Amy Winehouse: a diva e seus demônios

Tenho muito orgulho de ter escrito para a Rolling Stone, revista que publica reportagens de rara profundidade e, definitivamente, que tem as melhores capas do mercado editorial brasileiro.

A edição de julho de 2007 trouxe uma matéria minha – O livro das sombras – de inacreditáveis 30 mil toques (dez páginas de Word corpo 12, extensão impossível em outras publicações do jornalismo brasileiro – “leitura para macho”, como brincava o então diretor de redação da RR, Ricardo Cruz). Nunca me esquecerei daquela edição, pois foi nela que descobri, num maravilhoso texto de Jenny Eliscu, publicado abaixo, que havia um penhasco por detrás da voz doce Amy Winehouse.

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Amy Winehouse: a diva e seus demônios

Jenny Eliscu, para a Rolling Stone

Ao lado da maior torre do planeta, uma das menores popstars do mundo está agachada perto de uma lata de lixo, com um lápis de olho e tubos de rímel nas mãos. Enquanto Amy Winehouse vaga pelas imediações da Torre de Toronto (a CN Tower, com 553 metros de altura) à procura de uma sacola de plástico para guardar seus cosméticos, o homem que era seu noivo naquela tarde – mas que se tornaria seu marido cinco dias depois – fuma um cigarro do meu maço e parece entediado. Blake Fielder-Civil, ou “Baby”, gesticula em direção à lata de lixo. “O refrigerante dela caiu dentro da Louis falsa”, ele esclarece, apontando para a imitação surrada da bolsa Louis Vuitton em cima da lata de lixo. “Ela tem essa bolsa há séculos.”

No universo de uma pessoa de 23 anos, “séculos” é tão relativo quanto a idade. Winehouse pode dizer que canta há séculos, apesar de isso significar menos de uma década; ou que ela está apaixonada por Baby há séculos, apesar de isso fazer somente dois anos – com um hiato de alguns meses separando o casal no meio do caminho; ou que a cicatriz que cobre seu antebraço esquerdo surgiu devido a feridas auto-infligidas há séculos, apesar de parecerem consideravelmente mais recentes que isso. Ela poderia dizer qualquer uma dessas coisas, se dissesse algo.

Durante os muitos meses em que Winehouse e Baby não estiveram juntos – entre as coisas que ela não vai dizer, está quantos muitos meses foram -, Amy compôs Back to Black, um álbum cheio de canções que falam de sofrimento e que a tornou famosa em casa (no Reino Unido) e de modo crescente também nos Estados Unidos. O disco, que é uma elegante coleção de R&B que soa como uma garota do hip-hop inglesa interpretando o soul da Motown nos anos 60 da melhor maneira possível, deu a Winehouse uma das melhores estréias (de uma artista inglesa) nas paradas norte-americanas. Prince vem fazendo uma cover da sua “Love Is a Losing Game” e sugeriu que ela se apresentasse com ele durante sua turnê de 21 shows em Londres. O Arctic Monkeys acrescentou uma versão de “You Know I’m Not Good” em seus shows, e os melhores MCs de rap estão arrastando suas asas para Winehouse: Jay-Z aparece em um novo remix de seu primeiro single de sucesso, “Rehab”; Snoop Dogg já declarou ser seu fã e Ghostface Killah ficou chocado com “You Know I’m Not Good” a ponto de rimar em cima da faixa em seu álbum More Fish (2006).

Aqueles que só ouviram a voz se mostram abismados ao ver o corpo que a produz. O brado abafado – cansado do mundo e que soa como o fantasma de Sarah Vaughn – vem de uma judia minúscula do norte de Londres. Em Toronto (Canadá), ela está com seu onipresente penteado em forma de bolo sobre uma grossa cabeleira de fios negros e ondulados, brincos plásticos gigantes e o indefectível delineador negro que cria uma exagerada linha nos moldes de Cleópatra. Sua estrutura excepcionalmente fina não consegue preencher o jeans justo e preto, mas lhe cai bem com uma confortável camiseta preta sem manga – seus braços revelam uma variedade de tatuagens de pin-ups old school, algumas com os seios à mostra, outras – como aquela com o nome “Cynthia” escrito ao lado – em coquetes trajes dos anos 50.

Winehouse também ficou famosa por suas aparições públicas em que estava devidamente alcoolizada, incluindo aí uma vez em que ela saiu correndo do palco para vomitar. Em uma premiação recente no Reino Unido, ela cutucou Bono (do U2) durante seu discurso de agradecimento com um sonoro: “Cala a boca! Não tô nem aí!”. No popular programa de TV britânico Never Mind the Buzzcocks, a cantora estava visivelmente embriagada, o bastante para que o apresentador Simon Amstell brincasse: “Isto não é um programa, é uma intervenção”. Há também as freqüentes referências em seu álbum a bebida e maconha – mais claramente em “Rehab”, a música que descreve como seus empresários tentaram mandá-la para uma clínica de reabilitação. Mas, bom, você sabe o que aconteceu depois disso.

“Amy está trazendo de volta o espírito rebelde do rock’n’roll para a música popular”, dispara Mark Ronson, o DJ-produtor que guiou mais da metade das faixas de Back to Black. “Esses grupos dos anos 60, como Shangri-Las, tinham esse tipo de atitude: eram garotas novinhas do Queens que usavam jaquetas de couro de motoqueiros. Amy tem um visual muito descolado e ela é brutalmente honesta em suas canções. Há muito tempo ninguém no mundo pop aparece contando seus defeitos, porque todo mundo vem tentando de tudo para demonstrar perfeição. Mas Amy diz coisas como ‘Sim, fiquei bêbada e caí. E daí?’. Ela não é obcecada por si mesma e não corre atrás da fama. Tem a sorte de ser tão boa, porque não precisa fazer isso.” Ela não é, entretanto, imperturbável. Parece sempre zangada, entediada ou provavelmente viva de ressaca. É aparentemente educada, mas ainda não é tão profissional a ponto de disfarçar quando fica impaciente – não deixa de mostrar um bico imenso quando não quer fazer alguma coisa e sai pisando duro quando não dá certo. Seu Baby está bem escolado nessa última manobra.

Ainda estão na Torre CN, Fielder-Civil declara que vai voltar para o hotel, e sai. Winehouse corre atrás dele em pânico. “O que aconteceu?”, uma de suas cantoras de apoio pergunta, enquanto o resto do time de Winehouse observa a cantora correndo pelos arredores como uma criança perdida. Mas quando seu empresário a leva de volta para dentro, delineador manchando os olhos úmidos pelas lágrimas, ninguém cria coragem para realmente perguntar o que houve. Embora seus pensamentos estejam longe e seu nariz esteja escorrendo, Winehouse sugere que a gente converse durante o almoço no restaurante panorâmico. Depois de várias de minhas perguntas resultarem em respostas monossilábicas, tento o que já foi comprovado como um bom quebra-gelo, seja atrás das grades ou em ônibus de excursão: pergunte ao tatuado sobre sua tatuagem.

Quantos anos você tinha quando fez a primeira tatuagem?
Uns 15.
O que era?
Uma Betty Boop, nas costas. Gosto de tatuagens, só isso.
O que seus pais acharam?
Eles basicamente perceberam que eu faria o que quisesse. E pronto.
Quantas tatuagens você tem?
12 ou 13.
Sempre se interessou por essas pin-ups mais tradicionais e desenhos old school?
É, acho que sim.
Quem é Cynthia?
Minha avó. Que Deus a tenha.
Você já cobriu alguma ou tem alguma que não gosta de olhar?
Não me arrependo de nada.
De nada?
Não.
Então, como lida com as coisas que gostaria que não tivessem acontecido?
Não sei, me pergunte depois que eu tiver voltado para casa e falado com o Blake.

Nos bastidores do Mod Club, em Toronto, fica claro que o casal tinha se acertado. Winehouse está sentada no colo de Blake, rindo e acariciando-o, enquanto ambos conversam com o pai dela, Mitch, que saiu da Inglaterra para passar o final de semana com eles. Ela corre para a mesa de comida e volta minutos depois para apresentar o pai, com um sanduíche de peru e pepino que ela meticulosamente lhe preparou. O gesto, ele comenta, o faz lembrar de uma mistura que costumava comer de matzo (pão sem fermento) e bananas. Blake sussurra alguma coisa no ouvido de Winehouse, que se dobra de rir: “Ele perguntou se isso é algum tipo de comida de judeu”, ela conta, e depois pergunta: “Falar ‘judeu’ é ofensivo, pai?” Relutando em dar o próprio veredicto, Mitch dá de ombros e olha para mim. “Pergunta para esta moça”, ele solta, delicadamente, colocando um ponto final no assunto.

Winehouse não é uma “filhinha do papai”, mesmo ostentando uma tatuagem com esses dizeres no ombro esquerdo. Mitch, um motorista de táxi, e a mãe de Amy, Janis, uma farmacêutica, se separaram quando ela tinha 9 anos e seu irmão mais velho, Alex, 13. Os filhos viveram a maior parte do tempo com a mãe em Southgate – um subúrbio ao norte de Londres onde fica a clínica de reabilitação Priory (local em que Pete Doherty e Justin Hawkins, do Darkness, foram tratados, e para onde Winehouse disse que não ia). “Ela sempre soube muito bem o que queria”, Mitch me conta. “Não era uma questão de mau comportamento, mas… de ser diferente.” Embora as crianças tenham crescido perto de música – “A gente estava sempre cantando”, completa Mitch – inclusive das antigas canções de Frank Sinatra e Dinah Washington que ela ainda adora, o talento de Amy como vocalista não foi logo aparente. Quando ela tinha 10 anos, Winehouse e sua melhor amiga, Juliette Ashby, formaram uma dupla de rap baseada no grupo Salt’n’Pepa, que elas chamaram de Sweet’n’Sour. Entretanto, Winehouse não aspirava ser cantora, queria ser uma garçonete sobre patins como aquelas do filme American Graffiti (1973). Mas Amy se matriculou na Escola de Teatro Sylvia Young aos 12 anos e estudou ali até ser expulsa por causa de um piercing no nariz e da atitude indiferente a tudo e a todos. “Fui vê-la em um recital e achei que ela só iria atuar”, recorda Mitch. “Mas, quando Amy entrou no palco e começou a cantar, não acreditei. Nunca soube que ela podia cantar daquele jeito.”

O irmão de Amy, Alex, tinha um violão, e sempre que ele saía, ela o pegava para dedilhar um pouco. Amy comprou seu próprio violão aos 14 anos e, no ano seguinte, começou a compor as próprias músicas, mais ou menos na mesma época em que descobriu a maconha e largou a escola, embora insista que seu comportamento não foi resultado da turbulência adolescente – o que Winehouse afirma ter se manifestado antes da hora. “Sofro de depressão, acho. O que não é tão incomum assim. Muita gente sofre. Mas acho que pelo fato de ter um irmão mais velho, tive muitas daquelas ‘Ai, a vida é tão deprimente’ antes dos 12 anos. Nessa época, lia J.D. Salinger [escritor de O Apanhador no Campo de Centeio, de 1945] – ou aquilo que meu irmão estivesse lendo – e me sentia frustrada”, explica. “Não pude não notar suas cicatrizes [no braço]. Com quantos anos você começou a fazer isso?”, pergunto. Ela olha para mim, surpresa, mas não tem uma resposta pronta, então continuo: “Quero dizer, com quantos anos você começou a se cortar”. Ela evita os meus olhos e responde: “Isso é bem antigo. Bem antigo. Acho que de uma época ruim.” E depois, gaguejando, continua: “De uma época de-de-desesperadora”.

Depois de sair da escola, Winehouse teve empregos bizarros – inclusive um bico como “jornalista do showbiz” para a rede de televisão World Entertainment News, além de cantar em uma banda de jazz. Um amigo viu uma de suas apresentações e se ofereceu para arranjar umas horas em um estúdio de gravação para que ela fizesse umas demos. “Não acredito que ele realmente me deixou fazer aquilo”, ela comenta. “E eu perguntei: ‘O que você vai ganhar com isso?’ Não entendia por que ele queria tanto me ajudar. Porque não via nada de especial em saber cantar.” As demos dessas sessões ajudaram Amy a conseguir um contrato com um selo e a ser empresariada pela companhia de Simon Fuller (produtor do programa de TV Americanl Idol e descobridor das Spice Girls), e depois disso veio um contrato de divulgação com a gravadora EMI. No exato dia em que o cheque da EMI foi compensado, a cantora e compositora de 18 anos saiu da casa em que vivia com sua mãe e foi para um apartamento no bairro de Camden com a amiga Juliette.

Embora tenha sido inspirado quase na mesma medida por hip-hop e jazz, o primeiro disco de Winehouse, Frank, lançado em 2003, colocou-a ao lado dos cantores Jamie Culum e Katie Melua como uma artista-chave em um festival de revival de jazz no Reino Unido. Nunca lançado nos Estados Unidos, Frank ganhou disco de platina na Inglaterra e trouxe indicações para uma série de prêmios – inclusive o Mercury Music Prize (que ela não levou) e o Ivor Novello Award, pelas suas composições (que ela ganhou). Mas foi mais ou menos na época em que conheceu Baby que Amy redescobriu o som dos anos 60. “Quando me apaixonei por Blake, tinha muita música dessa época nos cercando”, ela conta, cinco dias depois, em Miami.

Eu deveria encontrar com Winehouse naquela manhã, mas ela e Fielder-Civil tinham outros planos. Eles foram atrás de um cartório com a intenção de casar-se no dia seguinte, mas resolveram no último minuto, já que estavam ali, que deveriam resolver tudo rapidamente. E foi assim, sozinhos, em frente a um escrivão em Miami, e pela modesta quantia de US$ 130, que Amy Winehouse se casou com seu Baby. “Não quero dizer que a gente fez isso em um ímpeto, porque isso faz parecer uma extravagância”, Fielder-Civil explica, com um sorriso largo e irreprimível estampado no rosto, os olhos brilhando de alegria.

O casal se conheceu no bar que Winehouse freqüentava em Camden, em 2005. “Era a minha área”, lembra Amy. “Passava muito tempo por lá, jogando sinuca e ouvindo música de jukebox.” Para Winehouse, isso significa blues, Motown e grupos de vocal feminino. “E o mais importante, eu fumava muita maconha”, ela diz, explicando por que aquelas músicas a interessaram tanto quando estava compondo Back to Black. “Se você tem tendência ao vício, passa de um veneno para o outro. Ele não fuma maconha, então passei a beber mais e fumar menos. Por causa disso, passei a gostar mais da coisa. Saía para tomar um drinque. A mentalidade por trás da maconha tem a ver com o hip-hop, e quando fiz meu primeiro álbum eu só ouvia hip-hop e jazz. A mentalidade da maconha é muito defensiva, tem um clima de ‘foda-se, você não me conhece’. Enquanto a idéia por trás do álcool tem muito mais a ver com ‘oi, sou eu. Ah, eu te amo, vou deitar no meio da rua por você. Não estou nem aí se você nunca olhar para mim, eu sempre vou te amar’.”

Ela havia gravado Frank em Miami com o produtor Salaam Remi, que já trabalhou com Nas, The Fugees e Jurassic 5, e conta que originalmente planejou fazer todo o Back to Black com Remi também (ele acabou contribuindo em quatro faixas do disco). Mas um executivo da EMI apresentou-a para Ronson, esperando que a dupla demonstrasse uma sintonia musical. “Eu mesma componho tudo, mas tenho que ser próxima de alguém para compor na sua presença”, ela observa. “Não sabia o que o Mark fazia, e achei que ele era um daqueles velhos que tentam parecer jovens e descolados. Não percebi que ele era novo! Logo que o conheci, nos demos bem como dois irmãos.” Ronson entrou no mundo da música discotecando hip- hop em bares e clubes de Nova York; as seis músicas em que ele pôs a mão em Back to Black têm a ver com sua estética de “cut & paste” de DJ do som old school reproduzido ao vivo – ou seja, sem o uso de nenhum sample – através de um brilhante grupo do Brooklyn de deep funk chamado Dap-Kings que ele recrutou para realizar a idéia que Winehouse tinha para o seu álbum. “A Amy foi ao meu estúdio e tocou coisas como Shirelles, Shangri-Las e Angels”, lembra Ronson. “Eu me inspirei no que ela estava falando e naquela noite fiz a bateria e o piano de ‘Back to Black’, além de acrescentar um monte de reverb no pandeiro. Amy parece ser uma pessoa indiferente, e quando mostrei para ela no dia seguinte ela falou: ‘Está incrível’. Então continuou: ‘É assim que quero que meu álbum soe’. Ela então viria todos os dias tocar músicas no violão, e tentávamos arranjos diferentes para encontrar algo que parecesse autêntico. O motivo pelo qual todo mundo volta aos discos da Motown é porque eles eram músicos maravilhosos tocando juntos em uma sala, e foi isso que tentamos fazer.”

Embora os fãs com ouvidos mais refinados possam estar conectados à autenticidade da produção e dos arranjos do álbum, fica claro que a maior parte dos milhares que se apaixonaram por Back to Black estão conectados à autenticidade da culpa, do pesar e da dor no coração de Winehouse. Pelas histórias que as músicas contam, sua relação com Blake pegou fogo muito rápido. Ali estão traição e corações partidos: ele voltou para a antiga namorada e ela ficou com medo de ter perdido o amor de sua vida. “As músicas, literalmente, se escreveram sozinhas”, ela admite durante um jantar no Big Pink, um restaurante kitsch dos anos 50, em Miami, onde os drinques frozen são gigantes e a comida é deliciosamente destituída de qualquer valor nutricional. Ao lado de nossa mesa, o novo marido de Winehouse se senta à distância de um braço, e ela se vale de toda oportunidade para se debruçar sobre ele, sussurrar alguma coisa ou lhe fazer um carinho. “Todas as músicas falam sobre como estava meu relacionamento com Blake na época”, ela continua. “Nunca havia sentido por ninguém o que sinto por ele. Foi muito catártico, porque me senti péssima pelo modo como nós nos tratávamos. Achei que nunca mais iríamos nos ver. Hoje ele ri disso e diz: ‘Como assim, você achou que a gente nunca mais ia se ver? A gente se ama. A gente sempre se amou’. Mas não achei engraçado. Queria morrer.”

Tem uma história – talvez apócrifa – sobre Dolly Parton que explica, em partes, por que as cantoras de country music figuram como um dos ícones de estilo para Winehouse. “Ouvi dizer que ela acorda todos os dias quatro horas antes do marido para se arrumar para ele”, conta a cantora. “Quatro horas! Acho isso muito legal.” Ela não vai tão longe a ponto de dizer que faz o mesmo, mas durante o jantar em Miami fica tanto tempo em cima de Blake que quase me sinto constrangida. Ela pára incontáveis vezes no meio da entrevista para um afago às escondidas, eventualmente se distrai e deixa de responder porque, como explica: “Estava pensando no Blake”. A certa altura, Amy me pede um pedaço de papel e passa os dois minutos seguintes escrevendo um bilhetinho, com a outra mão escondendo tudo, então dobra no meio e entrega para ele. “A gente faz isso o tempo todo”, explica, quando volta a se concentrar no papo. “Mesmo quando saímos juntos escrevemos bilhetinhos um para o outro.” Depois, quando seu pedido de carne, legumes e purê de batata chega, ela cuidadosamente coloca metade de sua refeição em outro prato com a precisão ritualística que se espera em uma cerimônia do chá japonesa. “Sempre fui um pouco caseira”, avisa enquanto escolhe a flor certa de brócolis. “O que é essa coisa amarela? Abóbora, talvez? Preciso de uma colher. Você tem uma? Aquilo ali é uma colher? Posso roubar um pouco do seu molho?” Ela então se vira para Blake, solta outro “Baby” e lhe entrega o prato de comida que ele nem mesmo havia pedido.

Winehouse comenta que ela sempre foi o tipo de pessoa que gosta de cuidar de quem está próximo dela. Mas não é preciso passar muito tempo perto da cantora para ter a impressão de que ela precisa de um pouco de cuidado também. Não há dúvida de que eles estão profundamente apaixonados, mas há também a clara noção de que Winehouse e Blake são uma dupla de almas auto-destrutivas igualmente capazes de serem a melhor e a pior coisa que já aconteceu na vida um do outro. Ele tem o nome dela tatuado atrás da orelha esquerda, ela tem o dele tatuado em cima do coração. Eles também compartilham cicatrizes iguais, apesar de as que estão no antebraço esquerdo dele parecerem mais antigas – e feitas com mais força – que as dela. Eles são parceiros no crime e desaparecem no banheiro com tanta freqüência que é impossível não especular sobre um possível uso de drogas.

Eu pergunto o que ela imagina ser seu pior defeito. “Basicamente, sou muito negligente, sempre jogo a precaução pela janela”, salienta. E quando a conversa desvia para como Amy saberia se está na hora de cuidar de algum de seus defeitos, ela transfere para Blake: “Baby, se eu tivesse um defeito, quando saberia que está na hora de parar e cuidar dele?” E ele completa, ainda com sorriso de desenho animado estampado no rosto: “Eu avisaria você”. Mas ela faria o mesmo por ele? “Nunca”, dispara. Blake diz que sim com a cabeça, enquanto ela nega com a dela – parece um daqueles momentos embaraçosos em uma gincana de recém-casados, quando o marido esquece qual é o lugar favorito da esposa para fazer amor. Então ele muda a resposta: “Não”, graceja. “Você não me diria logo de cara. Você ficaria me observando colocar uma agulha no olho, então falaria: ‘Agora você foi longe demais, Blake’.” Como a turnê norte-americana acabou em Toronto, estava claro como o trabalho havia acabado para Winehouse. E em Miami ela obviamente preferia estar passeando com o novo marido a gastar o dia do casamento falando sobre sua vida e sua carreira. Perguntei se ela ficaria muito triste se tivesse que parar a turnê e começar a gravar amanhã. “Não exatamente. Fiz um álbum do qual me orgulho muito. E é isso. É que eu sou uma pessoa muito atenciosa e quero aproveitar e passar um tempo com meu marido. Nem soa estranho mais chamá-lo assim agora. Eu e Blake não conseguimos passar um tempo juntos faz um bom tempo. Eu estava com outra pessoa, e ele estava com outra pessoa – seis meses atrás nos reencontramos e lembro de lhe dizer coisas do tipo: ‘Só quero cuidar de você’. Não quero parecer ingrata. Sei que sou talentosa, mas não vim para cá para cantar. Vim para ser uma esposa e mãe, e para cuidar da minha família. Amo o que faço, mas isso não é o começo nem o fim.”

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2 Comentários

Arquivado em Jornalismo, Música

2 Respostas para “Amy Winehouse: a diva e seus demônios

  1. Guza

    O que todos parecem nao querer saber é que ela era autodestrutiva. Se realmente fosse amada, a convenceriam a fazer uma terapia, a buscar o real eu. Como tinha dinheiro, todos os vassalos a rodeavam dando lhe mais e mais droga e aí, she is no more.

  2. Diogo

    Caso alguém tambèm queira ler a reportagem do Lucas, o link direto é http://www.rollingstone.com.br/edicoes/10/textos/o-livro-das-sombras/

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