Carta aberta a Marcos Valério

Solte a voz, Marcos Valério…

Prezado Marcos Valério

Não me esqueci e acredito que você também não. No meu livro O Operador: como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT, publicado em 2005, mostro como, ao apresentar você como o grande vilão do mensalão do PT (e ignorar o mensalão do PSDB), parte da mídia serviu a grandes corruptores e a grandes corruptos, que saíram apenas chamuscados da história, quando não incólumes. Permita-me relembrá-lo de um trecho do livro:

“E a história se repete. Ainda que Marcos Valério permaneça livre da cadeia, sua ruína moral e sua quase exclusão do convívio social serão servidas ao país como compensação para a falta de justiça. Como aconteceu antes, aliás, com PC Farias, operador de outro esquema, integrado pelos corruptores de sempre. Quem foram os grandes financiadores de Collor? De onde saiu o dinheiro do caixa dois do PSDB? Quem encheu as burras do PT? Isso não vem ao caso, desde que a história tenha um vilão e que este vilão pague por todos os outros. Por que Marcos Valério dançou? Porque ele estava lá justamente para isso, caso alguém precisasse dançar. Valério caiu, mas o esquema, não. Seguirá firme, fazendo deputados e senadores, influindo em votações do Congresso, tangendo governadores e se escondendo atrás de presidentes.

Poucos se deram conta, mas, num depoimento ao Congresso, Marcos Valério revelou a verdade que todos ali já sabiam:

– Nós devemos deixar claro para a sociedade brasileira e acabar com a hipocrisia: eu não sou a única empresa que ajudou e ajudará políticos. […] O Marcos Valério não é detentor de tecnologia para ajudar campanhas políticas. Isso já acontece no Brasil desde Rui Barbosa.

O que Marcos Valério tentava dizer era que, no esquema, ele era só o operador. Ou como ele próprio definiu na CPI:

– Eu sou um grande areia. Um grão…”

Passados seis anos, eis que, na sua defesa apresentada ao Supremo Tribunal Federal, você enfim assume seu verdadeiro papel naquela trama: o de operador. E sugere uma certa indignação por ter sido apresentado como o grande vilão da história quando havia vilões bem mais parrudos e maléficos. Diz sua defesa:

“O operador do intermediário aparece como a pessoa mais importante da narrativa, ficando mandantes e beneficiários em segundo plano, alguns, inclusive, de fora da imputação, embora mencionados na narrativa, como o próprio presidente Lula.”

Beleza, Marcos Valério, nós sabemos que você é “o operador do intermediário”, um grão de areia. Mas então pare com esses textos cifrados e cheio de reticências e nos diga, de uma vez por todas, quem são o mar, o sol, o rochedo, os tubarões… Conte o que fez, para quem fez e como fez quando você operava nas sombras dos governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e, em Minas Gerais, nas administrações tucanas de Eduardo Azeredo (1995-1999) e Aécio Neves (2003-2010). Fale tudo. Dê nomes de políticos, autoridades, empresários… Vire a mesa, transforme a história. Prove que o Brasil, para além dos operadores, é um país de corruptos e corruptores. Seja o nosso herói!

Saudações cordiais.

Lucas Figueiredo

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17 Comentários

Arquivado em Colarinho branco, Imprensa, Livro-reportagem, Política

17 Respostas para “Carta aberta a Marcos Valério

  1. Anônimo

    Texto ainda muito atual, xará.

  2. Marcelo

    MV falando não interessa a ninguém. Não interessa a PT, PSDB, PMDB e aos diversos partidos de aluguel do cenário político brasileiro. Não interessa ao Executivo e muito menos ao Judiciário. Logo…

  3. Luciano

    Ele deve ao Brasil o grande segredo de todo esse esquema de corrupção. Realmente viraria um heroi, se o revelasse.
    Mas, acredito que Valério morrerá com ele.
    Se virar uma ameça de revelação ao sistema, sua “condenação” pode ser adiantada, como ocorreu com PC Farias, bem ao estilo novelesco global.
    Um final feliz penas para o sistema. Apenas para o sistema!
    Vamos aguardar…
    Lu Pereira

  4. tatarana

    Não é da DNA, não, é da SMPeB, Marcos Valério comprou a parte do falecido Moreira, que morreu num acidente de moto nas trilhas de Nova Lima, degolado numa cerca de arame. O corpo foi cremado e sua parte vendida. Será que quem vendeu poderia vender a parte dele? E quem estava por trás do Marcos Valério? Um pirulito pra quem postar o nome do moço aqui…

    O prédio onde era a SMPeB, não sei se é verdade, dizem é do Ricardo Sérgio, tucano emplumado e no limite da irresponsabilidade. Mais uma perguntinha que não quer se calar: quem levou a SMPeB pra Brasília pra atender contas nacionais? É outro mineiro ilustre, ta sumido da mídia e da política, mas o nome dele aparece no mensalão.

    Já a DNA atendia a telemig celular e a Amazônia celular cujo dono era o banqueiro flagrado no ato de corromper. E, dizem, dono do dindim do mensalão nacional. O mensalão mineiro é dindim público, da copasa, cemig, Bemge e outros patrocinadores dos eventos da SMPeB.

    sds

    • A venda da parte do Moreira foi muito estranha. Foi vendida a preço simbólico. Os filhos dele ficaram pobres. E os compradores, ricos. Conto tudo em “O Operador”.

      • tatarana

        Teve ate um tio autorizado a “vender” a parte dele. Autorização assinada e tudo. Defunto não reclama, né? Mas.. quem pagou pro Marcos Valério virar sócio? De quem ele foi testa de ferro???

  5. Reinaldo Morais

    Indo fundo, fundo mesmo, vamos encontrar pelo menos um cadáver que levou para a eternidade segredos inimagináveis desta história. A história o exumará e o condenará e absolverá, talvez tarde demais, 1 ( numeral mesmo ) brasileiro honrado.

  6. tatarana

    Nem precisa falar, todo mundo sabe. O que é interessante e pouco comentado é a forma mágica com que Marcos Valério, um caixa do Bemge da Pça 7 de BH, se tornou sócio da maior agência de Minas. A parte de quem ele comprou pra se tornar sócio e com que dinheiro ele pagou, já que ele não tinha dindim pra tanto?

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