Cristovam Buarque: o ouro de ontem e o petróleo de amanhã

O pré-sal pode ser um tesouro; o pré-sal pode ser uma miragem

O pré-sal pode ser um tesouro; o pré-sal pode ser uma miragem

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) escreveu um artigo, publicado em diversos jornais do país na semana passada , alertando para os riscos da riqueza fácil representada pelo pré-sal. Citando Boa Ventura!, Cristovam lembrou como o ouro retirado do Brasil no século XVIII – aproximadamente 1.000 toneladas, quantidade nunca vista até então – serviu apenas para bancar o luxo de Portugal por um século e não para fazer um país rico. Na época, vidrados no “dinheiro fácil” que saia do solo da colônia, os portugueses se descuidarem da agricultura e da indústria. Afinal, se havia dinheiro para comprar tudo, por que produzir? A analogia feita por Cristovam é muito interessante. Eu mesmo, enquanto escrevia Boa Ventura!, não conseguia parar de pensar no nosso pré-sal.

Então, que a corrida do ouro no Brasil entre 1700 e 1800 nos sirva de lição: uma riqueza fácil mal trabalhada, mesmo que imensa, é uma riqueza inútil.

A seguir, o artigo do senador.

xxx

Despertador de consciência

Cristovam Buarque, professor da UnB e senador (PDT-DF)

Quem estiver entusiasmado com o pré-sal, sugiro que se lembre do nosso “pré-sal” anterior: as minas de ouro, prata e pedras preciosas de Minas Gerais, no século 18. Para ver os resultados daquele pré-sal, sugiro o recente livro de Lucas Figueiredo Boa Aventura: A corrida do ouro no Brasil (1697-1810), publicado pela editora Record. O livro pode ser lido com a emoção da aventura: bandeirantes pioneiros enfrentando a mata, índios independentes e todo tipo de intempérie na busca do ouro. Pode ser lido também como um texto político e econômico que mostra o que ficou dessa aventura. É surpreendente como aquela aventura deu certo, tendo tudo contra, especialmente a natureza, mas também as disputas entre os aventureiros e a desordem do novo país e a metrópole portuguesa. Surpreende que, sem qualquer indicação, o ouro tenha sido explorado, transportado e finalmente entregue e enriquecido Portugal. Foram necessários milhares de nossos brasileiros, paulistas em geral e emboabas, todos com muita cobiça e coragem, pouca generosidade e amor ao próximo. Escravizando índios e comprando escravos negros, esses homens viveram, lutaram, mataram e morreram, sem a certeza de que encontrariam o ouro anunciado, com base apenas no fato de que Pizarro e Cortês haviam encontrado ouro e prata no México e no Peru. Completamente diferente da realidade do novo pré-sal de hoje, quando a geologia mostra com alta probabilidade a existência e o tamanho das reservas de petróleo, é com uma exploração que, apesar das dificuldades tecnológicas, será feita sem a necessidade de esforço pessoal, sem qualquer risco de vida, somente financeiro. Naquele tempo, por alguns anos, o próprio ouro era o dinheiro. Já o petróleo não permite saber o seu preço no futuro nem se terá valor se outras fontes energéticas se tornarem mais econômicas. Naquele tempo, o ouro brasileiro enriqueceu Portugal por alguns anos e o empobreceu por séculos. Ao ter nosso ouro e pedras preciosas, D. João V e os reis seguintes foram os mais ricos governantes da época. Eles usaram o dinheiro que saía da terra de Minas Gerais para a ostentação – o consumo da época – construindo palácios, colocando mármores no cais do porto, pendurando ouro e pedras preciosas nos pescoços e em altares de igrejas, e para comprar os produtos industriais da nova indústria inglesa. Um dia a terra se esgotou no Brasil e Portugal ficou pobre, mas a indústria se manteve produtiva e a Inglaterra continuou rica. Ao ler o livro somos levados a pensar, em como seria hoje Portugal se o ouro brasileiro tivesse financiado indústrias, atraído engenheiros que inventaram as máquinas inglesas e servido para educar os portugueses. Quase todos os países com petróleo, no século 20, padeceram de uma maldição: o dinheiro fácil levou esses países à ostentação como a dos reis de Portugal, ao desperdício e à dependência. Como diz Lucas Figueiredo, antes do Bras Ventura, “Portugal fez o mundo rodar e continuou no mesmo lugar”. Uma metáfora perfeita para um país exportador de petróleo. O Brasil corre esse risco. Em primeiro lugar pelo adiamento de nossas tarefas urgentes, na expectativa do dinheiro do pré-sal. Segundo porque quando esse dinheiro chegar correrá o risco de ser usado para o desperdício nos palácios. Antes eram para os reis morarem, agora para servirem como repartição pública ou estádios de futebol. Diferentemente de Portugal antigo agora sabemos o que fazer para transformar o petróleo em uma fonte permanente de riqueza: investir todo o lucro na educação de base. Naquela época, os reis não podiam antecipar o futuro como hoje nós podemos em relação ao dinheiro que teremos do pré-sal. Se usarmos bem o pré-sal será uma bênção, caso contrário será uma maldição. O livro do Lucas Figueiredo, além de uma deliciosa leitura é um despertador da nossa consciência.

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1 comentário

Arquivado em Economia, Lucas na mídia

Uma resposta para “Cristovam Buarque: o ouro de ontem e o petróleo de amanhã

  1. Alberto Santana

    Vindo de quem vem não vale um vintém. Cristovam Buarque foi seguramente o pior ministro da educação que o Brasil já teve: fraco, preguiçoso, incompetente e sem qualquer plano na cabeça. Durante sua estadia no MEC o que se via era um marasmo total. Não aconteceu nada. Até que o Lula perdeu a paciência e o pénabundeou.
    O Fernando Haddad em pouco tempo fez mais do que todos, os seus antecessores inclusive, fizeram em toda a história do MEC. E mais, o Lula e a Dilma, exaustivamente, já disseram que o Pré-sal é a garantia da erradicação da pobreza em nosso país. Eu estaria preocupado se o Cristovam fosse o Presidente da República.
    Será que ele não entendeu? E pensar que esse sujeito foi reitor da UNB.
    Se quiser conhecer a alma do Cristovam Buarque é só ter um breve colóquio como Paulo Henrique Amorim.
    Katso, que país é esse!!!!!!!!!!.
    Nem os brizolistas do PDT nem os petistas ainda não entenderam o Cristovam é tucano…

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