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Histórias de repórter: o dia que Ricardo Teixeira tentou me me calar

Ricardo Teixeira costuma fazer uma grande pressão para que os jornalistas o retratem como santo. Nem sempre dá certo

As recentes denúncias feitas fora e dentro do Brasil contra Ricardo Teixeira, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), tem para mim um significado especial. O esquema que agora se descortina foi arranhado por mim – e a um custo alto – três anos atrás numa reportagem publicada nos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas.

Em 20 anos de profissão, já havia sofrido muita pressão para engavetar uma apuração, mas poucas vezes elas foram tão intensas e ardilosas como no caso da pauta que envolveu Ricardo Teixeira.

Como diria Odorico Paraguaçu, é com a alma lavada e enxaguada que apresento a reportagem.

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O elo perdido da corrupção mundial

Correio Braziliense e Estado de Minas, 13 de abril de 2008

Por Lucas Figueiredo

Suíça e Liechtenstein – O que alguns dos piores ditadores, mais temidos traficantes internacionais de drogas e maiores corruptos de todos os tempos têm em comum com o deputado Paulo Maluf (PP-SP) e com o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira? Resposta: em algum momento da vida, todos eles fizeram suspeitas transações financeiras com um dos maiores lavadores de dinheiro do planeta. Seu nome: Herbert Batliner, advogado de Liechtenstein, paraíso fiscal da Europa.

A especialidade de Batliner é ajudar seus clientes a movimentar dinheiro pelo mundo sem deixar rastros. Ele já foi acusado de prestar serviços para gente do calibre de:

1) Pablo Escobar, o megatraficante colombiano, morto em 1993, que faturava anualmente US$ 30 bilhões com a venda de cocaína;

2) Mobuto Sese Seko, que por três décadas foi ditador do antigo Zaire (atual República Democrática do Congo), período no qual acumulou uma fortuna de US$ 5 bilhões;

3) Ferdinando Marcos, ex-presidente das Filipinas, um dos homens mais corruptos do mundo;

4) Jorge Hugo Reyes-Torres, o maior traficante de drogas do Equador, que antes de ser preso enviava mensalmente 500 quilos de cocaína para a Espanha;

5) Família Real Saudita, que controla com mão de ferro o país que detém a maior produção mundial de petróleo.

O que liga Paulo Maluf a Batliner é um endereço. Já com Ricardo Teixeira, a conexão se dá por intermédio de uma pessoa.

Paulo Maluf

Muita coisa já se falou das famosas contas bancárias de Paulo Maluf no exterior. Sabe-se que, na década de 1990, Maluf utilizou laranjas para movimentar pelo menos US$ 350 milhões em bancos europeus – principalmente na Suíça, na França e na Ilha de Jersey (Canal da Mancha). Sabe-se também que, por decisão da Justiça desses países, cerca de US$ 250 milhões estão congelados. O que não se sabia é que o ex-governador e ex-prefeito de São Paulo utilizou os serviços de Herbert Batliner para movimentar boa parte dessa fortuna.

Uma das contas de Maluf na Suíça, de onde partiram remessas milionárias para Jersey, tinha como titular a Fundação White Gold (ouro branco). Conforme documentos em poder do Ministério Público, a fundação foi constituída por Maluf na cidade de Vaduz (capital do minúsculo principado de Liechtenstein), na Rua Aeulestrasse, número 74, caixa postal 86. Como constatou o Estado de Minas, no entanto, nesse endereço não funciona nenhuma Fundação White Gold, mas sim a First Advisory Group, empresa que tem como sócio Herbert Batliner.

A First Advisory Group serve como uma espécie de biombo para empresas fantasmas. Calcula-se que pelo menos 10 mil empresas de fachada usam o endereço comercial de Batliner. A Fundação White Gold é uma delas. Há outras, como a Fundação Pérolas Negras, controlada por Flávio Maluf, filho do deputado.

Batliner não opera apenas com a First Advisory Group. Na mesma Rua Aeulestrasse, no número 38, funciona a Prokurations-Anstalt, outra incubadora de empresas fantasmas pertencente a Batliner. No mesmo endereço da Prokurations-Anstalt estão registradas, por exemplo, as fundações Alyka e Abutera, que têm como beneficiária Lígia Maluf, filha do deputado Paulo Maluf.

Especialista em crime organizado, o ex-comissário de polícia da Suíça Fausto Cattaneo analisou a coincidência de endereços das empresas de Batliner e das fundações abertas pela família Maluf. Com os resultados da pesquisa, Cattaneo afirmou ao EM que não há dúvidas de que existe uma conexão suspeita entre o advogado de Liechtenstein e o deputado brasileiro.

Ouvido pela reportagem, o procurador-geral de Genebra, Daniel Zappelli, confirmou que, por ordem judicial, há dinheiro de Maluf congelado em bancos da Suíça. “Fizemos tudo o que pudemos no caso Maluf.” Segundo ele, é possível que os recursos sejam devolvidos aos cofres públicos brasileiros. “Mas primeiro o Brasil tem de provar que o dinheiro congelado na Suíça é produto de corrupção”, afirmou Zappelli.

O Estado de Minas perguntou à assessoria de Maluf se o deputado e seus familiares confirmavam serem responsáveis pela abertura de fundações em Liechtenstein e se foram beneficiados com suas movimentações financeiras. O EM perguntou também se o deputado tinha conhecimento das conexões de Batliner com traficantes, ditadores e corruptos. A assessoria se limitou a responder que Maluf nunca teve contas bancárias no exterior.

Ricardo Teixeira

As ligações perigosas de Herbert Batliner no Brasil também se estendem a Ricardo Teixeira, presidente da CBF e principal articulador da escolha do Brasil como país-sede da Copa do Mundo de 2014.

Como ficou comprovado em 2001 na CPI da CBF/Nike, uma das empresas de Teixeira, a R.L.J. Participações, tomou de empréstimo de uma firma de Liechtenstein, a Sanud Etablissement, uma quantia equivalente à época a R$ 2,9 milhões. Antes que o empréstimo fosse pago, porém, a Sanud Etablissement foi fechada. Integrantes da CPI chegaram a classificar a transação como lavagem de dinheiro, mas nada foi comprovado.

Porém, um dado suspeito passou ao largo da CPI: a Sanud Etablissement era uma costela de Herbert Batliner. Dois dos representantes da Sanud Etablissement – Alex Wiederkehr e Hans Gassner – eram sócios de Batliner na empresa Prokurations Anstalt.

Hans Gassner tem um passado complicado. No final dos anos 1990, ele se envolveu no escândalo do banco espanhol Banesto, no qual dirigentes da instituição desviaram de seus cofres cerca de 10 milhões de euros (o equivalente a R$ 27 milhões). A função de Gassner era movimentar o dinheiro e apagar sua origem.

Após analisar informações referentes a transações financeiras da empresa do presidente da CBF e da Sanud Etablissement, o ex-comissário suíço Fausto Cattaneo afirmou que, “assim como Paulo Maluf, Ricardo Teixeira tem conexões com Herbert Batliner”.

A assessoria de imprensa da CBF afirmou que Ricardo Teixeira não iria comentar o caso.

Fortunas

Com apenas 32 mil habitantes (número suficiente para encher apenas metade do Mineirão), o minúsculo principado de Liechtenstein – paraíso fiscal encravado entre a Suíça, a Alemanha e a Áustria – é um dos países mais ricos. O produto de exportação de Liechtenstein são as empresas fantasmas (há duas para cada habitante) e as instituições financeiras.

Nessa verdadeira lavanderia vip, destaca-se o nome de Herbert Batliner. Um gesto de generosidade de Batliner dá a dimensão de sua riqueza. Em 2006, ele e sua mulher, Rita Batliner, doaram ao Museu Albertina de Viena (Áustria) uma coleção de 500 quadros, avaliada em 400 milhões de euros (R$ 1 bilhão). Entre as obras, há preciosidades de Picasso, Monet, Renoir, Francis Bacon, Matisse, Cézanne, Modigliani e Miró.

Instalada na sede dos correios de Vaduz (capital de Liechtenstein), a caixa postal número 86 pertence à empresa First Advisory Group, do advogado Herbert Batliner. Batliner “aluga” a caixa postal, possibilitando a seus clientes que registrem com este endereço suas empresas de fachada. Paulo Maluf, por exemplo, abriu em Vaduz a Fundação White Gold, que tem como endereço formal: Rua Aeulestrasse, número 74 (mesmo endereço da First Advisory Group), caixa postal 86.

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Peru: duas fotos, dois momentos, dois Fujimori

Muitos me perguntam pela foto que ilustra o topo do blog. Boa época para falar sobre ela.

A imagem foi feita no Peru, em 1993, pela extraordinária repórter-fotográfica peruana Cecília Simpson. Corria então a metade do primeiro de três mandatos do presidente Alberto Fujimori. No ano anterior, ele sacudira o país com dois eventos: um autogolpe, com fechamento do Congresso, e a prisão do terrorista número um do país, Abimael Guszmán, líder do sanguinolento Sendero Luminoso.

Fujimori era o herói e o vilão do Peru.

Eu ao lado do capitão Renzo, do Exército peruano, no interior de Ayacucho, em 1993

Eu, trabalhando para a revista belga Défis Sud, e Cecília, para o jornal peruano El Comercio, viajávamos a Ayacucho para registrar um fenômeno social incrível: o retorno de famílias de trabalhadores rurais que haviam sido expulsas de suas terras pelo Sendero Luminoso 20 anos antes. Não era um retorno fácil. Por falta de segurança, a população ainda era obrigada a viver acampada em torno de uma esquálida base do Exército. De manhã, com uma chamada oral, os militares conferiam se todos ainda estavam lá. Em seguida, escoltados por soldados de fuzis nas mãos e olhos fixos nas montanhas, os camponeses seguiam até suas antigas propriedades. Passavam o dia a trabalhar na terra e podiam visitar suas casas abandonadas, algumas delas em ruínas. Mas, por falta de segurança, não podiam ainda ficar. Antes do fim da tarde, os camponeses retornavam ao acampamento, onde era feita nova chamada oral. Quando a noite chegava, o medo de um ataque surpresa rondava a cabeça de todos. No outro dia, tudo se repetia.

O temor de um ataque não era sem propósito. Não havia um camponês sequer com os quais convivi naqueles dias que não tivesse pelo menos um familiar sequestrado ou morto pelos terroristas de esquerda ou por grupos paramilitares de extrema direita ligados às Forças Armadas.

Foram muitos os que aconselharam a mim e a Cecília a não viajar pelo interior de Ayacucho. Na capital do Departamento (estado), também chamada Ayacucho, um militar nos mostrou fotos feitas pelo Exército pouco tempo antes: uma dezena de cabeças cortadas num campo de futebol da região. Terroristas do Sendero haviam invadido uma pequena vila rural, matado todos os homens e, depois, jogado futebol com as cabeças.

Antes de viajar ao interior, ainda na capital Ayacucho, tive a sorte de fazer minha primeira entrevista com o presidente Fujimori, que chegara de surpresa para uma visita. No dia seguinte, eu e Cecília partimos para ver como viviam los desplazados (na tradução literal, “os deslocados”). Nossos guias foram um jornalista local, Hugo, e seu segurança, um assassino profissional chamado El Gatito. De Ayacucho até a base do Exército, rodamos algo em torno de 150 quilômetros. Ao volante de seu velho Fusca, ia Hugo e  ao seu lado o tenso El Gatito, com um revólver 38 na mão direita. No banco de trás, eu e Cecília.

Quando o Fusca atolou, pensamos: ferrou! (não foi exatamente essa a palavra). Nossa sorte foi que apareceu o capitão Renzo com seus homens. Depois de ouvir um sermão, fomos resgatados e levados à tal base esquálida do Exército, onde ficamos “hospedados” por alguns dias.

Numa das expedições diárias para acompanhar aquele bizarro cultivo da terra sob canos de fuzil, Cecília fez a foto que ilustra o blog. O barbudo com a câmera na mão sou eu; ao meu lado, o capitão Renzo. Ao fundo, os soldados a vigiar as montanhas.

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Sete anos mais tarde, retornei ao Peru para entrevistar Fujimori pela terceira vez. De madrugada, em Lima, um assessor do palácio presidencial telefonou para mim com um recado: eu deveria estar na porta do hotel às 5h da manhã para ser apanhado por um oficial do Exército que me levaria ao encontro de Fujimori. Eu viajaria com El Chino, mas, por uma norma da segurança, só saberia para onde quando estivesse dentro do avião presidencial.

O momento era bem diferente. O país fora “pacificado” por Fujimori – a golpes de tacape, bombas e muitos tiros de fuzil, é bem verdade. O terrorismo agonizava. Fujimori se preparava para disputar a re-reeleição, uma invenção bem ao estilo Fujimori.

Para se perpetrar no poder, ele fraudaria as eleições mais uma vez e usaria contra seus adversários todo o repertório sujo do serviço secreto – o temido SIN (Serviço de Inteligência Nacional), comandado pelo assassino e traficante (de armas e drogas) Vladimir Montesino.

Naquele ano, Fujimori foi re-reeleito – sob as bençãos do governo Fernando Henrique Cardoso, diga-se de passagem. Naquele ano também, em decorrência de uma série de escândalos, El Chino abandonou a Presidência e fugiu para o Japão.

Mas não falei ainda da minha viagem com Fujimori. Para minha surpresa e alegria, nosso destino era o interior de Ayacucho. Como mostra a foto abaixo, fazia muito frio e Fujimori usava um belo poncho. Eu, desprevenido, tremia o queixo.

O então presidente do Peru, Alberto Fujimori, e eu, no interior de Ayacucho, no ano 2000

Nossa comitiva viajou sob um pesado esquema de segurança. Mas, nesse quesito, o Peru do ano 2000 certamente era melhor que o de 1993. Salvo uma ou outra célula do Sendero Luminoso e do MRTA (Movimento Revolucionário Túpac Amaru), a região de Ayacucho, bem como todo o país, estava praticamente livre do terrorismo. Los desplazados já viviam em suas casas e não precisam mais plantar sob a vigilância de soldados.

Fujimori foi bom para o Peru.

Fujimori foi péssimo para o Peru.

Foi isso que o eu vi.

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O Brasil do “coronel Fancoil”

Jornalistas e militares riem juntos no Palácio do Planalto. E isso é uma coisa muito séria.

No andar térreo do Palácio do Planalto, há uma grande sala com piso de mármore branco onde a presidente Dilma Roussef não manda. Lá fica o comitê de imprensa, onde trabalham repórteres e fotógrafos dos principais veículos de comunicação do país e alguns do exterior. O ritmo é de pronto-socorro. Havendo notícia, trabalha-se. E, quando não há o que relatar, a turma coça.

Quando o segundo cenário prevalece, além de coçar, os jornalistas procuram inventar algo para espantar o tédio. Mas se tem um jornalista calouro no pedaço, nem é preciso procurar passatempo. De uns anos para cá, reza a tradição que todo novato deve ser submetido ao trote do “coronel Fancoil”.

No corredor que separa o comitê de imprensa dos banheiros, há um cômodo sempre fechado com uma placa na porta escrita “Fancoil”. Lá dentro, fica o ar-condicionado central do andar, mas os novatos não sabem disso. E por não conhecerem essa informação aparentemente irrelevante, acabam por fazer as tardes de fastio no comitê de imprensa ganharem alguma graça.

O primeiro passo do trote é fazer chegar ao calouro a notícia de que está para acontecer no palácio um evento político muito importante, algo de uma relevância tal que requer um credenciamento especial. O calouro então é informado de que deve pegar a credencial com o “coronel Fancoil”, cujo gabinete é indicado com uma placa na porta. Agora a cereja do trote: como o “coronel Fancoil” é quase surdo, o novato precisa bater na porta com força e gritar o nome do coronel. É batata! O repórter ou fotógrafo estreante esmurra a porta e grita “CORONEL FANCOIIIIIIIIIIIIL” por alguns intermináveis segundos e só percebem que está pagando mico quando o comitê de imprensa explode numa risada.

Não faz muito tempo, o Palácio do Planalto não era exatamente um bom lugar para brincadeiras envolvendo militares. Não à toa, mesmo depois da ditadura, jornalistas continuaram alimentando um certo temor pelas casacas verde-oliva cravejadas de estrelas douradas – e na sede do Executivo elas estão por toda a parte. O medo, contudo, passou.

Do lado de lá do balcão, a mudança também é perceptível. Nos últimos anos, vi coronéis se dobrando às gargalhadas no Palácio do Planalto com o trote do colega “Fancoil”. Naquele prédio desenhado por Oscar Niemeyer, há de fato algo novo no ar. Na despedida de Luiz Inácio Lula da Silva no Planalto, no ano passado, vi militares de alta patente, e não foram poucos, chorando igual criança porque o “chefe” ia embora. Não custa lembrar que o tal “chefe” foi, durante décadas, o inimigo público número um da caserna, o diabo em forma de candidato.

Dilma é outro caso revelador. A ex-guerrilheira atrai simpatias e antipatias entre os militares do Palácio do Planalto, como é natural. Mas todos, sem exceção, obedecem a hierarquia e rendem obediência àquele que é a comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Hoje, jornalistas, militares e ex-guerrilheiros podemos até rir, todos juntos, do trote do “coronel Fancoil”. A evolução de uma sociedade às vezes se esconde nos detalhes.

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Morre o engenheiro Renato Guerreiro, o homem que sabia o futuro

Renato Guerreiro mostra otimismo no hospital, onde se tratava de um câncer. No seu colo, o futuro que um dia prometera

Nos primeiros dias do governo Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1995, o recém empossado ministro das Comunicações, Sérgio Motta, descobriu uma pepita de ouro. Era um trabalho intitulado “Comunicações – Infra-estrutura para a Sociedade da Informação”, produzido no ano anterior por um técnico do ministério, o engenheiro de telecomunicações Renato Guerreiro.

Motta não era vidente, mas tinha inteligência bastante para ver que, no paper, Guerreiro previa o futuro. O ministro pegou o trabalho do engenheiro e fez dele a referência para a reforma do setor de comunicação no Brasil.

Na época, eu era foca da Folha de S.Paulo em Brasília e cobria o Ministério das Comunicações. Sabia que não era vidente, desconfiava que não era inteligente, mas alguma esperteza eu tinha. Assim como Sérgio Motta, colei em Guerreiro.

Aquele paraense de Oriximiná não era uma fonte, digamos, muito generosa para um pobre repórter em busca de um furo de reportagem. Mas nunca se negava a dar esclarecimentos técnicos sobre o que era divulgado publicamente. Nossas conversas eram longas. Ele tinha paciência para explicar e eu, paciência para ouvir. E digo que não era fácil para nenhum dos dois.

Ele falava de um futuro em que a linha de telefone fixo não seria mais comprada a prestações e declarada no Imposto de Renda, de tão cara que era. Bastaria o cliente escolher uma operadora – sim, haveria muitas, privadas, e não só uma, estatal – e assinar o serviço, como quem assina um jornal. Guerreiro também dizia, 16 anos atrás, que todos – t-o-d-o-s! – teriam telefone celular, aquela maravilha de invenção que chegava ao mercado naquele instante com aparelhos modernos do tamanho de um tijolo e com uma antena.

Não era só isso. A internet, dizia Guerreiro, seria carne de vaca. Não a internet que o país – na verdade, o mundo das universidades federais – começava a descobrir naquela época (discada, lenta e que caía a todo momento). A internet de Guerreiro seria veloz e potente para exibir inclusíve vídeos.

TV a cabo? A mesma coisa! Fácil e a preços populares.

Tudo isso, contava Guerreiro, viria literalmente junto: o mesmo cabo que traria o telefone fixo à minha casa traria também a internet e a TV a cabo.

Os olhos dele brilhavam. Quanto aos meus, um se abria e o outro se fechava, desconfiado. Mineiro que sou, eu achava que pelo menos metade do que Guerreiro dizia era lorota. Ou sonho, sei lá.

Nos anos seguintes, ainda no governo do PSDB, Renato Guerreiro foi o ás da reforma do setor de telecomunicações e liderou a elaboração das regras e dos contratos que desaguaram na privatização da Telebrás. Em 1997, quando da criação da Anatel, o engenheiro foi conduzido à presidência do órgão, cargo no qual, nos cinco anos seguintes, contribuiu decisivamente para a consolidação do novo modelo de comunicações do Brasil.

Hoje, no presente, temos o futuro que que Guerreiro prometeu.

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No Natal de 2009, Guerreiro baixou no Hospital Santa Luzia, em Brasília. Era a terceira vez que procurava atendimento médico para as fortes dores que vinha sentindo nas costas. Diferentemente das ocasiões anteriores, quando os médicos lhe disseram que o desconforto era provado por gases, bastando apenas tomar um Luftal, daquela vez decidiu-se fazer exames de sangue e uma tomografia. Encontram então um tumor de cerca de 10 centímetros no rim esquerdo. Era um Linfoma Não-Hodgkin. Câncer.

Guerreiro decidiu fazer o tratamento em São Paulo, no Hospital do Coração (HCor), e confiou na previsão mais otimista: com quatro sessões de quimioterapia, o tumor retrairia quase a ponto de desaparecer, e a partir daí bastaria apenas fazer controles médicos trimestrais. A esperança de Guerreiro tinha um lastro: oito anos antes, ele vira de perto um tratamento de câncer bem-sucedido: o de sua mulher.

Com a ajuda de seu filho Thiago, engenheiro da computação, Guerreiro criou um blog – o Boletim do RG – para dar notícias aos amigos sobre o tratamento. Depois de cada sessão de quimioterapia, o blog era alimentado com vídeos em que, sempre animado, sorrindo e de bom humor, Guerreiro anunciava, convicto, estar a caminho da recuperação. Agradecia muito aos amigos e mandava beijos.

Renato Guerreiro morreu neste domingo, 27 de fevereiro, aos 62 anos.



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Brasil, santuário de mafiosos

Mais um mafioso italiano foi preso em Fortaleza. Acusado na Itália de envolvimento em três assassinatos e de ser membro da Camorra (máfia napolitana), Francesco Salzano vivia no Brasil há quase um ano. Em Fortaleza fazia-se passar por turista. Morava num flat. “Ele jamais imaginava ser preso”, disse o delegado Thomas Wlassak, representante da Interpol no Ceará.

O mafioso Francesco Salzano

O mafioso, de 38 anos, será extraditado. A máfia italiana, entretanto, continuará operando fortemente no Ceará.Treze anos atrás, ouvi do tenente-coronel italiano Angiolo Pellegrini a seguinte afirmação: “O Brasil se tornou um santuário para os mafiosos”. Era uma frase forte e, pior, dita por quem sabia das coisas. Na época, Pellegrini chefiava a seção calabresa da DIA (Direzione Investigativa Antimafia), órgão do Ministério do Interior. Sua base era um prédio feio de três andares em Reggio Calabria; seus subordinados, agentes especiais que, para cumprir a missão que lhes cabia, trabalhavam à paisana e escondiam seus rostos atrás de gorros ninja. O tenente-coronel Pellegrini viajava com frequência a Brasília. Na bagagem, sempre trazia documentos que indicavam que o Brasil se firmava, cada vez mais, como santuário de mafiosos. Numa dessas viagens, Pellegrini abriu o jogo enquanto comíamos uma picanha sangrando na churrascaria Spettus, na capital federal. “O criminoso vive do poder e da impunidade”, afirmou. “Se a impunidade cresce, cresce o poder. Os mafiosos estão sabendo reconhecer no Brasil um lugar perfeito para atuar; muitos estão se mudando para cá e fazendo negócios fabulosos com dinheiro sujo.”

Para mim, não era exatamente uma novidade o que ele dizia. No ano anterior, eu estevera na Itália investigando os elos da `Ndrangueta (máfia calabresa) com Paulo César Farias (tesoureiro de campanha presidencial do hoje senador Fernando Collor de Mello). Tive acesso aos impressionantes documentos oficiais – comprovantes de transações financeiras – que mostravam a ligação de PC com os mafiosos envolvidos em tráfico de cocaína e lavagem de dinheiro. Em Reggio Calabria, na sede da DIA, escutei gravações de suspeitos que falavam de “negócios” no Rio de Janeiro, em São Paulo e, sobretudo, no Nordeste.

Os mafiosos fincaram suas bandeiras em todo o Nordeste, especialmente no Ceará e em Alagoas. Tráfico de drogas e lavagem de dinheiro (no turismo e no mercado imobiliário) são suas especialidades. Denunciei o avanço da máfia italiana sobre o Nordeste no livro Morcegos Negros – PC Farias, Collor, máfias e a história que o Brasil não conheceu, publicado no ano 2000. Antes de mim, o ex-juiz Wálter Maierovitch já o havia feito, incansavelmente, por intermédio do IBGF (Instituto Brasileiro Giovanni Falcone). No ano passado, a revista Carta Capital registrou o agravamento do fenômeno.

Roma tem feito o que pode para alertar Brasília: toda vez que a Itália aperta o garrote sobre a máfia, muitos de seus membros fogem para locais onde se sentem seguros para continuar operando. Cabe ao Brasil fazer a sua parte.

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