O dia em que não depositei US$ 150 mil na conta de PC Farias

Eu, à direita, no caixa do ABN-Amro Bank de Montevidéu, fazendo o depósito na conta de PC, em foto de Juca Varella publicada na Folha de S.Paulo de 20/07/97

Imaginava – e ainda imagino – que neste blog eu iria tratar de assuntos do dia, que faria comentários sobre notícias ainda frescas, ou melhor, que de vez em quando teria o gostinho de dar alguns furos. Meu negócio sempre foi o hard news. Hoje, contudo, estou desinformado, nada tenho para contar. Faz alguns dias que não leio jornal ou navego na internet. Uma tragédia familiar, inesperada como sempre são as tragédias, me enviou a um lugar estranho: estou a bordo do navio The World que navega de Punta del Leste para Montevidéu. Já passa da meia-noite, chove e estou triste. Não sei o que é notícia hoje, mas me lembrei de uma história engraçada, uma história justamente sobre Montevidéu.

Em julho de 1997, estive na capital uruguaia pela primeira vez. Vinha atrás de uma notícia quente: eu havia recebido a informação de que, num banco de Montevidéu, permanecia ativa uma conta com recursos do finado Paulo César Farias, tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor de Mello assassinado em Maceió, no ano anterior, em condições não esclarecidas. PC tivera várias contas bancárias, e em diversos países, mas aquela era uma conta especial. Junto com a informação da existência da conta, eu obtivera um dado importante, que seria comprovado mais tarde: um dia antes de a Câmara dos Deputados votar pela abertura ou não do processo de impeachment do então presidente Collor (ou seja, no dia 28 de setembro de 1992), Paulo César mandou sacar daquela conta US$ 5 milhões em cash. Levado para o Brasil num jatinho particular, o dinheiro foi usado para corromper deputados em troca do arquivamento do impeachment (a operação, sabe-se hoje, fracassou).

Se eu conseguisse mostrar que a conta bancária continuava sendo movimentada mesmo depois da morte de Paulo César, ficaria provado que, no mundo dos vivos, o dinheiro sujo do Esquema PC ainda fazia a alegria de alguns maganos. O banco era o ABN-Amro Bank, eu sabia; a agência, Ciudad Vieja, na calle 25 de Mayo, número 501, no centro. Só tinha um problema: apesar de ter o nome-código da conta – Monte Tiberino – eu não sabia qual era o seu número.

Para contornar o obstáculo que me separava da conta de PC, eu tinha um plano – um plano mambembe, é verdade, mas que funcionou, até hoje não sei como. Fui até à mesa do gerente e disse a ele que precisava fazer dois depósitos numa conta daquela agência: o primeiro, de US$ 50, era uma espécie de aviso da remessa seguinte, de US$ 150 mil. Havia um problema, contudo, que só seria solucionado com a ajuda dele, expliquei: a maleta onde eu guardava os dados da conta tinha sido roubada. Mas felizmente, anunciei, eu ainda me lembrava do nome-código: Monte Tiberino. Interessado, provavelmente, no depósito de US$ 150 mil, o gerente se dispôs a colaborar. Consultou o computador, fez anotações num pedaço de papel e, com o sorriso típico dos funcionários eficientes, me passou o número da conta: 5020050.  O sujeito fez mais: acompanhou-me até a boca do caixa e mostrou como eu deveria preencher a ficha de depósito. Assim, às 13h57 do dia 17 de julho de 1997, depositei US$ 50 na conta do finado PC Farias.

Comprovante do depósito de US$ 50 na conta Monte Tiberino, nº 5020050

Serviço feito, hora de desaparecer. Antes de deixar a agência, porém, como o gerente não tirava o olho de mim, voltei até à mesa dele, anunciei que no dia seguinte retornaria para depositar os US$ 150 mil, agradeci e fui embora. Deve estar lá até hoje esperando.

 ***

Em memória de Roberto Berutto.

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8 Comentários

Arquivado em Colarinho branco, Histórias de repórter

8 Respostas para “O dia em que não depositei US$ 150 mil na conta de PC Farias

  1. eymard

    Lucas, somente hoje estou retomando minhas leituras do blog. Como sempre, excelentes. Essa história, como as outras que já me atualizei, mostra bem a diferença do tipo de jornalismo que voce pratica. Gostei da referencia, em outro post, ao estilo Buzz Lightyear: ao infinito e além! (rs)
    Quanto ao momento triste, espero, ao menos, que estejam atualmente mais serenos. Recebam o meu abraço.
    P.S: Estou ansioso aguardando a publicação do novo livro – Boa ventura! – pelo que vi, previsto somente para abril (é isso mesmo ou pode ser antecipado?)

  2. Ana Olga Drumond

    Lucas, sempre q leio algo q vc escreve, fico impressionada com a tua astúcia e inteligencia. te admiro muito, parabéns!E fiquei muito triste com tudo q passaram !Pode ter certeza q vcs sempre estão em minhas orações!Bjs, Ana.

  3. Adriana Pessoa

    Lucas,
    sei da história. Procure ficar tranquilo.
    Receba meu carinho.

    Essa história aí de cima é realmente incrível…
    Abraços.

  4. Helvio Macellane

    Parabéns Lucas! Uma pena que os jornais e jornalistas hoje em dia não estão preocupados com uma apuração tão bem feita!

  5. Monte Tiberino?… outra grande hist´ria!

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