Quem vai mandar no serviço secreto?

Dilma, não se esqueça da música: "Carcará, pega, mata e come"

Por mais que o Palácio do Planalto finja não ver, a crise avança.

Oito dias antes de Dilma Rousseff tomar posse, este blog já alertava (“As escolhas de Dilma na esfera militar: ela prefere os duros”) para a perigosa displicência da então presidente eleita com o mal-ajambrado desenho institucional do serviço secreto, um órgão civil tutelado pelas Forças Armadas. No dia 4, novo aviso (“Dilma cria corvos na área militar”). No dia 25, o blog foi mais explícito (“Armadilha verde-oliva na frente de Dilma. Ela vai cair?”). Os sinais preocupantes tomam agora ares de crise, e ela já está na ante-sala do gabinete presidencial.

A eficiente repórter Tânia Monteiro, do Estadão, descobriu que uma comissão da Aofi (Associação dos Oficiais de Inteligência) – uma das duas entidades que representam os agentes secretos da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) – foi recebida em audiência no Gabinete da Presidência da República no dia 27 de janeiro. Sem meias palavras, os agentes disseram o seguinte:

* Por ser um órgão civil, a Abin não deve permanecer subordinada a uma estrutura de caráter militar, como o GSI (Gabinete de Segurança Institucional);

* Por serem civis, os agentes secretos não aceitam que os relatórios que produzem sejam submetidos, antes de serem levados a Dilma, a uma análise prévia do GSI.

A temperatura da discussão é alta. Em carta à Presidência, a Aofi afirma que os agentes da Abin não querem fazer parte da “tropa do Elito”, um trocadilho que mistura o nome do ministro-chefe do GSI, general José Elito, com o filme “Tropa de elite”.

Do outro lado, no GSI, os nervos não estão menos sensíveis. Tânia Monteiro, uma veterana em assuntos da caserna, relata que o general Elito não gostou de ver rejeitada na Abin sua idéia de acabar com Departamento de Contraterrorismo da agência (DCT). O DCT foi criado na gestão passada, do delegado Paulo Lacerda, justamente para tentar dar um norte ao serviço secreto, que, em vez de atuar livremente contra o alvo que bem entendesse , ficaria restrito a alguns poucos campos previamente delimitados, como o do contraterrorismo. Conhecido pela destemperança, o general repeliu asperamente ao argumento de que o DCT não poderia ser extinto porque o Brasil é signatário de tratados da ONU: “Que a ONU se exploda”, teria dito o general, segundo a repórter.

Dilma está no poder há 39 dias. Nesse pouco tempo, a disputa para ver quem manda no serviço secreto já chegou à fase dos trocadilhos infames e aos ataques de cólera de um general quatro estrelas. Seja para atacar ou para defender-se, Dilma tem outros 1.422 dias pela frente.

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5 Comentários

Arquivado em Inteligência, Militares, Política

5 Respostas para “Quem vai mandar no serviço secreto?

  1. Pingback: Agentes da Abin questionam o blog; o blogueiro responde « Blog Política

  2. Pingback: Agentes da Abin questionam o blog; o blogueiro responde | Blog do Lucas Figueiredo

  3. Pingback: Exclusivo: íntegra da carta da associação dos agentes secretos | Blog do Lucas Figueiredo

  4. O trocadilho de fato não está na carta, como afirmei (e já corrigi no post). Mas a repórter do Estadão ouviu o trocadilho da boca de um membro da Aofi.

  5. Jack

    A carta não fala em momento algum sobre “Tropa de Elito”. Isso foi criação da reporte da AE.
    http://aofi.org.br/blog/wp-content/uploads/2011/01/Carta-a-Presidenta-AOFI.pdf

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