Ao trocar o jornalismo pelo ódio, Veja mata a melhor pauta da praça

Veja queria destruir José Dirceu mas acabou por dar-lhe um presente

“Há muitas histórias em torno das atividades do ex-ministro José Dirceu.” Assim começa a “reportagem” de capa da Veja desta semana que tanta polêmica vem causando.

Não há como negar: José Dirceu – ex-ministro, eterno capa-preta do PT e consultor cinco estrelas – é uma baita de uma pauta. Contam-se muitas histórias e muitas estórias de Dirceu. O que é fato, o que é lenda? Talvez uma investigação profunda da imprensa pudesse responder.

Veja mirou, pois, numa grande pauta: José Dirceu despacha num hotel em Brasília onde recebe parlamentares, ministros e grandes executivos de estatais. Como ele também presta serviços a megacorporações nacionais e internacionais com interesses bilionários no governo e no Congresso, ficam algumas dúvidas. Dirceu separa o dirigente do PT do consultor? Aproveita o acesso a políticos graúdos para encaminhar pleitos privados? A desconfiança procede. Afinal José Dirceu responde na Justiça pela acusação de chefiar uma quadrilha enquanto ocupava o posto de ministro mais poderoso do governo Lula.

Para executar a pauta, a revista optou por utilizar, até onde se sabe, ao menos uma ferramenta tarja-preta: a câmera oculta.

Depois de quase três meses de apuração, Veja havia conseguido reunir elementos suficientes para comprovar que a pauta era de fato muito boa. Não tinha, porém, conseguido realizá-la. Na verdade, estava longe disso.

A revista tinha então dois caminhos: seguir apurando, o que poderia render uma boa reportagem de denúncia ou a descoberta de que Dirceu nada faz de ilegal ou imoral, ou abandonar a investigação. Optou, contudo, por uma saída estranha ao jornalismo – jornalismo que, diga-se de passagem, tantas vezes exerceu com maestria.

Na falta de provas contra José Dirceu, Veja usou um punhal e um maçarico num texto que não pode ser classificado como reportagem. Embalou um editorial raivoso com fotos que nada provam, obtidas com uma ferramenta tarja-preta.

Dirceu – réu e não um condenado – foi chamado de “chefe da quadrilha do mensalão”, “um bando de vigaristas que assaltava os cofres públicos”. Mais: a revista tratou Dirceu, mais de uma vez, como “chefão”, numa alusão explícita à máfia.

Veja tinha uma pauta. Provou que a pauta é excepcional, mas fracassou ao realizá-la. Restou apenas o ódio contra José Dirceu, ódio que, explicitado, torna-se um presente para o ex-ministro, que agora se transforma em vítima. Daqui para frente, toda vez que for alvo de investigação jornalística, séria ou não, Dirceu poderá levantar a edição de Veja e dizer: “eis a prova de que a imprensa me persegue”.

Veja matou uma baita pauta. E ainda por cima deu um argumento robusto para os que, com bons ou maus propósitos, querem impor limites à imprensa. Um desastre.

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8 Comentários

Arquivado em Mídia, Política

8 Respostas para “Ao trocar o jornalismo pelo ódio, Veja mata a melhor pauta da praça

  1. Rogerio

    Ei, temos um fato! O STF já o condenou. Ou vamos desestruturar o,STF pelo tal ódio da Veja? Fala sério, estamos diante da maior fraude ao regime democrático, e praticado por pessoas que jamais poderiam agir dessa forma. Traidores do povo.

  2. Pingback: PT-SP chama militância para passeata contra Veja (ou o dia em que a vítima quis trocar de papel com o vilão) | Blog do Lucas Figueiredo

  3. Theophilus

    Lucas,

    Para além do método “fora da lei” que foi empregado, a Veja tratou a descoberta do “cafofo” do Dirceu com ares de ineditismo.

    Mas seria algo tão secreto assim?
    Você sabia?
    O mundo do Jornalismo sabia?

    Porque eu sabia.
    E só sabia porque muita gente sabia e porque o fato era público.

    “Acabo de ver o ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, subir rumo à suíte do José Dirceu. Será que vai assumir a pasta de Relações Institucionais ou apenas atender interesses do amigo lobista?”

    A nota acima foi publicada em 8 de junho por um blogueiro e anônimo assessor parlamentar do DEM catarinense.

    Aqui ele até se vangloria da proximidade com o “meliante”:
    http://coturnonoturno.blogspot.com/2011/08/o-coronel-e-uma-figura.html

  4. Thiago Motta

    Pensei que você iria criticar também os métodos utilizados, mas pelo visto “a melhor pauta da praça” justifica a “ferramenta tarja preta”.
    Se não é essa sua opinião, me desculpe, mas eu acho que deveria haver um posicionamento mais claro e enfático em relação a esse fato especificamente.
    De qualquer forma eu não vejo novidade no tratamento dado a Dirceu…
    Não foi esse o absurdo da vez.

  5. Boas observações, Lucas. Uma coisa me intriga: foi Veja que colocou as câmaras ocultas no corredor do andar onde funciona o “salão Dirceu” (nenhuma madame francesa teve igual)? A câmara está no alto e em pelo menos duas posições. Veja conseguiria tanto sozinha? Ou recebeu as imagens de um terceiro mais poderoso? Ao invés de perder tempo com essas feitiçarias eletrõnicas, seria melhor mesmo que a revista saísse atrás dos fatos. De qualquer forma, porém, por que petistas ilustres mentem, se foram conversar com um réu, favorecido pela presunção de inocência até condenação penal transitado em julgado (sendo o trânsito em julgado ficção no judiciário brasileiro)? A pauta continua das melhores.

  6. Marcelo

    Convenhamos: não surpreende, em se tratando da Veja. Pode ter uma longa história no jornalismo — e tem –, mas há anos que a revista se perdeu nesse Fla-Flu ideológico brasileiro.

    Entendo que a criação (e concorrência) da Época e a caracterização pública, pelo próprio José Dirceu, de que era “tucana” aceleraram a viagem da revista ao ralo onde ela hoje se encontra. Mas talvez seja exagero meu e a Veja tenha tomado esse caminho apenas por conta de seus gestores mesmo.

  7. Reinaldo Morais

    Lucas, você tocou num ponto crucial. José Dirceu é réu. Réu é, por princípio, inocente. Nada há que o impeça de levar uma vida de cidadão livre. José Nêumane Pinto, na TV, encheu o peito e a boca para dizer que José Dirceu recebia Ministros em seu hotel e parecia se esquecer que era réu. É isso mesmo. Réu. Portanto, não é condenado, faz o que bem entender. Se for condenado, o que não creio, aí serão outros quinhentos réis.

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