O que Figueiredo, Lula e Dilma têm em comum? Resposta: um Stuckert

Tuca, Stuckão e Stuckinha: memória visual de Brasília

No plenário da Câmara dos Deputados, no dia 1º de janeiro, quando Dilma Rousseff se emocionou ao citar no discurso de posse os companheiros que tombaram lutando contra o regime militar, Roberto Stuckert Filho foi um dos poucos que não aplaudiram a nova presidente. Durante todo o dia, a única preocupação de Tuca, como ele é conhecido, foi manter a lente de sua Cannon apontada para Dilma, acontecesse o que acontecesse – e naquele dia, em termos de tumulto, quase tudo aconteceu.

A chegada de Dilma ao Palácio do Planalto dá concretude à mais antiga tradição do fotojornalismo brasileiro: desde Juscelino Kubitscheck (1956-61), quem melhor mostra, em imagens, os bastidores do poder em Brasília é a família Stuckert.

Os Stuckert estão no ramo há quatro gerações. A partir de Dilma, firmam-se de vez como os “olhos” do Brasil no Palácio do Planalto. Roberto Stuckert, o Stuckão, foi o fotógrafo oficial do general João Baptista Figueiredo (1979-85). Seguindo os caminhos do pai, Ricardo, o Stuckinha, acompanhou os oito anos Lula na Presidência (2003-2010). E Roberto Stuckert Filho trabalhará com Dilma até 2014, pelo menos.

A saga da família está contada na reportagem “De olho no poder”, que escrevi para a Rolling Stone de setembro de 2007. A seguir, o texto.

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Quando era criança, Tuca costumava pular cedo da cama aos sábados (cedo mesmo, antes das 6 da manhã), porque sabia que, dali a pouco, João iria ligar. Era batata! Não demorava muito e o telefone tocava no amplo apartamento da charmosa e arborizada Superquadra 104 Sul, em Brasília. Do outro lado a linha, João perguntava, com sua costumeira elegância: “Cadê seu pai, porra? Estou esperando vocês aqui.” Como o nome diz, Roberto Stuckert Filho, o Tuca, é filho de Roberto Stuckert, que na época vinha a ser o fotógrafo oficial da Presidência da República. E o tal João era o general-ditador João Baptista Figueiredo, que aos sábados costumava montar seus cavalos na Granja do Torto, uma das residências oficiais da Presidência.

A BANANA DE FIGUEIREDO (Foto de Roberto Stuckert) – Em setembro de 1981, o presidente Figueiredo sumiu de cena e um boato se espalhou: o general estaria morto e as Forças Armadas teriam escondido seu corpo para evitar uma crise nacional. Na verdade, Figueiredo se encontrava internado no Hospital dos Servidores Públicos do Rio de Janeiro, se recuperando de um enfarte. Para espantar os rumos, os militares queriam divulgar uma foto do presidente pela imprensa. Chamarão então Roberto Stuckert. “O Brasil quer saber se o senhor está vivo”, brincou Stuckão com o general. “Ah, é? Então faz a foto”, respondeu Figueiredo, enquanto fechada a mão direita e a apoiava no braço esquerdo, numa histórica “banana” à Nação.

Em seu momento preferido de lazer, Figueiredo não tolerava a presença de autoridades, puxa-sacos e outros tipos muito comuns na capital federal. Preferia a convivência dos Stuckert, conhecidos pelo nariz grande e, sobretudo, pelos olhos atentos e faro privilegiado para a notícia.

A história da família Stuckert se confunde com a história do fotojornalismo em Brasília. Para contá-la, no entanto, é preciso voltar à Paraíba do início do século passado.

Fugindo da pouca auspiciosa Europa, que começava lentamente a se reerguer da tragédia da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), o suíço Eduard Francis Stuckert entrou num navio e veio dar na praia de águas mornas e esverdeadas de Cabedelo, na Paraíba. Rapidamente, constituiu família e passou a defender-se na praça com os ofícios que conhecia: cartografia, ensino de línguas e fotografia.

Um de seus filhos, Eduardo Roberto, migrou para Alagoas, onde encontrou serventia para um ofício ensinado pelo pai. O governador de Alagoas, Arnon de Mello (pai de um garotinho chamado Fernando Collor), precisava de um fotógrafo oficial. Da Paraíba, Eduardo Roberto seguiu para o Rio, onde se tornou especialista em cobrir incêndios para os jornais locais. Entre uma labareda e outra, fotografava dançarinas de rebolado e jogos de futebol no Maracanã.

Quando a pauta era futebol, Eduardo Roberto carregava o filho Roberto para o campo. Cada um ficava numa trave, com uma câmera na mão, e assim o fotógrafo não corri o risco de perder nenhum lance. Aquela trave foi uma escola. Com 14 anos, Roberto (o futuro Stuckão, pai do Tuca) já era o fotógrafo-estagiário do Diário Carioca.

Em 1960, Eduardo Roberto e o filho tiveram a chance de cobrir a inauguração de Brasília. Acabaram ficando naquele fim de mundo poeirento e pouco habitado, dando início à dinastia dos Stuckert no fotojornalismo da capital federal. Depois de trabalharem para alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país, Stuckão e seu pai montaram a Stuckert Press, a primeira agência de fotojornalismo de Brasília, que chegou a atender 33 jornais e revistas. Antes disso, porém, Stuckão teve a chance de, como fotógrafo, ocupar um cargo público, sonho de nove entre dez pessoas na época. O emprego pagava bem, exigia pouco e era garantia de estabilidade. Mas definitivamente fotografar defuntos no Instituto Médico Legal do Distrito Federal não estava nos planos desse voyeur do poder. O que ele gostava mesmo era de congelar a notícia com suas lentes.

Entrava presidente, saía presidente, e lá estava Stuckão. Fotografou JK extasiado com sua cria, Brasília. Registrou, quase que por acaso, o último compromisso oficial de Jânio Quadros na Presidência, antes da dramática renúncia, em agosto de 1961. Captou a angústia de João Goulart às vésperas do golpe militar de 1964. E assistiu, de camarote, o início, o meio e o fim da ditadura, clicando todos os generais-presidentes: Humberto Castello Branco (1964-67), Arthur da Costa e Silva (1967-69), Emílio Garrastazu Médici (1969-74), Ernesto Geisel (1974-79) e Figueiredo (1979-85). “Eu era o terror do fotojornalismo em Brasília”, diz, sem falsa modéstia.

BRASIL NONSENSE (Foto de Roberto Stuckert) – Num dia impreciso de 1966, início da ditadura, Stuckão vagava pelo Congresso em busca de uma imagem. Naquele dia, entretanto, o Congresso não era exatamente o local mais animado de Brasília. Apenas o ministro da Guerra, Arthur da Costa e Silva, fazia uma visita de cortesia à Câmara. Stuckão percebeu que Costa e Silva se sentara numa fileira de cadeiras vazia. Clique! Dois anos depois, quando Costa e Silva, já presidente, decretou o famigerado AI-5 – ato que deu poderes absolutos aos militares e serviu de base para o fechamento do Congresso – a imagem passou a resumir toda a falta de sentido do país. A foto ocupou toda a capa da revista Veja, que, pela primeira vez, saiu sem título. Sozinha, a imagem dizia tudo. Dizia tanto que os militares mandaram apreender a tiragem da edição nas bancas.

Um dia, quando ainda ocupava a chefia do temido SNI (Serviço Nacional de Informações), Figueiredo chamou Stuckão em seu gabinete para revelar-lhe um segredo e fazer-lhe uma proposta. O segredo: com a benção do Alto-Comando das Forças Armadas, Figueiredo ia ser o próximo presidente do Brasil. A proposta: quando ascendesse ao poder, ele queria Stuckão como seu fotógrafo oficial. Stuckão se dava bem com Figueiredo. Já inclusive fizera fotos de passaporte e de festinhas de aniversário dos filhos do general. Por causa disso, topou a oferta na hora. “Ele era uma pessoa espetacular, maravilhosa”, derrete-se ao lembrar-se do patrão-amigo.

Depois de anos de convivência nos palácios e na caserna, Stuckão tinha acesso quase ilimitado ao presidente. Entre os dois, não havia secretárias, ajudantes-de-ordem ou assessores. Figueiredo era íntimo (e cara-de-pau) o bastante para ligar para a casa de Stuckão às 6 da manhã, no sábado, com um palavrão engatilhado para o pequeno Tuca.

Roberto Stuckert Filho e seu irmão Ricardo (o Stuckinha) gostavam de ajudar o pai, carregando as bolsas com equipamentos, trocando lentes e montando o estúdio. Com o tempo, foram aprendendo a operar diafragmas e fotômetros e a conjugar a luz do ambiente com a velocidade do obturador. Tudo isso, tendo em volta presidentes da República, ministros de Estado e autoridades em geral. Pode-se dizer, sem exagero, que eles cresceram no quintal do poder. “Quando meu pai ia fotografar o Figueiredo saltando com seus cavalos na Granja do Torto, eu ficava ali vendo tudo. Um dia, o general perguntou se eu gostava de montar. Respondi que sim e ele me de uma bota de cavaleiro, de couro marrom, que eu tenho até hoje”, conta Tuca. Não deu outra: ao se tornarem adultos, Tuca e Stuckinha viraram repórteres fotográficos. E de forma tão natural quanto inusitada.

Tuca iniciou sua carreira de repórter fotográfico aos 22 anos. Ao cobrir suas primeiras pautas no Congresso, percebeu então o peso do sobrenome. “O [senador] Marco Maciel me olhou e perguntou se eu era filho do Roberto Stuckert. Antonio Carlos Magalhães [então governador da Bahia] fez a mesma coisa. Depois foram [os deputados] Renan Calheiros e Roberto Fiúza. Os caras das antigas no Congresso passaram a me cumprimentar, por causa do meu avô e do meu pai”, conta ele.

Em 1992, quando já contabilizava três anos de praça, Tuca mostrou que sabia não só operar bem uma câmera como também lia com facilidade os símbolos do poder. Na sessão do Congresso que determinou a abertura do processo de impeachment de Fernando Collor, a quase totalidade dos fotógrafos que se encontrava ali estava de olho no deputado que, com seu voto, daria o golpe de misericórdia no presidente. Tuca inclusive. Só que ele fazia mais: não tirava o olho do advogado de Collor presente à sessão. Antes do término da votação, o advogado recebeu uma ligação. Era Collor, anunciando que acabara de renunciar, uma tentativa frustrada de interromper o processo de impeachment e, com isso, impedir a perda de seus direitos políticos. Tuca pescou o lance e pimba! No dia seguinte, a foto histórica, que registrava a tentativa de Collor de evitar o naufrágio, estava na capa do jornal em que trabalhava. Só mais um fotógrafo presente no Congresso aquele dia – um veterano que ocupava cargo de chefia num grande jornal– teve a mesma sacada. O resto boiou.

QUEM VAI FICAR COM ITAMAR (Foto de Roberto Stuckert Filho) – No seu primeiro dia de emprego no jornal O Globo, em 1992, Roberto Stuckert Filho recebeu a missão de colar em Itamar Franco. Um vento traiçoeiro levantou o topete do presidente, garantindo a Tuca, no dia seguinte, a primeira página do jornal. Num domingo de 1994, Itamar foi ao cinema, num shopping de Brasília, acompanhado de sua namorada, a professora June Drummond. O tumulto foi tão grande que o casal – ele com 63 anos; ela com 31 – desistiu do programa. A imprensa passou a fazer marcação cerrada em Itamar e June. “Numa madrugada, quando deixava June em casa, o presidente me xingou, dizendo que eu não poderia segui-lo. Eu disso: ‘Me desculpe, mas o senhor é o presidente da República e está atrás de uma pilastra, de mão dada com sua namorada. E são 4 da manhã!´”, conta o fotógrafo.

No mês passado, Tuca, hoje com 40 anos, voltou a dar um baile. No segundo dia da sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que decidiu sobre a abertura de processo do caso do Mensalão, ele reparou que três ministros trocavam mensagens eletrônicas entre si, por meio de seus laptops. Tuca não teve dúvida. Trocou a lente de sua câmera por uma teleobjetiva poderosa e deu um zoom nas mensagens. Acabou flagrando diálogos que mostravam a suposta disposição de dois ministros do STF de recusarem, em parte, as denúncias contra os chamados mensaleiros. No outro dia, quando o conteúdo das conversas foi estampado na manchete de O Globo, só se falou nas fotos de Tuca. (Possivelmente, ele será o primeiro repórter fotográfico do mundo a ganhar um prêmio por fotografar não uma cena, animais ou personagens, mas sim palavras.) [NR. Naquele ano, Tuca ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo.]

A história de Stuckinha não é menos interessante. Seu début  aconteceu em 1988, quando, aos 18 anos, ele acompanhou o pai numa viagem ao coração do Brasil. Stuckão deveria ficar 45 dias no Tocantins para registrar tudo o que se mexia ou ficava parado no mais novo Estado da Federação. Stuckinha, como de costume, carregaria equipamentos, trocaria lentes, identificaria filmes e ficaria encarregado de despachá-los para o laboratório. Na noite do 15º dia, o pai chamou o filho num canto: “Vou ter de voltar para Brasília, para outro trabalho urgente. Mas você vai ficar aqui e terminar este serviço. Fique tranquilo porque você vai conseguir”, disse Stuckão. Tranquilo, Stuckinha responder: “Tudo bem”, para espanto do pai. Stuckinha não só terminou o serviço, como deixou o pai todo babão na volta, ao apresentar fotos maravilhosas, a luz certa, os melhores ângulos, o enquadramento perfeito.

Poucos meses depois, Stuckinha conseguiria um emprego de laboratorista num jornal de circulação nacional. Com 19 anos de idade, já estava contratado como fotógrafo. “Quando fui cobrir minha primeira pauta no exterior, meu pai teve de me emancipar para que eu pudesse viajar”, relembra.

Em 2002, Stuckinha fez um ensaio fotográfico do então candidato Luiz Inácio Lula da Silva para a revista em que trabalhava. Lula gostou das fotos e mandou convidá-lo para ser o fotógrafo oficial da Presidência – caso, é claro, o PT vencesse as eleições. Venceu. Stuckinha então deixou o emprego e passou para o outro lado do balcão do fotojornalismo. Detalhe: com um salário um terço menor. “Nunca passou pela minha cabeça seguir os passos do meu pai e me tornar fotógrafo oficial da Presidência”, revela. Então por que topou? “Só porque era o Lula. Afinal, era a primeira vez que um operário chegava ao poder. Qualquer fotógrafo gostaria de fazer o que estou fazendo. Além do mais, é interessante pensar que meu pai trabalhou no Palácio do Planalto na ditadura, e agora, na democracia, eu acompanho um presidente-operário”, diz ele.

A rapadura de Stuckinha é doce, mas não é mole. Quando Lula está em Brasília, o fotógrafo chega ao Planalto por volta de 8h e nunca sai antes de 21h. Corre o dia inteiro atrás do homem, sempre de terno, sempre com uma pesada bolsa no ombro (são 18 quilos de equipamentos que ele não larga por nada deste mundo).

Lula e o menino Everton na campanha da reeleição em 2006 (foto de Ricardo Stuckert)

Depois dos seguranças, ninguém segue Lula mais de perto. “Desde que o presidente tomou posse, no dia 1º de janeiro de 2003, eu o acompanhei em todas as viagens internacionais. Já fui com Lula a mais de 50 países. Nas viagens pelo Brasil, só deixei de fazer uma, para Goiânia”, conta Stuckinha, com uma indisfarçável ponta de orgulho. “A minha sorte é que cheguei ao auge da minha carreira no mesmo momento em que estava no auge do meu pique e da minha forma física.”

Como Tuca e Stuckinha na crista da onda, Stuckão pode enfim considerar sua missão cumprida. Mas quem disse que ele quer se aposentar? Aos 64 anos de idade, ele é o fotógrafo oficial da Infraero. Continua com o radar ligado e o dedo nervoso. Em julho, quando o Airbus-A320 da TAM não conseguiu posar na pista do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, causando a morte de 199 pessoas, Stuckão foi chamado às pressas. No dia seguinte à tragédia, estava em Congonhas, tirando fotos da pista – de todos os 1.940 metros da pista. Suas imagens foram essenciais para afastar a tese de que o avião não conseguira frear por defeitos da pista.

Há no país, atualmente, mais de 30 fotógrafos com o sobrenome Stuckert. E a quinta geração não demorará a surgir. Os filhos de Tuca e Stuckinha adoram tirar fotos com os celulares dos pais. A maioria das imagens não tem nada de especial. Já outras…

Dilma, o marqueteiro João Santana e Lula, em foto de Tuca na campanha presidencial de 2010: a saga dos Stuckert continua

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6 Comentários

Arquivado em Jornalismo, Política

6 Respostas para “O que Figueiredo, Lula e Dilma têm em comum? Resposta: um Stuckert

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  4. Fernanda

    Poxa! tem q deixar um espaço pra novos fotografos! Democracia já, monarquia já acabou! Rsrsrsr me chamem!

  5. Pingback: O raro talento de Daniel Kfouri | Blog do Lucas Figueiredo

  6. Oi Lucas!

    Parabéns pela linda reportagem humana, histórica e, acima de tudo, um retrato de uma família de profissionais que ajudam a construir a história do fotojornalismo brasileiro. Sou jornalista e estou dando os meus primeiros passos como fotógrafo profissional. Tenho uma grande admiração pelo trabalho dos Stuckert, pois são fotos que trazem informação e somam ao texto. Adorei a sua reportagem e, principalmente, o seu blog.

    Abraço,

    http://cafecomnoticias.blogspot.com

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