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Marcos Valério e o PSDB

Reproduzo abaixo artigo de minha autoria publicado neste domingo n’O Estado de S.Paulo (caderno Aliás) sobre as ligações perigosas entre Marcos Valério e o PSDB.

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Mensalidades atrasadas

Por Lucas Figueiredo*, para O Estado de S.Paulo (caderno Aliás), 4 de novembro de 2012

Está tudo muito bom, está tudo muito bem. É o que parece quando olhamos ao redor e vemos uma parcela da sociedade a bradar: desvendamos o mensalão! Desvendamos mesmo?

José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, João Paulo Cunha e que tais foram abatidos. Mas o mensalão só será totalmente dissecado quando sua gênese for revelada. Marcos Valério não operou apenas em uma campanha eleitoral ou serviu apenas a um partido ou um governo.

Marcos Valério Fernandes de Souza tinha 34 anos quando em 1995 teve início a era de ouro do PSDB (naquele ano, Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência da República e, em Minas Gerais, Eduardo Azeredo foi empossado no governo do Estado). Valério era desimportante. Não tinha poder, não circulava nas rodas políticas e seu patrimônio era modesto.

Um ano após a assunção de Eduardo Azeredo ao governo, Valério se materializou como sócio da semifalida agência de publicidade SMPB. Não entrou com dinheiro, mas com capacidade operativa. A fim de levantar a SMPB, obteve um empréstimo de R$ 1,6 milhão com o hoje extinto banco estatal mineiro Credireal, numa operação que posteriormente o Ministério Público de Minas classificaria como “de pai para filho” ou, em palavra ainda mais forte, “escusa”.

Na estrada aberta para a SMPB pelo governo tucano em Minas, Valério trafegava nas duas vias. Em 1998, tornou-se operador financeiro da campanha de reeleição de Azeredo. Primeiro, botou sua assinatura num contrato de empréstimo de R$ 2 milhões no Rural (o dinheiro foi retirado do banco numa caixa de papelão pelo tesoureiro da campanha). Depois, mais um empréstimo, de R$ 9 milhões.

Ainda naquele ano, no período que vai de 40 dias antes da eleição até o interregno entre o primeiro e o segundo turnos, três estatais de Minas – Cemig, Copasa e Comig, hoje Codemig – alimentaram as empresas de Valério com R$ 4,7 milhões. Segundo o Ministério Público, o dinheiro entrava de um lado (estatais de Minas e Banco Rural) e saía pelo outro (os cofres da coligação formada pelo PSDB, PFL, hoje DEM, PTB e PPB, hoje PP). Registros bancários e do próprio Valério indicam que ele pagou parte dos custos da campanha publicitária de Azeredo e distribuiu recursos para 75 candidatos e colaboradores da coligação encabeçada pelo PSDB.

Em poucos dias terminará o julgamento do processo do mensalão do PT no STF. Já o mensalão do PSDB mineiro será apreciado em processos fatiados, pelo STF e pela Justiça de Minas. E só Deus sabe quando.

De qualquer forma, quando o passado vier à luz, talvez seja possível esclarecer algumas dúvidas. Por exemplo: o que levou a SMPB de Valério a ganhar grandiosos contratos de publicidade no governo de FHC (Banco do Brasil, Ministério do Trabalho, Ministério dos Esportes, Eletronorte e Fundacentro)? Por que Valério, por intermédio da SMPB, doou R$ 50 mil à campanha de reeleição de Fernando Henrique, em 1998? Por que Danilo de Castro – um dos principais articuladores políticos do senador Aécio Neves – foi avalista de um empréstimo do Rural para a SMPB? Quais provas fizeram do jornalista Eduardo Pereira Guedes, integrante graduado do staff de marketing político de Aécio, réu no processo do mensalão mineiro? Por que o PSDB continuou a defender Azeredo após o mensalão mineiro ser revelado (Arthur Virgílio, então líder do partido no Senado, disse que, a despeito das acusações, a bancada tucana reafirmava sua “plena confiança na honradez e na lisura desse companheiro”)? Por que o PSDB lançou Azeredo a deputado federal (ele se elegeu e seu mandato vai até 2015) mesmo sabendo que o Ministério Público Federal o acusava de ser “um dos mentores e principal beneficiário” do mensalão mineiro? O que explica o fato de que, entre 1997 e 2002, período em que operava para o PSDB, Valério fez seu patrimônio declarado no Imposto de Renda saltar de R$ 230 mil para R$ 3,9 milhões (1.600% de aumento em cinco anos, com uma inflação de 42%)?

Como se vê, o filme ainda não acabou.

* Lucas Figueiredo é jornalista, escritor, autor, entre outros, de O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT (Record)

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[ARQUIVO DE REPÓRTER] Anatomia de uma reportagem

No post que abriu a série ARQUIVO DE REPÓRTER, reproduzi a reportagem O livro secreto do Exército, a primeira de um conjunto de matérias publicadas nos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas que me deu o Prêmio Esso de Reportagem de 2007. Hoje publico, uma espécie de making off da investigação que me levou ao livro secreto: a reportagem O livro das sombras, publicada na revista Rolling Stone em julho de 2007.
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O livro das sombras
Lucas Figueiredo, para a Rolling Stone (julho/2007)

O nome dele não vem ao caso. O importante é contar o que ele fez. E, sobretudo, o que aconteceu depois. Estávamos eu e ele em sua casa, diante da estante de livros. Ele me mostrava seu acervo pessoal, composto basicamente de obras com temas militares: Guerra do Paraguai, inteligência, doutrina, depoimentos sobre o regime militar, Guerrilha do Araguaia etc. Ele sabia que eu gostava do assunto. Já eu desconfiava que, além de livros, ele tinha também informações. Não poderia imaginar, contudo, que ele guardava um tesouro em sua casa, e que esse tesouro era justamente um livro.

Eu já estava com uma pilha de livros nas mãos quando ele disse: “Ah, este aqui você vai gostar”, alcançando em seguida, no alto da estante, dois grossos volumes de capa preta. Antes de entregá-los a mim, alertou em tom solene: “Aqui está a verdade!”. Li o título da obra – O Livro Negro do Terrorismo no Brasil, tomos I e II – e fiz um grande esforço para não demonstrar a surpresa que experimentava naquele momento. Minha busca havia terminado! Depois de anos e anos tentando ter acesso a um dos mais bem guardados documentos secretos das Forças Armadas, ele estava ali, nas minhas mãos. Eu era o primeiro jornalista a segurar uma das 15 cópias existentes do livro secreto do Exército Brasileiro, um megadocumento inédito, de 966 páginas, escrito 19 anos atrás por oficiais do serviço secreto da força terrestre, com a versão da linha-dura sobre os Anos de Chumbo. Baseado em documentos confidenciais e no relato de militares e policiais que atuaram na repressão, o livro era uma das peças mais importantes dos chamados arquivos secretos das Forças Armadas. Minha vontade era uivar, dar socos no ar, subir pelas paredes, ajoelhar e, por fim, gritar: “Yeeeeessssss!”. Mas apenas comentei: “Parece interessante”.

A primeira vez que ouvira falar no livro secreto do Exército foi em 1998, quando iniciei as pesquisas do meu livro Ministério do Silêncio – A História do Serviço Secreto Brasileiro de Washington Luís a Lula (1927-2005). Uma de minhas fontes, um ex-torturador que trabalhara na comunidade de informações durante o regime militar (1964-85), me contou sobre o livro. Era homem bem informado, que tinha acesso privilegiado a documentos e segredos militares. Apesar de nunca ter visto a obra, ele sabia um bom pedaço de sua história.

Segundo seu relato, a odisséia do livro secreto tivera início em 1985, logo nos primeiros meses do pós-ditadura. Aproveitando o clima de liberdade, depois de 21 anos de escuridão, a Arquidiocese de São Paulo lançara o livro Brasil: Nunca Mais, com relatos de tortura e morte de presos políticos nos porões da repressão. Com detalhes aterrorizantes – como as aulas de tortura em que presos eram usados como cobaias, e os centros clandestinos das Forças Armadas, onde desafetos do regime eram assassinados com injeção para cavalo – a obra-denúncia causou espanto em boa parte da sociedade brasileira e no exterior. De quebra, despertou a ira nos quartéis.

O então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, foi um dos que não gostaram. Para não deixar o Brasil: Nunca Mais sem resposta, o general ordenou ao Centro de Informações do Exército (CIE), o serviço secreto da força terrestre, um dos braços mais mortíferos da repressão, que preparasse um livro contando a versão dos militares para a luta armada promovida por organizações de esquerda entre 1967 e 1974. A idéia era contar passagens pouco edificantes da vida daqueles que combateram a ditadura, sobretudo dos que haviam pegado em armas para tentar derrubar o regime. Depois de derrotar a esquerda nas armas, as Forças Armadas entravam novamente em guerra, desta vez combatendo com a informação.

No CIE, o projeto recebeu um código secreto: Orvil (a palavra livro ao contrário). Os trabalhos tiveram início em 1986, sob a coordenação do então coronel Agnaldo Del Nero Augusto, chefe da Seção de Informações do CIE. Durante quase três anos, no mais absoluto sigilo, cerca de 30 oficiais trabalharam no projeto. Para tanto, tiveram acesso aos arquivos (até hoje inéditos) do serviço secreto do Exército, que guarda documentos produzidos pelo órgão e por seus parceiros na ditadura, como o Serviço Nacional de Informações (SNI), o Cenimar (serviço secreto da Marinha), o Cisa (serviço secreto da Aeronáutica), o DOI-Codi (aparelho da repressão), a Polícia Federal e os Dops (Departamentos Estaduais de Ordem Política e Social). Os integrantes do Projeto Orvil também entrevistaram oficiais e policiais que haviam participado da luta contra a esquerda armada, tanto em funções de coordenação quanto nas de combate.

Em 1988, o livro do exército ficou pronto. Batizado de As Tentativas de Tomada do Poder, ele citava (sempre de forma pejorativa) mais de 1.700 inimigos das Forças Armadas. Leônidas tratou de reunir-se com o então presidente da República, José Sarney, para discutir a sua publicação. Explicou-lhe que a obra era uma arma para defender as Forças Armadas das campanhas sórdidas que vinham sendo desferidas pelas esquerdas. No futuro, disse Leônidas, sempre que uma voz se levantasse contra a ditadura, lá estaria o livro do CIE para contra-atacar, revelando “a verdade”. Sarney ouviu Leônidas quieto, sorriu amarelo e em seguida começou a desarmar a bomba que estava em seu gabinete.

O presidente argumentou que a publicação do livro reabriria feridas que começavam a cicatrizar. Como a Lei da Anistia, de 1979, tinha beneficiado tanto os adversários da ditadura quanto os agentes da repressão, melhor seria esquecer o tema, sugeriu Sarney. O general não gostou, mas, como bom soldado, obedeceu. E assim o livro foi engavetado, passando a compor o extenso rol de documentos secretos do CIE.

No correr dos anos, entretanto, o livro acabou sendo contrabandeado para fora do QG do Exército. Ao passar para a reserva, um oficial que participara do Projeto Orvil levou consigo uma cópia da obra. A edição correu de mão em mão, num círculo ultra-fechado de oficiais da ativa e da reserva. Algumas cópias foram feitas e deixadas com pessoas-chave, a maioria delas ligada a organizações de extrema direita que congregam militares e civis, como o grupo Terrorismo Nunca Mais (Ternuma), sediado no Rio de Janeiro. Assim, com aproximadamente apenas 15 cópias disponíveis, o livro secreto – rebatizado de O Livro Negro do Terrorismo no Brasil – se tornou uma espécie de Santo Graal dos militares linha-dura. Era essa a relíquia que eu buscava.

No ano 2000, sem identificar a origem dos textos, o Ternuma divulgou em seu site (www.ternuma.com.br) cerca de 40 das 966 páginas do livro (pouco mais de 4% do total). A novidade atiçou a imprensa, e o general Leônidas acabou confirmando a existência do documento. Seu conteúdo, no entanto, continuava misterioso. Sempre que havia espaço, eu perguntava a minhas fontes do meio militar se conheciam o tal livro. Uns diziam que não, outros falavam que já tinham visto, alguns poucos contavam uma ou outra passagem da obra, mas ninguém se dispunha a me ajudar a conseguir uma cópia. Em 2005, depois de sete anos de pesquisa, publiquei Ministério do Silêncio sem ter conseguido um dos meus objetivos: revelar o conteúdo do livro secreto. Tive informações seguras apenas para escrever, em singelos dois parágrafos, que a obra existia e que continuava desconhecida.

Apesar da frustração, não desisti de encontrar o Santo Graal do CIE. Prossegui questionando fontes, mas, como ocorrera anteriormente, fui acumulando negativa atrás de negativa. Até que, em fevereiro deste ano, o livro secreto caiu no meu colo, ou melhor, nas minhas mãos.

“Aqui está a verdade”, disse ele. “Parece interessante”, retruquei. Num primeiro momento, tive receio em demonstrar muito interesse pelo documento e acabar provocando o recuo da minha fonte. Enquanto folheava o livro, fiquei imaginando se minha fonte me deixaria copiá-lo. Resolvi arriscar: “Posso levar esse livro comigo para ler em casa?”. “Ah, esse não”, respondeu ele. “Você pode consultar sempre que quiser, aqui na minha casa, mas não pode levar.” Continuei então fazendo o tipo desinteressado. Conversamos mais um pouco, folheamos outros livros e acabei indo embora de mãos vazias.

No táxi, fui fazendo planos e contas: se eu fosse à casa da minha fonte uma vez por semana e lesse 15 páginas por dia, copiando o que havia de mais importante, em um ano e quatro meses teria lido todo o livro. De volta à redação do jornal onde trabalho, comentei com um colega que tinha encontrado um pote de ouro, mas não pudera carregá-lo. “Como assim?”, ele perguntou. Expliquei o caso, e o sujeito compreendeu meu drama. “Putz, se você quiser podemos ir lá juntos tentar resolver isso”, sugeriu em tom de deboche. “Eu seguro o cara enquanto você pega o livro e sai correndo.” A piada era fraca, e meu humor não estava lá essas coisas. Fui embora para casa refazendo meus cálculos e tentando traçar novas estratégias.

Esperei uma semana para ligar de novo para minha fonte. Falei de vários assuntos antes de entrar no tema que me interessava. “E aquele livro da capa preta que você me mostrou? Queria dar mais uma olhada nele. Posso passar aí?” O sujeito estava atrasado para um compromisso e ficaria fora a tarde toda. Contudo, não queria fazer uma desfeita para mim. “Olha, passa aqui e pega o livro. Depois você me devolve.” Essa chance eu não deixaria passar. “Estou indo praí agora”, respondi.

Fui à casa dele, peguei o livro e voltei para a redação. No mesmo dia, fiz pessoalmente duas cópias do documento, para desespero da fila do xerox. Era uma brochura artesanal, escrita a máquina de datilografia, com capa dura e título na cor dourada. No lugar do nome do autor, um enigmático “Grupo de pesquisadores anônimos”. Passei o resto do dia assobiando e pensando baixinho: “Ele é meu! Ele é meu! Ele é meeeeeeeu!”. Agora, o próximo passo era digerir o bicho.

Nos dois meses seguintes, me enfurnei numa salinha vazia ao lado da redação com o livro secreto e mais 12 obras de referência histórica. Comparei relatos, chequei datas e confrontei versões referentes a centenas de passagens da história recente do país, como o golpe militar (1964), a morte do estudante Edson Luís, no Rio (1968), a instauração do AI-5 (1968), o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick (1969), assaltos a bancos praticados por grupos de esquerda, as campanhas militares contra a Guerrilha do Araguaia (1972-75) e o movimento das Diretas-Já (1984).

Os campeões de aparições no livro – os guerrilheiros Carlos Lamarca, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), e Carlos Marighella, da Aliança Libertadora Nacional (ALN), com 51 e 41 citações, respectivamente – eram descritos como bestas-feras, assassinos frios e traidores da pátria. Na lista de personagens, figuravam militantes de organizações de esquerda que haviam participado da luta armada e que mais tarde ocupariam altos cargos da República, como Dilma Rousseff (atual ministra-chefe da Casa Civil), Franklin Martins (ministro da Comunicação Social), Fernando Gabeira e José Genoino (deputados federais) e Fernando Pimentel (prefeito de Belo Horizonte). Também eram citadas pessoas que não tinham pegado em armas e mesmo assim eram consideradas inimigas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de São Paulo, José Serra, o religioso Frei Betto e o escritor Antonio Callado. No meio artístico, figuravam músicos como Chico Buarque e Geraldo Vandré. O autor de “Apesar de você” (“Hoje você é quem manda/Falou, tá falado/Não tem discussão”), uma das canções mais odiadas nos quartéis, era classificado como comunista infiltrado nos meios artísticos. Já o compositor de “Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores” (“Caminhando e cantando e seguindo a canção/Somos todos iguais braços dados ou não”) levava a pecha de agente de Fidel Castro propositalmente transformado em mártir da censura.

Enquanto a esquerda apanhou feio no livro, sobraram loas para torturadores, assassinos e dois presidentes-generais que comandaram o país nos momentos mais brutais da repressão. O finado Sérgio Fleury (delegado do Dops de São Paulo, líder do Esquadrão da Morte, torturador de presos políticos e assassino de opositores do regime militar, retratado recentemente pelo ator Cássio Gabus Mendes no filme Batismo de Sangue) recebeu a denominação de “incansável lutador contra o terrorismo no Brasil”. Já Octávio Gonçalves Moreira Júnior – o Otavinho, torturador do Dops paulista, assassinado em 1973 por guerrilheiros da ALN, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) – é chamado de “doutor Octávio” e merece tratamento de mártir.

O general Arthur da Costa e Silva – ditador que comandou o Brasil entre 1967 e 1969, período marcado pela tortura e morte de centenas de presos políticos em instalações militares – é descrito como tintas amenas. Sua posse no Palácio do Planalto é relatada no livro secreto como um “reencontro (do país) com a ordem constitucional e o estado de direito”. Com seu “tom franco”, sua “mensagem de renovação” e a “clareza com que encarnava a realidade vivida pelo país”, o general “abriu esperanças” no Brasil, afirma a obra. Segundo o livro, “iniciava-se a volta à normalidade”. Detalhe: Costa e Silva foi o mentor e fundador do CIE.

Em relação ao general Emílio Garrastazu Médici, em cujo governo (1969-74) desapareceram quase 150 militantes políticos, o livro secreto é todo candura. Ao narrar os seqüestros de diplomatas estrangeiros realizados por grupos engajados na luta armada, em 1969 e 1970, e ao comentar a decisão do governo Médici de aceitar trocá-los por presos políticos, conforme exigiam os seqüestradores, a obra do CIE afirma que a postura do general representava o “respeito aos direitos humanos sem aspas”, que “se ajustava aos sentimentos humanitários da população”.

Entre um e outro juízo de valor, o documento comprova que o serviço secreto do Exército vigiou adversários mesmo depois do fim da ditadura. Um guerrilheiro que havia renunciado às armas e se exilara no Chile começou a ser seguido quando, já anistiado, retornou ao Brasil. O livro do CIE anota que, “depois de ter passado anos reprimindo o seu homossexualismo”, o ex-guerrilheiro deu “vazão aos seus instintos” e foi viver com outro homem. Em 1985, já no governo José Sarney, portanto, o serviço secreto do Exército continuou no encalço de seu alvo. O documento do CIE afirma que, naquele ano, o ex-guerrilheiro trabalhava em uma sauna gay.

Escrito na ordem cronológica e em forma de relatório (no dia 1º aconteceu isso; no dia 2 aconteceu aquilo; no dia 3, aquilo outro…), o texto do documento do CIE é mais desagradável que um porre de gim. Saltam das páginas expressões típicas da caserna e das delegacias. Um guerrilheiro que conseguia escapar ao cerco policial ao ser descoberto em seu esconderijo era descrito como um “subversivo” que fugia em “desabalada carreira” ao ser flagrado em seu “homizio”. Dureza!

Em alguns trechos, contudo, era impossível não achar graça dos recursos utilizados pelos agentes-escritores do CIE no cumprimento da missão de denegrir a esquerda. Ao contar como a Polícia Militar paulista havia dissolvido o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado clandestinamente em 1968, em um sítio em Ibiúna (SP), o redator escreveu: “No local, foram encontrados drogas, bebidas alcoólicas e grande quantidade de preservativos, muitos já utilizados”. Ainda segundo o livro, “alguns estudantes chegaram a declarar inclusive que havia uma escala de serviço de moças para atendimento sexual” dos líderes estudantis. Pelo sim, pelo não, telefonei para Vladimir Palmeira, um dos estudantes presos em Ibiúna e que na época presidia a União Metropolitana de Estudantes (UME). Li para ele o trecho e, do outro lado da linha, Vladimir não conteve o riso. “Se de fato havia esse atendimento sexual, não me informaram. Fui isolado”, disse entre gargalhadas. Depois, já sério, voltou a comentar: “Isso é uma chacota”.

A graça, contudo, acabou logo em seguida, quando comecei a ler os trechos do livro em que eram descritas as mortes de militantes de esquerda e de guerrilheiros que atuaram no campo e nas cidades. Era a parte mais dramática e também a mais importante do documento. Ao comparar as narrativas contidas no livro com os processos oficiais das 380 vítimas fatais da ditadura, descobri que minha fonte realmente tinha razão: a obra trazia verdades. Mais que isso: jogava luz sobre alguns dos episódios mais sombrios da história do país.

O livro do Exército desmente o próprio Exército ao relatar o destino de 23 militantes e guerrilheiros mortos em diversos pontos do país e no exterior. Oficialmente, a força terrestre sempre negou que tivesse participado da morte ou do desaparecimento daquelas pessoas – 16 integrantes do PCdoB que atuavam na Guerrilha do Araguaia (Pará), três militantes do Movimento de Libertação Popular (Molipo), três da VPR e um da ALN. A força terrestre dizia ainda não possuir informações a respeito delas. O livro secreto provava, no entanto, que o Exército mentia.

As páginas 724 e 725 do documento, por exemplo, demoliam a versão de que a força terrestre nada sabia sobre o desaparecimento de Antônio Carlos Monteiro Teixeira, José Toledo de Oliveira e Francisco Manoel Chaves, em 1972, quando o trio se encontrava engajado na Guerrilha do Araguaia. O Exército, como revelava o documento, tinha matado os três. O livro secreto conta a história:

“No dia 29 (de setembro de 1972), um grupo de quatro ou cinco terroristas tentou emboscar um GC do 10º BC. Os terroristas montaram uma emboscada numa capoeira. Percebida a ação, em razão dos ruídos produzidos pelos subversivos, foi montada uma contra-emboscada, na qual morreram três terroristas: Antônio Carlos Monteiro Teixeira, José Toledo de Oliveira e José Francisco Chaves (N.R. O nome correto é Francisco Manoel Chaves).”

Outros três guerrilheiros desaparecidos no Araguaia há 35 anos, os quais o Exército nega ter matado, têm seus últimos momentos descritos na página 725 do documento: “Ainda nesse dia (29 de setembro de 1972), um grupo de terroristas aproximou-se de um casario. Um deles foi visto, no momento em que retrocedia, por um dos componentes de uma patrulha do 6º BC. A patrulha empreendeu perseguição aos subversivos e no tiroteio travado, acabou por matar três terroristas do grupo: Ciro Flávio Salazar de Oliveira (Flávio) e Manoel José Nurchis (Gil), do destacamento B, e João Carlos Haas Sobrinho (Juca), da Comissão Militar (…)”

O documento narra a prisão do guerrilheiro Boanerges de Souza Massa, do Molipo:
“No dia 21 de dezembro (de 1971), foi preso em Pindorama, em Goiás, utilizando nome falso, Boanerges de Souza Massa.”

Oitenta e sete páginas adiante, o livro conta que Boanerges foi submetido a interrogatórios e chega a dizer as informações que ele teria “aberto”. Curioso é que o guerrilheiro desapareceu naquele ano e nunca mais voltou a ser visto. Até hoje, o Exército não reconhece a prisão nem a morte de Boanerges. Para a família não resta dúvida: ele foi assassinado no cárcere.

Outro trecho revelador do livro refere-se a Wânio José de Mattos, integrante da VPR que desapareceu no Chile em setembro de 1973, após o golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende. Só em 1992, quando os arquivos chilenos foram abertos, a família de Wânio foi informada, pelas autoridades daquele país, de que, por falta de atendimento médico, ele morrera de peritonite aguda no Estádio Nacional, onde se encontrava preso.

Contudo, pelo menos quatro anos antes da abertura dos arquivos chilenos, o Exército brasileiro já tinha conhecimento da versão, como mostra a página 788 do livro secreto. O trecho em que se lê “Wânio José de Mattos morreu no Chile, em 1973, com peritonite” é mais uma prova de que, a partir do início da década de 1970, as ditaduras do Cone Sul atuavam em estreita sintonia na guerra suja que travavam contra seus opositores, parceria que ficou conhecida com o nome de Operação Condor.

Dois outros casos macabros que o livro secreto traz são os de Antônio dos Três Reis Oliveira (ALN) e Alcery Maria Gomes da Silva (VPR). Até o documento do CIE vir à tona, sabia-se apenas que Antônio fora assassinado pela repressão em 1970 e enterrado como indigente no Cemitério de Vila Formosa, em São Paulo. Seu corpo nunca foi encontrado. Já em relação a Alcery, era conhecido o fato de que ela morrera no mesmo ano pelas mãos dos agentes da Operação Bandeirantes (Oban) e que o destino de seu corpo era ignorado. Apesar de todos os apelos feitos por parentes e grupos de direitos humanos, o Exército sempre negou que tivesse informações que pudessem ajudar na localização dos restos mortais de Antônio e Alcery. Pior: nem ao menos reconheceu que ambos estivessem mortos. Entretanto, o livro do CIE revela na página 544 que o Exército sempre soube da verdade: “No dia 17 (de maio de 1970), em São Paulo, foi preso o recém-designado comandante da UC, Oswaldo Soares, que entregou seu aparelho, como já narrado, onde morreram sua companheira Alcery Maria Gomes da Silva e Antônio dos Três Reis Oliveira.” O documento do serviço secreto do Exército mostra que a força terrestre escondeu informações até mesmo sobre a morte de seus homens. Um deles é o sargento Mário Ibrahim da Silva. O militar tombou no Araguaia, em 1972, quando combatia guerrilheiros do PCdoB. A família de Mário nunca recebeu do Exército uma versão oficial do que aconteceu a ele. O caso foi investigado pelo jornalista Eumano Silva, autor de Operação Araguaia (Geração Editorial, 2005), um dos melhores livros sobre o episódio, vencedor do Prêmio Jabuti. No capítulo intitulado “Mistério: como morreu o sargento Ibrahim”, o jornalista conta que entrevistou a viúva do militar. “Ela diz que ouviu muitos boatos. Um deles dizia que o Ibrahim havia sido morto por engano por outro militar”, afirma Eumano. Com 35 anos de atraso, a versão do Exército aparece agora no livro secreto: “No dia 27 (de setembro de 1972), os terroristas investiram contra uma base do 2º Batalhão de Infantaria da Selva, situada na localidade de Pavão. O comandante do grupo de combate que estabelecera a base, 2º sargento Mário Ibrahim da Silva, ao tentar chegar ao local da incursão, foi atingido por um disparo desferido por um dos terroristas. Contam seus companheiros que o sargento Mário, mesmo ferido e após haver descarregado sua arma, deu ordens ao grupo (…), (falou) de sua família, esposa, filhos e mãe e faleceu”.

Ao terminar a análise do livro, um raciocínio óbvio vinha à minha cabeça. Se o CIE sabia o dia e o local da morte de militantes e guerrilheiros – em alguns casos, conhecia até a guarnição a que pertenciam seus algozes – é provável também que soubesse onde eles tinham sido enterrados. Por que então o Exército insistia em dizer que não tinha informações sobre eles, negando às famílias o direito de enterrar seus entes? Quem eram os responsáveis pela violação da mais elementar regra de guerra, prevista na Convenção de Genebra, de 1864, que determina a identificação, o sepultamento e a posterior devolução dos inimigos mortos em combate?

A bomba que Sarney desarmara em 1988 estava pronta para explodir em 2007. Faltava só uma coisa: conseguir provar que a cópia que eu possuía era autêntica.

A internet (louvada seja!) me deu a primeira prova de que o que eu tinha em mãos era um exemplar verdadeiro do livro secreto e não uma fraude. Comparei trechos do exemplar em meu poder com as 40 páginas do documento divulgadas há sete anos no site do Ternuma, que trazem entre outros relatos o seqüestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em 1970. Bingo! Na maioria dos casos, os textos eram idênticos. Quando não o eram, podia-se ver claramente que eram adaptações.

Para obter a segunda prova, entrevistei pessoas que figuravam como personagens do livro, como os professores Daniel Aarão Reis Filho e Cid Queiroz Benjamin, o engenheiro Maurício Paiva e o frei dominicano Oswaldo Resende Júnior. Ao tomarem conhecimento dos trechos em que eram citados, todos apontaram erros e manipulações, mas confirmaram a veracidade de inúmeros detalhes que ainda não são de conhecimento público. Frei Oswaldo, por exemplo, surpreendeu-se em saber que o Exército tinha informações pormenorizadas sobre uma reunião da ALN realizada em Roma, em 1971, na qual se discutiu o racha vivido pela organização. Já Cid Queiroz Benjamin, que participara do seqüestro do embaixador norte-americano, observou que, apesar de alguns pequenos erros, o livro secreto trazia muitos detalhes sobre a ação, como a cor de veículos usados pelos guerrilheiros e as senhas utilizadas nos contatos por telefone. “Só faltou dizer qual era a cor das nossas camisas”, afirmou o hoje professor de jornalismo. “As informações contidas no livro sem dúvida foram tiradas dos arquivos dos DOI-Codi”, deduz Cid.

Para não deixar um fiapo de dúvida em relação à autenticidade do livro, passei depois a compará-lo com outros documentos confidenciais do Exército. Constatei então, em três oportunidades, que trechos do livro tinham sido baseados ou mesmo copiados de documentos secretos da força terrestre. Era o que acontecia, por exemplo, nas páginas 721 e 722 do livro, referentes ao combate à Guerrilha do Araguaia, onde se lia: “A localidade de Santa Cruz, por exemplo, dista 600 quilômetros da sede do município, em Conceição do Araguaia, e a única ligação existente entre elas é o rio, demorando a viagem entre uma localidade e outra uma média de 5 dias”.

Texto praticamente idêntico aparece em documento do Ministério do Exército de 30 de outubro de 1972, classificado como secreto. Compare:

“(&) A localidade de Santa Cruz dista 600 quilômetros da sede do município em Conceição do Araguaia e a viagem pelo rio, único meio de ligação, demora da ordem (sic) de 5 dias”.

O livro do Exército era, pois, verdadeiro e já não era mais secreto. Em abril, um resumo do seu conteúdo foi tornado público nas páginas dos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense. A reação foi imediata. O Ministério Público Federal criou uma comissão de cinco procuradores para analisar possíveis providências a serem tomadas. Já a Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos, que tem a dupla incumbência de julgar a responsabilidade do Estado na morte de militantes políticos e procurar restos mortais de desaparecidos, começou a discutir a provável reabertura de pelo menos um caso, o de Wânio José de Mattos, que morreu no Chile.

Há ainda a esperança de que as informações contidas no livro possam auxiliar na localização dos corpos dos 69 guerrilheiros desaparecidos no Araguaia entre 1972 e 1975.

O Exército calou-se. A Presidência da República, idem. Desde que tomou posse, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem se esforçando ao máximo para ignorar a questão dos desaparecidos políticos. Apesar dos reiterados pedidos, nunca, por exemplo, recebeu a comissão de familiares dos militantes que foram à luta contra a ditadura e não voltaram para casa. Outros dois gestos do presidente revelam sua vontade de jogar o tema para debaixo do tapete. Ainda em 2003, Lula mandou a Advocacia Geral da União (AGU) recorrer da decisão judicial que condenou a União a abrir as informações das Forças Armadas referentes aos combates contra a Guerrilha do Araguaia. A ação, iniciada em 1982, era movida por 22 familiares de desaparecidos e tinha como advogados Sigmaringa Seixas e Luiz Eduardo Greenhalgh, que mais tarde se tornariam destacados deputados federais pelo PT. O recurso da AGU acabou sendo derrotado, mas, ainda assim, até hoje o governo não acatou a sentença da Justiça.

Lula fez mais (ou melhor, menos): manteve a regra criada na última semana do governo Fernando Henrique Cardoso que instituiu a esdrúxula figura do sigilo eterno para documentos confidenciais. Até então, uma lei de 1991 determinava o prazo limite de 60 anos para a abertura de papéis oficiais classificados como sigilosos. A chiadeira foi geral, mas Lula deu de ombros. A coisa, entretanto, promete não acabar assim. No final de maio, o Ministério Público Federal patrocinou o simpósio Debate Sul-Americano sobre a Verdade e Responsabilidade em Crimes contra os Direitos Humanos. Ao final dos trabalhos, foram tiradas várias recomendações, entre elas uma solicitação para que o procurador-geral da República, Antônio Fernando Souza, proponha uma ação de inconstitucionalidade contra a lei do sigilo eterno.

A pressão sobre o presidente também vem de dentro do governo. No final de abril, a Comissão Interministerial do Araguaia encerrou suas atividades sem ter conseguido avançar na questão da localização dos corpos dos 69 guerrilheiros desaparecidos. A comissão deixou claro, entretanto, que poderia ter tido algum sucesso caso tivesse contado com a colaboração das Forças Armadas. Ao se ver impossibilitada de seguir adiante, a comissão acabou devolvendo o abacaxi, sugerindo a Lula que exija, no prazo de 120 dias, que os militares abram os arquivos secretos do Araguaia.

Ainda neste semestre, o tema Araguaia voltará a assombrar o Palácio do Planalto.

A Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos (formada por representantes dos familiares, do governo, das Forças Armadas, do Ministério Público, da Câmara dos Deputados e da sociedade) fará uma expedição ao sul do Pará para uma nova tentativa de localizar restos mortais de guerrilheiros. O mínimo que pode acontecer é o retorno do assunto às primeiras páginas dos jornais.

Como se vê, será difícil para o presidente ignorar por muito mais tempo que os mortos assombram seu governo. A gritaria também acontece fora do país. A Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) deverá ainda neste ano julgar o Brasil em um caso que se arrasta há 12 anos e que é acompanhado, com interesse, internacionalmente. Acusação: falta de investigação por parte do Estado a respeito da destruição e da ocultação de cadáveres ocorridas durante os combates à Guerrilha do Araguaia. Caso o Brasil seja condenado, possibilidade hoje bastante grande, será um vexame internacional. Lula, que construiu sua imagem como defensor dos oprimidos, passará a figurar no rol de presidentes cujos governos violaram os Direitos Humanos. “Por que esta dificuldade em abrir os arquivos da repressão, em especial os do Araguaia? Quem não deve não teme”, questiona Jorge Zaverucha, cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um dos maiores especialistas do país em questões militares.

O Exército insiste na versão de que os documentos da repressão, incluindo os relativos às campanhas no Araguaia, foram destruídos. O governo Lula finge acreditar. O livro secreto do CIE, porém, está aí para quem quiser consultar. Lá está escrita “a verdade”.

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[ARQUIVO DE REPÓRTER] O segredo dos índios Aikewara

Para sua estreia no Brasil, no ano passado, a revista GQ pediu a mim que fizesse uma reportagem especial. Por sorte, eu tinha uma pauta já em andamento: a história de como a ditadura, no início dos anos 1970, a fim de combater a Guerrilha do Araguaia, havia transformado pacatos índios da Amazônia em mercenários.

Eu tinha uma prova incontestável da operação do Exército, uma mensagem de e-mail de um ex-oficial (na reportagem, explico o que é), mas faltava ainda falar com os índios.

Depois de negociar minha entrada na tribo e arrumar um tradutor de akwáwa (ramo do tupi-guarani), parti para lá acompanhado do brilhante repórter-fotográfico Daniel Kfouri. Passamos alguns dias conversando com os índios da aldeia, trançando de um lado a outro da Transamazônica.

Num dia, demoramos mais que o recomendável na aldeia e voltamos para a cidade já de noite. Os índios nos avisaram que a estrada era perigosa e os assaltos eram frequentes. Como não recebemos convite para pernoitar na aldeia, o jeito foi encarar a Transamazônica de noite.

No caminho, porém, nos deparamos com um caminhão parado, com os faróis acesos, bem no meio da estrada. Parei o carro a cerca de 500 metros. Eu e Daniel ficamos observando, mas nada acontecia. Para nós, aquilo cheirava à emboscada. Decidimos então tomar o rumo contrário da estrada, deserta àquela altura da noite.

Dali a pouco, um carro nos ultrapassou a toda velocidade (nem precisa dizer que nossos corações quase saíram pela boca). De novo, demos meia volta e retomamos nosso rumo original. Chegando mais perto do caminhão suspeito, descobrimos que não era cilada. O caminhão simplesmente havia atolado na rodovia, que apesar de asfaltada tinha buracos onde cabia um fusca inteiro.

Nosso medo nos fez rodar uns 50 quilômetros para nada.

A seguida, a reportagem.

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O SEGREDO DOS ÍNDIOS AIKEWARA

Lucas Figueiredo, para a GQ (abril-2011)

Sob um céu grande angular de nuvens pesadas, o território brasileiro dá um nó – o Norte se encontra com o Nordeste; a Amazônia lambe o Cerrado e três Estados dividem fronteiras (Pará, Maranhão e Tocantins). Talvez poucos lugares do país sejam tão indicados para guardar um segredo como o que ali foi enterrado. Naquele rincão perdido, conhecido como Bico do Papagaio, quatro décadas atrás, teve lugar um dos episódios mais obscuros da história do Brasil: a transformação de índios em mercenários de guerra do Exército para combater a Guerrilha do Araguaia. Agora, o segredo acabou.

Em quatro meses de investigação, GQ reuniu provas que mostram que, no início dos anos 1970, no governo do general-ditador Emílio Garrastazu Médici, a força terrestre fez de pacíficos índios Aikewara – da aldeia Suruí Sororó, no sudeste do Pará – máquinas de caçar e matar homens. Um militar da reserva que participou das operações afirma que, na caçada humana, os índios feitos mercenários não se limitaram a matar. Cortaram cabeças. Era a prova que o Exército exigia do dever cumprido.

Hoje, para chegar à aldeia Suruí Sororó é necessário disposição e paciência. Do aeroporto de Marabá (Pará) – também conhecida como Marabala por causa de seus altos índices de violência com arma de fogo – o carro alugado saltita em zig zag pela Transamazônica, levando a mim e ao fotógrafo e tentando sem muito sucesso evitar as crateras. Quarenta e cinco quilômetros adiante, viramos à direita e pegamos a BR-153, antiga OP-2, construída na época da guerrilha para facilitar a internação de tropas na região. A BR-153, uma via de pistas simples sem acostamento, consegue ser ainda pior que a Transamazônica. A cena é pouco crível, mas real: caminhões atolam no asfalto. Logo à frente, surge São Domingos do Araguaia, uma cidade com pequenas casas de madeira, tristes e feias, muito parecidas com as dos cenários de filmes do velho oeste americano. Mais 50 quilômetros adiante e finalmente alcançamos a entrada da Reserva Indígena Suruí Sororó.

Na aldeia a recepção é tensa. Os Aikewara já sabem qual é o assunto que me traz até lá. Sou conduzido à tenda central da aldeia, a taquapucu, onde, estirados em redes ou sentados em grandes bancos de madeira, cerca de quarenta índios me esperam. São crianças, algumas de colo, jovens e adultos. Entre eles, idosos que, suponho, talvez tenham testemunhado a guerrilha. Mais tarde eu saberia: sob a sombra da taquapucu estavam os sete sobreviventes dos 11 índios feitos mercenários pelo Exército Brasileiro.

Um dos líderes da aldeia, entre gentil e imperial, sugere que eu me sente no banco de madeira à minha frente. Seu nome é Ikatu Suruí (para efeito legal, todos os índios têm o nome da aldeia como sobrenome). Ele tem 34 anos e é o Aikewara mais forte e alto do grupo. Ikatu é amável, o que não o impede de ser firme e extremamente seguro de sua autoridade. É ele quem comanda um quase interrogatório com a palavra franqueada aos demais índios – e muitos perguntam, de forma direta, quando falam português ou, no caso dos monoglotas em akwáwa (ramo do tupi-guarani), por intermédio do intérprete: “O que vem fazer aqui?”, “Por que quer saber as histórias dos índios?”, “Para quem vai contar as histórias os índios?”

A nova geração se empenha em evitar que os mais velhos assumam ter cometido atos de violência. “Os velhinhos são muito inocentes. Nós, que somos novos, respondemos por eles”, assume Ikatu, que grudaria em mim nos dois dias seguintes. O tempo passa e aos poucos, ainda que desconfiados, os índios param de perguntar e começam a responder. Porém, qualquer questão dirigida a um dos sete Aikewara feitos mercenários que envolva as palavras combate, prisioneiro, morto ou corpo é cortada por Ikatu, que nega ter havido confronto direto entre índios e guerrilheiros. No segundo dia na aldeia, entretanto, nos raros momentos em que Ikatu e outros Aikewara jovens se afastam, os mais velhos se aproximam para contar suas histórias.

Desde tempos imemoriais, a vida dos Aikewara é um constante fugir. Primeiro, fugiam da perseguição de índios inimigos. Depois, fugiam de massacres praticados pelos brancos e do risco de extinção. Agora, tentam fugir do passado.

Foi correndo de seus primeiros algozes, os Kayapó Xikrin, no início do século XX, que algumas centenas de Aikewara chegaram à área que ocupam hoje. Era uma gleba de mata tropical fechada, com poucos rios, mas caça abundante. Por ali ficaram. Com a palha das palmeiras, construíram ocas redondas, e com o arco e flecha caçaram macacos, veados, caititus (animal parecido com o javali), tatus e cotias. A ração diária era complementada com o que conseguiam coletar (jabutis, peixes, castanha) e plantar (mandioca, batata doce, milho e banana). Eles não contavam a idade porque isso não era importante, e na aldeia não existia disputa de poder, já que os caciques se sucediam em linha hereditária.

Pela descrição, pode parecer que eram prósperos e felizes, o que não é verdade. Tudo indicava que o destino da tribo era desaparecer.

Como não tinham meios de resistir aos ataques dos Kayapó Xikrin, os Aikewara cultivavam uma tradição terrível: para facilitar as fugas, evitam que as mulheres tivessem dois filhos de colo simultaneamente, e para isso recorriam a meios abortivos ou mesmo ao infanticídio.

O primeiro contato com os Kamará (homem branco) se deu em 1953. Começaram trocando presentes, mas em pouco tempo estavam morrendo pelo chumbo das armas de fogo ou pelas doenças (como varíola e gripe) trazidas por fazendeiros e castanheiros. O impacto do contato com o homem branco, aliado à tradição do controle radical da prole, fez com que os Aikewara entrassem em rota de extinção. Em 1961, sobravam na aldeia apenas 34 índios.

Anos mais tarde, a partir de 1966, os Aikewara começaram a ganhar novos vizinhos: militantes do então clandestino Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que chegavam àquele fim de mundo com a idéia de promover uma revolução armada no país. Era a Guerrilha do Araguaia.

Os índios não tinham a menor idéia do que queriam aqueles homens e mulheres que os habitantes locais chamavam de “paulistas”. “Índio não sabia nada”, explica, num precário português, Warikasú, um dos Aikewara feitos mercenários pelo Exército.

Seis anos depois da chegada dos guerrilheiros, vieram os militares com a missão de destruir o foco de insurreição. Eram 3.400 soldados contra 76 guerrilheiros (69 já estavam no local e sete, a caminho). Ou seja, uma vantagem para as Forças Armadas de 45 para um – vantagem, aliás, ilusória, já que os insurretos dominavam o terreno e os militares, não. Resultado: sem conseguir abafar a guerrilha, a campanha do Exército empacou. Warani, outro ex-mercenário da aldeia, um velho de cabelos brancos na altura dos ombros, encena a desorientação dos militares ao entrar na selva. “Soldado não sabe andar na mata”, sentencia. Foi assim, a partir de uma dificuldade operacional (leia-se, falta de treinamento adequado da tropa para aquele tipo específico de terreno), que surgiu no Exército a idéia de usar os índios para guiar os soldados e, em alguns casos, para assumir os combates. Começava a descida dos Aikewara ao inferno do homem branco.

Na tenda central da aldeia, Tawé se aproxima a passos rápidos, pára abruptamente diante de mim e começa a falar em tom grave. Ele parece ser um dos mais jovens índios feitos mercenários, arregimentado pelo Exército ainda na adolescência. Como nenhum dos índios da geração mais antiga sabe a própria idade, é difícil imaginar com precisão quantos anos aqueles homens à minha frente têm.

Tawé conta que, depois de invadir e tomar a aldeia, os militares semearam o pânico entre os índios. Começaram por queimar as roças e impedir os Aikewara de caçar. “Amarraram o índio e bateram muito, apontaram metralhadora, estupraram mulher do índio”, relata exaltado. “Um dia, soldado pegou Tawé e pai de Tawé [Kuimuá, já falecido] e levou de helicóptero para a mata. Índio tinha muito medo e pensava que tinha feito alguma coisa errada.” Só quando chegaram à selva fechada, Tawé, que na época já falava um pouco de português, soube o motivo do sequestro. “Soldado mostrou fotografia do povo da mata [os guerrilheiros] e disse para índio caçar”. Nos quatro dias em que ficaram na selva, Tawé e Kuimuá não puderam acender fogueiras para cozinhar ou para se aquecer porque corriam o risco de virar alvo dos guerrilheiros. Para sobreviver, comeram jabá cru e alimentos enlatados frios, fornecidos pelos militares.

Umassu, um Aikewara de gestos calmos e sorriso doce, diz que também foi levado para a mata de helicóptero, primeiro para servir de guia dos soldados, depois para “caçar o povo da mata”. Com a ajuda de um intérprete, Warini – aparentemente, o mais velho da aldeia, como demonstram os vincos profundos que cobrem todo seu rosto – conta que quase foi atingido num tiroteio entre soldados e guerrilheiros. Viveu para relatar a história, mas ficou surdo, segundo ele, por causa dos estampidos. Já Warani, o mais bem humorado da aldeia, pára por um momento de rir e de fazer rir e, em português precário, descreve como os soldados o enganaram. “Levaram índio para a mata dizendo que era para caçar macacos e caititus. Mentira! Era para caçar terrorista”, diz ele, usando o termo que aprendeu com os militares. Com sua voz firme e excepcionalmente lenta para um Aikewara, Waiwera narra que, ainda adolescente, foi levado à Serra das Andorinhas, próxima da aldeia, por um homem identificado como cabo Lima, para “caçar guerrilheiros”. Com o dorso nu pintado com pontos pretos a imitar o rasto de um caititu, Massara descreve, com a ajuda do tradutor, que durante “a guerra” ele foi obrigado a passar muitos dias na mata com fome.

Quando pergunto a qualquer um dos ex-mercenários Aikewara como eles lutaram e se no confronto houve vítimas, o clima pesa em torno de nós e os índios se mostram extremamente perturbados. Desviando o olhar, não param de repetir: “Índio tinha muito medo”. Eles admitem ter caçado os militantes do PCdoB – Umassu conta ter presenciado a prisão de Mariadina (Dinaelza Santana Coqueiro), cuja ossada continua desaparecida. E admitem ter visto corpos – Tawé diz que viu cadáveres, e Warini, que presenciou enterros à beira de uma estrada. Mas os Aikewara nada falam sobre as mortes. É como se existisse apenas o antes e o depois, e não o momento em que as vidas foram tiradas.

Para decifrar o limite dos índios, é preciso investigar outra ponta da história, a dos militares. Uma luz surge num documento inédito e de grande valor histórico produzido pelo coronel da reserva Aluisio Madruga de Moura e Souza, veterano dos combates no Araguaia. Num e-mail enviado a um amigo, também coronel da reserva, no dia 6 de abril de 2007, Madruga atesta que os índios de fato participaram da terceira e última campanha militar no Araguaia, a Operação Marajoara. Na mensagem, depois de tecer uma série de comentários sobre os combates, o coronel Madruga faz uma afirmação grave: “O único caso de cabeças cortadas – duas – que tenho conhecimento foi protagonizado pelos índios [da aldeia] Suruí já mais para o final da Operação Marajoara (…)”. Madruga diz também que o caso ficou “restrito” e que mesmo ele desconhece os detalhes.

É a primeira vez que um oficial que serviu no Araguaia atesta no papel que o Exército cooptou índios para a campanha contra a guerrilha. Mais: é a primeira vez que um oficial afirma, por escrito, que, ao cumprir sua missão, os mercenários mutilaram corpos.

Não há porque duvidar da autenticidade do e-mail. Primeiro, porque o endereço do remetente é o mesmo que Madruga usa para vender, pela internet, os livros de sua autoria sobre a luta armada. Segundo porque quem repassou a cópia da mensagem a GQ foi seu destinatário, que datou e assinou o papel de próprio punho.

O coronel Madruga, um carioca de cabelo cuidadosamente penteado e bigode triangular, não é um militar de passado ordinário na caserna. Ele serviu por 35 anos em algumas das instituições mais barra pesada da ditadura – DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna), SNI (Serviço Nacional de Informações) e CIE (Centro de Informações do Exército). Em 1973, sua experiência na caça a comunistas o levou ao Araguaia. Naquele ano, por seis meses, sob a patente de capitão e o codinome doutor Melo, Madruga participou do comando da Operação Sucuri, que levantou dados sobre a população local (como o grau de simpatia de cada morador em relação à guerrilha) e desvendou o esquema dos insurretos (localização, armamentos e estrutura). Na fase seguinte da campanha, com as informações obtidas pela Sucuri e a ajuda de mercenários (índios e brancos), o Exército dizimou, calcula-se, 56 guerrilheiros.

Hoje, Madruga prefere se calar. “Faz tempo que por decisão pessoal decidi esquecer o assunto Guerrilha do Araguaia”, diz ele. No livro que escreveu 29 anos depois da luta (Guerrilha do Araguaia – Revanchismo – a Grande Verdade), o coronel reconhece que a força terrestre contratou mateiros (homens que conhecem a mata profundamente) para servirem de guias das tropas. Nada diz, porém, sobre os Aikewara. Já no e-mail, ao citar as decapitações, ele insinua que a conduta teria sido de exclusiva responsabilidade dos índios. “(…) [O corte das cabeças de guerrilheiros] causou constrangimento na maioria [dos militares]. Mas índio é índio”, escreveu o coronel.

A suposta vexação dos militares em relação à mutilação de corpos não encontra sustentação na realidade. Uma prova viva disso se acha em Palestina, minúsculo e sombrio município do Pará, distante cerca de 120 quilômetros da aldeia Surui Sororó. Lá, num pequeno sítio com bananeiras, mangueiras e pés de milho, vive Sinésio Martins Ribeiro, de 86 anos, mateiro que serviu de guia para o Exército no Araguaia. Enquanto veste uma camisa para cobrir o dorso com a pele trincada de sol, ele dá um testemunho que ajuda a colocar mais uma peça no quebra-cabeça.

Ribeiro morava em São Geraldo do Araguaia, cidade paraense localizada na divisa com o atual Estado do Tocantins, quando, no final de 1973, o Exército chegou por lá arrepiando. “Queimaram nossas roças e mandaram a gente cortar os pés de banana. O Exército acabou com tudo”, relata. A estratégia das Forças Armadas era estabelecer o controle absoluto sobre a população local, por intermédio do terror, e impedi-la de continuar ajudando os guerrilheiros com alimentos, como vinha acontecendo havia anos. Ribeiro e cerca de 70 moradores da região, todos homens adultos, foram presos e levados para uma base militar montada em Xambioá, outro município do Bico do Papagaio. De acordo com o mateiro, nos dias que se seguiram, os presos foram espancados e alguns deles, obrigados a se sentar em formigueiros ou confinados em buracos escavados no chão e tampados com arame farpado, ao estilo da Guerra do Vietnã. Outros foram mortos. “Mataram muita gente sem necessidade”, diz ele.

As sessões de tortura e maus tratos eram intercaladas com triagens que visavam identificar os melhores mateiros da região – melhores de mata e melhores de tiro. Ribeiro se destacou. Depois de passar dois dias limpando armas do Exército e de mostrar aos militares a diferença de um bagaço de fruta comida por um humano, um boi e uma pipira (ave), ele foi selecionado. É Ribeiro quem conta: “O povo da mata estava isolado, ninguém sabia notícia deles. Aí, [os militares] me chamaram e disseram para eu descobrir onde eles [os guerrilheiros] estavam.”

Para sair dos suplícios da cadeia militar, Ribeiro aceitou a missão. Arregimentou então outros dois experientes mateiros, Iomar Galego e Raimundo Baixinho, e saiu à caça dos guerrilheiros levando como arma apenas a própria espingarda. Antes de partir, o grupo assistiu uma preleção. “Eles [os militares] davam um saco de plástico branco forte e diziam: ‘Derruba o papagaio e tira o bico dele’. Papagaio era como eles chamavam os guerrilheiros, e bico era a cabeça”, relata Ribeiro.

Sentado numa cadeira armada à sombra de uma árvore, o mateiro desenha no chão de terra de seu quintal, com os dedos, para melhor reconstituir a primeira operação do Exército da qual participou. Era final de 1973. Ele e seus companheiros varejavam um local de selva fechada, conhecido como Grota do Cristal, próximo ao município de São Raimundo do Araguaia (PA), quando avistaram três guerrilheiros. Sem serem notados pelos militantes do PCdoB, os mercenários atiraram. Dois insurretos conseguiram fugir, mas Arildo Aírton Valadão, o Ari, ex-estudante de física de 25 anos, caiu morto. No relato, diferentemente dos Aikewara, Ribeiro vai até o fim. “Tiramos a cartucheira e o relógio do Ari. Aí eu peguei meu facão e cortei a cabeça dele. Foi rápido”, conta o mateiro, sem demonstrar qualquer sinal de arrependimento ou orgulho. “Não é difícil, mas tem de arrancar os ossos.” O corpo mutilado foi deixado na Grota do Cristal; a cabeça, levada para uma base do Exército instalada próxima à aldeia Suruí Sororó e entregue a um militar conhecido como dr. César, provavelmente um codinome. “Era a ordem. Não podíamos passar por cima”, explica o mateiro.

Logo depois da operação que resultou na morte de Ari, a primeira realizada exclusivamente por não militares, o Exército soltou todos os moradores da região que ainda se encontravam presos. O tratamento dispensado pelo Exército à população local então mudou – ou, nas palavras de Ribeiro, “amoderou o sofrimento”. O mateiro, na verdade, passou a ser tratado como herói, tanto pela população local, que o via como responsável pela liberdade reconquistada, como pelos militares, que reconheceram nele uma expertise que não possuíam. “Eu cresci lá dentro [no Exército]. Passei a comer na mesa dos militares e tinha intimidade de falar com qualquer comandante”, descreve Ribeiro, agora sim com orgulho.

Diante do resultado considerado satisfatório na ação que terminou com a morte e degola de Ari, a força terrestre formou outros grupos de mercenários (mateiros e índios) e os enviou à mata. “Cortaram cabeças demais”, conta Ribeiro.

Numa dessas novas investidas, o mateiro confirma ter lutado ao lado de índios da aldeia Suruí Sororó. “Diziam que os índios conseguiam rastrear um veado num lajedo. Então, a pedido do Exército, o chefe deles [dos Aikewara] cedeu dois índios”. Ribeiro relata que, nos últimos dias de 1973, retornou à mata com esses dois índios, acompanhado de outros mateiros e alguns militares. Rastreia daqui, procura de lá, e mais uma vez Ribeiro se viu diante dos guerrilheiros, num confronto de vida e morte. “O povo da mata atirou primeiro, de mosquetão, e nós atiramos de volta”, narra ele. “Os índios ficaram assombrados e correram para dentro da mata, chorando. Eles eram frouxos.” (Possivelmente, os índios eram Tawé e Kuimuá, filho e pai que foram levados em pânico à mata. Na aldeia, Tawé foi o único a confirmar ter conhecido Ribeiro.) Terminado o tiroteio, ainda de acordo com o Ribeiro, um militar rastejou até a frente inimiga, encontrando o corpo de Jaime Petit da Silva, ex-professor de 28 anos. “O Jaime estava todo esbagaçado de tiro de FAL (Fuzil Automático Leve, arma utilizada apenas pelos militares)”, descreve o mateiro. Segundo Ribeiro, ele e seus companheiros decapitaram o guerrilheiro.

É verdade que, antes de aderir ao Exército, índios e mateiros foram torturados pelos militares. Mas é verdade também que os mercenários receberam recompensas pelos guerrilheiros abatidos. Quem afirma é Hugo Studart, historiador e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), observador independente do Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), criado pelo Ministério da Defesa para buscar os corpos dos guerrilheiros, e autor do livro A Lei da Selva: Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares na Guerrilha do Araguaia (Geração Editorial). “A tabela de preços, de 5 mil a 15 mil cruzeiros, variava de acordo com a importância e a localização do alvo”, diz o historiador, que prepara um segundo livro sobre a guerrilha. ”Os mateiros cortaram sete ou oito cabeças. Os índios mataram outros tantos, inclusive com decapitados. Ambos, mateiros e índios, foram obrigados a isso para sobreviver. Deve haver até nove corpos de guerrilheiros enterrados em algum ponto da reserva Suruí Sororó”, sustenta Studart.

Outra observadora do GTT que está em contato com os Aikewara, Maria Mercês Pinto de Castro, afirma que, por falta de preparo para o combate na selva, o Exército de fato terceirizou a luta no Araguaia, obrigando índios e mateiros a matar e a mutilar os guerrilheiros. “Todos os homens da região acima de 19 anos, índios e brancos, foram recrutados”, afirma ela. Maria Mercês viaja ao Araguaia desde 1979 a procura da ossada do irmão, o guerrilheiro Antônio Theodoro de Castro (Raul), ex-estudante de farmácia morto aos 28 anos. Hoje, ela auxilia os Aikewara nos processos que eles movem na Comissão da Anistia para receber, na condição de vítimas do regime militar, o benefício financeiro estabelecido pela lei.

Neste trecho da nossa História, a verdade é – e sempre será – perturbadora. Do mesmo modo que é correto dizer que os índios foram vítimas do Exército, é correto também admitir que foi a adesão dos índios à força terrestre que “assegurou-lhes a sobrevivência”. Quem diz isso é Roque de Barros Laraia, professor da UnB e ex-presidente da Associação Brasileira de Antropologia, maior especialista em índios Aikewara no Brasil, com 40 anos de estudos de campo na tribo.

De fato, o fim das operações militares no Araguaia, no início de 1975, coincidiu com uma melhora nas condições de vida dos índios. Em 1977, ainda na ditadura, finalmente a terra dos Aikewara foi demarcada pelo governo federal, alcançando 26,2 mil hectares (o equivalente a 26 mil campos de futebol ou ainda 5% da área de Brasília). É inegável que a posse definitiva da terra e a proteção do Estado trouxe para os índios uma estabilidade até então inédita. Dali em diante, mesmo estando no centro de uma região que crescia com desordem e violência, a aldeia sempre foi um oásis.

Nas duas décadas seguintes, num raio de 150 quilômetros a partir da reserva Suruí Sororó, a terra tremeu com quatro eventos, todos ocorridos no Pará: a construção da maior hidrelétrica 100% brasileira, Tucuruí (1975-84); a invasão de Serra Pelada por 80 mil garimpeiros (1980-92); o início da exploração da maior reserva de mineiro de ferro do mundo, Carajás (1980); e o massacre de 19 sem-terra em Eldorado de Carajás, o pior conflito no campo ocorrido no Brasil (1996). Na região que cerca a aldeia, é possível encontrar hoje, sem grande esforço, quase todos os sinônimos de tragédia social: altos índices de violência, prostituição infantil, extração ilegal de madeira, garimpo, mineração, conflitos por disputa de terra, desmatamento, queimadas, tráfico de drogas, tráfico de armas etc. Não se pode dizer que os Aikewara estejam completamente imunes a tudo isso, mas a vida na aldeia segue tranquila.

Em sua porção de terra, última área de mata nativa da região, os índios têm escola bilíngue, posto de saúde, água encanada e eletricidade. Já são trinta as casas de alvenaria, todas com puxadinho (uma oca de palha e madeira).

De acordo com levantamento feito pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), a aldeia abrigava 330 índios no ano passado. Hoje são aproximadamente 400, segundo os próprios Aikewara. Com o fim da disputa por terra com os Kayapó Xicrin, a tradição de evitar o segundo filho de colo e o infanticídio foram abolidos. As crianças são muitas e brincam descalças na terra fingindo serem onças.

Entre crianças, jovens e adultos, antigos hábitos permanecem inalterados: eles ainda pintam o corpo com tinta de jenipapo e urucum e dançam o Saporahái, evocando seu herói mítico, Mahyra, pai do sol e da lua. E, entre eles, falam preferencialmente o tupi-guarani.

As histórias que os velhos gostam de contar não têm guerrilheiros nem soldados. Só animais que fazem uma grande escada com as flechas dos índios para poder dançar no céu.

Não é difícil entender por que os índios preferem manter no passado o que no passado aconteceu. Mas para uma instituição como as Forças Armadas a coisa não é tão simples assim. Jorge Zaverucha, cientista político e coordenador do Núcleo de Estudos de Instituições Coercitivas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), defende que a cooptação de índios e de mateiros pelo Exército seja investigada e seus autores, punidos. “Mesmo nas guerras há regras, como a Convenção de Genebra. Mutilar é crime, pois o inimigo já está derrotado, no caso morto.”

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[ARQUIVO DE REPÓRTER – 2] Serra Leoa é aqui

Mais um dia de férias. Conforme combinado, segue mais um post da série Arquivo de repórter.

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“Estamos investigando uma rede de contrabando de diamantes. Vai cair gente graúda.” A dica – seca, sem maiores informações – veio de uma fonte na Polícia Federal. Até então, eu nada sabia sobre o tema.

Nas semanas seguintes, fui cutucando a fonte até ela me contar que, diferentemente do que eu pensara inicialmente, os diamantes contrabandeados não eram brasileiros, mas sim africanos. Pesquisei o tema até encontrar a ONG canadense Parceria África-Canadá (PAC), que tinha um grande dossiê sobre o assunto. Depois de estudá-lo, viajei à Amazônia atrás de informações. Na volta, com o embornal cheio, procurei novament a fonte da PF. Diante do meu progresso, a fonte abriu o jogo. Daí para frente, ficou fácil.

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Serra Leoa é aqui

Lucas Figueiredo, para a Rolling Stone (abril de 2007)

Há milhões de anos, as profundezas da Terra foram tomadas por uma onda de calor avassaladora. O miolo do planeta ferveu. Quando a temperatura atingiu 3.815º C, grandes porções de carbono enterradas no solo sofreram uma mutação espetacular. Da massa vulcânica ardente, desprenderam-se cristais transparentes de tons amarelados, esverdeados, rosa e branco leitoso. Com o tempo, devido à pressão no interior da Terra, essas pedras acabaram sendo expulsas para camadas bem próximas à superfície e algumas chegaram a romper o solo. Assim brotaram os diamantes.
Terá sido coisa de Deus ou do diabo?

O melhor amigo das garotas faz girar uma indústria formal que emprega 10 milhões de pessoas e movimenta US$ 60 bilhões por ano. É também, no outro lado da moeda, fonte de sofrimento e injustiça, como mostra Diamante de Sangue, filme estrelado por Leonardo DiCaprio. Fora as pieguices do tipo só-o-amor-constrói, ninguém-é-tão-ruim-que-não-possa-se-recuperar e o-bem-sempre-vence-o-mal, a fita tem o mérito de retratar, com fidelidade histórica (coisa cada vez mais rara em Hollywood), uma das grandes tragédias da África. Só faltou aos roteiristas do filme contar que a história dos “diamantes de sangue” é também uma história brasileira. E o Brasil, nesse caso, não é o mocinho.

Investigações em andamento no Brasil e na Bélgica, cujos resultados serão anunciados ainda neste semestre, apontam para a existência de uma rede internacional de contrabandistas que, a partir do território nacional, reexporta, para a Europa, diamantes extraídos ilegalmente na África. Parte do lucro do negócio fica no Brasil, outra parte segue para a Europa e uma terceira parcela retorna à África, onde ajuda a custear guerras civis.

O problema começou a tomar proporções de tragédia quando, no início da década de 1990, rebeldes de Serra Leoa – na verdade, bandidos sanguinolentos reunidos sob o pomposo nome de Frente Unida Revolucionária (FUR) – descobriram que os diamantes que brotavam com fartura do solo africano podiam financiar seus tresloucados projetos de poder. A fim de levar a melhor na guerra civil que assolava o país, os guerrilheiros da FUR tomaram, na base do balaço e de golpes de facão, o controle sobre as minas de diamantes do governo. (Lá, tal qual no Brasil, as pedras são facilmente encontradas na superfície da Terra. Sem necessidade de maiores tecnologias, basta lavar o cascalho com a bateia para encontrar os diamantes.) A FUR passou então a seqüestrar homens e crianças para trabalharem nas minas. Os homens viraram garimpeiros-escravos (como o personagem Solomon Vandy, interpretado por Djimon Hounson em Diamante de Sangue). E as crianças, por meio de uma tenebrosa lavagem cerebral, processo também retratado no filme, foram transformadas em guardas das minas e soldados treinados para matar. Para que tudo funcionasse conforme o figurino diabólico da FUR, quem saía da linha era assassinado ou tinha braços, pernas, orelhas ou lábios amputados com facão.

Índios-cintas-largas em garimpo ilegal, em Pimenta Bueno(RO)

Os guerrilheiros de Serra Leoa trocavam os “diamantes de sangue” (a expressão vem daquela época e não carece de maiores explicações) por armas e treinamento. Não lhes faltavam fregueses. Um dos parceiros da FUR nesse comércio era o então ditador da Libéria, Charles Taylor. (Taylor atualmente está preso e aguarda julgamento pelo Tribunal Internacional de Haia por crimes contra a humanidade. As acusações incluem assassinatos em massa, violência sexual, tortura, recrutamento de crianças-soldados, seqüestro, trabalho forçado e ataques a funcionários da ONU. No currículo de Taylor consta ainda o fato de que ele inspirou o personagem do ditador e assassino André Baptiste no excelente filme Senhor das Armas, estrelado por Nicolas Cage.)

Os lucrativos negócios da FUR e de Charles Taylor contagiaram malucos de outros países. Logo, guerrilhas da Angola, do Congo, do Zaire (atual República Democrática do Congo) e da Costa do Marfim aderiram à indústria dos “diamantes de sangue”. Uma parcela considerável dos 30 milhões de armas leves que circulam atualmente na África (a conta é da ONG Small Arms Survey) foi comprada em transações envolvendo as pedras. Resumo da história: de lá para cá, 4 milhões de pessoas foram mortas na África e mais de 200 mil crianças foram transformadas em baby killers em conflitos financiados com parte dos lucros obtidos com a venda das gemas.
O Brasil foi incluído nessa corrente criminosa justamente no momento em que o mundo tentava dar uma solução para o problema. Mal calculada, a estratégia para conter a extração e o contrabando dos “diamantes de sangue” acabou por aumentar o número de países envolvidos na questão. E assim, o Brasil virou rota das pedras malditas.

Só no ano 2000, com seu rotineiro atraso para interferir nos genocídios africanos, a ONU acordou para o fato de que os lendários diamantes do continente (lendários pela fartura, beleza, pelo tamanho e valor) estavam alimentando atrocidades. Numa reunião realizada na cidade de Kimberley, na África do Sul, combinou-se um plano para expulsar os “diamantes de sangue” das joalherias (sim, o outro lado horripilante dessa história é que as pedras que movem guerras vão parar no dedo, nas orelhas, nos pescoços e umbigos de muita gente fina deste mundo, sobretudo dos Estados Unidos e da Europa). A idéia era simples e parecia genial: os países fariam um pacto em que se comprometiam a comprar e vender somente os diamantes extraídos, de forma legal, em minas localizadas fora de áreas de conflito. O atestado de “bons antecedentes” das pedras – batizado de certificado Kimberley – seria fornecido a partir de 2003 pelos governos locais, sob rigorosa inspeção dos países participantes do acordo e da ONU. Assim, numa única tacada, impedia-se que os países africanos envolvidos em guerra civil tivessem acesso ao mercado oficial de diamantes e, por tabela, estimulava-se a legalização de uma indústria vocacionada para a clandestinidade.
Beleza! Só faltava ao plano funcionar. E foi aqui que a coisa deu chabu.

Como era de se esperar, integrantes da indústria do “diamante de sangue” (e aqui não está se falando apenas de africanos, mas de gente de várias partes do mundo) não aceitaram mudar de ramo tão facilmente. Na impossibilidade de obter os certificados Kimberley nos países de origem das pedras, os criminosos passaram a fraudar o “pedigree” dos “diamantes de sangue”, registrando-os em outros países. Um deles é o Brasil.

De acordo com o Ministério Público e a Polícia Federal, há fortes indícios de que “diamantes de sangue” são vendidos na Europa como se fossem pedras brasileiras extraídas de forma legal. Uma força-tarefa que reúne a PF, o MP, a Receita e o Tesouro Federal investiga o caso há três anos. No ano passado, dez pessoas chegaram a ser presas na chamada Operação Carbono. O material apreendido na ocasião levou a novas pistas, e a apuração ganhou fôlego. O delegado da PF responsável pelo inquérito, Marcelo Eduardo Freitas, afirma que os trabalhos devem ser concluídos em breve. Ele prefere não adiantar suas conclusões, mas, em entrevista à Rolling Stone, deu uma dica preciosa: “Há veementes indícios de que boa parte dos diamantes comercializados no Brasil não provém dos garimpos declarados nos certificados Kimberley. Há possibilidade inclusive de que diamantes tenham vindo do exterior, de regiões de guerra civil”.

Não são apenas as autoridades brasileiras que seguem as pistas dos “diamantes de sangue” no país. Nos últimos meses, a Bélgica (maior centro mundial de comércio de diamantes) entrou no caso. Sem alarde, procuradores e polícias da Bélgica estiveram no Brasil no final do ano passado a fim de compartilhar as informações colhidas na Operação Carbono. Depois disso, numa blitz realizada em empresas da Antuérpia – cidade da Bélgica onde são negociados 80% dos diamantes brutos e 50% das gemas lapidadas no mundo -, dois brasileiros foram detidos, fichados e, logo após, soltos. Não se trata de bagrinhos. Um deles é parente de um poderoso político de Minas Gerais.

A “lavagem” dos “diamantes de sangue” no Brasil funciona em três etapas. Primeiro, as gemas são contrabandeadas para o Brasil. Moleza! Atravessar as alfândegas dos continentes africano e americano com diamantes é uma barbada. Escondidas num bolso falso da calça ou até mesmo dentro de uma vasta cabeleira, as pedras não são acusadas pelos detectores de metais. Além disso, um punhadinho delas ou mesmo uma única gema pode valer uma fortuna. Recentemente, uma pedra brasileira de 86 quilates (um diamante rosa igual ao que DiCaprio persegue no filme) foi vendida para compradores da China por US$ 12 milhões.

Na fase seguinte, após internar as pedras africanas no Brasil, os contrabandistas pagam mineradores locais devidamente regulamentados para que eles assumam os “diamantes de sangue” como se fossem gemas encontradas em suas lavras. O “garimpeiro-laranja” então vai ao Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) – órgão do Ministério de Minas e Energia encarregado de emitir os certificados Kimberley – e registra as pedras em seu nome. Daí, legalizados como pedras de Minas Gerais, do Mato Grosso ou da Bahia, os “diamantes de sangue” ganham as joalherias do mundo.

O DNPM nega que o Brasil esteja na rota das gemas africanas e não reconhece falhas no processo de concessão dos certificados Kimberley. A posição oficial, no entanto, é bombardeada dentro e fora do país.

A ONG canadense Parceria África-Canadá (PAC), que se dedica a investigar e denunciar o comércio de “diamantes de sangue”, diz que não encontrou nada no sistema brasileiro que impeça a “lavagem” das gemas africanas. A própria PAC já chegou bem perto de flagrar o esquema. Numa investigação realizada em 2005, integrantes da ONG disfarçados de compradores de diamantes contataram, no Mato Grosso, um israelense que trabalha com a exportação da pedra. O israelense afirmou aos membros da PAC que negociava diamantes da República Democrática do Congo, país que desde 2004 está suspenso do mercado internacional das gemas. “A PAC não encontrou nenhuma prova de que essas redes estavam trazendo diamantes do oeste da África para o Brasil, mas, com uma rede de pessoas e contatos em vigor, seria relativamente simples para uma dessas redes dar um passo adiante e começar a ‘lavar’ as pedras através do Brasil”, diz o relatório da ONG.
O trabalho de detetive realizado pela PAC resultou na revelação de uma megafraude com um certificado Kimberley emitido no Brasil. De quebra, trouxe à luz um personagem acostumado a andar nas sombras – sombras brasileiras, africanas e européias. O personagem é Hassan Ahmad, e a fraude refere-se ao certificado Kimberley número 64.

Primeiro, o personagem. Hassan nasceu em Serra Leoa, foi registrado no Líbano e possui passaporte belga. Esse multiétnico senhor de 43 anos, calvo precoce e rechonchudo, vive no Brasil, mais especificamente em Belo Horizonte. Seu ramo: exportação de diamantes. Com um português precário (ele prefere se comunicar em árabe), Hassan montou sua base de negócios num escritório e num quarto de hotel localizados na zona sul da capital mineira. Segundo levantamento feito pela PAC com base em dados do Anuário Brasileiro Mineral, Hassan foi responsável, em 2004, pela exportação de 96% dos diamantes registrados em Minas Gerais (o estado número 1 do ranking nacional) e 53% das exportações totais do Brasil. Nada mal para quem nunca pegou numa bateia.

Preso no ano passado na Operação Carbono sob a acusação de ser um dos cabeças de uma rede internacional de contrabando de diamantes, Hassan passou uns dias na cadeia, foi solto e agora responde a processo em liberdade. Seu advogado, Carlos Alberto Arges Júnior, afirma que seu cliente é inocente. “Não tem nada firmado ainda contra ele. O que há são suposições”, afirmou à reportagem. E que suposições!

Hassan tem uma família da pesada. Os Ahmad estão no ramo dos diamantes desde a década de 1970, sempre com uma autoridade policial no cangote. Segundo a ONG Global Witness, que monitora relatórios de órgãos de inteligência norte-americanos, integrantes do clã já foram investigados pelo serviço secreto dos Estados Unidos e pelo Conselho de Segurança da ONU. Said Ali Ahmad, pai de Hassan, é suspeito de “lavar” dinheiro por meio de negócios com “diamantes de sangue”. Já um dos irmãos de Hassan, Ali Ahmad, foi (mal) citado no relatório S/2003/1.207 da ONU, que trata dos esforços do organismo na defesa dos recursos naturais da África. Na Bélgica, onde é dono da empresa Asa Diam (uma das receptadoras dos diamantes que Hassan exporta do Brasil), Ali também enfrenta grossas acusações. O Ministério Público belga informou à Polícia Federal brasileira que possui provas de que Ali fez vultuosas transferências bancárias para Nassour Aziz e Ossaily Samig, expoentes da máfia libanesa que comercializam os “diamantes de sangue” da República Democrática do Congo e de Serra Leoa.
No Brasil, Hassan é dono da Primeira Gema, empresa exportadora de diamantes sediada em Belo Horizonte. Segundo a PAC, a Primeira Gema tem conexões com a Primo Gem da República Democrática do Congo. A Bélgica é o principal destino dos diamantes exportados por Hassan a partir do Brasil. Além de vender as pedras para a empresa de seu irmão, Hassan tem negócios naquele país com a Sierra Gem, Diamonds NV, Tripla A Diamonds, Anar e African Star. Alertadas pela PF, as autoridades belgas cuidam agora de investigar se há algum crime por trás dessas parcerias.

Hassan também foi fisgado em outro caso tarja-preta. O nome do libanês aparece na lista de pessoas que enviaram recursos para fora do Brasil por intermédio da empresa Beacon Hill, uma “gigalavanderia” de dinheiro sujo. Ele obviamente nega qualquer irregularidade.

Fato é que o sujeito toca seus negócios com métodos, digamos, pouco ortodoxos. Um caso ocorrido em 2003 ilustra perfeitamente o estilo deixa-que-eu-chuto de Hassan. Naquela ocasião, ele decidiu expandir seus tentáculos até o garimpo do Rio Abaeté, próximo a Patos de Minas (MG), onde já foram encontrados os cobiçados diamantes cor-de-rosa. A região, contudo, era dominada pelos irmãos Gilmar e Geraldo Campos, conhecidos como “os reis do diamante”. A fim de ganhar a simpatia dos garimpeiros, que já tinham o costume de vender suas pedras para os irmãos Campos, Hassan não teve dúvida. Alugou um helicóptero, sobrevoou o garimpo e jogou lá de cima R$ 50 mil em notas de 10. A chuva de dinheiro provocou uma confusão tão grande que a Polícia Militar teve de ser acionada para serenar os ânimos.

Descrito o personagem, passemos à fraude com o certificado Kimberley número 64, uma história incrível em que aparece um morto que anda, uma montanha de dinheiro e, é claro, o nome de Hassan.

Em 2003, um homem que se apresentava como Fábio Tadeu Dias de Oliveira solicitou ao DNPM o direito de lavra sobre uma área de 100 hectares localizada no vale do Rio Jequitinhonha, próximo à cidade mineira de Diamantina. (Na mesma região, no início do século 18, foram encontrados os primeiros diamantes brasileiros, que tanto fizeram a alegria das cortes européias.) Garimpeiro o sujeito até podia ser, mas Fábio Tadeu Dias de Oliveira ele não era. Fábio havia morrido em São Paulo dois anos antes, aos 25 anos de idade, pobre de marré de si, depois de tentar a vida como motoboy, praticar pequenos furtos e vender objetos roubados.

O certo é que o fantasma conseguiu duas licenças do DNPM, registradas com os números 833476/2003 e 833479/2003 no dia 30 de junho de 2004. Sete dias depois (alguém aí lembrou que sete é numero de mentiroso?), o espectro de Fábio “bamburrou”, como costuma-se dizer no garimpo quando alguém faz um grande achado. De acordo com os registros oficiais, foi nesse dia que o gasparzinho de Diamantina vendeu para a empresa Morgan Mineração, por US$ 261 mil, uma partida de diamantes de 6.876,92 quilates. Três semanas depois, a Morgan Mineração repassou o lote para a Primeira Gema, de Hassan Ahmad. E este, ato contínuo, vendeu as pedras para a Sam Diamonds, de Dubai, nos Emirados Árabes. O preço foi salgado: US$ 2,97 milhões, mais de dez vezes o valor inicial do negócio.

A presença de um desencarnado na transação (o espírito chegou a figurar como sexto maior produtor de diamantes do Brasil, com faturamento anual de R$ 5 milhões) é apenas um dos mistérios da fraude. Nas suas investigações, a PAC descobriu que a lavra de onde teria brotado essa rara partida de diamantes está localizada numa área com baixo potencial para mineração. Ou seja, o fantasma teria escolhido garimpar numa lavra micada e mesmo assim, sete dias após iniciar os trabalhos, encontrou uma fortuna em pedras. Vai ter sorte assim no céu.

Existem outras irregularidades nas gemas do certificado Kimberley número 64. O gerente da Morgan Mineração, Vinicius José Wanderley Costa, afirmou aos investigadores da PAC que nunca comprou ou vendeu diamantes. Seu ramo de atividade, explicou ele, é a produção de pigmentos minerais usados na fabricação de tintas. O gerente da Morgan Mineração deduz que alguém pode ter clonado um talão de notas fiscais com o nome da empresa.

Na opinião da PAC, se quem encontrou as pedras é um fantasma e quem as vendeu a Hassan garante nunca ter comercializado com diamantes, o mais provável é que o libanês seja o autor da fraude com o certificado 64. “A longa lista de documentação que sustenta o certificado 64 é fraudulenta do começo ao fim e a única pessoa que certamente em algum momento manuseou estas pedras foi Hassan Ahmad”, afirma o relatório da ONG. “Os diamantes”, conclui a PAC, “podem ser provenientes da reserva indígena Roosevelt (Rondônia) ou podem ter vindo da África. Não há como saber. O que é certo é que eles não vieram dos locais das permissões de lavra mencionados na solicitação”.

O governo brasileiro até que tentou rebater as acusações da ONG, mas acabou pagando um mico internacional. Na reunião anual dos participantes do processo Kimberley de dezembro de 2005, em Moscou, a delegação brasileira do Ministério de Minas e Energia contestou as alegações da PAC. Na ocasião, um dossiê do DNPM, recheado com fotos de garimpos, mapas e croquis, foi apresentado como prova definitiva de que o Brasil falava a verdade e a ONG mentia. A bufada, contudo, não sobreviveu ao final do inverno russo. Três meses depois, o autor do relatório brasileiro, o então chefe do DNPM em Minas, Luiz Eduardo Machado de Castro, foi preso pela Polícia Federal sob a acusação de dar cobertura para a máfia do diamante. (Castro, que foi exonerado do cargo, nega envolvimento com a quadrilha e agora responde a processo em liberdade.)

A reserva indígena Roosevelt, citada pela PAC como possível origem das pedras registradas no certificado 64, é mais uma ponta solta no mercado negro de diamantes. Graças a uma formação geológica privilegiada e à eterna cobiça humana, essa área remota de Rondônia, localizada a cerca de 200 quilômetros da fronteira com a Bolívia, passou de refúgio paradisíaco de 1.200 índios a produtora de “diamantes de sangue” made in Brazil.

A região é habitada há séculos pelos índios cintas-largas. Por causa de doenças trazidas pelo homem branco, massacres praticados por seringueiros e avanço de posseiros, em apenas duas décadas (final dos anos 50 a final dos anos 70), a população da tribo diminuiu de 5 mil para mil índios. Em 1979, o governo tentou resolver a situação criando a reserva indígena Roosevelt, com 230 mil hectares. Não foi uma panacéia, mas as coisas começaram a melhorar para o lado dos índios. A tranqüilidade, contudo, durou apenas duas décadas.

Em 1999, um garimpeiro que havia entrado clandestinamente no território dos cintas-largas retornou da selva com as costas repletas de larvas de mosca, um sorriso de orelha a orelha e, na mão, um diamante rosa do tamanho de um cubo de gelo. Estava descoberta a maior mina de diamantes da América do Sul.

A notícia se espalhou rapidamente e, apesar de a mineração em terras indígenas ser considerada ilegal, logo a reserva dos cintas-largas foi invadida por milhares de garimpeiros. Num primeiro momento, os índios entraram na farra, cobrando de cada garimpeiro um pedágio de R$ 10 mil mais uma comissão de 10% sobre os diamantes encontrados. A maioria não pagava. Mas eram tantas as pedras que saíam do solo e elas eram encontradas de maneira tão fácil que, mesmo quando era inevitável a sangria, o negócio valia a pena. Em apenas quatro anos, a reserva dos cintas-largas passou a abrigar uma colônia de cerca de 5 mil garimpeiros. Os forasteiros transformaram grandes porções de selva em aglomerados de minas, barracas, bares e bordéis, onde, com grande chance, as noites podiam acabar em tiroteio e morte.

Com o tempo, os índios desistiram de tentar cobrar pedágio dos garimpeiros e passaram eles próprios a extrair os diamantes dentro da reserva. Os garimpeiros obviamente não gostaram nada do novo quadro, o que agravou a situação. Estima-se que os cintas-largas tenham lucrado US$ 25 milhões por ano com a venda ilegal das pedras no mercado clandestino, deixando atrás de si um rastro de desgraça e devastação.

Em abril de 2004, o problema ganhou as manchetes de todo o mundo quando 29 garimpeiros que trabalhavam ilegalmente dentro da reserva foram mortos pelos cintas-largas a tiros de espingarda e revólver e golpes de bodurna, tacapes e lanças. Dez caciques e guerreiros da tribo foram indiciados por assassinato, mas até hoje o caso não foi a julgamento.

Com o filme queimado no cenário externo, o governo brasileiro finalmente começou a coibir, de maneira mais enérgica, o garimpo ilegal na reserva, tanto o praticado por brancos quanto por índios. Um acordo permitiu aos cintas-largas leiloar seu estoque de diamantes – transação que rendeu mais R$ 717 mil aos índios – sob a condição de que eles abandonassem a extração das pedras. Os índios fingiram aceitar o trato, entregando equipamentos e materiais usados no garimpo, e as autoridades, por sua vez, fingiram acreditar que o problema estava resolvido.

A mentira, contudo, caiu por terra e, de novo, por causa das investigações da PAC. Um ano após a extração de diamantes na reserva Roosevelt ter sido oficialmente extinta, integrantes da ONG foram ao local e descobriram que os cintas-largas não tinham abandonado a atividade. Fazendo-se passar por comerciantes de pedras, investigadores da PAC foram levados à presença de um cacique da tribo. O incauto índio tentou vender aos falsos compradores 250 quilates de diamantes, que foram mostrados durante a negociação. Depois, o cacique ainda tentou convencer os integrantes da ONG a investirem R$ 100 mil na reativação de lavras localizadas dentro da reserva. Para provar que não estava querendo aplicar nenhum golpe, o índio deixou que seus candidatos a parceiro entrassem na reserva e vistoriassem equipamentos já preparados para a retomada da mineração (entre eles, cerca de 15 bombas e motores).

A PAC acredita que a única medida capaz de resolver o problema é legalizar a extração dos diamantes na reserva Roosevelt, sob rígido controle estatal e num formato que contemple os interesses dos índios. “Os órgãos apropriados do governo federal (Funai, Ministério de Minas e Energia e outros) deveriam começar as negociações com os caciques com o objetivo de legalizar a lavra de alguma forma que agrade os cintas-largas”, afirma a ONG.

Não será fácil, entretanto, encontrar uma fórmula que impeça a circulação dos “diamantes de sangue” provenientes da África ou da reserva indígena Roosevelt. O mundo, na verdade, demanda cada vez mais essa pedra de brilho hipnótico. Nos últimos anos, a Índia e a China, no vácuo do boom econômico que acontece nesses países, tornaram-se dois grandes mercados consumidores. O aumento da procura também se dá por outros motivos. Devido à bem-sucedida pressão internacional para flexibilizar o sigilo bancário de paraísos fiscais, criminosos, corruptos e terroristas dos quatro cantos do planeta estão limpando suas contas na Suíça e nas Bahamas e optando por aplicar seus recursos em diamantes. A própria ONU calcula que a indústria ilegal de diamantes movimente por ano cerca de US$ 6,7 trilhões. É mais de 30 vezes o que gira anualmente o mercado negro da cocaína (US$ 200 milhões).

O serviço secreto dos Estados Unidos já avisou às autoridades brasileiras que tem sérias razões para acreditar que, de seu esconderijo nas cavernas localizadas em algum lugar na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, o terrorista Osama bin Laden tenha negócios com a máfia do diamante que opera a partir do Brasil.

Se o líder da Al Qaeda algum dia vier ao país, ele poderá facilmente vender suas pedrinhas no Hotel Nacional, localizado no Setor Hoteleiro Sul, em Brasília. Pelo saguão do hotel, de forma discreta, circulam compradores e vendedores de vários calibres. Com políticos e autoridades sempre em busca de um refúgio seguro para guardar as economias ganhas em outro mercado, o da corrupção, a feira informal do diamante da capital federal é um mercado inabalável.

Não é de hoje, aliás, que os diamantes movem grandes mutretas em terras brasileiras. Por volta de 1725, quando as pedras foram descobertas no país, o então governador de Minas, Lourenço de Almeida, não avisou à Coroa Portuguesa do maravilhoso feito. Somente dois anos depois é que Lisboa ficou sabendo da novidade. Ao que tudo indica, pela severa advertência que recebeu do rei D. João V, Almeida deve ter lucrado muito com a venda das pedras nesse interregno.

Nos anos seguintes, navios vindos do Rio de Janeiro começaram a chegar aos portos de Portugal com grandes quantidades de diamantes. Estabeleceu-se então uma grande confusão. Como até então a Índia era o único produtor mundial das gemas, acreditou-se que as pedras vindas do Brasil eram, na verdade, diamantes indianos de qualidade inferior. Incapazes num primeiro momento de convencer que as pedras tinham sido extraídas no Brasil e que elas valiam tanto quanto as indianas, os donos dos diamantes começaram então a mandá-los para Goa, no Sul da Índia, de onde posteriormente eram reexportadas para a Europa como gemas de primeira linha.

Agora, pelas mãos dos produtores de Hollywood, o lado B dos diamantes é levado ao conhecimento do grande público. Nas salas de cinema, DiCaprio já não detém o monopólio de fazer verter as lágrimas dos espectadores ao retratar as desgraças cometidas na corrida pelos “diamantes de sangue”. (Ok, eu também chorei, confesso.) Dois documentários recentemente produzidos causam impacto ainda maior que a fita protagonizada pelo galã de Titanic. Blood on the Stone (sangue na pedra), do diretor serra-leonês Sorious Samura, não usa filtros para mostrar como o mercado dos “diamantes de sangue” conecta, simultaneamente, criminosos e vítimas em Nova York e Freetown, capital de Serra Leoa. Neste ano, nos Estados Unidos, estreou Bling: A Planet Rock (Bling: um planeta de pedra), dirigido pela diretora-gata Raquel Cepeda, de Nova York. Na fita, ela mistura a fissura pelos diamantes que toma conta da cena hip-hop norte-americana (bling é a gíria com que a turma se refere às joalherias caras e chiques do país) com o relato de como muitas dessas pedras foram produzidas em Serra Leoa à custa de mutilações e mortes.

Em breve, chegará às telas do Canadá o documentário The Diamond Road (A Rota dos Diamantes), mais uma fita que aborda o impacto da extração e do comércio ilegal das pedras em Serra Leoa. Já deu para perceber que há um poderoso lobby “do bem” por trás do interesse de produtores de cinema em patrocinar filmes que retratem a complexa questão dos “diamantes de sangue”. O Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, por exemplo, pingou alguns milhares de dólares para inteirar o orçamento de Bling: A Planet Rock. Já a Anistia Internacional fez rasgados elogios ao filme estrelado por Leonardo DiCaprio. Pois é, o cinema também pode ajudar a salvar o planeta.

Para terminar a conversa, uma explicação inútil e em seguida um conselho. A explicação: não, os diamantes não são eternos. Apesar de ter suportado o calor de 3.815º C e de ser o mineral mais duro conhecido até hoje, definhar é o destino de todo carbono – mesmo os poliformos de oito ou 48 faces, como os diamantes. Esse processo, contudo, pode demorar milênios.

Agora, sim, o conselho. Se você faz parte do exclusivo clube dos compradores de jóias fabricadas com diamante, nunca deixe de perguntar ao seu joalheiro qual a política da empresa em relação ao processo Kimberley. Ele deve ser capaz de descrever detalhes relacionados à procedência das pedras e explicar os rigores adotados para garantir que elas não são procedentes de regiões conflagradas. Mas se o joalheiro engasgar ou perguntar se Kimberley é uma nova marca de sapatos, procure outro fornecedor.

Um último aviso. Nunca, em hipótese alguma, embarque na onda fácil do boicote generalizado aos diamantes, sobretudo os da África. Na opinião de grupos envolvidos no combate ao comércio dos “diamantes de sangue”, a medida só teria o feito de penalizar países pobres ou em desenvolvimento que atuam dentro da lei. Só na Índia, por exemplo, o mercado das pedras dá emprego a mais de 1 milhão de trabalhadores. As gemas também são pilares da economia de países como África do Sul, Namíbia e Botsuana, onde não há guerra civil.

Portanto, se o bolso permite e o negócio é feito dentro das normas, nada de culpa ao comprar um brinco, um colar ou um piercing de diamantes. As garotas, penhoradas, agradecem.

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[ARQUIVO DE REPÓRTER – 1] O livro secreto do Exército

Na inauguração da série Arquivo de repórter, a primeira matéria do conjunto que me deu o Prêmio Esso de Reportagem de 2007: O livro secreto do Exército.

É uma história incrível. Em 1998, quando fazia a pesquisa do meu segundo livro, Ministério do Silêncio, tomei conhecimento da existência deste importante documento secreto do Exército, que continha a até então inédita versão da força terrestre sobre a luta armada. Na época, tentei obtê-lo mas não consegui. Não era tarefa fácil: havia apenas 15 cópias que circulavam de mão em mão num círculo fechadíssimo de militares e civis de extrema direita.

Ministério do Silêncio foi lançado, em 2005. Nele, fiz apenas uma vaga menção ao Livro secreto do Exército.

Nos anos seguintes, continuei a perseguir o documento. A cada tentativa, novo fracasso.

Em 2007,  ao visitar uma fonte da área militar, ele me levou até a biblioteca de sua casa e começou a mostrar seu acervo. Na estante, estava o Livro secreto do Exército, encadernado artesanalmente. Soube então que minha fonte era um dos 15 guardiões do documento. Depois de alguma insistência, a fonte aceitou emprestar o documento.

Depois de 19 anos sendo mantido em sigilo, finalmente o Livro secreto do Exército seria tornado público.

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Livro secreto do Exército é revelado

Lucas Figueiredo, para o Estado de Minas e Correio Braziliense (15/4/2007)

O mistério que dura duas décadas chega ao fim. Há 19 anos, uma dúzia de oficiais da reserva esconde uma espécie de “santo graal” da linha-dura das Forças Armadas: um livro produzido pelo serviço secreto do Exército, que conta o que seria “a verdade” sobre a luta armada promovida por organizações de esquerda, entre 1967 e 1974. A obra nunca foi publicada e até mesmo seu título foi mantido em sigilo. Alguns poucos exemplares artesanais passaram de mão em mão, num círculo fechado. Apenas 40 páginas da obra (menos de 4% do total) circulam livremente pela Internet, postadas no site do grupo Terrorismo Nunca Mais (Ternuma), que reúne militares e civis de extrema direita.

A reportagem do Correio/Estado de Minas obteve uma cópia do megadocumento, que tem 966 páginas divididas em dois tomos. A obra tem uma enorme importância histórica. Ela comprova, por exemplo, que o Exército possui informações sobre mortos e desaparecidos políticos que oficialmente nega ter (leia reportagem às páginas 3 e 4). Contém ainda mentiras, manipulações, mas também verdades incômodas, tanto para as Forças Armadas quanto para organizações de esquerda.

A obra começou a ser feita em 1986 como forma de responder às acusações contidas no livro Brasil: Nunca Mais, lançado no ano anterior, pela Arquidiocese de São Paulo, para denunciar a tortura e o assassinato de presos políticos na ditadura militar (1964-1985). Durante dois anos, por ordem direta do então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, cerca de 30 oficiais do Centro de Informações do Exército (CIE) — o serviço secreto da Força — trabalharam de forma sigilosa no chamado Projeto Orvil (orvil é a palavra livro ao contrário). Quando o livro ficou pronto, em 1988, foi batizado com o título de As tentativas de tomada do poder. Na época, porém, Leônidas desistiu de publicar a obra, que, rebatizada como Livro negro do terrorismo no Brasil, acabou se tornando uma relíquia militar.

Os dois tomos do livro secreto

Ao descrever o dia-a-dia de dezenas de organizações de esquerda, o livro cita mais de 1.700 pessoas, muitas delas ainda em atividade, como o ministro Franklin Martins (Comunicação Social), o ex-ministro José Dirceu, o governador José Serra (São Paulo) e o cantor e compositor Chico Buarque. Os dados, como é dito na apresentação do livro, foram retirados de documentos dos arquivos secretos militares.

Quatro fontes distintas comprovam que é autêntica a cópia obtida pelo Correio/Estado de Minas:

1) Trechos do livro foram copiados de documentos secretos do próprio Exército. Um caso concreto: nas páginas 721 e 722, está escrito: “A localidade de Santa Cruz, por exemplo, dista 600 km da sede do município, em Conceição do Araguaia, e a única ligação existente entre elas é o rio, demorando a viagem entre uma localidade e outra uma média de 5 dias”. Texto praticamente idêntico aparece em documento do Exército de 30 de outubro de 1972, classificado como secreto: “(…) A localidade de Santa Cruz dista 600 km da sede do município em Conceição do Araguaia e a viagem pelo rio, único meio de ligação, demora da ordem (sic) de 5 dias”.

2) Outros trechos do livro — como o relato do seqüestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em 1970 — são cópias ou adaptações de textos publicados no site do grupo do Ternuma (www.ternuma.com.br), guardião da obra.

3) Consultadas pelo Correio/Estado de Minas, pessoas citadas no livro — entre elas Cid Queiroz Benjamim e Maurício Paiva, que participaram da luta armada — apontam erros e manipulações na obra, mas confirmam a veracidade de inúmeros detalhes, que ainda não são de conhecimento público.

4) Um oficial do Exército que possui um exemplar do livro confirmou que a cópia em poder da reportagem é autêntica.

Durante dois meses, o Correio/Estado de Minas confrontou o conteúdo do livro secreto do Exército com outras 12 obras de referência histórica e com dezenas de documentos das Forças Armadas. Também entrevistou 32 pessoas envolvidas direta ou indiretamente com os fatos narrados. O resultado do trabalho começa a ser publicado a partir de hoje numa série de reportagens especiais. O Livro negro do terrorismo no Brasil agora faz parte da história.

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O relato inédito sobre 23 mortos

Há mais de 30 anos o Exército nega ter informações sobre as condições em que morreram e/ou desapareceram centenas de pessoas ligadas a organizações de esquerda durante a ditadura militar (1964-1985). Em pelo menos 23 casos, contudo, é falsa a versão de que do Exército nada sabe. A prova está no livro secreto produzido pela Força entre 1986 e 1988. A obra do Exército desmente o próprio Exército ao relatar o destino de 16 guerrilheiros do PCdoB na região do Araguaia (Pará) e de outros sete militantes — três do Movimento de Libertação Popular (Molipo), três da Vanguarda Popular Revolucionário (VPR) e um da Ação Libertadora Nacional (ALN) — em diversos pontos do país e até o exterior.

João Carlos Haas Sobrinho (esq.) pouco antes de se juntar à Guerrilha do Araguaia

Os relatos contêm informações corretas e falsas. O Exército omitiu, por exemplo, o dado de que vários foram mortos quando se encontravam presos. Mas, quando se ateve a colocar no papel informações verídicas, chegou a dar detalhes. É o que acontece, por exemplo, no relato da morte de seis guerrilheiros no Araguaia (Ciro Flávio Salasar de Oliveira, Manoel José Nurchis, João Carlos Haas Sobrinho, Francisco Manoel Chaves, José Toledo de Oliveira e Antônio Carlos Monteiro Texeira). Ao descrever os últimos momentos dos seis guerrilheiros, o livro informa a quais batalhões pertenciam os militares que os mataram (6º e 10º Batalhão de Caça).

No livro, o Exército também narra a prisão de Boarnerges de Souza Massa (Molipo) e Kleber Lemos da Silva (PCdoB), cujos corpos nunca foram encontrados. O fato reforça o indício de que ambos foram assassinados quando se encontravam presos. O caso de Boanerges é ainda mais revelador. Sabia-se apenas que ele treinara guerrilha em Cuba e que desaparecera ao voltar clandestino ao Brasil em 1971. Desconhecia-se, porém, se tinha sido preso, se morrera em combate ou se simplesmente deserdara. Sabe-se agora, de acordo com a página 607 do livro secreto do Exército, que naquele ano ele “foi preso em Pindorama, em Goiás, utilizando nome falso”, e que passou por interrogatórios.

Outro trecho revelador do livro refere-se a Wânio José de Mattos, integrante da VPR que desapareceu no Chile em setembro de 1973, após o golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende. Só em 1992, quando os arquivos chilenos foram abertos, a família foi informada pelas autoridades daquele país que, por falta de atendimento médico, Wânio morrera de peritonite aguda no Estádio Nacional, onde se encontrava preso. Contudo, pelo menos quatro anos antes da abertura dos arquivos chilenos, o Exército brasileiro já tinha conhecimento da versão, como mostra a página 788 do livro secreto. O trecho em que se lê “Wânio José de Mattos morreu no Chile, em 1973, com `peritonite´”, é mais uma prova de que, a partir do início da década de 1970, as ditaduras latino-americanas atuavam em estreita sintonia na guerra suja que travavam sobre seus opositores, parceria que ficou conhecida com o nome de Operação Condor.

Das 23 mortes relatadas no livro secreto do Exército e que ainda não tinham sido assumidas oficialmente pela Força, 22 corpos nunca foram encontrados. Se o Exército tem uma versão para essas 22 mortes, é presumível que tenha informações do que foi feito com os corpos.

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Cronologia do Projeto Orvil

1985

O então presidente José Sarney

José Sarney toma posse na Presidência, pondo fim a 21 anos de ditadura militar. No mesmo ano, a Arquidiocese de São Paulo lança o livro Brasil: nunca mais, com relatos de tortura e assassinato de presos políticos ocorridos durante a ditadura.

1986
Para responder ao Brasil: nunca mais, o ministro Leônidas Pires (Exército) manda o serviço secreto da Força produzir um livro com a versão dos militares para a luta armada. Inicia-se assim o Projeto Orvil (a palavra livro ao contrário).

1988
O livro do Exército fica pronto e é batizado com o título As tentativas de tomada do poder. Leônidas (foto), contudo, volta atrás e decide não publicá-lo. O documento então passa a circular entre militares da reserva rebatizado de Livro negro do terrorismo no Brasil.

2000
Integrantes do grupo de extrema direita Terrorismo Nunca Mais (Ternuma), que reúne militares e civis, têm acesso ao livro e colocam na internet cerca de 40 páginas da obra. Não informam, porém, a origem dos textos.

2007
O Correio/Estado de Minas obtém uma cópia do livro. Com 966 páginas, o documento cita mais de 1,7 mil pessoas ligadas a organizações de esquerda, muitas delas ainda em atividade. A obra comprova que o Exército esconde informações sobre desaparecidos.

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Suzana Lisboa

Processos podem ser reabertos

As informações contidas no livro secreto do Exército podem provocar a revisão de casos já apreciados pela Comissão Especial que julga a responsabilidade do Estado na morte e desaparecimento de ativistas políticos. A opinião é de Suzana Lisboa, ex-membro da Comissão Especial e integrante da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos.

Ela cita o caso de Wânio José de Mattos, que, segundo o livro do Exército, morreu de peritonite no Chile, em 1973, quando se encontrava preso no Estádio Nacional. A mesma versão só foi tornada pública pelas autoridades chilenas em 1992, ou seja, quatro anos após a conclusão do livro secreto do Exército. “A Comissão Especial negou a indenização no caso de Wânio por considerar que o Estado brasileiro não tinha relação com a morte. Pelo que revela o livro do Exército, no entanto, vê-se agora que essa relação existia”, afirma Suzana.

Para ela, o Ministério Público deve inquirir militares que participaram da elaboração do livro, a começar pelo ex-ministro Leônidas Pires Gonçalves, a fim de que eles esclareçam como a obra foi feita e como cópias dela chegaram às mãos de particulares. “A história do país foi roubada por uns poucos”, diz Suzana. “Sempre se soube que esse livro existia, mas ele nunca tinha sido manuseado fora do meio militar. É importante que o Exército responda algumas questões: Onde estão os documento que serviram de base para o livro? Quem colaborou na realização do livro? Quanto custou? Como foi parar nas mãos de terceiros?”

Conselheira da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos e presidente do grupo Tortura Nunca Mais da Bahia, Diva Soares de Santana também considera que o Exército deve explicações em relação ao livro secreto. “O livro foi feito com dinheiro público, por isso os militares têm a obrigação de abrir as informações referentes a ele”.

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Livro era uma arma, diz general

“Eu disse ao (José) Sarney: ‘Eu fiz esse livro. É uma arma que eu tenho na mão’.” Às vésperas de completar 86 anos, saudável e com a memória preservada, o general da reserva Leônidas Pires Gonçalves relembra, em entrevista ao Correio/Estado de Minas, o dia em que, na condição de ministro do Exército, se reuniu com o presidente da República para discutir o que fazer com a versão oficial dos militares para a luta armada que o serviço secreto do Exército acabara de concluir. “Falei para o Sarney que não ia publicar o livro. Para que criar um problema que não existe?”, recorda Leônidas. “Esse livro”, concluiu o general na conversa com o presidente, “fica como um documento, que nós (militares) podemos ter a necessidade (de divulgar) no futuro.” De acordo com Leônidas, Sarney concordou e ambos deram o caso por encerrado.

General Leônidas Pires Gonçalves

Quais seriam as “necessidades” a que se refere Leônidas? É o próprio general quem explica: atos de “revanchismo” contra as Forças Armadas por parte de “quem perdeu a guerra”. “Naquele tempo (em que o livro foi feito), não havia o que acontece agora, um revanchismo sem propósito”, afirma ele. “No meu período como ministro (1985-90), não houve nenhum problema dessa natureza, essas ‘mães não-sei-do-quê’, (grupos do tipo) Tortura: nunca mais.”

Leônidas confirma que partiu dele a ordem para fazer o livro. Diz, porém, que não ficou com nenhum exemplar. “O livro foi feito pelo CIE (Centro de Informações do Exército, serviço secreto da Força) com base nos documentos que o órgão dispunha”, afirma. O general é categórico ao comentar a suposta destruição de documentos do CIE, que, segundo vem argumentando o Exército nos últimos anos, impediria a divulgação de informações referentes ao combate às guerrilhas urbana e rural nas décadas de 1960 e 1970: “Foram queimados coisa nenhuma”.

Na opinião de Leônidas, o Exército não tinha a obrigação de mostrar o “livro negro” a ninguém, já que a obra não foi publicada. “Isso é passado. Vamos olhar para frente”, sugeriu. O general critica os guerrilheiros do Araguaia — “A pergunta é: o que eles estavam fazendo lá? Fazendo um enclave, que é uma coisa lesa-pátria. O resto é conversa fiada” —, critica antigos companheiros de desaparecidos políticos — “Nós cuidamos dos nossos mortos. Eles deviam ter cuidado dos mortos deles” — e critica também os familiares — “Por que não perguntam o que seus filhos estavam fazendo lá? Por que não perguntam se mereciam ou não mereciam, na luta, serem mortos?”

Ainda em relação ao Araguaia, Leônidas chama de “guerra” o enfrentamento que ocorreu entre as Forças Armadas e os guerrilheiros do PCdoB. “O que resulta de guerra? Morte. Essas coisas são conseqüências muito naturais. Eles (os grupos de esquerda que participaram da luta armada) perderam a guerra e agora querem ganhar no tapetão”, afirma. De acordo com ele, o número de ativistas políticos de esquerda mortos durante o regime militar — cerca de 350 — foi até pequeno se comparado ao que aconteceu nas ditaduras do Chile, 3 mil mortos, e Argentina, 30 mil mortos. “Nossa vitória, do ponto de vista de (perda de) vidas humanas, foi muito sóbria.” Por fim, conclui: “Na guerra só há uma coisa bonita: a vitória. O resto não é bonito”.

Na quarta-feira, o Correio/Estado de Minas entrou em contato com o Ministério do Exército, que solicitou que perguntas referentes ao caso fossem enviadas por escrito, o que foi feito no mesmo dia. Até a noite de sexta-feira, porém, as respostas não haviam chegado. O senador e ex-presidente José Sarney informou, por meio de sua assessoria, que não se lembra do livro. O grupo Terrorismo nunca mais (Ternuma), uma espécie de guardião do Livro negro do terrorismo no Brasil, não respondeu questionário enviado pela reportagem. (LF)

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Famílias exigem corpos

Ouvidos pelo Correio/Estado de Minas, familiares de mortos e desaparecidos políticos citados no livro reivindicam a abertura dos documentos que embasaram a obra para que possam localizar os restos mortais de seus parentes:

Clélia de Melo (irmã de Alcery Maria Gomes da Silva):

Alcery Maria Gomes da Silva

“Minha irmã foi enterrada como indigente e, por isso, não soubemos de nada referente a ela durante muito tempo. Andamos em círculos durante anos para conseguir informações. Só fomos conseguir o atestado de óbito em 1995, mesmo assim depois de muito esforço. Se esse livro tivesse vindo a público, teríamos conseguido o atestado de óbito antes. Nunca conseguimos reaver o corpo de minha irmã. Machuca saber das coisas que estão escritas nesse livro, mas é sempre bom saber um pouquinho mais. A verdade precisa aparecer”

Baltazar Oliveira (irmão de Antônio dos Três Reis Oliveira):

Antônio dos Três Reis Oliveira

“Na década de 1970, minha família fez contatos com o Exército para saber o que tinha acontecido com meu irmão, mas eles negaram ter qualquer informação. Nunca tivemos uma posição oficial em relação à morte de meu irmão. O Exército escondeu durante todo esse tempo que tinha as informações que agora aparecem no livro. O Exército sabe onde estão os restos mortais do meu irmão. É importante que esse livro venha à tona. É preciso acabar com essa história de desaparecidos políticos no Brasil. O que queremos é dar um sepultamento digno para nossos parentes”

Joelson Crispim

Olga Crispim Lobo Bardawil (irmã de Joelson Crispim):
“Meu irmão tinha 22 anos quando morreu, e minha família ficou marcada por esse acontecimento pelo resto da vida. Ficou uma sombra nas nossas vidas. Em relação ao livro, deve vir a público toda informação que por direito é pública. Se o livro foi baseado em documentos, como parece ter sido, onde estão eles? Devem estar guardados em arquivos. A única resposta que eu quero saber é onde eles enterraram meu irmão. Está na hora de as famílias dos desaparecidos políticos poderem botar um ponto final nesse luto. Nós temos esse direito”

Criméia Alice Schmidt de Almeida (viúva de André Grabois):

André Grabois

“Está claro que esse livro foi feito com base em documentos. Ninguém guarda de memória tantas informações. Esse livro foi produzido pelo serviço público, por ordem do serviço público, mas ficou com particulares, o que é um absurdo. Ele deveria ter sido publicado. O governo não pode produzir livros secretos. Chega de coisas secretas”

Sônia Haas (irmã de João Carlos Haas Sobrinho):
“Se esse livro traz novidades, informações novas às quais nunca tivemos acesso, por que não fomos informados? Por que não temos acesso a ele? Esse livro tem de ser um instrumento de pesquisa para nós, tem de ser socializado. Apesar do desgaste pelo qual passamos todos esses anos na busca dos restos mortais de meu irmão, notícias como essa sempre despertam uma fagulha de esperança de que um dia essa busca terminará. A localização dos restos mortais de nossos parentes é um compromisso social, de justiça, de história. Temos direito a isso”

Marida Toledo de Oliveira (irmã de José Toledo de Oliveira):

José Toledo de Oliveira

“O Exército tem de se manifestar. Onde eles pegaram as informações que estão no livro? Eles agora têm de abrir os documentos em que o livro se baseou. O arquivo ainda deve existir”.

Francisco José de Oliveira

Nella Oliveira Menin (irmã de Francisco José de Oliveira):
“Não obtive uma versão da morte do meu irmão por parte do Exército. Nunca falaram nada. O governo Lula falou que ia liberar os arquivos, mas até agora nada”

Helenalda de Souza (irmã de Helenira Resende de Souza):

Helenira Resende de Souza

“De acordo com os relatos que ouvi, minha irmã foi torturada antes de ser morta. No livro não está escrito isso, mas, se o Exército assume que ela foi morta, certamente sabe também como isso aconteceu. Os militares sempre disseram que não tinham informação sobre minha irmã, mas o livro prova que eles mentiram. A notícia de que esse livro existe reforça a necessidade de o Exército abrir seus arquivos secretos”

Boanerges de Souza Massa

Cyro Massa (irmão de Boanerges de Souza Massa):
“Na época em que Boanerges desapareceu, minha família não foi informada da sua prisão. É público que, na prisão, utilizava-se da tortura para que os presos contassem o que sabiam. O que eu quero saber é onde está o corpo do meu irmão. Essa informação vai ter de sair dos arquivos”

Maria de Lourdes Oliveira (sobrinha de Ciro Flávio Salazar de Oliveira)

Ciro Flávio Salazar de Oliveira

“Há várias versões para a morte do meu tio. Não sabemos direito o que aconteceu. Deve haver documentos guardados que esclareçam isso. É uma vergonha. As pessoas têm o direito de enterrar seus mortos. Muitos pais já faleceram sem saber o que tinha acontecido com seus filhos. É um ponto importante da nossa história que precisa ser revelado”

Kleber Lemos da Silva

Norival dos Santos Silva (irmão de Kleber Lemos da Silva):
“É bom que tudo isso venha a público”

Maristella Nurchis (irmã de Manoel José Nurchis):
“A descrição da morte de meu irmão que está no livro confere com os relatos que escutei. Agora o Exército precisa se manifestar”.

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