Da Bahia, uma lição memorável de jornalismo investigativo

O repórter Aguirre Peixoto

Redação d' A Tarde discute estado de greve em protesto contra a demissão de Peixoto. A foto registra o compromisso, a coragem e a ética que exige o tal jornalismo investigativo

Primeiro, uma opinião: a expressão jornalismo investigativo é uma bobagem sem tamanho. O que existe é a velha e boa reportagem em profundidade feita há tempos ancestrais.

Jornais, revistas, rádios e TVs sempre fizeram jornalismo em profundidade. A produção, contudo, vem diminuindo gradativamente em razão da falta de investimento, de independência e de disposição para comprar boas brigas por parte das empresas jornalísticas. Para mascarar a espantosa perda de qualidade de seus produtos, muitas empresas recorrem a um truque de marketing para iludir seus clientes, dizendo o contrário, que a qualidade aumentou – “Ei, aqui tem jornalismo investigativo, veja que maravilha de produto estou oferecendo a você”. É matéria de denúncia? Então é jornalismo investigativo – não importa se há de fato investigação (ou seja, reportagem). Muita informação boa tem sido levada ao público com a marca jornalismo investigativo, mas também muita picaretagem. Ambos, vendem bem.

O selo-propaganda jornalismo investigativo não tem rendido dividendos apenas para as empresas. Para valorizar o passe, muitos jornalistas se auto-intitulam “jornalistas investigativos”. Apresentam-se como detentores de poderes quase paranormais para desvendar mistérios e descortinar segredos, poderes usados, é claro, para vingar a sociedade. Existem portanto os jornalistas e os “jornalistas investigativos”. E estes, por um dom de Deus, são profissionais melhores e seres humanos mais elevados do que aqueles.

Quem adentra a fábrica de salsicha, porém, sabe que a coisa não é bem assim. Quantos pratos-feitos da polícia e do Ministério Público foram apenas requentados nos microondas das redações e vendidos como jornalismo investigativo? Quantos dossiês capengas encaminhados às redações não foram parar nas bancas, na manhã seguinte, embrulhados com o celofane (frágil sim, mas bonito) do jornalismo investigativo?

Rotulada ou não como jornalismo investigativo, a reportagem em profundidade sobrevive muito bem, obrigado. A receita não mudou: as empresas precisam investir dinheiro (em profissionais qualificados, em estrutura de trabalho, em projetos de médio e longo prazo), precisam arriscar (uma boa pauta, depois de semanas ou mesmo meses de trabalho, pode redundar em nada), precisam ter uma forte disposição para resistir às pressões (a verdade revelada quase sempre contraria interesses poderosos) e precisam dar suporte incondicional (moral, jurídico e contra qualquer tipo de pressão) aos profissionais envolvidos na empreitada.  Por parte dos jornalistas, espera-se somente que trabalhem muito, que trabalhem bem e que não confundam a função de repórter com as de policial, araponga, promotor, juiz ou justiceiro. Ele está ali basicamente para contar uma história.

Pontuada a questão semântico-mercadológica, vamos à Bahia.

Neste mês, depois de fazer uma série de matérias, vá lá!, investigativas sobre supostos crimes ambientais cometidos por empresas de construção civil na Bahia (leia aqui uma delas), o repórter Aguirre Peixoto foi demitido do jornal A Tarde. Em carta aberta, jornalistas d’ A Tarde denunciaram que o jornal entregara a cabeça de Peixoto “em uma bandeja de prata a empresas do mercado imobiliário”, cedendo assim a “pressões econômicas difusas” – além de perder anúncios do setor imobiliário por conta das denúncias, A Tarde era alvo de processos na Justiça.

Perder anúncios e ser processado é o mínimo que pode esperar uma empresa jornalística que publica denúncias graves como as que A Tarde publicou. Faz parte do jogo. O que estranha é a reação da empresa. Ela pautou o repórter, ela submeteu seu trabalho a todas as instâncias da redação, ela decidiu publicar as matérias com destaque e, por fim, ela lucrou com o jornalismo investigativo. Mas, quando a chapa esquentou, simplesmente jogou o profissional às feras.

Se a empresa que edita A Tarde faltou com seu compromisso com o dito jornalismo investigativo, o mesmo não aconteceu com os colegas de Peixoto. Além de divulgarem a corajosa carta de protesto, eles entraram em estado de greve e chegaram a paralisar a redação por duas horas, exigindo a volta do repórter demitido. Arriscaram assim seus pescoços para colocar de volta o pescoço decepado de Peixoto.

O caso foi solenemente ignorado pela grande imprensa na sua quase totalidade, mas ganhou volume na internet, um volume tal que obrigou A Tarde a recontratar Peixoto.

Moral da história: Aguirre Peixoto e seus colegas deram ao país uma lição memorável de jornalismo investigativo: não basta ter uma boa informação, é preciso, antes de tudo, compromisso, coragem e ética.

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