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“Quem diria, hein, Aécio?”

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QUATRO ANOS DEPOIS de receber dos mineiros 5,4 milhões de votos para presidente da República, Aécio Neves compareceu novamente neste domingo à seção eleitoral onde vota, instalada na Escola Estadual Governador Milton Campos, em Lourdes, bairro nobre de Belo Horizonte. Desta vez, não estava acompanhado da mulher, a ex-modelo Letícia Weber, mas cercado de parrudos seguranças. O número de repórteres e fotógrafos escalados para cobrir o evento era muitíssimo menor que em 2014, e a claque, por sua vez, bem menos amistosa.

Enquanto caminhava apressado e com um sorriso nervoso rumo à urna eletrônica, Aécio foi xingado de “ladrão”, “traidor” e “safado”, e foi atingido por uma garrafa de plástico, arremessada por um eleitor que aguardava a vez de votar. Um coro gritava “golpista, golpista, golpista…”. Um homem se aproximou dele é fulminou: ”Quem diria, hein, Aécio? Passar por isso! Que humilhação!”.

Neste ano, abatido pelas denúncias de corrupção e em especial pelo vazamento da gravação em que aparece pedindo R$ 2 milhões a Joesley Batista, sócio da JBS, Aécio não teve espaço em seu partido para disputar a reeleição para senador. Num primeiro momento, ele descartou concorrer a deputado federal, sob o argumento de que o recuo na carreira política (além de senador, ele foi governador de 2003 a 2010 e, em 2014, obteve o segundo lugar na eleição presidencial, com honrosos 48,36%) poderia parecer uma confissão de culpa ou, pior, uma busca pela manutenção do foro privilegiado no STF. Mais tarde, rendendo-se à dura realidade, acabou voltando atrás e disputando uma vaga na Câmara.

A expectativa era a de que Aécio fosse um dos mais votados em Minas, mas ele acabou tendo apenas 106 mil votos, ficando em 19º lugar entre os postulantes ao cargo no estado. Mesmo tendo ostentado um número de destaque (4500), não foi sequer o mais votado em sua coligação (5º lugar) ou em seu partido (2º lugar). Teve 2633 votos a menos que Zé Silva (Solidariedade), um engenheiro agrônomo que se fez político há menos de uma década na (hoje extinta) onda aecista.

Não para por aí a decaída daquele que, até pouco tempo atrás, era a maior aposta nacional no campo anti-PT. Franco favorito a reconquistar o cargo de governador de Minas, Antonio Anastasia (PSDB), afilhado político de Aécio, perdeu fôlego na reta final do primeiro turno, obtendo 29,06% dos votos válidos, ficando em segundo lugar, atrás do novato Romeu Zema, do Novo (42,73%). Com o mandato de senador garantido até o final 2022, Anastasia resistiu publicamente até onde pôde a concorrer ao cargo de governador, e só entrou na disputa por insistência de Aécio, que pretendia se esconder atrás do pupilo, melhor avaliado que ele em Minas atualmente. Agora, a coisa mudou de figura com a inesperada avalanche de votos do azarão Zema, que, tendo colado sua imagem à de Jair Bolsonaro, pegou carona na onda direitista que varre o país.

Caso Anastasia não consiga virar o jogo no segundo turno – uma tarefa hercúlea, diga-se de passagem -, Aécio ficará fora da cena principal da política mineira e não contará com o escudo que, durante os doze anos do mandarinato tucano no estado (2003-14), proporcionaram-lhe uma relação, digamos, especial com a imprensa e com órgãos locais, como a Justiça, o com Ministério Público e o com Tribunal de Contas.

Se em Minas a situação de Aécio Neves é delicada, dentro de seu partido não é melhor. Certamente será creditada em sua conta boa parte do derretimento do PSDB nas eleições deste ano – 99% dos redutos municipais tucanos foram conquistados pelo PSL de Jair Bolsonaro. Como Aécio se recusou a deixar o mandado de senador e demorou a abrir mão da presidência do PSDB após o escândalo da gravação com Joesley Batista, ele acabou por se tornar uma figura tóxica no ninho tucano. Não à toa, os candidatos do partido à Presidência da República, Geraldo Alckmin, e ao Governo de Minas Gerais se recusaram a aparecer publicamente a seu lado. Pelo visto, não adiantou muito.

O desastre para Aécio Neves só não foi completo porque, com a eleição para deputado federal, ele manteve o precioso foro privilegiado, o que fará com que seus casos mais cabeludos – o mineiro responde a seis inquéritos e uma ação penal no STF – continuem tramitando no esquema “com o Supremo, com tudo”, na definição sincera do senador Romero Jucá (MDB-RR). Jucá que, aliás, não foi reeleito.

Mesmo blindado pela morosidade e malemolência do STF, o tucano mineiro perdeu de vez qualquer chance de recuperar o antigo charme ou a galhardia herdada do avô Tancredo Neves. Depois de patrocinar uma envergonhada campanha eleitoral, em que não fez comícios ou participou de eventos públicos, Aécio está condenado, pelos próximos quatro anos, a vagar nas sombras pela Câmara e a lutar por migalhas do poder. Tendo sido um dos cabeças do golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff da Presidência em 2016, abrindo espaço para o crescimento de uma direita raivosa e de traços fascistas, Aécio seguirá no palco, mas ficará escondido atrás das cortinas.

“Quem diria, hein, Aécio?”

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Seis meses separam o impeachment “moralizador” do caso Temer-Geddel: como chegamos até aqui?

Neste artigo, publicado no Intercept, tento explicar como o Brasil se tornou um novelão de mau gosto.

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Domingo, 17 de abril de 2016: uma reflexão sobre o Brasil

bandeira-brasil-rasgada1O que passa na cabeça de um corrupto e de um corruptor? Dorme tranquilo de noite? No restaurante, quando pede ao garçom um vinho de R$ 10 mil reais, sua consciência sussurra algo como “seu luxo é alimentado com dinheiro desviado de escolas, hospitais, estradas”? Ele sofre em algum momento ou é 100% cinismo. O que sente o corrupto?
Nos meus 25 anos de jornalismo, muitas vezes eu me fiz essas perguntas. Tentei ir além, buscando respostas com os corruptos que conheci. Foram vários. Com alguns deles, fontes que cultivei durante anos, cheguei a desfrutar de certa intimidade. Frequentava suas casas, conhecia seus filhos, comíamos à mesma mesa, o que nos permitia, a eles e a mim, falar com mais transparência. Sondei suas almas. Rodei a América do Sul, fui aos Estados Unidos e à Europa para falar com corruptos. Alguns se deixaram revelar parcialmente, porém nunca encontrei uma resposta completa para minhas questões.
Em 1994, no governo Itamar Franco, fiz minha primeira reportagem investigativa sobre corrupção. Um caso clássico: obras superfaturadas do Ministério dos Transportes tocadas por empreiteiras gigantes – Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, entre outras. (Reconhece esses nomes? Pois é…) Perdi as contas de quantas matérias escrevi que citavam essas e outras empreiteiras em episódios de desvio de dinheiro público. Posso nunca ter descoberto o que se passa nos corações e nas mentes dos corruptos, mas, a partir de certo momento, entendi como funcionavam os esquemas que alimentavam corruptos e corruptores.
Na segunda metade da década de 1990, já no governo Fernando Henrique Cardoso, o esquema das grandes empreiteiras estava tão manjado que os corruptos começaram a operar com agências de publicidade. Funcionou – e funcionou bem. Essa história está contada no meu livro O Operador – como (e mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT, publicado dez anos atrás. Como o subtítulo do livro mesmo diz, ali também está contada a história de como o PT,ao chegar ao poder em 2003, se apropriou do esquema de corrupção dos tucanos (o mesmo modus operandi, os mesmos operadores, os mesmos laranjas, os mesmos bancos, os mesmos doleiros, os mesmos corruptores…).
Em matéria de corrupção, portanto, posso dizer que já bati tanto em Chico quanto em Francisco.
Tendo dedicado boa parte da minha atuação profissional às investigações de corrupção, tive um interesse especial pela operação Lava Jato, promovida pelo Ministério Público, pela polícia e pela Justiça federais. Conheço muitos dos personagens envolvidos, alguns deles muito bem aliás.
É inegável que as provas colhidas nas investigações revelam um gigantesco esquema criminoso encabeçado e guiado pelo PT. As bases de sustentação dos governos Lula e Dilma se fartaram com dinheiro grosso desviado da Petrobras. Não há dúvidas: o Partido dos Trabalhadores se corrompeu.
O esquema em que o PT se deliciou, é preciso dizer, não é novo: as empreiteiras, os doleiros e os burocratas são os mesmos que, há décadas, roubam em governos de direita e de centro. Os corruptores não têm ideologia.
Muitos petistas graúdos foram pegos com a boca na botija. Lula foi pego com a boca na botija.
O caso de Lula é, em particular, curioso. Ele cobrava por palestra US$ 200 mil (na cotação de hoje, R$ 704 mil), e sua agenda era cheia. Ou seja, ganhava uma fortuna por meios legais, porém enredou-se numa relação promíscua com grandes empreiteiras. Lula poderia, com o fruto de seu trabalho, ter comprado dezenas de sítios em Atibaia e dezenas de tríplex no Guarujá, mas preferiu render-se a um esquema de “agrados” inaceitáveis.
Lula se corrompeu. E precisa responder por isso na Justiça. (Como eu gostaria de ter uma conversa franca com Lula e ouvir dele uma explicação para ele ter se associado a alguns dos maiores corruptores do país…)
A bem da verdade, porém, é preciso dizer que Lula agiu do mesmo modo que Fernando Henrique Cardoso. Ao deixar a Presidência, FHC também se enredou em num esquema promíscuo com grandes empreiteiras que abarcava favores para membros de sua família e ocultação de patrimônio. Nesse ponto, Lula e FHC são farinha do mesmo saco.
Se é verdade que a Lava Jato mostrou que o Brasil está carcomido pela corrupção, é verdade também que a operação foi (e ainda é) conduzida de forma absolutamente seletiva, portanto viciada. Não é sério um juiz que vaza áudios de grampo em que um investigado que sequer é réu conversa com seu advogado. O nome disso é crime (as comunicações entre advogado e cliente são invioláveis). Não é sério um juiz que vaza o áudio de uma conversa íntima entre a nora de um investigado e um amigo dela, ou o áudio de uma conversa pessoal entre a mulher e o filho de um investigado, conversas que nada tinham a ver com a investigação. O nome disso é perseguição, linchamento moral.
Como juiz, Sérgio Moro se corrompeu. Tornou-se um justiceiro que se considera acima da lei. Assim como Lula, FHC, PT, PSDB, Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez, Moro precisa responder por seus desvios.
A Lava Jato tem outro defeito de origem. Foca apenas a corrupção praticada pela base do governo. É no mínimo escandaloso como as investigações deixam passar batido os corruptos de partidos de oposição. Quem em sã consciência acredita, por exemplo, que a Odebrecht, no mercado desde 1944, só fez parcerias criminosas com o PT e seus aliados? Quem engole a seletiva delação premiada dos executivos da Andrade Gutierrez, que por décadas foram associados ao PSDB e agora só se lembram das falcatruas cometidas no governo do PT?
Na Lava Jato, a PF, o MPF e a Justiça Federal tiveram grande competência ao se debruçarem sobre a corrução do PT, mas fecharam os olhos em relação à oposição. O alvo era Lula, e apenas Lula. Afinal, todos sabemos, Lula era um fortíssimo candidato à eleição presidencial de 2018.
A Lava Jato é uma operação contra a candidatura de Lula em 2018 e não um processo criminal de combate à corrupção. Se fosse diferente, as investigações também teriam como alvo Aécio Neves, citado diversas vezes nas delações premiadas mas jamais investigado.
O que explica que a maioria da população tenha abraçado a sanha anti-corrupção no PT, mas dê de barato as práticas corruptas dos adversários do PT? O que explica o ódio contra Dilma, uma presidente incompetente mas honesta, e a indiferença com o figura de Eduardo Cunha, detentor de contas não declaradas na Suíça, cujos recursos foram congelados por fortes suspeitas de terem sua origem em propinas da Petrobras? Resposta: a ação partidária de boa parte da mídia. De dia, de tarde e de noite, os brasileiros são bombardeados por propaganda anti-petista em jornais, TVs, rádios, revistas e portais da internet. O PT é pintado como um lobo mau cercado de chapeuzinhos vermelhos, vovós e valentes caçadores. A verdade, porém, é outra: não há heróis nessa história.
O nome disso é manipulação.
No campo da corrupção, o PT tem grandes pecados, mas também um mérito. Sob Lula e Dilma, o Estado pode finalmente investigar, denunciar e julgar corruptos e corruptores. Parafraseando Lula, nunca antes na história desse país isso tinha acontecido. O PT se corrompeu, è vero, mas nunca deixou de ser um partido republicano, nunca enquadrou a Polícia Federal, nunca calou o Ministério Público. Já os que querem o lugar do PT também se corromperam, mas nada tiveram de republicanos. Alguém imaginaria, por exemplo, que o procurador-geral da República de Lula ou de Dilma fosse chamada todo dia pela imprensa de “engavetador-geral da República”? Isso aconteceu com Fernando Henrique Cardoso. Alguém imaginaria numa administração do PT a existência de um esquema de mordaça do Ministério Público e da imprensa que impedisse o vazamento de qualquer notícia ruim. Isso aconteceu nos oito anos em que o tucano Aécio Neves governou Minas Gerais.
Hipocrisia é o nome do gesto dos que hoje manobram para tomar o poder do PT.
O que vamos assistir neste domingo nada tem a ver com a luta contra a corrupção. Trata-se da luta pelo poder – no caso da oposição, da luta dos que sempre estiveram envolvidos na corrupção, dos que nunca permitiram que a corrução fosse investigada, dos que não tiveram votos suficientes para serem eleitos em 2002, 2006, 2010 e 2014 e agora querem pegar um atalho na história para voltar ao Palácio do Planalto, e obviamente continuar operando com seus esquemas de corrupção.
E a presidente Dilma Rousseff? Qual o seu lugar nessa história? Bom, ela de fato se revelou de uma incompetência administrativa e de uma falta de compreensão da política ímpares. Dilma é uma péssima presidente. Porém, não há um único indício sequer, que dirá uma prova, de que ela seja corrupta. Entendo e me solidarizo com aqueles que contam os dias para que seu governo acabe. Porém, não posso aceitar que seu mandato seja interrompido antes do tempo regulamentar sem que haja prova de que ela tenha comedido crime de responsabilidade, condição cabal para o impeachment.
O impeachment é um instrumento radical. Tem potencial para deixar traumas políticos duradouros. Existe para casos extremos. E exige um motivo concreto: crime de responsabilidade. Em 1992, Fernando Collor sofreu impeachment porque cometeu crime de responsabilidade. Na época, descobriu-se que a reforma da casa que pertencia a ele e um carro de seu uso pessoal haviam sido pagos com dinheiro de fraude. Os recursos tinham saída de uma conta bancária aberta em nome de um “fantasma”, ou seja, uma pessoa que não existia. O nome disso é falsidade ideológica, ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro. É crime de responsabilidade. Já as pedaladas fiscais de Dilma (um recurso contábil ignóbil que é adotado como regra na administração púbica de A a Z no espectro político) pode ser considerado um desvio administrativo, mas nunca um crime de responsabilidade. Dilma é um desastre, mas, pelo que se viu até agora, depois de remexidas as entranhas de seu governo, não é corrupta. E se não é corrupta, se não cometeu crime de responsabilidade, o processo de impeachment é indevido. Em outras palavras, golpe de estado.
Há 31 anos, quando terminou a ditadura civil-militar, iniciamos um penoso período de transição democrática. Encontramo-nos ainda nesse período. Saímos da ditadura, mas ainda não alcançamos a democracia plena. Estamos em algum lugar entre uma coisa e outra. Muitos fatores impediram que terminássemos a viagem. Contudo, até pouco tempo atrás, pelo menos podíamos dizer que estávamos no caminho.
Neste domingo, 17 de abril de 2016, caso a Câmara dos Deputados aprove o início do processo de impeachment de Dilma sem que ela tenha cometido crime de responsabilidade, estaremos finalmente terminando a transição democrática. Não para conquistar a democracia plena, mas para voltar ao passado. Em todos os sentidos.
Michel Temer será um presidente sem legitimidade, terá chegado ao poder por meio de trapaça nas regras do jogo. E que ninguém se iluda: a corrupção continuará a grassar, pois os patrocinadores do impeachment, seja no campo dos que agora desembarcam do governo, seja no campo da oposição, são profissionais no desvio de verbas públicas.
O nome do impeachment é golpe de estado.
Neste domingo, o que está em jogo não é o combate à corrupção, mas sim a frágil democracia do Brasil.

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Marcos Valério e o PSDB

Reproduzo abaixo artigo de minha autoria publicado neste domingo n’O Estado de S.Paulo (caderno Aliás) sobre as ligações perigosas entre Marcos Valério e o PSDB.

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Mensalidades atrasadas

Por Lucas Figueiredo*, para O Estado de S.Paulo (caderno Aliás), 4 de novembro de 2012

Está tudo muito bom, está tudo muito bem. É o que parece quando olhamos ao redor e vemos uma parcela da sociedade a bradar: desvendamos o mensalão! Desvendamos mesmo?

José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, João Paulo Cunha e que tais foram abatidos. Mas o mensalão só será totalmente dissecado quando sua gênese for revelada. Marcos Valério não operou apenas em uma campanha eleitoral ou serviu apenas a um partido ou um governo.

Marcos Valério Fernandes de Souza tinha 34 anos quando em 1995 teve início a era de ouro do PSDB (naquele ano, Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência da República e, em Minas Gerais, Eduardo Azeredo foi empossado no governo do Estado). Valério era desimportante. Não tinha poder, não circulava nas rodas políticas e seu patrimônio era modesto.

Um ano após a assunção de Eduardo Azeredo ao governo, Valério se materializou como sócio da semifalida agência de publicidade SMPB. Não entrou com dinheiro, mas com capacidade operativa. A fim de levantar a SMPB, obteve um empréstimo de R$ 1,6 milhão com o hoje extinto banco estatal mineiro Credireal, numa operação que posteriormente o Ministério Público de Minas classificaria como “de pai para filho” ou, em palavra ainda mais forte, “escusa”.

Na estrada aberta para a SMPB pelo governo tucano em Minas, Valério trafegava nas duas vias. Em 1998, tornou-se operador financeiro da campanha de reeleição de Azeredo. Primeiro, botou sua assinatura num contrato de empréstimo de R$ 2 milhões no Rural (o dinheiro foi retirado do banco numa caixa de papelão pelo tesoureiro da campanha). Depois, mais um empréstimo, de R$ 9 milhões.

Ainda naquele ano, no período que vai de 40 dias antes da eleição até o interregno entre o primeiro e o segundo turnos, três estatais de Minas – Cemig, Copasa e Comig, hoje Codemig – alimentaram as empresas de Valério com R$ 4,7 milhões. Segundo o Ministério Público, o dinheiro entrava de um lado (estatais de Minas e Banco Rural) e saía pelo outro (os cofres da coligação formada pelo PSDB, PFL, hoje DEM, PTB e PPB, hoje PP). Registros bancários e do próprio Valério indicam que ele pagou parte dos custos da campanha publicitária de Azeredo e distribuiu recursos para 75 candidatos e colaboradores da coligação encabeçada pelo PSDB.

Em poucos dias terminará o julgamento do processo do mensalão do PT no STF. Já o mensalão do PSDB mineiro será apreciado em processos fatiados, pelo STF e pela Justiça de Minas. E só Deus sabe quando.

De qualquer forma, quando o passado vier à luz, talvez seja possível esclarecer algumas dúvidas. Por exemplo: o que levou a SMPB de Valério a ganhar grandiosos contratos de publicidade no governo de FHC (Banco do Brasil, Ministério do Trabalho, Ministério dos Esportes, Eletronorte e Fundacentro)? Por que Valério, por intermédio da SMPB, doou R$ 50 mil à campanha de reeleição de Fernando Henrique, em 1998? Por que Danilo de Castro – um dos principais articuladores políticos do senador Aécio Neves – foi avalista de um empréstimo do Rural para a SMPB? Quais provas fizeram do jornalista Eduardo Pereira Guedes, integrante graduado do staff de marketing político de Aécio, réu no processo do mensalão mineiro? Por que o PSDB continuou a defender Azeredo após o mensalão mineiro ser revelado (Arthur Virgílio, então líder do partido no Senado, disse que, a despeito das acusações, a bancada tucana reafirmava sua “plena confiança na honradez e na lisura desse companheiro”)? Por que o PSDB lançou Azeredo a deputado federal (ele se elegeu e seu mandato vai até 2015) mesmo sabendo que o Ministério Público Federal o acusava de ser “um dos mentores e principal beneficiário” do mensalão mineiro? O que explica o fato de que, entre 1997 e 2002, período em que operava para o PSDB, Valério fez seu patrimônio declarado no Imposto de Renda saltar de R$ 230 mil para R$ 3,9 milhões (1.600% de aumento em cinco anos, com uma inflação de 42%)?

Como se vê, o filme ainda não acabou.

* Lucas Figueiredo é jornalista, escritor, autor, entre outros, de O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT (Record)

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O dilema de Aécio e do PSDB

Aécio: ser ou não ser oposição, eis a questão...

O artigo de Marcos Coimbra publicado hoje em diversos jornais (leia abaixo) expõe o dilema de Aécio Neves e do PSDB.

Conhecedor como poucos dos mistérios das eleições, Coimbra diz que o PT tem “dois muitos bons candidatos” a presidente não só para 2014 mas para as eleições seguintes também: Dilma e Lula.

Em contraponto, o PSDB – único partido da oposição que teria vigor para encarar o PT – vive um dilema. Os dois nomes do partido que têm expressão nacional (José Serra e Fernando Henrique Cardoso) são cartas fora do baralho. Já o nome alternativo, Aécio Neves, é conhecido por apenas 20% da população.

Coimbra afirma que Aécio tem três anos, um tempo relativamente pequeno, para ser identificado em todo o Brasil como “o rosto da oposição”. Acontece, porém, que o tucano mineiro, no seu primeiro ano no Senado, se recusou a assumir o papel de líder da oposição. E nada indica que assumirá agora.

Eis o dilema do PSDB e de Aécio.

Serra quer se candidato a presidente, mas não pode.

FHC não quer. E também não pode.

E Aécio pode, mas age como se não quisesse.

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Olhando para 2014

Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Enquanto se entretinham na contabilidade das crises no ministério e se ocupavam com as escaramuças entre os partidos da base governista, poucos analistas de nossa política perceberam algo que ocorreu em 2011. Trata-se, no entanto, de um fato de consequências mais relevantes que todos esses episódios somados.

Ao longo do ano, Dilma tornou-se uma candidata fortíssima a vencer a eleição em 2014 e a permanecer no cargo até 2018. Com isso, a repetir a performance de Lula e a completar um período de 16 anos de hegemonia petista à frente do governo federal.

A possibilidade sempre existiu. Desde quando foi aprovado o instituto da reeleição (não esquecendo que por iniciativa e intenso trabalho do PSDB e de Fernando Henrique Cardoso), foram raros os casos de ocupantes de cargos executivos – presidente, governador ou prefeito – que perderam a eleição de renovação do mandato.

São as exceções, governantes cuja gestão era considerada péssima ou que enfrentaram adversários notáveis. A regra é vencer, mesmo quando as administrações não enchem os olhos. Na dúvida entre o razoável, mas seguro, e o ótimo, porém incerto, a maioria das pessoas costuma preferir o conhecido. Sem contar que é comum a convicção de que quatro anos não são suficientes para pronunciar-se sobre o trabalho de alguém.

Dilma tinha o problema dos que venceram mais pelo prestígio de um patrono que por seus próprios atributos. Sua vitória veio apesar de quase ninguém a conhecer e de não haver vínculos emocionais entre ela e o eleitor. Seu julgamento poderia, portanto, ser mais severo, e maior o risco de muitos se decepcionarem com ela.

Mas era a sucessora de Lula e se beneficiaria da aprovação das políticas que estavam em andamento e que permaneceriam. E seria, em 2014, a presidente em exercício.

Tudo considerado, era fácil imaginar que Dilma poderia, em tese, ser uma candidata com chance de vencer a reeleição. Salvo se seu governo fosse uma catástrofe.

Terminado 2011, o que vimos foi aumentar a avaliação positiva de seu trabalho. As pesquisas de dezembro e janeiro confirmaram o que já se podia perceber desde o início do ano passado: uma tendência de melhora dos índices de satisfação da população com o governo.

Ela atravessou o desgaste de uma série de problemas no ministério e no segundo escalão, atingidos por sucessivas denúncias, das quais algumas eram verdadeiras e exigiram providências. Enfrentou um ano de complicações crescentes na economia mundial, com reflexos relevantes no nosso desenvolvimento.

Foi aprovada pela vasta maioria da opinião pública e, de candidata potencialmente forte, tornou-se forte no sentido concreto.

É claro que é cedo e que muita água ainda vai correr por baixo da ponte até 2014. Mas é assim que ela começa o segundo ano de governo.

Hoje, o PT tem, portanto, dois muitos bons candidatos à Presidência: Lula – não se precisa demonstrar -, e Dilma. Qualquer um deles, se tivéssemos uma eleição agora, venceria (provavelmente com folga). E ambos têm idade (ele aos 66, ela aos 64) para disputar algumas mais nos próximos anos.

E as oposições?

Como mostram as pesquisas, só têm dois nomes nacionais, de políticos que a maioria da população identifica: FHC e Serra. Nenhum, no entanto, em condições de disputar novas eleições: o primeiro diz que não deseja, o segundo não tem apoio sequer em seu estado e entre seus (ex-) amigos.

O mínimo que deveriam fazer era lançar, o quanto antes, seu candidato “óbvio”, como diz Fernando Henrique. Aécio precisa ser logo identificado como o rosto da oposição, o político que vai representar o “outro lado” em 2014.

Os próximos três anos são indispensáveis para alguém que apenas 20% da população conhece um pouco melhor. Talvez não resolvam, mas não podem ser desperdiçados.

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Andrea Neves candidata a governadora de MG?

Andrea Neves: braço direito, cabeça e cotovelos de Aécio

Isso mesmo! É o que muita gente começa a se perguntar: a irmã mais velha de Aécio Neves (PSDB), estrategista-mor, mentora e leão-de-chácara do senador mineiro, estaria disposta a sair das sombras para se candidatar a governadora de Minas Gerais em 2014?

O primeiro alerta foi dado dois meses atrás pelos repórteres Jorge Félix e Denise Motta, do IG. Na época, Andrea, até então avessa à exposição pública, fizera o inimaginável: participara de um programa popularesco de TV para divulgar projetos do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas), instituição do governo de Minas presidida por ela.

De lá para cá, Andrea vem aparecendo cada dia mais. Ora falando do centenário do avô Tancredo Neves, ora divulgando os programas do Servas.

Nesta semana, Andrea deu mais passo – um não, dois – para projetar-se publicamente. Inaugurou um perfil no Twitter (@AndreaNeves_) e um blog (andreaneves.com). Em ambos, ela privilegia temas, digamos, humanitários, como a assistência social (já fez um post sobre a organização Médico Sem Fronteiras e dois sobre iniciativas do Servas) e a luta pelos direitos civis (relembrou a famosa marcha em Washington em 1963). Andrea também faz posts “fofos”, como o de uma propaganda fofa de água mineral e o de uma senhora fofa dos Estados Unidos que recolhe e divulga segredos de anônimos. (Ah, e como deixar de citar a epígrafe fofa do blog? “Felicidade se acha é em horinhas de descuido”/Guimarães Rosa.)

Por que Andrea decidiu agora esculpir sua imagem com o cinzel da doçura, do espírito público e da preocupação com os desvalidos? Talvez por dois motivos.

O primeiro deles: amainar a fama de articuladora casca-grossa de Aécio (releia aqui um antigo post em que se escrevi: “Enquanto à luz dos holofotes Aécio esbanjava charme, simpatia e leveza e, como Tancredo Neves, seu avô, se esmerava em personificar a conciliação na política, Andrea era, nos bastidores, a general de campo de sangrentas batalhas, o tira mau da dupla, o desgraçado dr. Hyde que assumia os pecados do impoluto dr. Jekyll”).

A quem diga, porém, que a toda poderosa Andrea não deseja apenas lustrar seu perfil. Ela estaria interessada também em candidatar-se a governadora de Minas em 2014. Difícil, difícil… Mas não impossível. Vejamos porquê.

Uma possível candidatura de Andrea poderia fortalecer o projeto Aécio Presidente. Isso porque, se realmente disputar a vaga do Palácio do Planalto em 2014, Aécio, mais do que nunca, precisará de Minas a seu lado.

Acontece, porém, que o atual governador, Antonio Anastasia (PSDB), cria de Aécio, não poderá concorrer à reeleição. E o PSDB não tem nomes fortes para a disputa.

Do outro lado do ringue, porém, no PT, o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) é nome forte nome para o Palácio Tiradentes. Ou seja, se o PT vier encorpado na eleição de Minas em 2014, Aécio partirá manco para a disputa nacional com Dilma Rousseff (se é que ela vai realmente se candidatar à reeleição).

O quadro mudaria de figura, entretanto, se Andrea entrasse no páreo. Para grande parte do eleitorado, ela seria vista como uma extensão natural do irmão e do avô. Seria mais ou menos como ter o slogan “vote em Andrea e elege o Aécio 2.0 e o Tancredo 3.0” – um mote poderoso, já que Aécio é um fenômeno de popularidade, e Tancredo, uma unanimidade, quase santo.

Para o mundo político, a candidatura de Andrea teria ainda mais significados. Até as palmeiras imperiais da Praça da Liberdade sabem que Andrea é a grande avalista do projeto Aécio Presidente. Ela não é apenas o braço direito do irmão. É a cabeça. E, quando necessário, os cotovelos.

Não há dúvida de que Andrea candidata a governadora inspiraria poder, capacidade e temor suficientes para, como dizem os cronistas, construir um amplo leque de forças políticas. Ademais, o atual cenário político é favorável a mulheres fortes, sobretudo àquelas com “sensibilidade social”.

Como diria o inefável ex-senador Mão Santa, atentai! Se conseguir se repaginar, Andrea é um baita nome para 2014.

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Mais uma vez, Aécio abdica de ser oposição

Chove lá fora e aqui... Bezerra pensa em Pernambuco. E Aécio, em 2014...

Num post publicado ontem, sob o título Aécio “Decepção” Neves, tratou-se aqui de como o senador mineiro vem deixando de ser, dia após dia, a grande esperança da oposição para, em razão de sua inércia, revelar-se uma decepção.

Aconteceu de novo.

Na segunda-feira, 9 de janeiro, na sua coluna semanal na Folha de S.Paulo, Aécio criticou a falta de critérios do governo federal na distribuição de verbas para prevenção de enchentes e reparo de danos causados pelas chuvas. O tucano mineiro pegou leve, contudo. Foi bastante genérico e evitou dar nomes aos bois. Eis um trecho do artigo:

“Assim, o inexplicável contingenciamento de recursos do governo federal destinados à prevenção de enchentes e dos danos causados pelas chuvas, assim como a liberação deles sem que sejam respeitados princípios básicos do equilíbrio federativo, devem ser motivo de protesto e de cobrança não apenas da oposição, mas de toda a sociedade. Até porque a falta de critérios republicanos e a baixíssima execução orçamentária do governo não se dão apenas em uma área.”

Mais adiante, o senador mineiro, também de forma genérica e sem citar nomes, criticou a demagogia com que certos políticos se portam em épocas de tragédias e disse que é preciso “cobrar responsabilidades”. Aécio afirmou:

“As repetidas tragédias representam vidas perdidas. E, em respeito a cada uma delas, precisamos abandonar a demagogia, partilhar a solidariedade e cobrar responsabilidade. Os brasileiros não estão condenados a viver apagando incêndios de incompetência ou submergindo em tempestades de omissões.”

Agora sabemos porque Aécio não quis ir fundo no problema. Na sua edição de hoje, a Folha informa que, por uma razão eminentemente eleitoreira, o PSDB não vai fazer carga contra o indecente manejo de verbas anti-enchente pelo ministro Fernando Bezerra Coelho (Integração Nacional). Isso porque Aécio não quer se indispor com o PSB, partido do ministro e que o tucano corteja como possível aliado na eleição presidencial de 2014.

Como se diz em Minas, Aécio latiu fino para um dos maiores escândalos do governo do PT. Se quisesse realmente “cobrar responsabilidades”, como escreveu em seu artigo, bastaria a Aécio subir na tribuna do Senado e ler o primeiro parágrafo da manchete de hoje do jornal Estado de Minas. Vejamos:

Dados do Orçamento da União revelam que o Ministério da Integração Nacional desconsiderou critérios técnicos para repasses de verbas do Programa de Prevenção e Preparação a Desastres. Em 2011, Minas Gerais, um dos estados mais castigados pelas chuvas no fim de 2010 e início do ano passado, recebeu mísero R$ 1,46 por habitante dos municípios que declararam estado de emergência, contra R$ 160,97 per capita, destinados às vítimas dos temporais em Pernambuco, estado do ministro Fernando Bezerra (PSB). Isso significa que os pernambucanos mereceram um valor mais de 110 vezes maior que os mineiros.

Como senador por Minas, Aécio tem obrigação de defender o Estado. Não é a primeira vez, entretanto, que deixa de fazê-lo (vide o caso da distribuição das verbas do pré-sal, denunciado por este blog).

Assim, mais uma vez, o discurso de Aécio vai para um lado e sua prática política para outro.

E por falar em discurso, que tal reler o trecho do artigo de Aécio na Folha transcrito no início deste texto?

“As repetidas tragédias representam vidas perdidas. E, em respeito a cada uma delas, precisamos abandonar a demagogia, partilhar a solidariedade e cobrar responsabilidade. Os brasileiros não estão condenados a viver apagando incêndios de incompetência ou submergindo em tempestades de omissões.”

Demagogia, responsabilidades, incompetência, omissões… Aécio disse tudo.

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