Arquivo da categoria: Política

Marcos Valério e o PSDB

Reproduzo abaixo artigo de minha autoria publicado neste domingo n’O Estado de S.Paulo (caderno Aliás) sobre as ligações perigosas entre Marcos Valério e o PSDB.

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Mensalidades atrasadas

Por Lucas Figueiredo*, para O Estado de S.Paulo (caderno Aliás), 4 de novembro de 2012

Está tudo muito bom, está tudo muito bem. É o que parece quando olhamos ao redor e vemos uma parcela da sociedade a bradar: desvendamos o mensalão! Desvendamos mesmo?

José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, João Paulo Cunha e que tais foram abatidos. Mas o mensalão só será totalmente dissecado quando sua gênese for revelada. Marcos Valério não operou apenas em uma campanha eleitoral ou serviu apenas a um partido ou um governo.

Marcos Valério Fernandes de Souza tinha 34 anos quando em 1995 teve início a era de ouro do PSDB (naquele ano, Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência da República e, em Minas Gerais, Eduardo Azeredo foi empossado no governo do Estado). Valério era desimportante. Não tinha poder, não circulava nas rodas políticas e seu patrimônio era modesto.

Um ano após a assunção de Eduardo Azeredo ao governo, Valério se materializou como sócio da semifalida agência de publicidade SMPB. Não entrou com dinheiro, mas com capacidade operativa. A fim de levantar a SMPB, obteve um empréstimo de R$ 1,6 milhão com o hoje extinto banco estatal mineiro Credireal, numa operação que posteriormente o Ministério Público de Minas classificaria como “de pai para filho” ou, em palavra ainda mais forte, “escusa”.

Na estrada aberta para a SMPB pelo governo tucano em Minas, Valério trafegava nas duas vias. Em 1998, tornou-se operador financeiro da campanha de reeleição de Azeredo. Primeiro, botou sua assinatura num contrato de empréstimo de R$ 2 milhões no Rural (o dinheiro foi retirado do banco numa caixa de papelão pelo tesoureiro da campanha). Depois, mais um empréstimo, de R$ 9 milhões.

Ainda naquele ano, no período que vai de 40 dias antes da eleição até o interregno entre o primeiro e o segundo turnos, três estatais de Minas – Cemig, Copasa e Comig, hoje Codemig – alimentaram as empresas de Valério com R$ 4,7 milhões. Segundo o Ministério Público, o dinheiro entrava de um lado (estatais de Minas e Banco Rural) e saía pelo outro (os cofres da coligação formada pelo PSDB, PFL, hoje DEM, PTB e PPB, hoje PP). Registros bancários e do próprio Valério indicam que ele pagou parte dos custos da campanha publicitária de Azeredo e distribuiu recursos para 75 candidatos e colaboradores da coligação encabeçada pelo PSDB.

Em poucos dias terminará o julgamento do processo do mensalão do PT no STF. Já o mensalão do PSDB mineiro será apreciado em processos fatiados, pelo STF e pela Justiça de Minas. E só Deus sabe quando.

De qualquer forma, quando o passado vier à luz, talvez seja possível esclarecer algumas dúvidas. Por exemplo: o que levou a SMPB de Valério a ganhar grandiosos contratos de publicidade no governo de FHC (Banco do Brasil, Ministério do Trabalho, Ministério dos Esportes, Eletronorte e Fundacentro)? Por que Valério, por intermédio da SMPB, doou R$ 50 mil à campanha de reeleição de Fernando Henrique, em 1998? Por que Danilo de Castro – um dos principais articuladores políticos do senador Aécio Neves – foi avalista de um empréstimo do Rural para a SMPB? Quais provas fizeram do jornalista Eduardo Pereira Guedes, integrante graduado do staff de marketing político de Aécio, réu no processo do mensalão mineiro? Por que o PSDB continuou a defender Azeredo após o mensalão mineiro ser revelado (Arthur Virgílio, então líder do partido no Senado, disse que, a despeito das acusações, a bancada tucana reafirmava sua “plena confiança na honradez e na lisura desse companheiro”)? Por que o PSDB lançou Azeredo a deputado federal (ele se elegeu e seu mandato vai até 2015) mesmo sabendo que o Ministério Público Federal o acusava de ser “um dos mentores e principal beneficiário” do mensalão mineiro? O que explica o fato de que, entre 1997 e 2002, período em que operava para o PSDB, Valério fez seu patrimônio declarado no Imposto de Renda saltar de R$ 230 mil para R$ 3,9 milhões (1.600% de aumento em cinco anos, com uma inflação de 42%)?

Como se vê, o filme ainda não acabou.

* Lucas Figueiredo é jornalista, escritor, autor, entre outros, de O Operador – Como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT (Record)

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Demóstenes e a vida sem Instagram

Veja abaixo as fotos do senador Demóstenes Torres, feitas ontem, que a estatal Agência Brasil disponibiliza para publicação: Demóstenes dando tchauzinho, Demóstenes com ar apreensivo, Demóstenes com auréola e Demóstenes (mais uma vez com auréola) sorrindo amarelo para seu arqui-inimigo Renan Calheiros enquanto este lhe afaga o cotovelo.

Alguém na Agência Brasil não gosta de Demóstenes.

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Minas não tem mar, mas tem Cachoeira…

Com a ajuda de Demóstenes, Cachoeira ‘nomeou’ prima no governo de MG

ESTADO DE S.PAULO, 23/04/12

Escutas telefônicas da Polícia Federal revelam que o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) intercedeu diretamente junto a seu colega, Aécio Neves (PSDB-MG), e arrumou emprego comissionado para uma prima do empresário do jogo de azar Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Mônica Beatriz Silva Vieira, a prima do bicheiro, assumiu em 25 de maio de 2011 o cargo de Diretora Regional da Secretaria de Estado de Assistência Social em Uberaba.

Do pedido de Cachoeira a Demóstenes, até a nomeação de Mônica, bastaram apenas 12 dias e 7 telefonemas. Aécio confirma o empenho para atender solicitação de Demóstenes, mas alega desconhecer interesse de Cachoeira na indicação.
São citados nos grampos Marcos Montes (PSD), ex-prefeito de Uberaba, e Danilo de Castro, principal articulador político de Aécio em seu Estado e secretário de Governo da gestão Antonio Anastasia (PSDB), governador de Minas. Eles negam envolvimento na trama.

A PF monitorou Cachoeira, a prima e Demóstenes no bojo da Operação Monte Carlo, que desmantelou alentado esquema da contravenção, fez ruir a aura de paladino do senador goiano e expôs métodos supostamente ilícitos da Delta Construções para atingir a supremacia em sua área de ação.

Aécio não caiu no grampo porque não é alvo da investigação. Mas ele é mencionado por Demóstenes e Cachoeira. O contraventor chama Demóstenes de ‘doutor’ e o senador lhe confere o título de ‘professor’.

O grampo que mostra a ascensão profissional da prima de Cachoeira está sob guarda do Supremo Tribunal Federal (STF), nos autos que tratam exclusivamente do conluio de Demóstenes com o bicheiro.

Em 13 de maio de 2011, Aécio é citado pela primeira vez. Cachoeira pede a Demóstenes para “não esquecer” do pedido. “É importantíssimo prá mim. Você consegue por ela lá com Aécio… em Uberaba, pô, a mãe dela morreu. É irmã da minha mãe.”

Demóstenes responde. “Tranquilo. Deixa eu só ligar pro rapaz lá. Deixa eu ligar prá ele.”

A PF avalia que o caso pode caracterizar tráfico de influência. “Seguem ligações telefônicas, divididas por investigado, em ordem cronológica, que contém indícios de possível cometimento de infração penal por parte de seus interlocutores ou pessoas referidas.”

Na síntese que faz da ligação de Cachoeira para Mônica, a 26 de maio – contato durou 3 minutos e 47 segundos –, a PF assinala. “Falam sobre a nomeação de Mônica para a SEDESE/MG, conseguida por Cachoeira junto ao senador Aécio Neves por intermédio do senador Demóstenes Torres e de Danilo de Castro.”

Aécio diz que ‘não recaía questionamento’ sobre Demóstenes

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), por meio de sua assessoria, confirmou nesta segunda-feira, 23, que indicou Mônica Beatriz Silva Vieira para um cargo no governo de Minas atendendo a um pedido do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), então líder do DEM no Senado e “sobre o qual, à época, não recaía qualquer tipo de questionamento”.

Aécio afirmou que “desconhecia o parentesco e a origem do pedido”. Segundo sua assessoria, a solicitação foi encaminhada para avaliação da Secretaria de Governo de Minas Gerais, a quem cabia a análise.

O governo mineiro informou que a prima de Carlinhos Cachoeira foi nomeada para um cargo DAD 4, com salário de R$ 2.310,00. Em um diálogo interceptado pela PF em 26 de maio do ano passado – um dia após a publicação da nomeação no Diário Oficial do Estado – Cachoeira pergunta a Mônica se “o salário lá é bom”. Ela diz não saber. “Eu tentei pesquisar, mas não sai. Esses cargos comissionados não sai o salário.” Cachoeira responde: “Aqui (em Goiás) no mínimo um cargo desses aí é uns 10 mil reais.” A prima conta que trabalhava na diretoria de qualificação profissional da Prefeitura de Uberaba. “Até briguei, falei ‘se for menos eu tô perdida.’”

Ao Estado, Mônica alegou que foi indicada para o cargo por sua “competência”. “Pode ter certeza disso. Eu sou funcionária de carreira há 25 anos, coordenei vários órgãos e o meu convite veio por competência”, disse a diretora.
Para o governo mineiro, o currículo da servidora preenchia a qualificação para o cargo e ela possui experiência profissional como coordenadora dos programas federais.

O secretário Danilo de Castro disse que a nomeação de Mônica foi em “comum acordo” com o deputado federal Marcos Montes (PSD-MG, ex-DEM). “Agora, pedido eu não lembro de quem. Todas as nomeações do interior partem daqui, da Secretaria de Governo. Esses cargos regionais têm indicações políticas. ” Montes foi procurado nesta segunda no seu escritório em Uberaba, mas não respondeu às ligações. O advogado de Demóstenes, Antônio Carlos de Almeida Castro, também não respondeu.

 

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Quem com a mídia fere…

Senador Demóstenes Torres (sem partido – GO), no último dia 12, durante a reunião do Conselho de Ética que define o novo relator de seu processo disciplinar.

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Os olhos azuis que tiraram o melhor sorriso de Dilma

Diga, você, leitor: já viu a presidente Dilma Rousseff com sorriso igual? E olha que ela estava no Haiti, um lugar que inspira pouca graça.

Lula deve estar fulo da vida com Sean Penn e seus ojos azules

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Conheça a marchinha-homenagem ao prefeito de BH: “Começa com M e termina com ERDA”

Olha o ziriguidum do Márcio Lacerda aí, geeeeeeeeeeente

Há tempos o carnaval de Belo Horizonte não prometia tanto. Depois da polêmica em torno da marchinha Na Coxinha da Madrasta (ver post abaixo), agora o sucesso é a marchinha Começa com M e termina com ERDA, singela homenagem ao prefeito da capital, Márcio Lacerda. Ouça as duas marchinhas aqui, no blog do meu competente amigo e padrinho Felipe Patury.

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Querem censurar “Na coxinha da madrasta”!!!

Epa, a política trombou com o humor de novo. Agora, estão querendo censurar a marchinha de carnaval “Na coxinha da madrasta”, inspirada, como dizem no cinema, em fatos reais (e surreais).

Saiba aqui em que pé está a polêmica das coxinhas da madrasta. Aqui, escute a marchinha.

 

 

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O dilema de Aécio e do PSDB

Aécio: ser ou não ser oposição, eis a questão...

O artigo de Marcos Coimbra publicado hoje em diversos jornais (leia abaixo) expõe o dilema de Aécio Neves e do PSDB.

Conhecedor como poucos dos mistérios das eleições, Coimbra diz que o PT tem “dois muitos bons candidatos” a presidente não só para 2014 mas para as eleições seguintes também: Dilma e Lula.

Em contraponto, o PSDB – único partido da oposição que teria vigor para encarar o PT – vive um dilema. Os dois nomes do partido que têm expressão nacional (José Serra e Fernando Henrique Cardoso) são cartas fora do baralho. Já o nome alternativo, Aécio Neves, é conhecido por apenas 20% da população.

Coimbra afirma que Aécio tem três anos, um tempo relativamente pequeno, para ser identificado em todo o Brasil como “o rosto da oposição”. Acontece, porém, que o tucano mineiro, no seu primeiro ano no Senado, se recusou a assumir o papel de líder da oposição. E nada indica que assumirá agora.

Eis o dilema do PSDB e de Aécio.

Serra quer se candidato a presidente, mas não pode.

FHC não quer. E também não pode.

E Aécio pode, mas age como se não quisesse.

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Olhando para 2014

Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Enquanto se entretinham na contabilidade das crises no ministério e se ocupavam com as escaramuças entre os partidos da base governista, poucos analistas de nossa política perceberam algo que ocorreu em 2011. Trata-se, no entanto, de um fato de consequências mais relevantes que todos esses episódios somados.

Ao longo do ano, Dilma tornou-se uma candidata fortíssima a vencer a eleição em 2014 e a permanecer no cargo até 2018. Com isso, a repetir a performance de Lula e a completar um período de 16 anos de hegemonia petista à frente do governo federal.

A possibilidade sempre existiu. Desde quando foi aprovado o instituto da reeleição (não esquecendo que por iniciativa e intenso trabalho do PSDB e de Fernando Henrique Cardoso), foram raros os casos de ocupantes de cargos executivos – presidente, governador ou prefeito – que perderam a eleição de renovação do mandato.

São as exceções, governantes cuja gestão era considerada péssima ou que enfrentaram adversários notáveis. A regra é vencer, mesmo quando as administrações não enchem os olhos. Na dúvida entre o razoável, mas seguro, e o ótimo, porém incerto, a maioria das pessoas costuma preferir o conhecido. Sem contar que é comum a convicção de que quatro anos não são suficientes para pronunciar-se sobre o trabalho de alguém.

Dilma tinha o problema dos que venceram mais pelo prestígio de um patrono que por seus próprios atributos. Sua vitória veio apesar de quase ninguém a conhecer e de não haver vínculos emocionais entre ela e o eleitor. Seu julgamento poderia, portanto, ser mais severo, e maior o risco de muitos se decepcionarem com ela.

Mas era a sucessora de Lula e se beneficiaria da aprovação das políticas que estavam em andamento e que permaneceriam. E seria, em 2014, a presidente em exercício.

Tudo considerado, era fácil imaginar que Dilma poderia, em tese, ser uma candidata com chance de vencer a reeleição. Salvo se seu governo fosse uma catástrofe.

Terminado 2011, o que vimos foi aumentar a avaliação positiva de seu trabalho. As pesquisas de dezembro e janeiro confirmaram o que já se podia perceber desde o início do ano passado: uma tendência de melhora dos índices de satisfação da população com o governo.

Ela atravessou o desgaste de uma série de problemas no ministério e no segundo escalão, atingidos por sucessivas denúncias, das quais algumas eram verdadeiras e exigiram providências. Enfrentou um ano de complicações crescentes na economia mundial, com reflexos relevantes no nosso desenvolvimento.

Foi aprovada pela vasta maioria da opinião pública e, de candidata potencialmente forte, tornou-se forte no sentido concreto.

É claro que é cedo e que muita água ainda vai correr por baixo da ponte até 2014. Mas é assim que ela começa o segundo ano de governo.

Hoje, o PT tem, portanto, dois muitos bons candidatos à Presidência: Lula – não se precisa demonstrar -, e Dilma. Qualquer um deles, se tivéssemos uma eleição agora, venceria (provavelmente com folga). E ambos têm idade (ele aos 66, ela aos 64) para disputar algumas mais nos próximos anos.

E as oposições?

Como mostram as pesquisas, só têm dois nomes nacionais, de políticos que a maioria da população identifica: FHC e Serra. Nenhum, no entanto, em condições de disputar novas eleições: o primeiro diz que não deseja, o segundo não tem apoio sequer em seu estado e entre seus (ex-) amigos.

O mínimo que deveriam fazer era lançar, o quanto antes, seu candidato “óbvio”, como diz Fernando Henrique. Aécio precisa ser logo identificado como o rosto da oposição, o político que vai representar o “outro lado” em 2014.

Os próximos três anos são indispensáveis para alguém que apenas 20% da população conhece um pouco melhor. Talvez não resolvam, mas não podem ser desperdiçados.

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[ARQUIVO DE REPÓRTER] PC Farias – 10 anos depois

Mais um dia mergulhado na escrito do meu próximo livro. Conforme combinado, segue um novo post da série Arquivo de repórter.

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Em 2006, sem que os culpados tivessem sido apontados pela Justiça, completaram-se dez anos do assassinato de Paulo César Farias (ex-tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello) e sua namorada, Suzana Marcolino. Como o tema me interessava, viajei a Maceió a fim de investigar o que tinha acontecido aos personagens daquela história e, sobretudo, com montanha de dinheiro arrecadado pelo chamado Esquema PC.

Em razão da pauta, dos personagens envolvidos e dos locais que eu iria visitar, um colaborador local, que ajudava com informações, insistiu para que eu andasse com um segurança. Não recusei. O segurança foi escolhido pela própria fonte: um jovem muito sério, empenhadíssimo e extremamente zeloso.

Na véspera de ir embora, me encontrei novamente com minha fonte para agradecer a indicação do segurança. “O rapaz é realmente muito bom”, disse ela. “Se for preciso, ele cozinha, faz serviço de banco e até cava covas”. Foi o jeito que a fonte encontrou para me falar que o homem que tinha feito a minha segurança era também um assassino de aluguel.

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PC Farias – 10 anos depois

Lucas Figueiredo, para o Estado de Minas e Correio Braziliense (28/05/2005)

A cena do crime

Quem matou Paulo César Farias?E onde foi parar a sobra de dinheiro (pelo menos US$ 100 milhões) do Esquema PC? Essas duas perguntas continuam sem resposta mesmo tendo passado 10 anos do assassinato do ex-tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello, ocorrido na madrugada de 23 de junho de 1996. O Estado de Minasvoltou ao local do crime e descobriu pistas – relacionadas à morte e ao dinheiro – que não foram investigadas à época. Uma delas refere – se à milionária movimentação financeira de Augusto Farias logo após a morte de seu irmão. A ascensão de Augusto – que herdou o comando financeiro e político dos Farias – contrasta com a realidade do restante da família, incluindo os filhos de PC (Ingrid, de 26 anos, e Paulinho, de 24).

O Estado de Minasinicia hoje a publicação de uma série de reportagens especiais que mostrarão o destino de parte do dinheiro do Esquema PC. E que revelarão também fatos novos relacionados ao caso da morte de Paulo César e de sua namorada, Suzana Marcolino.

Fortuna multiplicada

O ano de 1996 representou um marco na vida do ex-deputado federal Augusto Farias. Por dois motivos. Primeiro, no mês de junho, seu irmão Paulo César Farias foi morto com um tiro, juntamente com a namorada, Suzana Marcolino. O crime até hoje não foi solucionado. Segundo, porque, também naquele ano, Augusto iniciou uma impressionante escalada financeira. De forma direta e indireta, em pouco mais de três anos, ele adquiriu quatro fazendas no valor de R$ 700 mil, aumentou seu patrimônio visível em quase 200% e ainda recebeu, por meio de uma empresa, R$ 5,8 milhões sem origem identificada.

Paulo César e Suzana

A súbita ascensão patrimonial de Augusto está registrada em documentos, até hoje inéditos, obtidos pela CPI do Narcotráfico no ano 2000. Na época, Augusto era investigado pela comissão. Entretanto, como ele renunciou ao mandato de deputado federal, as informações referentes à quebra de seus sigilos permaneceram engavetadas, não sendo incluídas no relatório final da comissão. São dados bancários e fiscais de Augusto, de assessores dele (como Marcos Maia) e de empresas (como a Tigre Vigilância Patrimonial) apontadas pela CPI como testas-de-ferro do irmão de PC Farias.

O Estado de Minasresgatou esses dados. Em 1996, Augusto e Marcos Maia (“laranja” e principal assessor do irmão de PC Farias, segundo a comissão) possuíam um patrimônio declarado de R$ 292 mil. Dois anos depois, os bens visíveis da dupla somavam R$ 865 mil, o que equivalente a um aumento de 196%.

Valores ainda mais expressivos constam da movimentação financeira da Tigre Vigilância Patrimonial. Aberta em Maceió em abril de 1997 (dez meses após a morte de PC), a Tigre pertence formalmente a Marcos Maia. A CPI, no entanto, concluiu que, de fato, Augusto era o dono da Tigre, dada a quantidade de documentos pessoais dele encontrados na sede empresa, durante uma blitz realizada em conjunto com a Polícia Federal. De 1997 a 1999, segundo os dados da CPI, a Tigre recebeu R$ 5,8 milhões de origem não esclarecida.

Augusto Farias

O EMentrou em contato com Augusto Farias, mas ele se recusou a falar. “A imprensa só faz matéria negativa. Tem de fazer matéria positiva. Um abraço”, disse ele, desligando o telefone. Contatado pelo celular, Marcos Maia se identificou, mas logo em seguida, após ser informado do teor da reportagem, ficou mudo. O EMligou novamente e deixou um recado na secretária eletrônica, mas não obteve resposta.

 

Fazendas e casa na praia

Onze meses depois da morte de seu irmão, Augusto Farias comprou quatro fazendas no município de Santana do Mundaú, na zona da mata de Alagoas. Juntas, as fazendas Samambaia, Catuaba, Gruta Funda e Riacho do Brejo somam 2.345 hectares, o equivalente a 125 estádios do Maracanã. Valor do negócio: R$ 700 mil.

A transação foi feita em nome da Bluarte Peças e Serviços,

que controla a Blumare, concessionária da Fiat em Alagoas que pertence à família Farias. Entretanto, documentos encontrados na sede da Tigre, durante uma blitz da CPI do Narcotráfico e da Polícia Federal, indicam que o real dono das fazendas é Augusto Farias. Entre os documentos, estavam uma proposta de filiação da Associação dos Criadores de Alagoas e notas fiscais de compra de equipamentos agrícolas para a fazenda Samambaia, todos emitidos em nome de Augusto.

O EMesteve na fazenda Samambaia, localizada a 120 quilômetros de Maceió. A propriedade, de 2 mil

hectares, destaca-se na região pela sua criação de gado, segundo pessoas ouvidas pela reportagem.

De fato, Augusto é um produtor de porte. Um ano depois da morte de PC Farias, Augusto vendeu 466 cabeças de gado no período de 19 dias. Logo depois, entre julho e outubro de 1997, vendeu mais 220 vacas.

Na mesma época do assassinato de seu irmão, Augusto deu início à construção de uma casa de 387 metros quadrados na Praia Bonita, município de Barra de São Miguel, a 40 quilômetros da capital. Trata-se de uma das regiões mais valorizadas de Alagoas, em razão da beleza de suas praias e de seu forte apelo turístico.

Relatórios da obra encontrados na sede da Tigre, em que aparece o nome de Augusto, mostram o material gasto na casa entre junho de 1996 (mês em que PC morreu) e setembro daquele ano. A certidão de habite-se da propriedade foi emitida em março de 1998. Corretores de Alagoas consultados pelo EMafirmaram que um imóvel como aquele vale no mínimo R$ 300 mil.

O mistério do dinheiro

Procuram-se US$ 100 milhões. Esta seria a sobra do chamado Esquema PC Farias, cujo destino até hoje permanece ignorado. Apesar do mistério, passados 10 anos da morte de Paulo César, é possível apontar, entre personagens que gravitavam em torno de sua órbita, quem ganhou e quem perdeu dinheiro.

Com exceção de Augusto, a família Farias perdeu. É o que demonstram fatos e revelam pessoas bem informadas em Alagoas. A queda no nível financeiro atingiu até mesmo os dois filhos de PC (Ingrid, de 26 anos, e Paulinho, de 24).

Já testas-de-ferro de Paulo César enriqueceram da noite para o dia, confirmando a suspeita do próprio empresário de que ele teria sido roubado durante o período em que esteve na cadeia (dezembro de 1993 a dezembro de 1995).

Na época dos escândalos que culminaram com o impeachment de Collor, a Polícia Federal calculou que o Esquema PC teria arrecadado, entre 1989 e 1992, US$ 1 bilhão. Desconsiderando possíveis exageros, dificilmente o montante recolhido teria sido menor que US$ 600 milhões. Desse total, segundo investigadores que aturam no caso, foram gastos no máximo US$ 500 milhões nas campanhas eleitorais de 1989 (para presidente da República) e 1990 governadores, deputados e senadores) e em gastos pessoais de Collor, dos Farias e de outros participantes do esquema. Sendo assim, pelo menos US$ 100 milhões teriam desaparecido.

Uma coisa é certa: mesmo sendo dono de apenas parte do dinheiro, PC era quem movimentava quase a totalidade dos recursos.

Quem imaginava que a família Farias ficaria com o dinheiro errou. À exceção de Augusto, o clã deu sinais de ter passado por dificuldades financeiras. O jornal Tribuna de Alagoas, criado por PC a um custo de US$ 5 milhões, teve de ser arrendado. Ironia do destino: foi por causa do jornal que Pedro Collor, sócio do concorrente Gazeta de Alagoas, denunciou o esquema de corrupção que tomava conta do governo de seu irmão.

Sem condições de tocar o jornal, os Farias preferiram arrendá-lo para o usineiro Bob Lyra, um dos homens mais ricos do Estado. Dupla ironia. Bob é aliado do governador Ronaldo Lessa (PDT), principal adversário do PTB, partido de Augusto Farias. Ou seja, o jornal criado por PC ainda pertence a sua família, mas na prática serve a interesses políticos contrários aos dos Farias.

Outra perda da família de PC pode ser verificada naquela que, durante anos, foi o sustentáculo empresarial dos Farias: a Blumare, concessionária da Fiat de Maceió. Por causa das dívidas acumuladas, a empresa teve de ceder cotas a outros grupos empresariais do estado. Hoje, a Blumare ainda é dos Farias, mas a participação da família é bem menor do que já foi no passado.

Os filhos de PC têm um padrão de vida elevado, mas não estão nadando em dinheiro. Após a morte do pai, Ingrid e Paulinho fixaram residência em Maceió e passaram a viver do aluguel da casa de PC, uma mansão com cinco suítes e terreno de 4 mil metros quadrados. O dinheiro, no entanto, não foi bastante para arcar com os elevados gastos dos irmãos. Eles então começaram a alugar a casa de praia onde o pai foi morto, no bairro de Guaxuma, Maceió.

A casa está localizada num terreno privilegiado, mas não tem luxo. Tem três quartos, uma pequena piscina e é feita de madeira. A diária custa R$ 400. Muitos dos que a alugam são jovens de Maceió que buscam um lugar discreto e tranqüilo para namorar. Outra ironia do destino. PC usava a casa justamente para namorar, como fazia com Suzana Marcolino, com quem foi encontrado morto.

Procurada pelo Estado de Minas, Ingri não quis se pronunciar. “Não gosto de falar sobre esse assunto (a morte do pai). Procure meu tio (Augusto Farias)”, disse ela. Augusto, no entanto, também se recusou a fazer comentários.

Quem saiu ganhando foram alguns “laranjas” de PC. Após a morte do empresário, vários deles simplesmente embolsaram dinheiro e ficaram com bens que pertenciam a Paulo César. Meses atrás, a família Farias fez uma reunião para discutir como reaver R$ 3 milhões que teriam sido “incorporados” por um testa-de-ferro de PC que vive na Paraíba. Em rodas de amigos, os Farias não se cansam de reclamar dos “laranjas” que enriqueceram da noite para o dia depois da morte de PC. O próprio Paulo César, poucas horas antes de morrer, já reclamava que estava sendo roubado.

Dias antes de ser assassinado, PC reuniu-se com os argentinos Luís Felipe Ricca e Jorge Osvaldo La Salvia, que apareciam como titulares de contas bancárias do empresário no exterior. No encontro, realizado na casa de praia e na presença de Suzana, Paulo César discutiu com La Salvia por achar que o dinheiro guardado pelo argentino encolhera. Foi o próprio Ricca quem contou o caso a procuradores italianos que investigavam os negócios de PC na Europa. Foram os mesmos procuradores, aliás, que conseguiram congelar duas contas bancárias de Paulo César na Suíça, sendo uma delas em nome de sua mulher, Elma, morta em 1994. Até hoje, o governo brasileiro não fez esforços para reaver o dinheiro dessas contas.

Outro que saiu no lucro foi o braço direito de PC, o piloto Jorge Bandeira de Mello. Depois de cozinhar para Paulo César no período em que ambos passaram foragidos no Paraguai e na Argentina, Bandeira abriu vários negócios, mas acabou se firmando como dono de restaurante.

Pertence a Bandeira o Le Corbu, o restaurante mais requintado de Maceió. O lugar tem decoração moderna e oferece uma excelente cozinha francesa contemporânea. Dez entre dez endinheirados de Maceió freqüentam o restaurante. Às sextasfeiras, os irmãos Farias costumam dividir uma mesa. Foi num desses encontros que eles se queixaram do “laranja” da Paraíba que surrupiou os R$ 3 milhões de PC.

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Andrea Neves candidata a governadora de MG?

Andrea Neves: braço direito, cabeça e cotovelos de Aécio

Isso mesmo! É o que muita gente começa a se perguntar: a irmã mais velha de Aécio Neves (PSDB), estrategista-mor, mentora e leão-de-chácara do senador mineiro, estaria disposta a sair das sombras para se candidatar a governadora de Minas Gerais em 2014?

O primeiro alerta foi dado dois meses atrás pelos repórteres Jorge Félix e Denise Motta, do IG. Na época, Andrea, até então avessa à exposição pública, fizera o inimaginável: participara de um programa popularesco de TV para divulgar projetos do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas), instituição do governo de Minas presidida por ela.

De lá para cá, Andrea vem aparecendo cada dia mais. Ora falando do centenário do avô Tancredo Neves, ora divulgando os programas do Servas.

Nesta semana, Andrea deu mais passo – um não, dois – para projetar-se publicamente. Inaugurou um perfil no Twitter (@AndreaNeves_) e um blog (andreaneves.com). Em ambos, ela privilegia temas, digamos, humanitários, como a assistência social (já fez um post sobre a organização Médico Sem Fronteiras e dois sobre iniciativas do Servas) e a luta pelos direitos civis (relembrou a famosa marcha em Washington em 1963). Andrea também faz posts “fofos”, como o de uma propaganda fofa de água mineral e o de uma senhora fofa dos Estados Unidos que recolhe e divulga segredos de anônimos. (Ah, e como deixar de citar a epígrafe fofa do blog? “Felicidade se acha é em horinhas de descuido”/Guimarães Rosa.)

Por que Andrea decidiu agora esculpir sua imagem com o cinzel da doçura, do espírito público e da preocupação com os desvalidos? Talvez por dois motivos.

O primeiro deles: amainar a fama de articuladora casca-grossa de Aécio (releia aqui um antigo post em que se escrevi: “Enquanto à luz dos holofotes Aécio esbanjava charme, simpatia e leveza e, como Tancredo Neves, seu avô, se esmerava em personificar a conciliação na política, Andrea era, nos bastidores, a general de campo de sangrentas batalhas, o tira mau da dupla, o desgraçado dr. Hyde que assumia os pecados do impoluto dr. Jekyll”).

A quem diga, porém, que a toda poderosa Andrea não deseja apenas lustrar seu perfil. Ela estaria interessada também em candidatar-se a governadora de Minas em 2014. Difícil, difícil… Mas não impossível. Vejamos porquê.

Uma possível candidatura de Andrea poderia fortalecer o projeto Aécio Presidente. Isso porque, se realmente disputar a vaga do Palácio do Planalto em 2014, Aécio, mais do que nunca, precisará de Minas a seu lado.

Acontece, porém, que o atual governador, Antonio Anastasia (PSDB), cria de Aécio, não poderá concorrer à reeleição. E o PSDB não tem nomes fortes para a disputa.

Do outro lado do ringue, porém, no PT, o ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) é nome forte nome para o Palácio Tiradentes. Ou seja, se o PT vier encorpado na eleição de Minas em 2014, Aécio partirá manco para a disputa nacional com Dilma Rousseff (se é que ela vai realmente se candidatar à reeleição).

O quadro mudaria de figura, entretanto, se Andrea entrasse no páreo. Para grande parte do eleitorado, ela seria vista como uma extensão natural do irmão e do avô. Seria mais ou menos como ter o slogan “vote em Andrea e elege o Aécio 2.0 e o Tancredo 3.0” – um mote poderoso, já que Aécio é um fenômeno de popularidade, e Tancredo, uma unanimidade, quase santo.

Para o mundo político, a candidatura de Andrea teria ainda mais significados. Até as palmeiras imperiais da Praça da Liberdade sabem que Andrea é a grande avalista do projeto Aécio Presidente. Ela não é apenas o braço direito do irmão. É a cabeça. E, quando necessário, os cotovelos.

Não há dúvida de que Andrea candidata a governadora inspiraria poder, capacidade e temor suficientes para, como dizem os cronistas, construir um amplo leque de forças políticas. Ademais, o atual cenário político é favorável a mulheres fortes, sobretudo àquelas com “sensibilidade social”.

Como diria o inefável ex-senador Mão Santa, atentai! Se conseguir se repaginar, Andrea é um baita nome para 2014.

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