EXCLUSIVO: Nova crise no serviço secreto

O carcará continua voando sem rumo

O ninho dos arapongas continua em chamas.

Negligenciada pelo Palácio do Planalto, que prefere fingir que o problema não existe, e ainda sem um efetivo controle do Congresso, a Abin segue à deriva. A disputa interna que consome as entranhas do órgão há décadas tem agora um novo round. Desta vez, o pano de fundo da crise é o controle da Asbin (Associação dos Servidores da Abin).

A Asbin foi criada em 2002 como resultado de um processo de insatisfação de parte dos agentes da Abin com a falta de rumo da instituição. Desde aquela época, a Asbin já era vista por muitos, interna e externamente, como o embrião de um sindicato de agentes secretos. Mais explosivo impossível.

Nos seis primeiros anos de vida, a associação atuou com postura independente em relação à Abin e ao órgão que controla a agência, o GSI (Gabinete de Segurança Institucional, a antiga Casa Militar). Essa independência – aberta e pública – muitas vezes evoluiu para grandes trombadas com a Abin e com o GSI, o que tornou ainda mais frágil a imagem do serviço secreto.

Em 2008, porém, a Abin conseguiu desmontar a estrutura independente da Asbin ao apoiar a eleição do agente Robson Vignoli para a direção da associação. A postura combativa da Asbin foi então substituída por uma relação cordial com a Abin e o GSI. Basta dizer que a forte exposição da Asbin na mídia, na maioria das vezes em contraposição às ações da Abin e do GSI, foi substituída pela típica discrição dos serviços secretos.

Tudo parecia calmo. Não mais.

Neste ano, chegou ao fim o mandato de Robson Vignoli à frente da Asbin. E a Abin e o GSI vêm encontrando dificuldades para manter a Asbin debaixo de suas asas.

Em outubro, deveria ter ocorrido a eleição na Asbin para o período 2011/2014. Contudo, a disputa ferveu e o processo eleitoral acabou anulado, com o indeferimento das chapas concorrentes.

Enquanto as chapas se acusam mutuamente, a Abin manobra para manter Vignoli no comando da Asbin. Há, porém, um complicador: Vignoli estava de licença da direção da associação. Um escritório de advocacia chegou a ser contratado para dar um parecer sobre a possível recondução do diretor licenciado (leia aqui a íntegra do parecer).

Para piorar a situação, a nova disputa no serviço secreto encontra o governo dividido. Enquanto a Abin e o GSI querem a recondução de Vignoli, a Casa Civil empresta um discreto apoio à Chapa 2, de oposição.

Para além de uma simples escolha de nomes para a direção da Asbin, a eleição esconde questões complexas:

1)  O serviço secreto – a rigor, um órgão civil – continuará a ser comandado por militares, como acontece desde a década de 1950 (exceção para o governo Collor)?

2)  O serviço secreto continuará atuando simultaneamente nos campos interno e externo, diferentemente do que ocorre em países desenvolvidos, que têm órgãos independentes para cada campo?

A eleição da direção da Asbin é mais um capítulo da profunda e longeva crise no serviço secreto. Passados 26 anos do fim da ditadura, ainda não apareceu um presidente civil com vigor para consertar os desvios institucionais do órgão.

Avanços ocorreram, por certo, mas o serviço secreto ainda está longe de ter um desenho institucional que corresponda ao estágio atual da democracia brasileira. Sarney, Collor, Itamar, FHC e Lula não quiseram encarar o “monstro” de que falava o general Golbery do Couto e Silva. Até agora, infelizmente, Dilma, vai pelo mesmo caminho. Um mau presságio…

Tanto na ditadura quanto na democracia, não foram poucos os presidentes que tiveram seus governos abalados por eventos gerados nas entranhas de um serviço secreto à deriva. Basta lembrar episódios turbulentos enfrentados por FHC (Grampo do BNDES e Dossiê Cayman) e por Lula (o escândalo nos Correios, que derivou para o escândalo do Mensalão). Em todos esses casos, lá estava, como ator principal ou coadjuvante, um serviço secreto desgovernado.

Uma coisa é enrolar uma crise no Ministério dos Transportes. Outra coisa é enrolar uma crise no serviço secreto.

Fingir que um problema não existe é aparentemente o modo mais fácil de governar. Um dia, porém, a história cobra a fatura.

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5 Comentários

Arquivado em Inteligência, Política

5 Respostas para “EXCLUSIVO: Nova crise no serviço secreto

  1. Anônimo

    Com certeza, além de incluir a questão da operação Satiagraha, com a participação de 80 e tantos arapongas, o Ministério da Justiça, a Polícia Federal e o Ministério Público estão de olho na ABIN. A ABIN não é um fato prosaico, como ele costuma pregar, é um causo sério, sô.

  2. Anônimo

    Gente, imagina quando a Comissão da Verdade começar a desvendar os casos de guerrilheiros torturados e mortos por agentes da ABIN, que é o antigo SNI, no estado do Pará. Há verdadeiros escândalos sobre a existência e guarda de ossadas nas instalações secretas da ABIN na capital paraense, na avenida Almirante Barroso, 1576.

  3. Pingback: [EXCLUSIVO] Militares continuam dando as cartas no serviço secreto | Blog do Lucas Figueiredo

  4. Abcd

    Todo pais precisa de um orgao de inteligencia
    O fato da ABIN precisar de uma reforma nao quer dizer que o pais nao precisa dela

  5. Edgar

    LF,

    Conforme citou no fim do livro “Ministério do Silêncio” – a Abin – se resumiu a uns poucos seguidores da antiga doutrina e alguns civis que já estavam descontentes,outros até tinham se retirado.

    Afinal,qual a utilidade de manter a Abin?
    Outra coisa: você acredita que c/ “esses” que restaram, um novo levante pode se fortalecer?

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