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Morre Tasso Assunção, o banqueiro que se escondia no armário

Tasso recebe voz de prisão e olha pela última vez o armário que levava ao bunker

Morreu ontem (7/12/10) o banqueiro Tasso Assunção, 76. Seu nome ficará gravado na História – pelo, digamos, vanguardismo (foi o primeiro empresário condenado no Brasil com base na Lei do Colarinho Branco) e pela criatividade (foragido da Justiça, fez um bunker a la Saddan Hussein na área de serviço de sua mansão, em BH, e lá viveu escondido durante meses).

Tasso era dono do Banco Hércules e do Consórcio Mercantil. Foi responsável por um rombo de R$ 47 milhões que lesou centenas de clientes. Em 1995, foi condenado a 12 anos de prisão, pena diminuída depois para nove. Teve três passagens rápidas pelo xilindró: na primeira, ficou 37 dias, na segunda, 22, e na terceira, 119. Na véspera do Natal de 2003, beneficiado com um habeas corpus, Tasso saiu pela porta da frente do presídio de Contagem (MG), entrou numa Mercedes-Benz e desapareceu.

A Justiça que mandou soltar o banqueiro, dois meses depois, mandou prendê-lo novamente.  Era tarde, contudo: Tasso se encontrava em local incerto e não sabido, como dizem os tiras. A PF procurou Tasso na sua mansão da rua Josafá Belo, na Cidade Jardim (bairro nobre da capital mineira), em fazendas do interior de Minas, em casas de amigos e parentes, mas nada. Formalmente, o banqueiro se tornara um foragido.

Sete meses depois, uma fonte cantou para mim uma história absurda: Tasso Assunção nunca deixara a mansão da Cidade Jardim. Vivia lá, escondido e, sobretudo, precavido – toda vez que a campainha tocava, o banqueiro corria para a área de serviço, entrava num armário, passava por um fundo falso e se escondia numa espécie de bunker especialmente construído para ele. A fonte contou mais. Quando precisou passar por um procedimento médico para remover um caroço na testa (posteriormente diagnosticado como câncer de pele), Tasso improvisou um mini centro cirúrgico na mansão. Levado até lá, um médico de confiança fez o serviço.

A história da minha fonte era pouco verossímil, mas sensacional.

Durante 51 dias, tentei obter de todas as formas uma imagem de Tasso Assunção na mansão. A pé e de carro, dava voltas e voltas no quarteirão da residência, uma construção moderna com um muro alto de pedras. Não podia ficar parado, já que tanto a rua Josafá Belo quanto a Conde de Linhares, esquina onde ficava a mansão, eram vigiadas por Tasso com um circuito interno de câmeras. Com o tempo, passei a alternar as rondas com campanas no prédio da antiga Escola de Farmácia da UFMG, que dava para a mansão. Nada deu certo.

Às 9h15 do dia 21 de outubro de 2004, uma quarta-feira de sol, eu dava minha costumeira voltinha pelo quarteirão da mansão quando vi um carteiro tocando a campainha da casa de Tasso. Pensei: quando o portão for aberto, talvez seja possível ver o banqueiro. Aproximei-me. O portão de fato se abriu, mas não era um carteiro que estava à espera (a minha fonte também tinha contado a história para a Polícia Federal). Era um agente da PF disfarçado de carteiro – o mesmo agente que havia prendido Tasso, um ano antes, disfarçado, adivinha de que?, de carteiro. Tão logo a empregada abriu o portão, o agente apresentou-se e disse tinha um mandado de busca – neste momento, outros três agentes da PF e um delegado saíram dos carros em que estavam e, todos juntos, inclusive eu, entramos na mansão.

Eu era o homem certo no lugar certo: o delegado precisava de “uma testemunha do povo” para acompanhar a prisão, e eu era a única pessoa por perto.

Tasso Assunção, menos de 1,70 metro, entrava no armário que levava ao bunker quando o delegado, um homenzarrão de quase dois metros, segurou-o pela camisa. Caiu o bunker do banqueiro – um cafofo forrado com tapete persa e apetrechado com dois travesseiros e uma lanterna, no qual mal cabia uma pessoa.

No armário, o fundo falso que levava ao bunker

“O senhor não está se lembrando de mim”, perguntou o delegado, antes de lhe dar voz de prisão. “Sim. Você está um pouco mais gordo, mas eu o reconheço”, respondeu Tasso, trêmulo. O banqueiro vestia bermuda bege, camisa marrom e mocassin sem meias. Na testa, o curativo da cirurgia.

Tasso voltou para a cadeia. E saiu de lá em 2006 – a idade avançada lhe valeu a prisão domiciliar. A mansão se tornara seu refúgio novamente.

Ontem, morreu. Estava na mansão.

Repare no tapete persa debaixo do travesseiro

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