Lula, Palocci e Pelé (ou quem apita a partida não pode jogar)

Com sua franqueza costumeira, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) entregou o sumo extraído da reunião de ontem entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a bancada petista no Senado: “Lula falou da importância de estarmos unidos ao redor de Palocci, uma pessoa tão importante na administração Dilma.”

Ok, não se discute que o ministro Antonio Palocci é vital para Dilma. E que Palocci ferido significa Dilma ferida. Do ponto de vista político, o raciocínio é até compreensível. Mas do ponto de vista moral, inaceitável.

O que Lula diz é o seguinte: quem é da nossa turma é preservado, não importa o que tenha feito; afinal nosso projeto é mais importante que os R$ 20 milhões não explicados. Já vimos Lula empregar essa lógica com José Sarney, Renan Calheiros, Jader Barbalho e tantos outros. Deu no que deu…

Mesmo sendo verdade que Lula queira proteger Palocci apenas para o bem do Brasil, e que Dilma, com a ajuda de Palocci, fará o mel escorrer das árvores para o bem de todos, o raciocínio do ex-presidente alimenta a pior chaga brasileira. Atingimos o fundo do poço em relação à moralidade com a coisa pública porque não investigamos nem punimos os crimes de colarinho branco. Se Palocci é inocente, que venha a público se explicar. Nesse caso, ele sairá do episódio com mais poder e prestígio do que já tinha antes.

Na reunião com os senadores petistas, Lula disse que Palocci nada fez de ilegal. Pode até ser verdade, mas a coisa não se esgota aí. Há ainda o campo da moral e o campo da política. Do ponto de vista jurídico, Fernando Collor de Mello também nada tinha feito de ilegal, tanto que foi inocentado pelo Supremo Tribunal Federal. Mesmo assim, Collor sofreu um merecido impeachment, processo que teve o PT na linha de frente.

A fala de Lula pode, por ora, ajudar Palocci e Dilma, mas mancha o PT. Como definiu a filósofa Maria Sylvia Carvalho Franco, em entrevista publicada hoje na Folha, “não é só o governo que fica fragilizado. É o patrimônio político do PT, já comprometido, que se esvai a cada escândalo”.

Na reunião com os senadores petistas, Lula disse que, como consultor privado, Palocci tinha o valor de um “Pelé”. Disso não resta dúvida. Mas faltou dizer que o “Pelé” do PT jogava em dois times ao mesmo tempo: era consultor privado e dublê de deputado federal e coordenador-geral da campanha de Dilma Rousseff à Presidência. Pelé, o verdadeiro, fazia gols, mas não apitava a partida.

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4 Comentários

Arquivado em Colarinho branco, Política

4 Respostas para “Lula, Palocci e Pelé (ou quem apita a partida não pode jogar)

  1. Mayrpedrao

    Eu ainda não entendi a complexidade de entender que Palocci fora do governo, neste momento , alivia pra Dilma. Se as calunias forem falsas que peça retratação publica dos judas e volte. Estava num debate em outro blog e as pessoas atacam as outras de esquerda com palavras mais severas das que são proferidas pelas pessoas de direita. Elas acreditam que poupando o Palocci apoiam a Dilma.
    Eu votei na Dilma acreditando na sua capacidade de governar e não na do Palocci, mesmo porque ele já teve que sair do governo anterior, nada novo pra ele. Sou por um governo ético, se gostasse de corrupção teria votado nos que já conheço. Concordo com você Eduardo Lima.
    Bom o texto o seu, Lucas Figueiredo

  2. Alberto

    É por fatos iguais a estes que nunca mais votei no PT (ex-Partido da ética). Lula é uma decepção no combate a corrupção parecendo que a impunidade é algo “normal” no Brasil. CHEGA!

  3. Katia Becho

    Perfeito o raciocínio, Lucas.
    O respeito que o Palocci tem dentro do governo e que tinha na sociedade não lhe dá o direito à blindagem privilegiada. Fico pensando no que um consultor ‘insider’ pode fazer pelas empresas clientes. Indicar onde e quando serão feitos os próximos investimentos federais? Induzir o governo aos investimentos que interessam a seus clientes? Só essas informações e ações já são capazes de fazer a fortuna de empresas e empresários que vão do mercado imobiliário à especulação financeira, passando por diversos setores ‘produtivos’ onde o dinheiro é o único interesse.

  4. Muito bom post. A corrupção é uma das coisas que mais afastam o jovem da política e faz prevalecer no senso comum de que político é tudo igual!

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