Lula deixou um porta-voz no governo Dilma (e com uma faca entre os dentes)

 

Gilberto Carvalho é Lula no Planalto

De longe, de todos os colaboradores que cercaram Lula nos oito anos de seu governo, o paranaense Gilberto Carvalho foi o mais próximo do presidente. O ex-operário e o ex-seminarista são amigos até debaixo d’água – e há mais de 30 anos! Nem por isso (ou justamente por causa disso), Carvalho se arvorou de poderoso. Ao contrário: jeito de padre, gestos contidos, ele era de uma discrição absoluta – raras foram as vezes em que se valeu da imprensa para expressar posições do governo e menos ainda para exprimir suas próprias opiniões. Justamente por isso soa estrondosa a entrevista que Carvalho concedeu a Cátia Seabra e Natuza Nery na Folha de S.Paulo de ontem (03/01/2011).

 

Muitos interpretarão a entrevista como um típico desabafo de fim de governo. Outros, mais lúcidos, como a incorporação, por Gilberto Carvalho, de um novo papel no governo Dilma: ele não será mais o tira bom da história. Desta vez, será o tira mau.

Gilberto Carvalho falou à Folha um dia depois de sua posse como ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da gestão Dilma. Em nenhum momento, contrariando o protocolo, referiu-se a ela como presidente ou presidenta – disse apenas “Dilma” (6 vezes) e “ela” (2 vezes). Carvalho falou coisas do tipo:

·         “(…) Se não der certo (o governo Dilma), temos um curinga (Lula)”;

·         “Estou dizendo para a oposição: ‘Calma. Não se agitem demais. Temos uma carga pesada. Não brinca muito que a gente traz (o Lula de volta). (Ter Lula) É ter o Pelé no banco de reservas´”;

·         Antes do governo Lula, a corrupção era “discretamente e tucanamente muito bem guardada”.

Noves fora ter admito que Dilma possa fracassar, o novo ministro anunciou que os ocupantes de cargo de confiança do governo federal terão aumento de salário, um assunto que não é da sua alçada. “A decisão foi tomada pelo Planejamento. Mas não deu tempo de fazer no governo Lula. Caberá a Dilma fazer”, disse num tom pouco usual para um ministro.

Na condição de um dos amigos mais íntimos do ex-presidente, a quem chamou na entrevista de “esse cara”, Gilberto Carvalho anunciou: “Lula vai ter um comportamento rigorosamente discreto. Não vai falar em público…”. E emendou: “… não vai me usar para mandar recado”. Eis o lead da entrevista, que precisa ser lido de forma invertida: no governo Dilma, Gilberto Carvalho será o porta-voz de Lula. E o ex-seminarista não agirá mais com a doçura que lhe era peculiar, mas sim com uma faca entre os dentes.

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2 Comentários

Arquivado em Política

2 Respostas para “Lula deixou um porta-voz no governo Dilma (e com uma faca entre os dentes)

  1. Pingback: Roda Jobim, viva Jobim, roda Jobim… | Blog do Lucas Figueiredo

  2. Rolando

    Aumentar o salário dos cargos de confiança apenas alguns meses depois da eleição presidencial é um mapa da mina que o PT descobriu. Em junho ou julho de 2007 foi a mesma coisa. Explica-se: o partido se endivida. Com milhares de cargos de confiança na mãos de pessoas filiadas ao PT, aumenta o dízimo arrecadado para cobrir as dívidas de campanha. Um petista que ocupe cargo DAS, tem de repassar mensalmente ao partido, entre 10 e 30% de seu salário, dependendo do valor que lhe é pago.

    Imagine que o cara seja presidente da Petrobras ou da BR Distribuidora, um salário em torno de 44 mil reais por mês….

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