memória preservada, o general da reserva Leônidas Pires Gonçalves relembra, em entrevista ao Correio/Estado de Minas, o dia em que, na condição de ministro do Exército, se reuniu com o presidente da República para discutir o que fazer com a versão oficial dos militares para a luta armada que o serviço secreto do Exército acabara de concluir. “Falei para o Sarney que não ia publicar o livro. Para que criar um problema que não existe?”, recorda Leônidas. “Esse livro”, concluiu o general na conversa com o presidente, “fica como um documento, que nós (militares) podemos ter a necessidade (de divulgar) no futuro.” De acordo com Leônidas, Sarney concordou e ambos deram o caso por encerrado.

General Leônidas Pires Gonçalves

Quais seriam as “necessidades” a que se refere Leônidas? É o próprio general quem explica: atos de “revanchismo” contra as Forças Armadas por parte de “quem perdeu a guerra”. “Naquele tempo (em que o livro foi feito), não havia o que acontece agora, um revanchismo sem propósito”, afirma ele. “No meu período como ministro (1985-90), não houve nenhum problema dessa natureza, essas ‘mães não-sei-do-quê’, (grupos do tipo) Tortura: nunca mais.”

Leônidas confirma que partiu dele a ordem para fazer o livro. Diz, porém, que não ficou com nenhum exemplar. “O livro foi feito pelo CIE (Centro de Informações do Exército, serviço secreto da Força) com base nos documentos que o órgão dispunha”, afirma. O general é categórico ao comentar a suposta destruição de documentos do CIE, que, segundo vem argumentando o Exército nos últimos anos, impediria a divulgação de informações referentes ao combate às guerrilhas urbana e rural nas décadas de 1960 e 1970: “Foram queimados coisa nenhuma”.

Na opinião de Leônidas, o Exército não tinha a obrigação de mostrar o “livro negro” a ninguém, já que a obra não foi publicada. “Isso é passado. Vamos olhar para frente”, sugeriu. O general critica os guerrilheiros do Araguaia — “A pergunta é: o que eles estavam fazendo lá? Fazendo um enclave, que é uma coisa lesa-pátria. O resto é conversa fiada” —, critica antigos companheiros de desaparecidos políticos — “Nós cuidamos dos nossos mortos. Eles deviam ter cuidado dos mortos deles” — e critica também os familiares — “Por que não perguntam o que seus filhos estavam fazendo lá? Por que não perguntam se mereciam ou não mereciam, na luta, serem mortos?”

Ainda em relação ao Araguaia, Leônidas chama de “guerra” o enfrentamento que ocorreu entre as Forças Armadas e os guerrilheiros do PCdoB. “O que resulta de guerra? Morte. Essas coisas são conseqüências muito naturais. Eles (os grupos de esquerda que participaram da luta armada) perderam a guerra e agora querem ganhar no tapetão”, afirma. De acordo com ele, o número de ativistas políticos de esquerda mortos durante o regime militar — cerca de 350 — foi até pequeno se comparado ao que aconteceu nas ditaduras do Chile, 3 mil mortos, e Argentina, 30 mil mortos. “Nossa vitória, do ponto de vista de (perda de) vidas humanas, foi muito sóbria.” Por fim, conclui: “Na guerra só há uma coisa bonita: a vitória. O resto não é bonito”.

Na quarta-feira, o Correio/Estado de Minas entrou em contato com o Ministério do Exército, que solicitou que perguntas referentes ao caso fossem enviadas por escrito, o que foi feito no mesmo dia. Até a noite de sexta-feira, porém, as respostas não haviam chegado. O senador e ex-presidente José Sarney informou, por meio de sua assessoria, que não se lembra do livro. O grupo Terrorismo nunca mais (Ternuma), uma espécie de guardião do Livro negro do terrorismo no Brasil, não respondeu questionário enviado pela reportagem. (LF)

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Famílias exigem corpos

Ouvidos pelo Correio/Estado de Minas, familiares de mortos e desaparecidos políticos citados no livro reivindicam a abertura dos documentos que embasaram a obra para que possam localizar os restos mortais de seus parentes:

Clélia de Melo (irmã de Alcery Maria Gomes da Silva):

Alcery Maria Gomes da Silva

“Minha irmã foi enterrada como indigente e, por isso, não soubemos de nada referente a ela durante muito tempo. Andamos em círculos durante anos para conseguir informações. Só fomos conseguir o atestado de óbito em 1995, mesmo assim depois de muito esforço. Se esse livro tivesse vindo a público, teríamos conseguido o atestado de óbito antes. Nunca conseguimos reaver o corpo de minha irmã. Machuca saber das coisas que estão escritas nesse livro, mas é sempre bom saber um pouquinho mais. A verdade precisa aparecer”

Baltazar Oliveira (irmão de Antônio dos Três Reis Oliveira):

Antônio dos Três Reis Oliveira

“Na década de 1970, minha família fez contatos com o Exército para saber o que tinha acontecido com meu irmão, mas eles negaram ter qualquer informação. Nunca tivemos uma posição oficial em relação à morte de meu irmão. O Exército escondeu durante todo esse tempo que tinha as informações que agora aparecem no livro. O Exército sabe onde estão os restos mortais do meu irmão. É importante que esse livro venha à tona. É preciso acabar com essa história de desaparecidos políticos no Brasil. O que queremos é dar um sepultamento digno para nossos parentes”

Joelson Crispim

Olga Crispim Lobo Bardawil (irmã de Joelson Crispim):
“Meu irmão tinha 22 anos quando morreu, e minha família ficou marcada por esse acontecimento pelo resto da vida. Ficou uma sombra nas nossas vidas. Em relação ao livro, deve vir a público toda informação que por direito é pública. Se o livro foi baseado em documentos, como parece ter sido, onde estão eles? Devem estar guardados em arquivos. A única resposta que eu quero saber é onde eles enterraram meu irmão. Está na hora de as famílias dos desaparecidos políticos poderem botar um ponto final nesse luto. Nós temos esse direito”

Criméia Alice Schmidt de Almeida (viúva de André Grabois):

André Grabois

“Está claro que esse livro foi feito com base em documentos. Ninguém guarda de memória tantas informações. Esse livro foi produzido pelo serviço público, por ordem do serviço público, mas ficou com particulares, o que é um absurdo. Ele deveria ter sido publicado. O governo não pode produzir livros secretos. Chega de coisas secretas”

Sônia Haas (irmã de João Carlos Haas Sobrinho):
“Se esse livro traz novidades, informações novas às quais nunca tivemos acesso, por que não fomos informados? Por que não temos acesso a ele? Esse livro tem de ser um instrumento de pesquisa para nós, tem de ser socializado. Apesar do desgaste pelo qual passamos todos esses anos na busca dos restos mortais de meu irmão, notícias como essa sempre despertam uma fagulha de esperança de que um dia essa busca terminará. A localização dos restos mortais de nossos parentes é um compromisso social, de justiça, de história. Temos direito a isso”

Marida Toledo de Oliveira (irmã de José Toledo de Oliveira):

José Toledo de Oliveira

“O Exército tem de se manifestar. Onde eles pegaram as informações que estão no livro? Eles agora têm de abrir os documentos em que o livro se baseou. O arquivo ainda deve existir”.

Francisco José de Oliveira

Nella Oliveira Menin (irmã de Francisco José de Oliveira):
“Não obtive uma versão da morte do meu irmão por parte do Exército. Nunca falaram nada. O governo Lula falou que ia liberar os arquivos, mas até agora nada”

Helenalda de Souza (irmã de Helenira Resende de Souza):

Helenira Resende de Souza

“De acordo com os relatos que ouvi, minha irmã foi torturada antes de ser morta. No livro não está escrito isso, mas, se o Exército assume que ela foi morta, certamente sabe também como isso aconteceu. Os militares sempre disseram que não tinham informação sobre minha irmã, mas o livro prova que eles mentiram. A notícia de que esse livro existe reforça a necessidade de o Exército abrir seus arquivos secretos”

Boanerges de Souza Massa

Cyro Massa (irmão de Boanerges de Souza Massa):
“Na época em que Boanerges desapareceu, minha família não foi informada da sua prisão. É público que, na prisão, utilizava-se da tortura para que os presos contassem o que sabiam. O que eu quero saber é onde está o corpo do meu irmão. Essa informação vai ter de sair dos arquivos”

Maria de Lourdes Oliveira (sobrinha de Ciro Flávio Salazar de Oliveira)

Ciro Flávio Salazar de Oliveira

“Há várias versões para a morte do meu tio. Não sabemos direito o que aconteceu. Deve haver documentos guardados que esclareçam isso. É uma vergonha. As pessoas têm o direito de enterrar seus mortos. Muitos pais já faleceram sem saber o que tinha acontecido com seus filhos. É um ponto importante da nossa história que precisa ser revelado”

Kleber Lemos da Silva

Norival dos Santos Silva (irmão de Kleber Lemos da Silva):
“É bom que tudo isso venha a público”

Maristella Nurchis (irmã de Manoel José Nurchis):
“A descrição da morte de meu irmão que está no livro confere com os relatos que escutei. Agora o Exército precisa se manifestar”.

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Quando o jornalismo incomoda (IV)

Adalberto Monteiro, presidente da Fundação Maurício Grabois, publicou no site da entidade e no Vermelho.org artigo em que contesta a reportagem de minha autoria sobre do diário de Maurício Grabois (CartaCapital #643, de 27/04/2011). O artigo de Monteiro segue abaixo, na íntegra.

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Maurício Grabois e o heroísmo na selva

Em matéria do jornalista Lucas Figueiredo intitulada “Devaneio na selva”, a revista CartaCapital, edição 643, comenta de forma superficial e preconceituosa o que seria o diário de Maurício Grabois. Ao longo do texto, o comandante da Guerrilha do Araguaia é descrito como um indivíduo fora da realidade, autoritário com seus comandados e dado a veleidades. Esse tipo de abordagem deriva de um enfoque tacanho, segundo o qual nenhum personagem da história nacional parece ter qualquer valor — exceto, é claro, as figuras emblemáticas dos de “cima”.

Maurício Grabois, já na sua juventude, como aluno da Escola Militar do Realengo, no Rio de Janeiro, atuou corajosamente junto ao grupo de militares de orientação patriótica e democrática que se formava. O golpe do Estado Novo, em 1937, fez com que recuasse para a clandestinidade e, como dirigente do setor de comunicação da juventude comunista, assumiu o papel de manter, com outros jornalistas, o lendário jornal A Classe Operária. Sobreviveu às mais duras provas impostas pela orientação fascista dos setores que comandavam a repressão no Estado Novo e emergiu, com a alteração da correlação de forças que levaria à redemocratização do país em 1945, como um dos articuladores do movimento democrático que pôs fim àquela ditadura.

Eleito deputado para a Assembléia Nacional Constituinte de 1946, foi indicado líder da bancada comunista por um colegiado de parlamentares integrado por nomes como Jorge Amado, João Amazonas, Carlos Marighella e Luiz Carlos Prestes. A atuação parlamentar de Grabois, revela o Diário do Congresso, mostra sua capacidade teórica e política, reconhecida até pelos seus mais ferrenhos adversários ideológicos. Era respeitado por sua lealdade, por sua justeza no trato com as divergências e por sua cordialidade. Prova disso foi o socorro oferecido por Otávio Mangabeira, liderança destacada da União Democrática Nacional (UDN), quando acolheu Grabois e Prestes em seu apartamento no Hotel Glória para protegê-los de uma feroz caçada logo após a cassação dos mandatos dos eleitos pelo Partido Comunista do Brasil.

Segundo Jorge Amado, Grabois era, de todos os parlamentares comunistas, o de maior vocação, “um brilhante deputado”. “Não da mesma forma que era brilhante Marighella: diferente, menos zombador, mais malicioso”, escreveu. “Recordo ainda hoje um discurso que Maurício pronunciou às vésperas da cassação da bancada comunista, respondendo a Flores da Cunha que nos acusara de traidores da pátria. Um primor de discurso, de exemplar dignidade”, registrou Jorge Amado, enfatizando que, além de companheiros, foram amigos.

Jorge Amado descreveu Grabois como uma pessoa que sabia ouvir, “hábito raro em geral e ainda mais num dirigente”. Como parlamentar e jornalista — relançou, em 1946, o jornal A Classe Operária e dirigiu politicamente um complexo de comunicação que abrangia jornais locais espalhados por todo o país, a Tribuna Popular (de circulação nacional), duas editoras (a Vitória e a Horizonte), a revista Problemas, uma agência de cinema e uma agência de notícias — deixou uma vasta e respeitada obra que analisa diferentes aspectos da realidade brasileira. Muito do que escreveu serviu de orientação política para ajudar nos embates que garantiram a passagem do país pelos governos de Juscelino Kubitscheck e João Goulart, em seu início, sem retroceder ao regime de força que combatera no final dos anos 1930.

Seus escritos de 1960, no aceso debate do V Congresso do Partido Comunista do Brasil — que levaria à cisão das fileiras comunistas e à reorganização do Partido em 1962 —, ainda hoje são referências para quem quer estudar a evolução histórica das forças patrióticas e democráticas em nosso país. Quando veio o golpe de 1964, Maurício Grabois estava entrincheirado no jornal A Classe Operária, mais uma vez relançado por ele no início dos anos 1960, fazendo o que mais sabia: a defesa da democracia e o combate ao arbítrio que batia às portas da República. Rompida a resistência, com o golpe, Grabois ocupou outras trincheiras — diante da impossibilidade da luta política legal nas regiões urbanas, estabeleceu-se na região do Araguaia, onde foi um dos primeiros a chegar para organizar uma forte linha de resistência à escalada de violência dos golpistas de 1964.

Jorge Amado lembra dessa fase da vida de Grabois com reverência.“A última vez que o vi, foi em Cuba. Veio comentar comigo uma entrevista que eu dera a um jornal de lá. Depois vieram os anos da ditadura militar, eu soube de Maurício apenas notícias vagas, até que alguém me informou que ele morrera, numa guerrilha, no Araguaia. Eu sempre vira nele mais um intelectual do que um soldado. Mas não admirei que morresse guerrilheiro: escolhera seu caminho e o trilhou até o fim. Haja o que houver, me disse um dia.” O comandante da Guerrilha do Araguaia morreu no final da manhã do dia 25 de dezembro de 1973, aos 61 anos, de arma em punho, se defendendo de um ataque infame comandado pelo que havia de mais reacionário no país.

Quem conhece a vida de Maurício Grabois sabe que seu nome está inscrito na lista dos que dedicaram suas vidas ao estudo da realidade do país e às ações que buscam abrir caminhos para transformar o Brasil em uma nação soberana, democrática, próspera e socialista. Como dirigente daquele movimento guerrilheiro, Grabois foi estimado pelos camponeses do Araguaia. Respeitava e era respeitado pelos seus comandados. Ao contrário da repressão, ele e os guerrilheiros que liderava não admitiam atrocidades e violações de direitos, mesmo com as ações armadas deflagradas.

Esta Fundação, que tem Grabois como seu patrono, vem a público manifestar sua oposição ao conteúdo que CartaCapital deu na repercussão do que seria o diário de Grabois, subestimando e distorcendo seu papel no comando daquela resistência. Reforça que a Guerrilha do Araguaia ainda é uma vasta fonte de pesquisa e de análise para garantir o direito à verdade e à memória dos que ali deram a vida no combate ao regime de terror que moldou o golpe de 1964. A Guerrilha do Araguaia foi um acontecimento que vai sendo dimensionado na medida em que dados novos são revelados. Será mais ainda quando os arquivos da ditadura forem abertos.

Sabemos que as interpretações de fatos históricos encerram opiniões distintas, o que é salutar em um ambiente democrático. Todo trabalho nesse sentido deve ser louvado. Mas a matéria de CartaCapital não se limita a uma opinião. Ela resvala para a adulteração dos fatos. Para interpretar a Guerrilha do Araguaia e outros movimentos de resistência armada, temos de considerar que foram atitudes que expressaram a consciência de boa parcela do pensamento avançado e democrático brasileiro. Havia, naquela conjuntura, um questionamento natural sobre se haveria ou não uma tomada de atitude frente à escalada da violência contra toda e qualquer forma de oposição.

A democracia que o país respira hoje resulta de uma convicta resistência ao regime discricionário de 1964, da qual a Guerrilha do Araguaia é parte destacada. Daí o estranhamento causado pela matéria de CartaCapital, um veículo de comunicação que conta com respeitáveis articulistas e destoa do coro do pensamento único propagado pelo monopólio midiático. A matéria não contribui para situar a memória desse grande brasileiro no lugar devido.

Esta Fundação, ao mesmo tempo em que rejeita o tratamento de CartaCapital ao legado de Grabois, enfatiza seu propósito de contribuir para o resgate da memória dos que deram suas vidas na luta pela democracia. Reforça também uma de suas principais bandeiras atuais: a garantia de justiça aos camponeses e seus familiares que sofreram as mais inomináveis crueldades no processo de repressão à Guerrilha do Araguaia.

É necessário denunciar a perversidade da liminar que suspende as indenizações determinadas pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e lutar por sua revogação. Do mesmo modo, mantemos firme atuação no sentido de que os restos mortais dos guerrilheiros e camponeses desaparecidos no Araguaia (e das demais vitimas da ditadura) sejam resgatados para que seus familiares tenham o sagrado direito de dar-lhes um funeral honroso.

A Fundação Maurício Grabois conclama ainda à luta pela aprovação da Comissão da Verdade, para que se efetivem os trabalhos de resgate da memória dos patriotas e democratas que deram suas vidas pela causa da democracia. O tom preconceituoso e superficial da matéria sobre o que seria o diário de Grabois, no entanto, em nada contribui nesse sentido.

No Brasil, as elites têm tido a prática recorrente de tentar soterrar a memória da nação. Com tal atitude, buscam encobrir crimes cometidos contra o povo e ocultar as referências históricas capazes de impulsionar a luta pelo progresso. Um jornalismo digno desse nome contribuiria bem mais para o triunfo da justiça e o combate ao legado da ditadura se aprofundasse o assunto, resgatando a verdadeira memória de Maurício Grabois e de tantos outros que deram suas vidas na luta pela redemocratização do país.

* Adalberto Monteiro é jornalista, presidente da Fundação Maurício Grabois

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Quando o jornalismo incomoda (III)

Bertolino agora ameaça ler minha nova reportagem com "lupa de precisão". Como é certo que não vai entender o que escrevi, é possível que não goste

Começo a entender por que Osvaldo Bertolino, funcionário da Fundação Maurício Grabois, me ataca: ele não entende as coisas que escrevo.

Em texto publicado em seu blog e no Vermelho.org, Bertolino afirma (Fantasia? Imagina? Torce?) que com meu post Quando o jornalismo incomoda (II) dei como encerrado o debate que travamos em torno da reportagem de minha autoria (Devaneio na selva) publicada na CartaCapital de 27 de abril. De onde Bertolino tirou isso?

Julgando-me ausente da arena, ele volta aos ataques histéricos – coisa de quem não tem argumentos – ao dizer que, praticando “jornalismo marrom”, manchei as biografias e demonizei o legado dos guerrilheiros do Araguaia.

Bertolino se parece com aqueles soldados japoneses que viveram isolados, durante décadas, imaginando que a Segunda Guerra não havia acabado. Bertolino ainda vive sua guerrilha. Está dentro das matas do Araguaia, com sua caneta nas mãos, esperando as tropas de Médici. Acredita que com sua luta derrotará o imperialismo ianque e finalmente colocará o Brasil no rumo da Albânia e da China comunistas.

Alguém precisa avisá-lo que a guerrilha acabou, que a ditadura não existe mais. E que hoje, 36 anos depois, já é possível analisar a Guerrilha do Araguaia com a distância que a boa pesquisa exige.

Afirmar, com base em documentos, que as Forças Armadas cometeram crimes na ditadura não significa enxovalhar os militares. Assim como dizer que, com base no diário que escreveu, que Maurício Grabois errou (e muito) como dirigente partidário e comandante militar não diminui sua importância na resistência à ditadura.

Em seu novo texto, Bertolino afirma que vai ler com “lupa de precisão” a nova reportagem de minha autoria, publicada na CartaCapital desta semana, sobre mais um crime dos militares na ditadura: o sequestro de bebês, filhos de guerrilheiros desaparecidos. Não espero grande coisa de sua análise. Bertolino acha feio tudo aquilo que não é espelho. Só entende as coisas que ele mesmo escreve.

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Cresce a lista dos crimes da ditadura: os sequestros dos bebês do Araguaia

A edição de CartaCapital que acaba de chegar às bancas traz nova reportagem de minha autoria sobre a Guerrilha do Araguaia. Nela, relato mais um crime da ditadura: militares sequestraram  bebês, filhos de guerrilheiros mortos e desaparecidos.

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Quando o jornalismo incomoda (II)

Segundo Bertolino, esse sou eu

“Diário de Maurício Grabois: resposta de Lucas Figueiredo tem pernas curtas”. Esse é o título do texto que Osvaldo Bertolino publica em seu blog como contraponto ao post que escrevi abaixo (Quando o jornalista incomoda). Bertolino ilustrou seu texto com o desenho ao lado, de Pinóquio. Nada do que diz me faz alterar uma letra do que afirmei no post abaixo. Como parte para a agressão escancarada, não merece resposta. Contudo, transcrevo na íntegra o texto de Bertolino para que os leitores  façam seu próprio julgamento.

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Diário de Maurício Grabois: Resposta de Lucas Figueiredo tem pernas curtas

Quem jacta-se de si mesmo pouco tem do que jactar-se. A frase atribuída a Honoré de Balzac cai como uma luva para o título “Quando o jornalismo incomoda” da resposta do jornalista Lucas Figueiredo em seu blog (https://lfigueiredo.wordpress.com/2011/04/28/quando-o-jornalismo-incomoda/) aos comentários que fiz sobre sua matéria na revista CartaCapital comentando o suposto diário de Maurício Grabois (http://www.outroladodanoticia.com.br/inicial/12774-mauricio-grabois-e-os-devaneios-de-um-jornalista-da-cartacapital.html#comment-710). O que menos existe em sua argumentação é jornalismo.

Já de saída ele recorre a uma manobra diversionista ao declarar que “vinda de dois flancos que se abrigam numa mesma trincheira” recebeu “uma saraivada de críticas”. (Segundo o dicionário Houaiss, “diversionismo” é, entre outras coisas, um estratagema usado para impedir que se discuta algo ocupando todo o tempo ou desviando-se a atenção dos participantes para assunto diferente do que está sendo tratado.) Refere-se ao editorial do Portal Vermelho sobre o tema e aos meus comentários, misturando alhos com bugalhos.

Com sua habitual modéstia, Lucas Figueiredo informa que em sua matéria destrincha “o até então inédito diário que o comandante da Guerrilha do Araguaia, Maurício Grabois, escreveu entre abril de 1972 e dezembro de 1973 em seus esconderijos (sic) na mata”. “O diário é um documento histórico de grande importância pois cobre 605 dias de luta no Araguaia”, complementa. Em seguida parte para o ataque ao Portal Vermelho, “ponta de lança do PCdoB na internet” — assunto que, tenho absoluta certeza, será muito bem respondido pelo veículo atacado.

Como não trabalho no Portal Vermelho já há algum tempo, fico só na resposta à parte em que o jornalista se refere ao meu texto. Como desinformação é a sua arma, ele começa ignorando que escrevi os comentários para o blog “O outro lado da notícia”, que publico desde maio de 2008 e está sob a minha exclusiva responsabilidade. Não recebe nem paga uma moeda para ser publicado. Tampouco possui qualquer vinculação com instituições ou veículo de comunicação. “O outro texto que me ataca (Maurício Grabois e os devaneios de um jornalista da CartaCapital), publicado no mesmo Vermelho.org e no blog do Luis Nassif é assinado por Osvaldo Bertolino, que se apresenta como jornalista, pesquisador da Fundação Maurício Grabois, editor do portal Grabois.org.br e biógrafo de Maurício Grabois”, escreve Lucas Figueiredo.

Tanto o Portal Vermelho como o “blog do Luis Nassif” transcreveram — o segundo a meu pedido — o texto. Bastaria um clique para saber onde estava a publicação original. Mas, para Lucas Figueiredo, ignorar “O outro lado da notícia” foi mais conveniente. Escrevi em tom pessoal, com informações pessoais. O Portal Vermelho transcreveu e, dignamente, citou a fonte. O “blog do Luis Nassif” disponibilizou o acesso para o original. Forçar a barra para institucionalizar, como sendo do PCdoB, o que escrevi não passa de desfaçatez. Como diz o povo, tentou matar dois coelhos com uma só cajadada ao atribui a “saraivada de críticas” a “dois flancos que se abrigam numa mesma trincheira”. A trincheira — sabemos, mas é bom ressaltar — é o PCdoB.

Depois ele usa o velho recurso de atacar o mensageiro para evitar a mensagem. Se fosse jornalismo mesmo, Lucas Figueiredo não teria dito que o texto foi “assinado por Osvaldo Bertolino”. Quem teria escrito? Vai saber… O jornalista também poderia constatar quem sou e o que faço para evitar uma agressão gratuita ao dizer que me apresento “como jornalista, pesquisador da Fundação Maurício Grabois, editor do portal Grabois.org.br e biógrafo de Maurício Grabois”. É o famoso tiro pela culatra.

Depois ele diz que começo “tentando desqualificar o furo (sic) de CartaCapital ao dizer que o assunto do diário ‘não é novo’”. “Ele mesmo, antes de mim, já teria recebido anonimamente trechos do diário, mas não os utilizara dada a ‘impossibilidade de verificar a veracidade do documento’, escreve. “Pois eu consegui verificar a veracidade do documento e fui o primeiro a torná-lo público, na íntegra, no site de CartaCapital”, complementa. Como, não explica. E nada fala da versão do jornalista Hugo Studart, em artigo publicado pela revista Brasil História na edição de março de 2007.

(Segundo Studart, o diário foi encontrado pelas tropas que mataram Grabois, dentro de suas roupas, já estufado pela umidade. O documento chegou a Marabá no final da tarde de 25 de dezembro de 1973 para ser encaminhado na primeira hora do dia seguinte ao Centro de Informações do Exército (CIE),em Brasília. Umcapitão da área de informações pediu o material emprestado aos colegas para examiná-lo e, sem consultar os superiores, convocou cinco soldados para que atravessassem a madrugada copiando o conteúdo à mão. Pela manhã devolveu o documento. O diário original desapareceu dos arquivos do CIE, provavelmente destruído no crematório ocorrido em fins de 1974, por ordem do presidente Ernesto Geisel para ocultar os combates no Araguaia. Restou a cópia (mais tarde datilografada), preservada nos arquivos pessoais daquele capitão. Três oficiais superiores, antigos membros da Comunidade de Informações que tiveram acesso aos originais antes da cremação, atestam a autenticidade do conteúdo que consta na cópia.)

Os ataques ao mensageiro continuam. “Em seu texto, Bertolino se revela um apaixonado por seu objeto de estudo, condição perigosa para um pesquisador. O comandante da guerrilha seria ‘um homem à frente do seu tempo’ e que vivia ‘totalmente envolvido’ na ‘luta pelo futuro’. Para Bertolino, Grabois fazia parte de uma casta especial, a dos ‘verdadeiros heróis’”. De novo, Lucas Figueiredo apela para as citações descontextualizadas para fugir da essência da polêmica. Inventa citações.

Transcrevo a íntegra do parágrafo para comprovar a falta de rigor do jornalista:

Para escrever a biografia (de Grabois), consultei muitas fontes, conversei demoradamente com pessoas que conviveram com Grabois e mergulhei fundo em seus escritos. A impressão que fiquei é de um homem à frente do seu tempo, de rara capacidade intelectual, de caráter sólido e totalmente envolvido com a causa que embala a humanidade desde tempos imemoriais: a luta pelo futuro. É daqueles que, como disse o escritor Monteiro Lobato na carta enviada a Caio Prado Júnior quando este estava na prisão, quanto mais a gente conhece, mais admira. “A regra é ao contrário: à proporção que a gente vai conhecendo um homem, vai se decepcionando — vendo-lhe as falhinhas…”, disse.

Outra rata: quando o meu texto fala em “verdadeiros heróis”, a citação está entre aspas, atribuída a João Quartim de Moraes no prefácio da biografia que fiz. Transcrevo o parágrafo na íntegra:

Grabois escreveu até o dia do seu último combate, em 25 de dezembro de 1973, quando, segundo João Quartim de Moraes no prefácio da biografia que fiz, o Brasil vivia o tempo dos assassinos, dos curiós, dos sérgios fleury e congêneres. Era “também o tempo dos verdadeiros heróis, dos que em vida se comoviam até as lágrimas com a imensa miséria e o indizível sofrimento dos humilhados, dos famélicos, dos sem-infância e sem-esperança, mas que, na hora do combate final, caem de pé, olhando a morte na cara”. Grabois morreu no grande combate que ficou conhecido como o “Chafurdo de Natal”.

Considero, sim, Maurício Grabois um “verdadeiro herói”. Reafirmo que ele “morreu por ser digno, honesto em uma era de desonestos, corajoso nesse tempo de covardes, limpo em um século de sujeiras”. Concordo, portanto, integralmente com o que disse João Quartim de Moraes. Mas Lucas Figueiredo não tem o direito, como jornalista, de atribuir, com aspas e tudo, a um o que outro escreveu. É o mau jornalismo escancarado, flagrante.

Em seguida ele se faz de vítima. “Desinformação, descaso, preconceito, artificialismo, confusão primária, devaneio… Tudo isso está em mim e na minha reportagem, segundo ele”, escreve. As palavras são pinçadas e alinhadas como se nada mais, antes ou depois, foi escrito. Mais um flagrante de mau jornalismo.

Depois Lucas Figueiredo volta a jactar-se. “Não importa o fato – fato, repito – de que, nas 150 páginas datilografadas de seu diário, Grabois tenha feito 113 menções a comida (e não apenas quando ela faltava, mas também quando raleava, empobrecia, enriquecia ou sustentava um banquete). Para Bertolino, escrever o óbvio – Grabois se mostrou um obcecado por comida – significa ‘atacar’ o mito do PCdoB.”

Aqui parece que o desespero tomou conta do jornalista. Em nenhuma das “113 menções” Maurício Grabois refere-se a comida fora do contexto em que os guerrilheiros viviam. É triste ver como Lucas Figueiredo insiste em uma farsa, em uma tese que tem a consistência de uma bolha de sabão. Mais: é um desrespeito ao comandante da Guerrilha tratá-lo como um glutão, um obcecado por comida. Isso não é “atacar”. É desrespeitar não o comandante, mas a pessoa.

Nessa passagem, há outro detalhe relevante, que revela mais um caso de mau jornalismo. Em nenhum momento escrevi que mostrar Grabois como um “obcecado por comida” significa “atacar” o mito do PCdoB. Mais uma vez, transcrevo o parágrafo na íntegra:

O texto (de Lucas Figueiredo) se lança em outros devaneios de menor intensidade, como as descrições de Grabois sobre as dificuldades enfrentadas na mata e a busca incessante por comida. Aí Lucas Figueiredo voa tão baixo que é impossível alcançá-lo. “O diário revela um guerrilheiro obcecado por comida”, diz ele. Depois dessa triste passagem, ele volta a atacar Grabois, “um comandante rigoroso, sobretudo com os outros”.

Há uma diferença oceânica, amazônica, entre o que escrevi e que ele diz que escrevi. A mesma diferença aparece na passagemem que LucasFigueiredodiz que, “ainda de acordo com Bertolino, é um ‘descaso’ de minha parte relatar que, de seu esconderijo (sic) na mata, Grabois ouvia a propaganda comunista da Rádio Tirana, da Albânia, e a tomava por ‘melhor fonte de informações’ sobre a Guerrilha do Araguaia. Não sei como poderia ter feito diferente se foi o próprio Grabois quem escreveu que a Tirana era sua ‘melhor fonte de informações’.

Não sou professor de ninguém. Procuro apenas cumprir minhas obrigações. Uma delas é ser rigoroso com os fatos. Nesse caso, creio que o assunto ficou bem claro. Vejamos:

Lucas Figueiredo descreve Grabois como um ser tão incapacitado intelectualmente que passava horas de seu dia a ouvir as transmissões da Rádio Tirana e acreditava nas notícias que chegavam “da distante e fechada Albânia comunista”. “Grabois chega a acreditar que não só ele e seus companheiros ouvem a propaganda vermelha da Tirana (sic), a ‘melhor fonte de informações’”, escreve. Aqui a desinformação assusta. Bastaria uma rápida busca na internet para saber que o PCdoB montara um sofisticado sistema de transmissão de informações, via Rádio Tirana, que vinham exatamente de onde Grabois estava.  Dizer, como faz Lucas Figueiredo, que Grabois tomava propaganda como informação é o cúmulo do descaso.

Tomado pelo raciocínio turvo, Lucas Figueiredo passa a me chamar de “apaixonado biógrafo” e puxa uma polêmica que não se sustenta. Diz ele que o acusei “de cair em devaneio ao dizer que o veterano dirigente do PCdoB se revelava um iludido em relação às ‘massas’ (expressão de Grabois) que pretendia recrutar no Araguaia”. “Deixemos que o diário fale por si. No dia 21 de maio de 1972, Maurício Grabois escreveu o seguinte: “Aqui <no Araguaia>, temos que intensificar a propaganda revolucionária, recrutar novos co <combatentes> para as Forças Guerrilheiras e amigos para a nossa causa. E isso não é difícil de realizar. As condições parecem favoráveis”, escreve ele.

Repetio o que disse no primeiro texto:

Já no início da matéria ele (Lucas Figueiredo) deduz que Grabois ilude-se sobre o ânimo das “massas”, que seriam “a miserável população local que quer cooptar para fazer a revolução comunista no Brasil”. Devaneio maior, impossível. Bastaria raciocinar não mais que cinco minutos para saber que uma “revolução comunista” era o que menos estava em questão naquele movimento. Se for para ser mais rigoroso, é possível dizer que Lucas Figueiredo não se deu sequer ao trabalho de evitar chutes teóricos para qualificar a luta armada no Sul do Pará. Seria o caso de perguntar: onde ele leu, ouviu ou obteve tal informação? Se diz que Grabois e seus camaradas queriam “fazer a revolução comunista”, deveria explicar o que vem a ser isso. É o velho vício da mídia, de disparar preconceitos sem a menor preocupação.

É óbvio que a Guerrilha trabalhava para recrutar novos “combatentes” e “amigos” para a sua causa. Só faltava ser o contrário. Daí a dizer que os guerrilheiros pretendiam cooptar “a miserável população local (…) para fazer a revolução comunista no Brasil” há muito devaneio.

Transcrevo, como prova, um trecho de um dos documentos da Guerrilha:

Coloca-se na ordem do dia para todos os patriotas, democratas e revolucionários a tarefa de (…) intensificar a luta contra a ditadura. A derrubada desse regime — eis aquilo de que o povo brasileiro mais necessita. O seu aperfeiçoamento e institucionalização é (sic) grave ameaça ao futuro do Brasil e aos interesses populares.

Lucas Figueiredo fecha a resposta com chave de ouro. “O último parágrafo do texto de Bertolino, transcrito abaixo em negrito, talvez seja o mais revelador de sua real intenção: 

Morreu <Maurício Grabois> por ser digno, honesto em uma era de desonestos, corajoso nesse tempo de covardes, limpo em um século de sujeiras. Eu aqui, da minha insignificância, Grabois, te beijo a mão comovido – como se beijasse a mão da própria dignidade humana personalizada.”

O mau jornalismo não poderia deixar de dar as caras nesse encerramento.

Veja o que escrevi:

Grabois não merecia isso tudo. Se pudesse dizer algo para o comandante da Guerrilha do Araguaia, utilizaria idéias e palavras de Monteiro Lobato na carta a Caio Prado Júnior. Cada ato seu o eleva mais. Morreu por ser digno, honesto em uma era de desonestos, corajoso nesse tempo de covardes, limpo em um século de sujeiras. Eu aqui da minha insignificância, Grabois, te beijo a mão comovido — como se beijasse a mão da própria dignidade humana personalizada.

A última frase é dirigida diretamente a mim. “Se sua intenção, Bertolino, é pintar um deus onde há apenas um homem, não conte mesmo comigo”, finaliza. Não contarei, Lucas Figueiredo. Mas informo que essa não é a minha intenção. Seu chute, mais uma vez, atingiu a bandeirinha de escanteio.

Diz o axioma que dois erros nunca se anulam. Aliás, geralmente somam-se para dar um resultado ainda pior. A enorme massa de invencionices dos textos de Lucas Figueiredo sobre Maurício Grabois, submetida ao crivo dos fatos, foi se dissolvendo e, de tudo o que escreveu, quase nada ficou de concreto. Se sobram teorias, faltam fatos — matéria-prima indispensável a qualquer jornalista que se preze.

Esse jornalismo rarefeito é bem conhecido no Brasil. Ataques pessoais, intrigas, falsidades, invenções, erros de fato e mentiras, puras e simples, são a sua base. Quem aprecia esse estilo de fazer jornalismo pode até reencenar, irresponsavelmente, aquele juvenil orgulho dos tempos da adolescência. Mas isso não passa de demagogia barata, conluio com a desinformação e falta de seriedade.

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