Ainda o caso Veja x Dirceu: os métodos “tarja-preta” da apuração

"Ferramentas tarja-preta” do jornalismo devem ser prescritas com moderação e ministradas com precisão e cuidado. Não foi o que "Veja" fez

Num comentário ao post abaixo, o leitor Thiago Motta pede que eu me posicione de forma mais clara em relação ao uso do que chamei de “ferramenta tarja-preta” (câmera escondida) por Veja na apuração da matéria sobre José Dirceu. Eis o que penso.

O que são “ferramentas tarja-preta” no jornalismo? Câmera oculta, gravador oculto, ocultação da condição de jornalista, uso de identidade falsa, invasão de privacidade, invasão de residência etc.

Assim como o policial deve sacar o revólver e atirar apenas em situações estritamente necessárias, e não banalizar o uso da arma de fogo, o jornalista deve evitar ao máximo o uso de “ferramentas tarja-preta”. Quando então estas podem ser usadas? Em primeiro lugar, é essencial que a pauta envolva relevante interesse público (desvio de dinheiro público, crime organizado, prevaricação por parte de agentes públicos graduados etc.). Essa condição, porém, precisa ainda estar conjugada com pelo menos um dos fatores abaixo:

a) Impossibilidade de levantar a informação sem o uso da “ferramenta tarja-preta”;

b) Situação de risco à integridade física do repórter.

Um exemplo: vale usar uma câmera oculta para filmar uma reunião da milícia ou de empreiteiros suspeitos de formar cartel. Mas não vale usar uma câmera oculta para filmar uma reunião fechada do partido ou o ator traindo a mulher.

Mesmo quando a pauta justifica o uso de uma “ferramenta tarja-preta”, é vital que a operação seja coordenada e realizada com grande cuidado. Afinal, os jornalistas (repórter, editor, diretor da redação) estão sacando o revólver para atirar. E se, apesar das suspeitas robustas, o alvo for inocente? E se terceiros, também inocentes, foram atingidos por uma bala perdida? Por isso o termo “tarja-preta” – deve ser prescrita com moderação e ministrada com precisão e cuidado.

Agora sim o caso Veja x Dirceu.

Primeiro, consideramos o “alvo” da apuração, José Dirceu. Há elementos de relevante interesse público que justificam uma profunda investigação jornalística em torno das atividades do ex-ministro:

1) Ele é réu num grande escândalo em que é acusado de participação num esquema para desvio de dinheiro público;

2) Sua atividade política merece fiscalização constante diante da atividade profissional que ele exerce. Afinal, Dirceu, por um lado, tem acesso privilegiado a políticos e autoridades e, por outro, presta consultoria para grupos privados (nacionais e internacionais) com interesses bilionários no Executivo e no Legislativo.

Ao que tudo indica, para cumprir a pauta, Veja instalou uma câmera escondida no corredor do hotel onde José Dirceu se hospedava. Por tudo o que escrevi acima, acredito que o uso da “ferramenta tarja-preta” nesse caso era aceitável.

Qual foi, porém, o resultado da delicada operação de Veja. Nenhuma prova, por menor que fosse, que sustentasse uma reportagem. A pauta havia caído (ou a revista havia fracassado na sua execução).

O que Veja deveria ter feito então? De duas, uma: destruído as imagens e esquecido o caso ou guardá-las e continuar na apuração.

Veja, porém, decidiu por publicar as imagens. Um gesto abominável. Se havia relevante interesse público na pauta que abonava o uso da “ferramenta tarja-preta”, não havia relevante interesse público nas imagens que justificavam a publicação.

José Dirceu ainda acusa um repórter da revista de tentar entrar em seu quarto usando de outra “ferramenta tarja-preta” (falsidade ideológica visando à invasão de domicílio). A revista nega. Como ainda não é possível dizer quem fala a verdade, analisemos o caso apenas de forma hipotética, como um exercício.

Se um apuração lança mão de uma “ferramenta tarja-preta” (câmara oculta) e o resultado nada aponta contra o alvo, manda o bom senso que a apuração não lance mão de uma segunda “ferramenta tarja-preta” ainda mais invasiva (falsidade ideológica visando à invasão de domicílio).

Na apuração de pautas em que o que está em jogo é o relevante interesse público, há momentos em que se pode e se deve avançar, mesmo que o gesto fira o Código Penal. Mas há também momentos em que a apuração deve recuar, a fim de não ferir o código moral do Jornalismo.

Em resumo: Veja não errou ao usar câmara oculta, mas errou ao usar imagens.

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2 Comentários

Arquivado em Jornalismo, Mídia

2 Respostas para “Ainda o caso Veja x Dirceu: os métodos “tarja-preta” da apuração

  1. Esse post serve como um bom guia de ética no jornalismo.

  2. Lu Pereira

    Perfeito!
    Abraços
    Lu Pereira

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