Morre o engenheiro Renato Guerreiro, o homem que sabia o futuro

Renato Guerreiro mostra otimismo no hospital, onde se tratava de um câncer. No seu colo, o futuro que um dia prometera

Nos primeiros dias do governo Fernando Henrique Cardoso, em janeiro de 1995, o recém empossado ministro das Comunicações, Sérgio Motta, descobriu uma pepita de ouro. Era um trabalho intitulado “Comunicações – Infra-estrutura para a Sociedade da Informação”, produzido no ano anterior por um técnico do ministério, o engenheiro de telecomunicações Renato Guerreiro.

Motta não era vidente, mas tinha inteligência bastante para ver que, no paper, Guerreiro previa o futuro. O ministro pegou o trabalho do engenheiro e fez dele a referência para a reforma do setor de comunicação no Brasil.

Na época, eu era foca da Folha de S.Paulo em Brasília e cobria o Ministério das Comunicações. Sabia que não era vidente, desconfiava que não era inteligente, mas alguma esperteza eu tinha. Assim como Sérgio Motta, colei em Guerreiro.

Aquele paraense de Oriximiná não era uma fonte, digamos, muito generosa para um pobre repórter em busca de um furo de reportagem. Mas nunca se negava a dar esclarecimentos técnicos sobre o que era divulgado publicamente. Nossas conversas eram longas. Ele tinha paciência para explicar e eu, paciência para ouvir. E digo que não era fácil para nenhum dos dois.

Ele falava de um futuro em que a linha de telefone fixo não seria mais comprada a prestações e declarada no Imposto de Renda, de tão cara que era. Bastaria o cliente escolher uma operadora – sim, haveria muitas, privadas, e não só uma, estatal – e assinar o serviço, como quem assina um jornal. Guerreiro também dizia, 16 anos atrás, que todos – t-o-d-o-s! – teriam telefone celular, aquela maravilha de invenção que chegava ao mercado naquele instante com aparelhos modernos do tamanho de um tijolo e com uma antena.

Não era só isso. A internet, dizia Guerreiro, seria carne de vaca. Não a internet que o país – na verdade, o mundo das universidades federais – começava a descobrir naquela época (discada, lenta e que caía a todo momento). A internet de Guerreiro seria veloz e potente para exibir inclusíve vídeos.

TV a cabo? A mesma coisa! Fácil e a preços populares.

Tudo isso, contava Guerreiro, viria literalmente junto: o mesmo cabo que traria o telefone fixo à minha casa traria também a internet e a TV a cabo.

Os olhos dele brilhavam. Quanto aos meus, um se abria e o outro se fechava, desconfiado. Mineiro que sou, eu achava que pelo menos metade do que Guerreiro dizia era lorota. Ou sonho, sei lá.

Nos anos seguintes, ainda no governo do PSDB, Renato Guerreiro foi o ás da reforma do setor de telecomunicações e liderou a elaboração das regras e dos contratos que desaguaram na privatização da Telebrás. Em 1997, quando da criação da Anatel, o engenheiro foi conduzido à presidência do órgão, cargo no qual, nos cinco anos seguintes, contribuiu decisivamente para a consolidação do novo modelo de comunicações do Brasil.

Hoje, no presente, temos o futuro que que Guerreiro prometeu.

x-x-x

No Natal de 2009, Guerreiro baixou no Hospital Santa Luzia, em Brasília. Era a terceira vez que procurava atendimento médico para as fortes dores que vinha sentindo nas costas. Diferentemente das ocasiões anteriores, quando os médicos lhe disseram que o desconforto era provado por gases, bastando apenas tomar um Luftal, daquela vez decidiu-se fazer exames de sangue e uma tomografia. Encontram então um tumor de cerca de 10 centímetros no rim esquerdo. Era um Linfoma Não-Hodgkin. Câncer.

Guerreiro decidiu fazer o tratamento em São Paulo, no Hospital do Coração (HCor), e confiou na previsão mais otimista: com quatro sessões de quimioterapia, o tumor retrairia quase a ponto de desaparecer, e a partir daí bastaria apenas fazer controles médicos trimestrais. A esperança de Guerreiro tinha um lastro: oito anos antes, ele vira de perto um tratamento de câncer bem-sucedido: o de sua mulher.

Com a ajuda de seu filho Thiago, engenheiro da computação, Guerreiro criou um blog – o Boletim do RG – para dar notícias aos amigos sobre o tratamento. Depois de cada sessão de quimioterapia, o blog era alimentado com vídeos em que, sempre animado, sorrindo e de bom humor, Guerreiro anunciava, convicto, estar a caminho da recuperação. Agradecia muito aos amigos e mandava beijos.

Renato Guerreiro morreu neste domingo, 27 de fevereiro, aos 62 anos.


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Arquivado em Economia, Histórias de repórter, Necrológios

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