As imagens revelam o antes, o durante e o depois.
A abertura da série mostra a fase pré-guerrilha. São imagens das últimas celebrações à mesa das quais participaram quatro guerrilheiros do Araguaia.
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Depois de uma viagem à China para treinamento de guerra de guerrilha, em 1966, militantes do PCdoB se mudaram para a pequena cidade de Porto Franco, no oeste do Maranhão. Ficaram por lá durante um tempo (talvez um ano ou um pouco mais) à espera de ordens da cúpula do partido para se transferirem para o sul do Pará, região escolhida para instalar a guerrilha. Em Porto Franco, os guerrilheiros assumiram diversos disfarces (médico, comerciantes, agentes de saúde) e passaram a viver de forma pacata, animada e com um nível de conforto que não veriam mais.
Não se sabe quantos guerrilheiros passaram por Porto Franco. O certo é que alugaram duas casas. Numa delas (FOTO 1, imagem recente), moravam o veterano líder do PCdoB Maurício Grabois (codinome Mário), seu filho André Grabois (Zé Carlos) e o genro Gilberto Olímpio Maria (Pedro). Na outra casa (FOTO 2), vivia João Carlos Haas Sobrinho (dr. Juca).
Para manter seus disfarces, os guerrilheiros procuravam levar uma vida normal, misturando-se à população. Assim acabaram frequentando inocentes festinhas da sociedade porto-franquina, como mostram as fotos tiradas por moradores entre 1967 e 1968. Nas imagens, vê-se que, antes de descer ao inferno da guerrilha, os militantes do PCdoB celebraram a vida na companhia da povo que pretendiam representar. Comeram bem e brindaram com copos cheios, talvez pensando na revolução que nunca chegaria.
Não muito tempo depois que as fotos foram tiradas, os guerrilheiros enfim receberam ordens para deixar Porto Franco e se embrenhar nas matas do Bico do Papagaio, a 200 quilômetros adiante. Na guerrilha, viveram a vida bruta dos acampamentos na mata, passaram fome e se vestiram com andrajos. Quase todos morreram nas mãos do Exército.
FOTO 3 – Dezembro de 1967. André Grabois (no fundo, de óculos) e Gilberto Olímpio Maria (à esquerda, em primeiro plano) participam da festa dos formandos da 4ª série do Ginásio Dom Orione. Há duas mesas servidas. A da direita, que aparece em destaque, é a mesa dos homens. Foi posta com esmero (repare nos copos de festa e na disposição simétrica dos pratos). A comida acaba de chegar: são oito tigelas bem-servidas. É possível identificar um punhado de pastéis, uma montanha de arroz e um prato que leva ovos partidos ao meio, tomates em rodelas e, como enfeite, azeitonas. Um zoom na imagem revela o que seria uma coxa de frango no prato que está à frente de André Grabois.
Os guerrilheiros estão com os cabelos cortados e penteados e vestem camisas claras e bem passadas. Esboçam um sorriso, mas o que revelam é uma certa tristeza. Os demais convidados parecem mais à vontade, e a mulher ao fundo, vaporosa, encanta o ambiente.
Em 1968, poucos meses depois daquela comemoração, André Grabois deixou Porto Franco para comandar o Destacamento A da Guerrilha do Araguaia. Deu tiros, assaltou um posto da PM e acabou morto pelo Exército, em 1973. No mesmo ano, tombou Gilberto Olímpio Maria. Os corpos de ambos permanecem desaparecidos.
FOTO 4 – Ainda estamos na festa de formatura, mas agora na mesa da esquerda, a das mulheres, arrumada com tanto ou mais capricho que a dos homens. Toalha de babados bordada, copos finos e comida farta. A senhora de óculos, de 54, é apresentada aos moradores de Porto Franco como d. Maria. Seu nome verdadeiro é Elza de Lima Monnerat. Integrante do Comitê Central do PCdoB, é ela quem costuma buscar os companheiros em São Paulo e levá-los até o local da guerrilha.
Elza Monnerat foi um dos poucos guerrilheiros do Araguaia que conseguiram fugir da caçada promovida pelo Exército. Presa em 1976, em São Paulo, foi liberdade em 1979. Morreu em 2004, com 90 anos.
(Um detalhe curioso: anos depois do fim da guerrilha, quando souberam que seus antigos vizinhos eram guerrilheiros disfarçados, os donos das fotografias coloridas (monóculos) cortaram algumas delas para apagar os militantes do PCdoB. Nesta imagem, um corte apaga o rosto de Gilberto Olímpio Maria, que aparece na FOTO 1. Supõem-se que os donos do monóculo não identificaram que d. Maria também era guerrilheira).
FOTO 5 – A comida já foi devorada; sobrou um garrafão no centro da mesa. A festa de formatura agora parece mais animada. Os mais velhos deixaram o ambiente e os jovens, inclusive adolescentes, tomaram conta. No canto direito, com o copo mais elevado para o brinde, aparece João Carlos Haas Sobrinho, o dr. Juca da Guerrilha do Araguaia.
Médico experiente, João Carlos Haas Sobrinho tinha consultório em Porto Franco. Em 1969, abandonou a cidade e o disfarce para se juntar aos companheiros que o esperavam no Bico do Papagaio. Morreu três anos depois, compondo a lista dos desaparecidos políticos.
FOTOS 6 E 7 – Como é comum acontecer com os médicos do interior, João Carlos Haas Sobrinho era muito querido pelos moradores de Porto Franco e, por isso, sempre era convidado para as festas. Na FOTO 6, o dr. Juca (o mais alto) aparece numa festa da elite porto-franquina. Escondida por um papel já engordurado, a comida do jantar aguarda a hora de ser servida. Homens de terno, garrafas de espumante e o balde de gelo entregam: é um encontro “pequeno burguês”, como diriam os comunistas da época.
Na FOTO 7, em outro evento, João Carlos Haas Sobrinho conversa com um morador de Porto Franco. Na mesa, garrafas de Pepsi Cola e um litro de “Pure Malt”.
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PRÓXIMO POST: João Carlos Haas Sobrinho, o guerrilheiro que encantava as mulheres.










sinceramente nao sei se na epoca morrerram tantos quanto morre hoje no brasil,hospitais,transito,assassinatos,só sei que a culpa e deste governo atual é o mesmo que na epoca estavam contra os militares,é tudo hipocrisia e o brasil esta pior do que a 30 anos atraz
São duas vertentes da história, uma sobre um público que estava contra os rumos de um Brasil que consideravam desigual e a outra para defender os interesses e a ordem pública….Hoje, os que estavam contra o capitalismo da época são beneficiados por sombras do passado e recebem pomposas somas e fazem o que querem com o Brasil e com o controle da mídia e opinião publica.
Vivi pesquisando, mas não consigo quase nada sério e imparcial sobre esta história. Sempre que acesso algo, é de apaixonada defesa de idéias e ideais de um ou outro lado. Os simpatizantes dos guerrilheiros justificam todos seus crimes hediondos e crueldades com românticas e “maravilhosas” gentilezas cometidas e auxílio prestado aos habitantes da região e nação brasileira para a “melhoria da qualidade de vida e o bem comum que não vemos ser praticado pelas “elites e homens-públicos” que sempre “prometeu mas não cumpriu!”, inclusive pelos “anjos” como o Comandante Prestes que causou um síndrome de suicídios como lembrança da passagem da “mito Coluna Prestes” pela triste história pátria brasileira. E de outro lado vemos o mesmo “esforço virtuose” de eufemismos, dissimulações e bom-mocismo ético, moral e de uma ingenuidade, amor, fé, esperança num “mundo melhor para o Zé-Povinho, como eu um anônimo aposentado que sendo trabalhador por mais de décadas, vive sua inatividade desvalorizada, enquanto “us cumpanhero filiado ao pt dus mais humirdi” com cargos como – aspone – assessor parlamentar, ganha no mínimo 60 vezes o que eu “trabalhador aposentado e vero”…
precizo entrar em contato com os responssaveis pelo site memórias reveladas
Lucas, não sou escritor ou jornalista. Sou advogado. Por isso apenas posso sugerir. E a história de um grande brasileiro chamado Apolônio de Carvalho dá uma excelente obra literária e até cinematográfica. Até hoje não sei porque ninguém se interessou.
Olá Niecio,
Existe um documentário sobre a vida de Apolonio chamado Vale a Pena Sonhar. E também uma exposição sobre sua trajetória de vida.
Abs
O documentário em vídeo, eu o assisti. O livro, “Vale a pena sonhar”, é apenas uma entrevista, porque, na verdade, ambos, são feitos em perguntas e respostas. Mas a vida de Apolônio sujere um livro mesmo ou um filme, porque, sem tirar o mérito de Che, a história é mais bonita.
sobre aguerrilha ,etava na area do conflito em 1974 e fui prejudicado ,poque tinha uma pósse de térra na região do bréjo grande ,serra das andorinhas e o que eu soube da guerrilheira dina ,é que éla atirou em um militar . e foi preza ,e quimou as córdas que os amarravam e se queimou muinto nas cóstas e nadegas e braço e ãnte braço e foi levada pelo exercito . ecom serteza veio a falecer devido as graves queimaduras,pois os ultimos guerrilheiros que foram preso atearãm fogo no nósso rãncho e matarãm todas as nóssas galinhas e ópcos
CARO AMIGO.NOS FALE DOS MILITARES ASSASSINADOS,NOS CIVIS TRUCIDADOS,DOS ATOS TERRORRISTAS ,DAS BOMBAS,DOS ASSALTOS A BANCO ,DA CORJA TERRORISTA QUE ESTÁ NO PLANALTO.ISSO VOCE SABE/PASSE TODA A FICHA DELAES PARA ESTE POVINHO QUE COMPACTUA COM TUAS IDEIAS COMUNISTAS.
como diriam os antigos espíritos da mata dos terecô: Osvaldão e o povo da mata são imortais!!!!!!!!
Até agora não foi publicado nada da biografia de Oswaldão. Ele foi guerrilheiro no araguaia e foi assassinado. Você não tem nada sobre a vida dele, Lucas?
Oswaldão é citado em dois de meus livros: Ministério do Silêncio e Olho por Olho. Mas certamente Osvaldão e os leitores merecem uma obra dedicada a ele.
Lucas, amigo.
Você é realmente um grande repórter. Seu Blog está um primor. Parabéns.
Seu fiel admirador,
Hélio Costa
Caro Lucas Figueiredo, foi um prazer muito grande ler sua pesquisa sobre os guerrilheiros do araguaia. Quando criança presenciei a movimentação de um grupo deles, refugiados em uma localidade próximo de minha casa no interior de Imperatriz Maranhão, tambémpróximo de Porto Franco. Eram pessoas agradável, benfeitoras e portanto educadas. Quando a polícia perseguia o grupo, inclusive prenderam um compadre do meu pai, suspeito de dar abrigo ao mesmos. Hoje sou professor graduado em matemática e resido em Imperatriz. Essa história me chama muito atenção.
Professor Antonio Ricardino.
Caro Antonio
A história é mesmo fascinante. Imagino para você que presenciou a guerrilha passar tão perto. Abraço.
E sempre bom ter alguem que nos lembre que a historia é feita de gente comum. Que come pastéis; joga fora conversa em mesa de bar; toma um espumante. Tambem vou acompanhar com entusiasmo o desenrolar dessas matérias.
é fantástico saber que ainda alguém se preocupa em manter contada a história desses anos inesquecíveis para quem os viveu e para quem os busca, sabe-se lá por que razão, como eu. ansioso pela continuidade da série, espero sinceramente que seja lida, vista e, sobretudo, ainda que mais dificilmente, sentida pelos leitores que aqui pousarem.
abraço!