Jornalista pode até ter diploma, mas precisar não precisa

No Brasil, ele poderia voar, mas escrever talvez não

Ontem, o Senado aprovou, em primeiro turno, a volta da obrigatoriedade do diploma de jornalismo para os que exercem a profissão. Para entrar em vigor, o projeto precisa ainda passar por nova votação no Senado e, depois, pela Câmara.

Fiz jornalismo na PUC de Minas Gerais, gostei do curso. Nunca entendi, porém, porque um candidato a jornalista precisa de um diploma de jornalismo. Trabalhei com grandes jornalistas de minha geração que não tinham o diploma. Um era matemático. Outro, filósofo. Outra, médica. E outra tinha apenas o curso médio. Todos bambambãs, sérios, aplicados e de uma correção profissional única. Ficaria satisfeito se fosse metade do jornalista que eles são.

Falando de gerações anteriores à minha, tive a honra de conviver na redação com gigantes como Elio Gaspari, Clóvis Rossi (com quem escrevi matérias a quatro mãos) e David Drew Zingg, entre outros. Nunca pisaram numa sala de aula do curso de jornalismo.

Também trabalhei com centenas de jornalistas diplomados. Alguns deles não merecem ser chamados de jornalistas.

Em 20 anos de profissão, nunca vi a lendária cena tantas vezes descrita a justificar a necessidade do diploma: patrões inescrupulosos contratando não-formados para poder melhor manipular a informação e baixar salários da redação.

O que vi sim foi a exigência do diploma sustentando negócios milionários na área de educação.

Se o diploma não garante bom jornalismo, a quem interessa a volta do canudo?

P.S 1 Assista aqui a um vídeo em que Clóvis Rossi fala sobre a obrigatoriedade do diploma.

P.S. 2 Para estabelecer o contraditório, leia aqui um texto do jornalista Olímpio Cruz Neto em favor da obrigatoriedade do diploma (o artigo foi escrito quando o STF derrubou a exigência).

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9 Comentários

Arquivado em Jornalismo, Política

9 Respostas para “Jornalista pode até ter diploma, mas precisar não precisa

  1. Concordo plenamente com vc Lucas, conheco pessoas que exercem e exerceram a profissao de jornalista com extremo talento e que nao tinham diploma. O diploma pode ser interessante como bagagem pessoal e olhe lá. Mas existem outros tipos de bagagem cultural que sao muito mais importantes e muito mais fortes em nossas vidas. Nao acho que o jornalista precisa ter diploma, sou formado mas discordo dessa opiniao.

  2. Anônimo

    1) Quem tem o diploma pode jogá-lo no lixo? Não. Sempre olhe pra ele pense em que tipo de formação recebeu. Isso vai determinar se você joga ou não.

    2) Forma-se maus jornalistas, como se forma-se maus advogados, maus médicos, maus professores, ou não? Professor não precisa de diploma, precisa de formação. Jornalista pode dar aulas para jornalistas, médicos para médicos, advogados para advogados, etc… Maus advogados também precisam fazer exame da OAB. Médicos são supervisionados pelo CFM. Cadê o nosso CFJ ? o que os donos da imprensa fizeram com ele ?

    3) Quem está em uma faculdade de jornalismo deve então parar os estudos? Pra ser sincero, nunca deveria ter entrado. Mas em todo caso, pare se a faculdade é incapaz de dar uma boa formação.

    4) Qualquer um então (claro, que saiba escrever, ler, seja curioso e tenha seu devido interesse público) pode participar de um concurso público destinado exclusivamente à jornalistas formados (3º grau exigido)? Em geral os concursos públicos pedem diploma de qualquer forma. Mas deve participar sim, se tem o conhecimento devido.

    5) Qualquer um que tenha os requisitos acima, pode então tentar uma pós ou um mestrado? Não. Pós e mestrado, como sabemos, são voltados para profissionais com diploma em ensino superior.

    6) As faculdades de jornalismo no Brasil, muitas importantes e recheadas de excelentes mestres e doutores, perderam tanto tempo formando jornalistas? Se formaram apenas péssimos profissionais sim. Perderam.

    6) E o pior. Quem contrata um jornalista sem diploma? (o diploma é o primeiro requisito para a contratação em qualquer redação). “Em 20 anos de profissão, nunca vi a lendária cena tantas vezes descrita a justificar a necessidade do diploma: patrões inescrupulosos contratando não-formados para poder melhor manipular a informação e baixar salários da redação.”

    É complicado falar que não precisa do diploma de jornalista para ser jornalista com as atuais regras impostas ao jornalismo brasileiro…

    Ou não? sim.

  3. lucas magno

    Lucas,
    Ficam minhas dúvidas:

    1) Quem tem o diploma pode jogá-lo no lixo?

    2) Forma-se maus jornalistas, como se forma-se maus advogados, maus médicos, maus professores, ou não?

    3) Quem está em uma faculdade de jornalismo deve então parar os estudos?

    4) Qualquer um então (claro, que saiba escrever, ler, seja curioso e tenha seu devido interesse público) pode participar de um concurso público destinado exclusivamente à jornalistas formados (3º grau exigido)?

    5) Qualquer um que tenha os requisitos acima, pode então tentar uma pós ou um mestrado?

    6) As faculdades de jornalismo no Brasil, muitas importantes e recheadas de excelentes mestres e doutores, perderam tanto tempo formando jornalistas?

    6) E o pior. Quem contrata um jornalista sem diploma? (o diploma é o primeiro requisito para a contratação em qualquer redação).

    É complicado falar que não precisa do diploma de jornalista para ser jornalista com as atuais regras impostas ao jornalismo brasileiro…

    Ou não?

    São minhas dúvidas.
    Com meu abraço,
    Lu Pereira

    • Vamos lá, Lu, ao debate:
      Para o exercício da profissão, passar por uma faculdade de jornalismo sempre ajuda. Melhor ainda se tiver mestrado, doutorado ou pós-doutorado.
      Penso, contudo, que por si só o diploma de jornalista não deveria ser um pré-requisito para o exercício da profissão. Como já disse, trabalhei com excelentes jornalistas não diplomados da minha geração e de outras.
      Agora, falemos do mercado. Independentemente da obrigatoriedade ou não do diploma, quem faz jornalismo sai na frente. Por uma razão simples: o mercado procura quem tem um mínimo de noção da profissão. Sendo assim, as faculdades não vão desaparecer (certamente, perderão um contingente imenso, aqueles que entram na faculdade mas sabem que não tem a menor aptidão para o negócio).
      Se eu fosse contratar um jornalista (oxalá o blog um dia chegue a esse luxo), eu certamente olharia com mais atenção o currículo de quem passou pela faculdade de jornalismo. Mas olharia também com curiosidade quem se apresentasse ao emprego com um canudo de bacharel em direito ou filósofo.

  4. Hamilton Reis

    Caro Lucas, concordo com você. Estive dos dois lados da questão. Comecei na profissão sem diploma, apaixonado pelas palavras. Tempos depois, passei pelo Uni BH, e tive a oportunidade de conviver com bons professores e de aperfeiçoar as coisas já aprendidas na prática. No mundo real vale pouco dizer onde você estudou e muito vale a sua postura profissional, o lado que você escolhe e o compromisso com a ética e a busca de justiça.

  5. Deve ir atrás do diploma quem acha que isso o enriquece e o prepara melhor para exercer a profissão. Quem não quer seguir essa trilha, mas: 1) gosta de ler de tudo; 2) é um curioso insaciável e persistente; 3) sabe escrever; 4) anseia por partilhar as informações que obtém; 5) sente-se comprometido pelo interesse público, deve tratar de se tornar jornalista. Só não se torna se barreiras burocráticas como essa se interpõem entre ele e a realização da sua vocação (ou das suas qualidades). Essa regressão resulta da visão estreitamente corporativa dos sindicatos e afiliados.

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