As escolhas de Dilma na esfera militar: ela prefere os duros

Dilma Rousseff

General Elito

A mídia passou batida por uma das nomeações mais curiosas e reveladoras do ministério de Dilma Rousseff. A presidente eleita escolheu para o cargo de ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) o general José Elito Carvalho Siqueira, um aracajuense de 64 anos. Ao noticiar o fato, a imprensa se limitou a receber e a passar adiante o dado que mencionava a nobre missão do general no inferno caribenho – ele comandou as forças de paz da ONU no Haiti entre 2006 e 2007. Mas ignorou que o general, já na gestão Lula, cumpriu um polêmico encargo: a mega operação militar moldada para intimidar o Paraguai.

A operação comandada pelo general Elito tem sua origem no começo de 2008, quando luzes vermelhas se acenderam em gabinetes civis e militares de Brasília. Na época, Fernando Lugo, ex-bispo católico de esquerda, apresentava-se como forte candidato à Presidência do Paraguai com um discurso que tocava em pontos sensíveis para o Brasil: reforma agrária e renegociação do acordo de Itaipu.

Em relação à primeira promessa, ao acenar com a disposição de pagar uma dívida ancestral com os sem-terra miseráveis de origem indígena do Paraguai, Lugo lançou uma nuvem negra sobre os brasiguaios (500 mil brasileiros radicados no Paraguai, 10% da população daquele país), cuja elite controla grandes porções de terra e o agronegócio local

Com a proposta de rever o acordo de Itaipu, Lugo causou mais desconforto ainda em Brasília. Em 1973, os governos dos generais Médici e Stroessner estabeleceram os marcos da binacional Itaipu, fincada na divisa do Brasil com o Paraguai. Cada país teria direito a 50% da energia produzida pela hidrelétrica e, caso houvesse excedente nas respectivas cotas, a preferência de compra seria do outro sócio. Acontece que o Paraguai usa apenas 5% da energia de Itaipu e é obrigado a vender o restante ao Brasil a preço de custo. A proposta de Lugo de rever o acordo, portanto, não era exatamente um absurdo. Um país pobre e fraco apenas exigia um tratamento mais justo do vizinho forte e rico.

O governo Lula, contudo, não viu com bons olhos os clamores do Paraguai. Confirmando a histórica tendência expansionista do Brasil sobre o vizinho, inaugurada na guerra do Paraguai (1864-1870), o governo Lula optou por chamar as Forças Armadas. E é neste ponto da história que entra o nosso personagem, o general Elito.

Um mês após a eleição de Lugo, as Forças Armadas do Brasil puseram em marcha a Operação Fronteira Sul, seguida, 120 dias depois, pela Operação Fronteira Sul II. Ambas foram comandadas pelo general Elito. Formalmente, tratava-se de meros exercícios militares na divisa do Brasil com Paraguai, Uruguai e Argentina. Na prática, eram mensagens explícitas e duras ao Paraguai: não mexa com os brasiguaios, não force a barra com Itaipu. Cada operação envolveu mais de 10 mil soldados, 250 veículos blindados e tiros com munição real. Missões especiais foram realizadas no lago de Itaipu, inclusive com simulação de resgate de reféns.

A demonstração de força desproporcional já era um recado suficientemente claro para o Paraguai, mas as Forças Armadas do Brasil quiseram ser ainda mais diretas. Foi então que o general Elito veio a público dar voz à política big stick do Brasil. Em entrevista ao site DefesaNet, especializado em temas militares, o general disse o seguinte:

  • “Hoje, nós temos de demonstrar que somos uma potência, e é importante que nossos vizinhos saibam disso. Não podemos deixar de exercitar e mostrar que somos fortes, que estamos presentes e temos capacidade de enfrentar qualquer ameaça”;
  • “Caso ela (a empresa Itaipu) não consiga mais prover a segurança de suas instalações, seja pela invasão de movimentos sociais (do Paraguai) ou pelas ameaças, o problema poderá ser tornar uma questão policial ou militar. (…) O Exército Brasileiro existe para cumprir qualquer missão em qualquer lugar do território nacional”.

Era um discurso inusual, sobretudo vindo de um general quatro estrelas que, na época, tinha sob seu comando 50 mil soldados (ou seja, um quarto do efetivo do Exército) e 75% dos meios mecanizados existentes na força terrestre.

Os exercícios militares na fronteira, somados às palavras do general Elito, caíram como uma ofensa no Paraguai. O Ministério das Relações Exteriores paraguaio enviou uma nota ao Itamaraty e o presidente Lugo saiu a público para dizer que, “se estão tratando de dar essa mensagem (de amedrontamento), o povo paraguaio não tem nada a temer”. (A fala soberana é tão bonita quanto irreal; no campo econômico, para manter-se de pé, o Paraguai depende da boa vontade do Brasil e, no campo da força, está igualmente à mercê do vizinho.)

A partir de janeiro, o general Elito despachará no 4º andar do Palácio do Planalto, próximo ao gabinete de Dilma. Caso seja mantido o atual desenho institucional do GSI, ele terá sob suas asas o serviço secreto (a Abin), a segurança pessoal de Dilma e de seus familiares e a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad). Entre as funções do general, estará o “assessoramento pessoal ao Presidente da República em assuntos militares e de segurança”.

As duas escolhas feitas até agora por Dilma que tem reflexos na área militar (Nelson Jobim para o Ministério da Defesa e o general Elito para o GSI) revelam que a futura presidente está disposta a jogar com a ala dos duros. É bom ficar atento aos próximos lances desse jogo.

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Arquivado em Inteligência, Militares, Política

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