Arquivo da categoria: Necrológios

Sozinho, Itamar fez o que a oposição inteira não conseguiu: enquadrou Sarney e encantoou o governo

Na sua curta volta ao Senado, que durou apenas cinco meses, Itamar Franco fez sozinho o que a oposição inteira até hoje não deu conta de fazer – nem dará tão cedo, se é que dará conta. Como mostra o vídeo abaixo (menos de dois minutos), só no gogó, Itamar enquadrou o presidente do Congresso, José Sarney, e encantoou o governo.

Em tempos de uma oposição acovardada, perdida e ensimesmada, Itamar fará falta.

Releia o post Itamar está de volta (e em boa forma).

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Morre o engenheiro Renato Guerreiro, o homem que sabia o futuro

Renato Guerreiro mostra otimismo no hospital, onde se tratava de um câncer. No seu colo, o futuro que um dia prometera

Nos primeiros dias do governo Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1995, o recém empossado ministro das Comunicações, Sérgio Motta, descobriu uma pepita de ouro. Era um trabalho intitulado “Comunicações – Infra-estrutura para a Sociedade da Informação”, produzido no ano anterior por um técnico do ministério, o engenheiro de telecomunicações Renato Guerreiro.

Motta não era vidente, mas tinha inteligência bastante para ver que, no paper, Guerreiro previa o futuro. O ministro pegou o trabalho do engenheiro e fez dele a referência para a reforma do setor de comunicação no Brasil.

Na época, eu era foca da Folha de S.Paulo em Brasília e cobria o Ministério das Comunicações. Sabia que não era vidente, desconfiava que não era inteligente, mas alguma esperteza eu tinha. Assim como Sérgio Motta, colei em Guerreiro.

Aquele paraense de Oriximiná não era uma fonte, digamos, muito generosa para um pobre repórter em busca de um furo de reportagem. Mas nunca se negava a dar esclarecimentos técnicos sobre o que era divulgado publicamente. Nossas conversas eram longas. Ele tinha paciência para explicar e eu, paciência para ouvir. E digo que não era fácil para nenhum dos dois.

Ele falava de um futuro em que a linha de telefone fixo não seria mais comprada a prestações e declarada no Imposto de Renda, de tão cara que era. Bastaria o cliente escolher uma operadora – sim, haveria muitas, privadas, e não só uma, estatal – e assinar o serviço, como quem assina um jornal. Guerreiro também dizia, 16 anos atrás, que todos – t-o-d-o-s! – teriam telefone celular, aquela maravilha de invenção que chegava ao mercado naquele instante com aparelhos modernos do tamanho de um tijolo e com uma antena.

Não era só isso. A internet, dizia Guerreiro, seria carne de vaca. Não a internet que o país – na verdade, o mundo das universidades federais – começava a descobrir naquela época (discada, lenta e que caía a todo momento). A internet de Guerreiro seria veloz e potente para exibir inclusíve vídeos.

TV a cabo? A mesma coisa! Fácil e a preços populares.

Tudo isso, contava Guerreiro, viria literalmente junto: o mesmo cabo que traria o telefone fixo à minha casa traria também a internet e a TV a cabo.

Os olhos dele brilhavam. Quanto aos meus, um se abria e o outro se fechava, desconfiado. Mineiro que sou, eu achava que pelo menos metade do que Guerreiro dizia era lorota. Ou sonho, sei lá.

Nos anos seguintes, ainda no governo do PSDB, Renato Guerreiro foi o ás da reforma do setor de telecomunicações e liderou a elaboração das regras e dos contratos que desaguaram na privatização da Telebrás. Em 1997, quando da criação da Anatel, o engenheiro foi conduzido à presidência do órgão, cargo no qual, nos cinco anos seguintes, contribuiu decisivamente para a consolidação do novo modelo de comunicações do Brasil.

Hoje, no presente, temos o futuro que que Guerreiro prometeu.

x-x-x

No Natal de 2009, Guerreiro baixou no Hospital Santa Luzia, em Brasília. Era a terceira vez que procurava atendimento médico para as fortes dores que vinha sentindo nas costas. Diferentemente das ocasiões anteriores, quando os médicos lhe disseram que o desconforto era provado por gases, bastando apenas tomar um Luftal, daquela vez decidiu-se fazer exames de sangue e uma tomografia. Encontram então um tumor de cerca de 10 centímetros no rim esquerdo. Era um Linfoma Não-Hodgkin. Câncer.

Guerreiro decidiu fazer o tratamento em São Paulo, no Hospital do Coração (HCor), e confiou na previsão mais otimista: com quatro sessões de quimioterapia, o tumor retrairia quase a ponto de desaparecer, e a partir daí bastaria apenas fazer controles médicos trimestrais. A esperança de Guerreiro tinha um lastro: oito anos antes, ele vira de perto um tratamento de câncer bem-sucedido: o de sua mulher.

Com a ajuda de seu filho Thiago, engenheiro da computação, Guerreiro criou um blog – o Boletim do RG – para dar notícias aos amigos sobre o tratamento. Depois de cada sessão de quimioterapia, o blog era alimentado com vídeos em que, sempre animado, sorrindo e de bom humor, Guerreiro anunciava, convicto, estar a caminho da recuperação. Agradecia muito aos amigos e mandava beijos.

Renato Guerreiro morreu neste domingo, 27 de fevereiro, aos 62 anos.



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Condenados: Belo Horizonte

325 árvores do Parque Municipal de BH (10% do total) serão cortadas. Maria de Fátima também se foi.

Maria de Fátima Ferreira, de 57 anos (parecia bem menos), olhos amendoados, cabeleira farta e anelada, secretária aposentada, morava no centro de Belo Horizonte, na rua da Bahia. Era solteira, vivia para os outros e gostava de abraçar árvores. Na manhã do dia 12 de janeiro, aproveitando a estiagem, ela acordou cedo e foi caminhar no Parque Municipal Américo Renné Giannetti, o maior e mais bonito da capital mineira, encravado no centro da cidade. Morreu esmagada na queda de um jatobá de 30 metros, apodrecido por cupins.

Como não portava documentos, seu corpo foi colocado numa gaveta do IML destinada aos mortos não identificados. Um irmão dela, José Carlos, soube que havia um corpo no necrotério com uma rosa tatuada no ombro direito, uma borboleta na perna e um coração nas costas. Era Maria de Fátima, ele teve certeza.

Um dia depois do acidente, ainda que o diretor do parque, Homero Brasil, tenha classificado o caso como “fatalidade”, a Prefeitura de Belo Horizonte decidiu interditar o local. Descobre-se agora depois de uma tardia vistoria que, das 3.562 árvores do parque, 325 estão condenadas, a maioria tomada por cupins. Terão de ser sacrificadas. Não serão mais abraçadas por gente como Maria de Fátima.

Ela foi sepultada no Cemitério Bosque da Esperança.

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Morre Tasso Assunção, o banqueiro que se escondia no armário

Tasso recebe voz de prisão e olha pela última vez o armário que levava ao bunker

Morreu ontem (7/12/10) o banqueiro Tasso Assunção, 76. Seu nome ficará gravado na História – pelo, digamos, vanguardismo (foi o primeiro empresário condenado no Brasil com base na Lei do Colarinho Branco) e pela criatividade (foragido da Justiça, fez um bunker a la Saddan Hussein na área de serviço de sua mansão, em BH, e lá viveu escondido durante meses).

Tasso era dono do Banco Hércules e do Consórcio Mercantil. Foi responsável por um rombo de R$ 47 milhões que lesou centenas de clientes. Em 1995, foi condenado a 12 anos de prisão, pena diminuída depois para nove. Teve três passagens rápidas pelo xilindró: na primeira, ficou 37 dias, na segunda, 22, e na terceira, 119. Na véspera do Natal de 2003, beneficiado com um habeas corpus, Tasso saiu pela porta da frente do presídio de Contagem (MG), entrou numa Mercedes-Benz e desapareceu.

A Justiça que mandou soltar o banqueiro, dois meses depois, mandou prendê-lo novamente.  Era tarde, contudo: Tasso se encontrava em local incerto e não sabido, como dizem os tiras. A PF procurou Tasso na sua mansão da rua Josafá Belo, na Cidade Jardim (bairro nobre da capital mineira), em fazendas do interior de Minas, em casas de amigos e parentes, mas nada. Formalmente, o banqueiro se tornara um foragido.

Sete meses depois, uma fonte cantou para mim uma história absurda: Tasso Assunção nunca deixara a mansão da Cidade Jardim. Vivia lá, escondido e, sobretudo, precavido – toda vez que a campainha tocava, o banqueiro corria para a área de serviço, entrava num armário, passava por um fundo falso e se escondia numa espécie de bunker especialmente construído para ele. A fonte contou mais. Quando precisou passar por um procedimento médico para remover um caroço na testa (posteriormente diagnosticado como câncer de pele), Tasso improvisou um mini centro cirúrgico na mansão. Levado até lá, um médico de confiança fez o serviço.

A história da minha fonte era pouco verossímil, mas sensacional.

Durante 51 dias, tentei obter de todas as formas uma imagem de Tasso Assunção na mansão. A pé e de carro, dava voltas e voltas no quarteirão da residência, uma construção moderna com um muro alto de pedras. Não podia ficar parado, já que tanto a rua Josafá Belo quanto a Conde de Linhares, esquina onde ficava a mansão, eram vigiadas por Tasso com um circuito interno de câmeras. Com o tempo, passei a alternar as rondas com campanas no prédio da antiga Escola de Farmácia da UFMG, que dava para a mansão. Nada deu certo.

Às 9h15 do dia 21 de outubro de 2004, uma quarta-feira de sol, eu dava minha costumeira voltinha pelo quarteirão da mansão quando vi um carteiro tocando a campainha da casa de Tasso. Pensei: quando o portão for aberto, talvez seja possível ver o banqueiro. Aproximei-me. O portão de fato se abriu, mas não era um carteiro que estava à espera (a minha fonte também tinha contado a história para a Polícia Federal). Era um agente da PF disfarçado de carteiro – o mesmo agente que havia prendido Tasso, um ano antes, disfarçado, adivinha de que?, de carteiro. Tão logo a empregada abriu o portão, o agente apresentou-se e disse tinha um mandado de busca – neste momento, outros três agentes da PF e um delegado saíram dos carros em que estavam e, todos juntos, inclusive eu, entramos na mansão.

Eu era o homem certo no lugar certo: o delegado precisava de “uma testemunha do povo” para acompanhar a prisão, e eu era a única pessoa por perto.

Tasso Assunção, menos de 1,70 metro, entrava no armário que levava ao bunker quando o delegado, um homenzarrão de quase dois metros, segurou-o pela camisa. Caiu o bunker do banqueiro – um cafofo forrado com tapete persa e apetrechado com dois travesseiros e uma lanterna, no qual mal cabia uma pessoa.

No armário, o fundo falso que levava ao bunker

“O senhor não está se lembrando de mim”, perguntou o delegado, antes de lhe dar voz de prisão. “Sim. Você está um pouco mais gordo, mas eu o reconheço”, respondeu Tasso, trêmulo. O banqueiro vestia bermuda bege, camisa marrom e mocassin sem meias. Na testa, o curativo da cirurgia.

Tasso voltou para a cadeia. E saiu de lá em 2006 – a idade avançada lhe valeu a prisão domiciliar. A mansão se tornara seu refúgio novamente.

Ontem, morreu. Estava na mansão.

Repare no tapete persa debaixo do travesseiro

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