[ARQUIVO DE REPÓRTER] Anatomia de uma reportagem

No post que abriu a série ARQUIVO DE REPÓRTER, reproduzi a reportagem O livro secreto do Exército, a primeira de um conjunto de matérias publicadas nos jornais Correio Braziliense e Estado de Minas que me deu o Prêmio Esso de Reportagem de 2007. Hoje publico, uma espécie de making off da investigação que me levou ao livro secreto: a reportagem O livro das sombras, publicada na revista Rolling Stone em julho de 2007.
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O livro das sombras
Lucas Figueiredo, para a Rolling Stone (julho/2007)

O nome dele não vem ao caso. O importante é contar o que ele fez. E, sobretudo, o que aconteceu depois. Estávamos eu e ele em sua casa, diante da estante de livros. Ele me mostrava seu acervo pessoal, composto basicamente de obras com temas militares: Guerra do Paraguai, inteligência, doutrina, depoimentos sobre o regime militar, Guerrilha do Araguaia etc. Ele sabia que eu gostava do assunto. Já eu desconfiava que, além de livros, ele tinha também informações. Não poderia imaginar, contudo, que ele guardava um tesouro em sua casa, e que esse tesouro era justamente um livro.

Eu já estava com uma pilha de livros nas mãos quando ele disse: “Ah, este aqui você vai gostar”, alcançando em seguida, no alto da estante, dois grossos volumes de capa preta. Antes de entregá-los a mim, alertou em tom solene: “Aqui está a verdade!”. Li o título da obra – O Livro Negro do Terrorismo no Brasil, tomos I e II – e fiz um grande esforço para não demonstrar a surpresa que experimentava naquele momento. Minha busca havia terminado! Depois de anos e anos tentando ter acesso a um dos mais bem guardados documentos secretos das Forças Armadas, ele estava ali, nas minhas mãos. Eu era o primeiro jornalista a segurar uma das 15 cópias existentes do livro secreto do Exército Brasileiro, um megadocumento inédito, de 966 páginas, escrito 19 anos atrás por oficiais do serviço secreto da força terrestre, com a versão da linha-dura sobre os Anos de Chumbo. Baseado em documentos confidenciais e no relato de militares e policiais que atuaram na repressão, o livro era uma das peças mais importantes dos chamados arquivos secretos das Forças Armadas. Minha vontade era uivar, dar socos no ar, subir pelas paredes, ajoelhar e, por fim, gritar: “Yeeeeessssss!”. Mas apenas comentei: “Parece interessante”.

A primeira vez que ouvira falar no livro secreto do Exército foi em 1998, quando iniciei as pesquisas do meu livro Ministério do Silêncio – A História do Serviço Secreto Brasileiro de Washington Luís a Lula (1927-2005). Uma de minhas fontes, um ex-torturador que trabalhara na comunidade de informações durante o regime militar (1964-85), me contou sobre o livro. Era homem bem informado, que tinha acesso privilegiado a documentos e segredos militares. Apesar de nunca ter visto a obra, ele sabia um bom pedaço de sua história.

Segundo seu relato, a odisséia do livro secreto tivera início em 1985, logo nos primeiros meses do pós-ditadura. Aproveitando o clima de liberdade, depois de 21 anos de escuridão, a Arquidiocese de São Paulo lançara o livro Brasil: Nunca Mais, com relatos de tortura e morte de presos políticos nos porões da repressão. Com detalhes aterrorizantes – como as aulas de tortura em que presos eram usados como cobaias, e os centros clandestinos das Forças Armadas, onde desafetos do regime eram assassinados com injeção para cavalo – a obra-denúncia causou espanto em boa parte da sociedade brasileira e no exterior. De quebra, despertou a ira nos quartéis.

O então ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, foi um dos que não gostaram. Para não deixar o Brasil: Nunca Mais sem resposta, o general ordenou ao Centro de Informações do Exército (CIE), o serviço secreto da força terrestre, um dos braços mais mortíferos da repressão, que preparasse um livro contando a versão dos militares para a luta armada promovida por organizações de esquerda entre 1967 e 1974. A idéia era contar passagens pouco edificantes da vida daqueles que combateram a ditadura, sobretudo dos que haviam pegado em armas para tentar derrubar o regime. Depois de derrotar a esquerda nas armas, as Forças Armadas entravam novamente em guerra, desta vez combatendo com a informação.

No CIE, o projeto recebeu um código secreto: Orvil (a palavra livro ao contrário). Os trabalhos tiveram início em 1986, sob a coordenação do então coronel Agnaldo Del Nero Augusto, chefe da Seção de Informações do CIE. Durante quase três anos, no mais absoluto sigilo, cerca de 30 oficiais trabalharam no projeto. Para tanto, tiveram acesso aos arquivos (até hoje inéditos) do serviço secreto do Exército, que guarda documentos produzidos pelo órgão e por seus parceiros na ditadura, como o Serviço Nacional de Informações (SNI), o Cenimar (serviço secreto da Marinha), o Cisa (serviço secreto da Aeronáutica), o DOI-Codi (aparelho da repressão), a Polícia Federal e os Dops (Departamentos Estaduais de Ordem Política e Social). Os integrantes do Projeto Orvil também entrevistaram oficiais e policiais que haviam participado da luta contra a esquerda armada, tanto em funções de coordenação quanto nas de combate.

Em 1988, o livro do exército ficou pronto. Batizado de As Tentativas de Tomada do Poder, ele citava (sempre de forma pejorativa) mais de 1.700 inimigos das Forças Armadas. Leônidas tratou de reunir-se com o então presidente da República, José Sarney, para discutir a sua publicação. Explicou-lhe que a obra era uma arma para defender as Forças Armadas das campanhas sórdidas que vinham sendo desferidas pelas esquerdas. No futuro, disse Leônidas, sempre que uma voz se levantasse contra a ditadura, lá estaria o livro do CIE para contra-atacar, revelando “a verdade”. Sarney ouviu Leônidas quieto, sorriu amarelo e em seguida começou a desarmar a bomba que estava em seu gabinete.

O presidente argumentou que a publicação do livro reabriria feridas que começavam a cicatrizar. Como a Lei da Anistia, de 1979, tinha beneficiado tanto os adversários da ditadura quanto os agentes da repressão, melhor seria esquecer o tema, sugeriu Sarney. O general não gostou, mas, como bom soldado, obedeceu. E assim o livro foi engavetado, passando a compor o extenso rol de documentos secretos do CIE.

No correr dos anos, entretanto, o livro acabou sendo contrabandeado para fora do QG do Exército. Ao passar para a reserva, um oficial que participara do Projeto Orvil levou consigo uma cópia da obra. A edição correu de mão em mão, num círculo ultra-fechado de oficiais da ativa e da reserva. Algumas cópias foram feitas e deixadas com pessoas-chave, a maioria delas ligada a organizações de extrema direita que congregam militares e civis, como o grupo Terrorismo Nunca Mais (Ternuma), sediado no Rio de Janeiro. Assim, com aproximadamente apenas 15 cópias disponíveis, o livro secreto – rebatizado de O Livro Negro do Terrorismo no Brasil – se tornou uma espécie de Santo Graal dos militares linha-dura. Era essa a relíquia que eu buscava.

No ano 2000, sem identificar a origem dos textos, o Ternuma divulgou em seu site (www.ternuma.com.br) cerca de 40 das 966 páginas do livro (pouco mais de 4% do total). A novidade atiçou a imprensa, e o general Leônidas acabou confirmando a existência do documento. Seu conteúdo, no entanto, continuava misterioso. Sempre que havia espaço, eu perguntava a minhas fontes do meio militar se conheciam o tal livro. Uns diziam que não, outros falavam que já tinham visto, alguns poucos contavam uma ou outra passagem da obra, mas ninguém se dispunha a me ajudar a conseguir uma cópia. Em 2005, depois de sete anos de pesquisa, publiquei Ministério do Silêncio sem ter conseguido um dos meus objetivos: revelar o conteúdo do livro secreto. Tive informações seguras apenas para escrever, em singelos dois parágrafos, que a obra existia e que continuava desconhecida.

Apesar da frustração, não desisti de encontrar o Santo Graal do CIE. Prossegui questionando fontes, mas, como ocorrera anteriormente, fui acumulando negativa atrás de negativa. Até que, em fevereiro deste ano, o livro secreto caiu no meu colo, ou melhor, nas minhas mãos.

“Aqui está a verdade”, disse ele. “Parece interessante”, retruquei. Num primeiro momento, tive receio em demonstrar muito interesse pelo documento e acabar provocando o recuo da minha fonte. Enquanto folheava o livro, fiquei imaginando se minha fonte me deixaria copiá-lo. Resolvi arriscar: “Posso levar esse livro comigo para ler em casa?”. “Ah, esse não”, respondeu ele. “Você pode consultar sempre que quiser, aqui na minha casa, mas não pode levar.” Continuei então fazendo o tipo desinteressado. Conversamos mais um pouco, folheamos outros livros e acabei indo embora de mãos vazias.

No táxi, fui fazendo planos e contas: se eu fosse à casa da minha fonte uma vez por semana e lesse 15 páginas por dia, copiando o que havia de mais importante, em um ano e quatro meses teria lido todo o livro. De volta à redação do jornal onde trabalho, comentei com um colega que tinha encontrado um pote de ouro, mas não pudera carregá-lo. “Como assim?”, ele perguntou. Expliquei o caso, e o sujeito compreendeu meu drama. “Putz, se você quiser podemos ir lá juntos tentar resolver isso”, sugeriu em tom de deboche. “Eu seguro o cara enquanto você pega o livro e sai correndo.” A piada era fraca, e meu humor não estava lá essas coisas. Fui embora para casa refazendo meus cálculos e tentando traçar novas estratégias.

Esperei uma semana para ligar de novo para minha fonte. Falei de vários assuntos antes de entrar no tema que me interessava. “E aquele livro da capa preta que você me mostrou? Queria dar mais uma olhada nele. Posso passar aí?” O sujeito estava atrasado para um compromisso e ficaria fora a tarde toda. Contudo, não queria fazer uma desfeita para mim. “Olha, passa aqui e pega o livro. Depois você me devolve.” Essa chance eu não deixaria passar. “Estou indo praí agora”, respondi.

Fui à casa dele, peguei o livro e voltei para a redação. No mesmo dia, fiz pessoalmente duas cópias do documento, para desespero da fila do xerox. Era uma brochura artesanal, escrita a máquina de datilografia, com capa dura e título na cor dourada. No lugar do nome do autor, um enigmático “Grupo de pesquisadores anônimos”. Passei o resto do dia assobiando e pensando baixinho: “Ele é meu! Ele é meu! Ele é meeeeeeeu!”. Agora, o próximo passo era digerir o bicho.

Nos dois meses seguintes, me enfurnei numa salinha vazia ao lado da redação com o livro secreto e mais 12 obras de referência histórica. Comparei relatos, chequei datas e confrontei versões referentes a centenas de passagens da história recente do país, como o golpe militar (1964), a morte do estudante Edson Luís, no Rio (1968), a instauração do AI-5 (1968), o seqüestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick (1969), assaltos a bancos praticados por grupos de esquerda, as campanhas militares contra a Guerrilha do Araguaia (1972-75) e o movimento das Diretas-Já (1984).

Os campeões de aparições no livro – os guerrilheiros Carlos Lamarca, da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), e Carlos Marighella, da Aliança Libertadora Nacional (ALN), com 51 e 41 citações, respectivamente – eram descritos como bestas-feras, assassinos frios e traidores da pátria. Na lista de personagens, figuravam militantes de organizações de esquerda que haviam participado da luta armada e que mais tarde ocupariam altos cargos da República, como Dilma Rousseff (atual ministra-chefe da Casa Civil), Franklin Martins (ministro da Comunicação Social), Fernando Gabeira e José Genoino (deputados federais) e Fernando Pimentel (prefeito de Belo Horizonte). Também eram citadas pessoas que não tinham pegado em armas e mesmo assim eram consideradas inimigas, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, o governador de São Paulo, José Serra, o religioso Frei Betto e o escritor Antonio Callado. No meio artístico, figuravam músicos como Chico Buarque e Geraldo Vandré. O autor de “Apesar de você” (“Hoje você é quem manda/Falou, tá falado/Não tem discussão”), uma das canções mais odiadas nos quartéis, era classificado como comunista infiltrado nos meios artísticos. Já o compositor de “Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores” (“Caminhando e cantando e seguindo a canção/Somos todos iguais braços dados ou não”) levava a pecha de agente de Fidel Castro propositalmente transformado em mártir da censura.

Enquanto a esquerda apanhou feio no livro, sobraram loas para torturadores, assassinos e dois presidentes-generais que comandaram o país nos momentos mais brutais da repressão. O finado Sérgio Fleury (delegado do Dops de São Paulo, líder do Esquadrão da Morte, torturador de presos políticos e assassino de opositores do regime militar, retratado recentemente pelo ator Cássio Gabus Mendes no filme Batismo de Sangue) recebeu a denominação de “incansável lutador contra o terrorismo no Brasil”. Já Octávio Gonçalves Moreira Júnior – o Otavinho, torturador do Dops paulista, assassinado em 1973 por guerrilheiros da ALN, Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) – é chamado de “doutor Octávio” e merece tratamento de mártir.

O general Arthur da Costa e Silva – ditador que comandou o Brasil entre 1967 e 1969, período marcado pela tortura e morte de centenas de presos políticos em instalações militares – é descrito como tintas amenas. Sua posse no Palácio do Planalto é relatada no livro secreto como um “reencontro (do país) com a ordem constitucional e o estado de direito”. Com seu “tom franco”, sua “mensagem de renovação” e a “clareza com que encarnava a realidade vivida pelo país”, o general “abriu esperanças” no Brasil, afirma a obra. Segundo o livro, “iniciava-se a volta à normalidade”. Detalhe: Costa e Silva foi o mentor e fundador do CIE.

Em relação ao general Emílio Garrastazu Médici, em cujo governo (1969-74) desapareceram quase 150 militantes políticos, o livro secreto é todo candura. Ao narrar os seqüestros de diplomatas estrangeiros realizados por grupos engajados na luta armada, em 1969 e 1970, e ao comentar a decisão do governo Médici de aceitar trocá-los por presos políticos, conforme exigiam os seqüestradores, a obra do CIE afirma que a postura do general representava o “respeito aos direitos humanos sem aspas”, que “se ajustava aos sentimentos humanitários da população”.

Entre um e outro juízo de valor, o documento comprova que o serviço secreto do Exército vigiou adversários mesmo depois do fim da ditadura. Um guerrilheiro que havia renunciado às armas e se exilara no Chile começou a ser seguido quando, já anistiado, retornou ao Brasil. O livro do CIE anota que, “depois de ter passado anos reprimindo o seu homossexualismo”, o ex-guerrilheiro deu “vazão aos seus instintos” e foi viver com outro homem. Em 1985, já no governo José Sarney, portanto, o serviço secreto do Exército continuou no encalço de seu alvo. O documento do CIE afirma que, naquele ano, o ex-guerrilheiro trabalhava em uma sauna gay.

Escrito na ordem cronológica e em forma de relatório (no dia 1º aconteceu isso; no dia 2 aconteceu aquilo; no dia 3, aquilo outro…), o texto do documento do CIE é mais desagradável que um porre de gim. Saltam das páginas expressões típicas da caserna e das delegacias. Um guerrilheiro que conseguia escapar ao cerco policial ao ser descoberto em seu esconderijo era descrito como um “subversivo” que fugia em “desabalada carreira” ao ser flagrado em seu “homizio”. Dureza!

Em alguns trechos, contudo, era impossível não achar graça dos recursos utilizados pelos agentes-escritores do CIE no cumprimento da missão de denegrir a esquerda. Ao contar como a Polícia Militar paulista havia dissolvido o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), realizado clandestinamente em 1968, em um sítio em Ibiúna (SP), o redator escreveu: “No local, foram encontrados drogas, bebidas alcoólicas e grande quantidade de preservativos, muitos já utilizados”. Ainda segundo o livro, “alguns estudantes chegaram a declarar inclusive que havia uma escala de serviço de moças para atendimento sexual” dos líderes estudantis. Pelo sim, pelo não, telefonei para Vladimir Palmeira, um dos estudantes presos em Ibiúna e que na época presidia a União Metropolitana de Estudantes (UME). Li para ele o trecho e, do outro lado da linha, Vladimir não conteve o riso. “Se de fato havia esse atendimento sexual, não me informaram. Fui isolado”, disse entre gargalhadas. Depois, já sério, voltou a comentar: “Isso é uma chacota”.

A graça, contudo, acabou logo em seguida, quando comecei a ler os trechos do livro em que eram descritas as mortes de militantes de esquerda e de guerrilheiros que atuaram no campo e nas cidades. Era a parte mais dramática e também a mais importante do documento. Ao comparar as narrativas contidas no livro com os processos oficiais das 380 vítimas fatais da ditadura, descobri que minha fonte realmente tinha razão: a obra trazia verdades. Mais que isso: jogava luz sobre alguns dos episódios mais sombrios da história do país.

O livro do Exército desmente o próprio Exército ao relatar o destino de 23 militantes e guerrilheiros mortos em diversos pontos do país e no exterior. Oficialmente, a força terrestre sempre negou que tivesse participado da morte ou do desaparecimento daquelas pessoas – 16 integrantes do PCdoB que atuavam na Guerrilha do Araguaia (Pará), três militantes do Movimento de Libertação Popular (Molipo), três da VPR e um da ALN. A força terrestre dizia ainda não possuir informações a respeito delas. O livro secreto provava, no entanto, que o Exército mentia.

As páginas 724 e 725 do documento, por exemplo, demoliam a versão de que a força terrestre nada sabia sobre o desaparecimento de Antônio Carlos Monteiro Teixeira, José Toledo de Oliveira e Francisco Manoel Chaves, em 1972, quando o trio se encontrava engajado na Guerrilha do Araguaia. O Exército, como revelava o documento, tinha matado os três. O livro secreto conta a história:

“No dia 29 (de setembro de 1972), um grupo de quatro ou cinco terroristas tentou emboscar um GC do 10º BC. Os terroristas montaram uma emboscada numa capoeira. Percebida a ação, em razão dos ruídos produzidos pelos subversivos, foi montada uma contra-emboscada, na qual morreram três terroristas: Antônio Carlos Monteiro Teixeira, José Toledo de Oliveira e José Francisco Chaves (N.R. O nome correto é Francisco Manoel Chaves).”

Outros três guerrilheiros desaparecidos no Araguaia há 35 anos, os quais o Exército nega ter matado, têm seus últimos momentos descritos na página 725 do documento: “Ainda nesse dia (29 de setembro de 1972), um grupo de terroristas aproximou-se de um casario. Um deles foi visto, no momento em que retrocedia, por um dos componentes de uma patrulha do 6º BC. A patrulha empreendeu perseguição aos subversivos e no tiroteio travado, acabou por matar três terroristas do grupo: Ciro Flávio Salazar de Oliveira (Flávio) e Manoel José Nurchis (Gil), do destacamento B, e João Carlos Haas Sobrinho (Juca), da Comissão Militar (…)”

O documento narra a prisão do guerrilheiro Boanerges de Souza Massa, do Molipo:
“No dia 21 de dezembro (de 1971), foi preso em Pindorama, em Goiás, utilizando nome falso, Boanerges de Souza Massa.”

Oitenta e sete páginas adiante, o livro conta que Boanerges foi submetido a interrogatórios e chega a dizer as informações que ele teria “aberto”. Curioso é que o guerrilheiro desapareceu naquele ano e nunca mais voltou a ser visto. Até hoje, o Exército não reconhece a prisão nem a morte de Boanerges. Para a família não resta dúvida: ele foi assassinado no cárcere.

Outro trecho revelador do livro refere-se a Wânio José de Mattos, integrante da VPR que desapareceu no Chile em setembro de 1973, após o golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende. Só em 1992, quando os arquivos chilenos foram abertos, a família de Wânio foi informada, pelas autoridades daquele país, de que, por falta de atendimento médico, ele morrera de peritonite aguda no Estádio Nacional, onde se encontrava preso.

Contudo, pelo menos quatro anos antes da abertura dos arquivos chilenos, o Exército brasileiro já tinha conhecimento da versão, como mostra a página 788 do livro secreto. O trecho em que se lê “Wânio José de Mattos morreu no Chile, em 1973, com peritonite” é mais uma prova de que, a partir do início da década de 1970, as ditaduras do Cone Sul atuavam em estreita sintonia na guerra suja que travavam contra seus opositores, parceria que ficou conhecida com o nome de Operação Condor.

Dois outros casos macabros que o livro secreto traz são os de Antônio dos Três Reis Oliveira (ALN) e Alcery Maria Gomes da Silva (VPR). Até o documento do CIE vir à tona, sabia-se apenas que Antônio fora assassinado pela repressão em 1970 e enterrado como indigente no Cemitério de Vila Formosa, em São Paulo. Seu corpo nunca foi encontrado. Já em relação a Alcery, era conhecido o fato de que ela morrera no mesmo ano pelas mãos dos agentes da Operação Bandeirantes (Oban) e que o destino de seu corpo era ignorado. Apesar de todos os apelos feitos por parentes e grupos de direitos humanos, o Exército sempre negou que tivesse informações que pudessem ajudar na localização dos restos mortais de Antônio e Alcery. Pior: nem ao menos reconheceu que ambos estivessem mortos. Entretanto, o livro do CIE revela na página 544 que o Exército sempre soube da verdade: “No dia 17 (de maio de 1970), em São Paulo, foi preso o recém-designado comandante da UC, Oswaldo Soares, que entregou seu aparelho, como já narrado, onde morreram sua companheira Alcery Maria Gomes da Silva e Antônio dos Três Reis Oliveira.” O documento do serviço secreto do Exército mostra que a força terrestre escondeu informações até mesmo sobre a morte de seus homens. Um deles é o sargento Mário Ibrahim da Silva. O militar tombou no Araguaia, em 1972, quando combatia guerrilheiros do PCdoB. A família de Mário nunca recebeu do Exército uma versão oficial do que aconteceu a ele. O caso foi investigado pelo jornalista Eumano Silva, autor de Operação Araguaia (Geração Editorial, 2005), um dos melhores livros sobre o episódio, vencedor do Prêmio Jabuti. No capítulo intitulado “Mistério: como morreu o sargento Ibrahim”, o jornalista conta que entrevistou a viúva do militar. “Ela diz que ouviu muitos boatos. Um deles dizia que o Ibrahim havia sido morto por engano por outro militar”, afirma Eumano. Com 35 anos de atraso, a versão do Exército aparece agora no livro secreto: “No dia 27 (de setembro de 1972), os terroristas investiram contra uma base do 2º Batalhão de Infantaria da Selva, situada na localidade de Pavão. O comandante do grupo de combate que estabelecera a base, 2º sargento Mário Ibrahim da Silva, ao tentar chegar ao local da incursão, foi atingido por um disparo desferido por um dos terroristas. Contam seus companheiros que o sargento Mário, mesmo ferido e após haver descarregado sua arma, deu ordens ao grupo (…), (falou) de sua família, esposa, filhos e mãe e faleceu”.

Ao terminar a análise do livro, um raciocínio óbvio vinha à minha cabeça. Se o CIE sabia o dia e o local da morte de militantes e guerrilheiros – em alguns casos, conhecia até a guarnição a que pertenciam seus algozes – é provável também que soubesse onde eles tinham sido enterrados. Por que então o Exército insistia em dizer que não tinha informações sobre eles, negando às famílias o direito de enterrar seus entes? Quem eram os responsáveis pela violação da mais elementar regra de guerra, prevista na Convenção de Genebra, de 1864, que determina a identificação, o sepultamento e a posterior devolução dos inimigos mortos em combate?

A bomba que Sarney desarmara em 1988 estava pronta para explodir em 2007. Faltava só uma coisa: conseguir provar que a cópia que eu possuía era autêntica.

A internet (louvada seja!) me deu a primeira prova de que o que eu tinha em mãos era um exemplar verdadeiro do livro secreto e não uma fraude. Comparei trechos do exemplar em meu poder com as 40 páginas do documento divulgadas há sete anos no site do Ternuma, que trazem entre outros relatos o seqüestro do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em 1970. Bingo! Na maioria dos casos, os textos eram idênticos. Quando não o eram, podia-se ver claramente que eram adaptações.

Para obter a segunda prova, entrevistei pessoas que figuravam como personagens do livro, como os professores Daniel Aarão Reis Filho e Cid Queiroz Benjamin, o engenheiro Maurício Paiva e o frei dominicano Oswaldo Resende Júnior. Ao tomarem conhecimento dos trechos em que eram citados, todos apontaram erros e manipulações, mas confirmaram a veracidade de inúmeros detalhes que ainda não são de conhecimento público. Frei Oswaldo, por exemplo, surpreendeu-se em saber que o Exército tinha informações pormenorizadas sobre uma reunião da ALN realizada em Roma, em 1971, na qual se discutiu o racha vivido pela organização. Já Cid Queiroz Benjamin, que participara do seqüestro do embaixador norte-americano, observou que, apesar de alguns pequenos erros, o livro secreto trazia muitos detalhes sobre a ação, como a cor de veículos usados pelos guerrilheiros e as senhas utilizadas nos contatos por telefone. “Só faltou dizer qual era a cor das nossas camisas”, afirmou o hoje professor de jornalismo. “As informações contidas no livro sem dúvida foram tiradas dos arquivos dos DOI-Codi”, deduz Cid.

Para não deixar um fiapo de dúvida em relação à autenticidade do livro, passei depois a compará-lo com outros documentos confidenciais do Exército. Constatei então, em três oportunidades, que trechos do livro tinham sido baseados ou mesmo copiados de documentos secretos da força terrestre. Era o que acontecia, por exemplo, nas páginas 721 e 722 do livro, referentes ao combate à Guerrilha do Araguaia, onde se lia: “A localidade de Santa Cruz, por exemplo, dista 600 quilômetros da sede do município, em Conceição do Araguaia, e a única ligação existente entre elas é o rio, demorando a viagem entre uma localidade e outra uma média de 5 dias”.

Texto praticamente idêntico aparece em documento do Ministério do Exército de 30 de outubro de 1972, classificado como secreto. Compare:

“(&) A localidade de Santa Cruz dista 600 quilômetros da sede do município em Conceição do Araguaia e a viagem pelo rio, único meio de ligação, demora da ordem (sic) de 5 dias”.

O livro do Exército era, pois, verdadeiro e já não era mais secreto. Em abril, um resumo do seu conteúdo foi tornado público nas páginas dos jornais Estado de Minas e Correio Braziliense. A reação foi imediata. O Ministério Público Federal criou uma comissão de cinco procuradores para analisar possíveis providências a serem tomadas. Já a Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos, que tem a dupla incumbência de julgar a responsabilidade do Estado na morte de militantes políticos e procurar restos mortais de desaparecidos, começou a discutir a provável reabertura de pelo menos um caso, o de Wânio José de Mattos, que morreu no Chile.

Há ainda a esperança de que as informações contidas no livro possam auxiliar na localização dos corpos dos 69 guerrilheiros desaparecidos no Araguaia entre 1972 e 1975.

O Exército calou-se. A Presidência da República, idem. Desde que tomou posse, em 2003, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem se esforçando ao máximo para ignorar a questão dos desaparecidos políticos. Apesar dos reiterados pedidos, nunca, por exemplo, recebeu a comissão de familiares dos militantes que foram à luta contra a ditadura e não voltaram para casa. Outros dois gestos do presidente revelam sua vontade de jogar o tema para debaixo do tapete. Ainda em 2003, Lula mandou a Advocacia Geral da União (AGU) recorrer da decisão judicial que condenou a União a abrir as informações das Forças Armadas referentes aos combates contra a Guerrilha do Araguaia. A ação, iniciada em 1982, era movida por 22 familiares de desaparecidos e tinha como advogados Sigmaringa Seixas e Luiz Eduardo Greenhalgh, que mais tarde se tornariam destacados deputados federais pelo PT. O recurso da AGU acabou sendo derrotado, mas, ainda assim, até hoje o governo não acatou a sentença da Justiça.

Lula fez mais (ou melhor, menos): manteve a regra criada na última semana do governo Fernando Henrique Cardoso que instituiu a esdrúxula figura do sigilo eterno para documentos confidenciais. Até então, uma lei de 1991 determinava o prazo limite de 60 anos para a abertura de papéis oficiais classificados como sigilosos. A chiadeira foi geral, mas Lula deu de ombros. A coisa, entretanto, promete não acabar assim. No final de maio, o Ministério Público Federal patrocinou o simpósio Debate Sul-Americano sobre a Verdade e Responsabilidade em Crimes contra os Direitos Humanos. Ao final dos trabalhos, foram tiradas várias recomendações, entre elas uma solicitação para que o procurador-geral da República, Antônio Fernando Souza, proponha uma ação de inconstitucionalidade contra a lei do sigilo eterno.

A pressão sobre o presidente também vem de dentro do governo. No final de abril, a Comissão Interministerial do Araguaia encerrou suas atividades sem ter conseguido avançar na questão da localização dos corpos dos 69 guerrilheiros desaparecidos. A comissão deixou claro, entretanto, que poderia ter tido algum sucesso caso tivesse contado com a colaboração das Forças Armadas. Ao se ver impossibilitada de seguir adiante, a comissão acabou devolvendo o abacaxi, sugerindo a Lula que exija, no prazo de 120 dias, que os militares abram os arquivos secretos do Araguaia.

Ainda neste semestre, o tema Araguaia voltará a assombrar o Palácio do Planalto.

A Comissão Especial dos Mortos e Desaparecidos Políticos (formada por representantes dos familiares, do governo, das Forças Armadas, do Ministério Público, da Câmara dos Deputados e da sociedade) fará uma expedição ao sul do Pará para uma nova tentativa de localizar restos mortais de guerrilheiros. O mínimo que pode acontecer é o retorno do assunto às primeiras páginas dos jornais.

Como se vê, será difícil para o presidente ignorar por muito mais tempo que os mortos assombram seu governo. A gritaria também acontece fora do país. A Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) deverá ainda neste ano julgar o Brasil em um caso que se arrasta há 12 anos e que é acompanhado, com interesse, internacionalmente. Acusação: falta de investigação por parte do Estado a respeito da destruição e da ocultação de cadáveres ocorridas durante os combates à Guerrilha do Araguaia. Caso o Brasil seja condenado, possibilidade hoje bastante grande, será um vexame internacional. Lula, que construiu sua imagem como defensor dos oprimidos, passará a figurar no rol de presidentes cujos governos violaram os Direitos Humanos. “Por que esta dificuldade em abrir os arquivos da repressão, em especial os do Araguaia? Quem não deve não teme”, questiona Jorge Zaverucha, cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e um dos maiores especialistas do país em questões militares.

O Exército insiste na versão de que os documentos da repressão, incluindo os relativos às campanhas no Araguaia, foram destruídos. O governo Lula finge acreditar. O livro secreto do CIE, porém, está aí para quem quiser consultar. Lá está escrita “a verdade”.

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Os olhos azuis que tiraram o melhor sorriso de Dilma

Diga, você, leitor: já viu a presidente Dilma Rousseff com sorriso igual? E olha que ela estava no Haiti, um lugar que inspira pouca graça.

Lula deve estar fulo da vida com Sean Penn e seus ojos azules

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Conheça a marchinha-homenagem ao prefeito de BH: “Começa com M e termina com ERDA”

Olha o ziriguidum do Márcio Lacerda aí, geeeeeeeeeeente

Há tempos o carnaval de Belo Horizonte não prometia tanto. Depois da polêmica em torno da marchinha Na Coxinha da Madrasta (ver post abaixo), agora o sucesso é a marchinha Começa com M e termina com ERDA, singela homenagem ao prefeito da capital, Márcio Lacerda. Ouça as duas marchinhas aqui, no blog do meu competente amigo e padrinho Felipe Patury.

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Querem censurar “Na coxinha da madrasta”!!!

Epa, a política trombou com o humor de novo. Agora, estão querendo censurar a marchinha de carnaval “Na coxinha da madrasta”, inspirada, como dizem no cinema, em fatos reais (e surreais).

Saiba aqui em que pé está a polêmica das coxinhas da madrasta. Aqui, escute a marchinha.

 

 

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O dilema de Aécio e do PSDB

Aécio: ser ou não ser oposição, eis a questão...

O artigo de Marcos Coimbra publicado hoje em diversos jornais (leia abaixo) expõe o dilema de Aécio Neves e do PSDB.

Conhecedor como poucos dos mistérios das eleições, Coimbra diz que o PT tem “dois muitos bons candidatos” a presidente não só para 2014 mas para as eleições seguintes também: Dilma e Lula.

Em contraponto, o PSDB – único partido da oposição que teria vigor para encarar o PT – vive um dilema. Os dois nomes do partido que têm expressão nacional (José Serra e Fernando Henrique Cardoso) são cartas fora do baralho. Já o nome alternativo, Aécio Neves, é conhecido por apenas 20% da população.

Coimbra afirma que Aécio tem três anos, um tempo relativamente pequeno, para ser identificado em todo o Brasil como “o rosto da oposição”. Acontece, porém, que o tucano mineiro, no seu primeiro ano no Senado, se recusou a assumir o papel de líder da oposição. E nada indica que assumirá agora.

Eis o dilema do PSDB e de Aécio.

Serra quer se candidato a presidente, mas não pode.

FHC não quer. E também não pode.

E Aécio pode, mas age como se não quisesse.

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Olhando para 2014

Marcos Coimbra, sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Enquanto se entretinham na contabilidade das crises no ministério e se ocupavam com as escaramuças entre os partidos da base governista, poucos analistas de nossa política perceberam algo que ocorreu em 2011. Trata-se, no entanto, de um fato de consequências mais relevantes que todos esses episódios somados.

Ao longo do ano, Dilma tornou-se uma candidata fortíssima a vencer a eleição em 2014 e a permanecer no cargo até 2018. Com isso, a repetir a performance de Lula e a completar um período de 16 anos de hegemonia petista à frente do governo federal.

A possibilidade sempre existiu. Desde quando foi aprovado o instituto da reeleição (não esquecendo que por iniciativa e intenso trabalho do PSDB e de Fernando Henrique Cardoso), foram raros os casos de ocupantes de cargos executivos – presidente, governador ou prefeito – que perderam a eleição de renovação do mandato.

São as exceções, governantes cuja gestão era considerada péssima ou que enfrentaram adversários notáveis. A regra é vencer, mesmo quando as administrações não enchem os olhos. Na dúvida entre o razoável, mas seguro, e o ótimo, porém incerto, a maioria das pessoas costuma preferir o conhecido. Sem contar que é comum a convicção de que quatro anos não são suficientes para pronunciar-se sobre o trabalho de alguém.

Dilma tinha o problema dos que venceram mais pelo prestígio de um patrono que por seus próprios atributos. Sua vitória veio apesar de quase ninguém a conhecer e de não haver vínculos emocionais entre ela e o eleitor. Seu julgamento poderia, portanto, ser mais severo, e maior o risco de muitos se decepcionarem com ela.

Mas era a sucessora de Lula e se beneficiaria da aprovação das políticas que estavam em andamento e que permaneceriam. E seria, em 2014, a presidente em exercício.

Tudo considerado, era fácil imaginar que Dilma poderia, em tese, ser uma candidata com chance de vencer a reeleição. Salvo se seu governo fosse uma catástrofe.

Terminado 2011, o que vimos foi aumentar a avaliação positiva de seu trabalho. As pesquisas de dezembro e janeiro confirmaram o que já se podia perceber desde o início do ano passado: uma tendência de melhora dos índices de satisfação da população com o governo.

Ela atravessou o desgaste de uma série de problemas no ministério e no segundo escalão, atingidos por sucessivas denúncias, das quais algumas eram verdadeiras e exigiram providências. Enfrentou um ano de complicações crescentes na economia mundial, com reflexos relevantes no nosso desenvolvimento.

Foi aprovada pela vasta maioria da opinião pública e, de candidata potencialmente forte, tornou-se forte no sentido concreto.

É claro que é cedo e que muita água ainda vai correr por baixo da ponte até 2014. Mas é assim que ela começa o segundo ano de governo.

Hoje, o PT tem, portanto, dois muitos bons candidatos à Presidência: Lula – não se precisa demonstrar -, e Dilma. Qualquer um deles, se tivéssemos uma eleição agora, venceria (provavelmente com folga). E ambos têm idade (ele aos 66, ela aos 64) para disputar algumas mais nos próximos anos.

E as oposições?

Como mostram as pesquisas, só têm dois nomes nacionais, de políticos que a maioria da população identifica: FHC e Serra. Nenhum, no entanto, em condições de disputar novas eleições: o primeiro diz que não deseja, o segundo não tem apoio sequer em seu estado e entre seus (ex-) amigos.

O mínimo que deveriam fazer era lançar, o quanto antes, seu candidato “óbvio”, como diz Fernando Henrique. Aécio precisa ser logo identificado como o rosto da oposição, o político que vai representar o “outro lado” em 2014.

Os próximos três anos são indispensáveis para alguém que apenas 20% da população conhece um pouco melhor. Talvez não resolvam, mas não podem ser desperdiçados.

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[ARQUIVO DE REPÓRTER] O segredo dos índios Aikewara

Para sua estreia no Brasil, no ano passado, a revista GQ pediu a mim que fizesse uma reportagem especial. Por sorte, eu tinha uma pauta já em andamento: a história de como a ditadura, no início dos anos 1970, a fim de combater a Guerrilha do Araguaia, havia transformado pacatos índios da Amazônia em mercenários.

Eu tinha uma prova incontestável da operação do Exército, uma mensagem de e-mail de um ex-oficial (na reportagem, explico o que é), mas faltava ainda falar com os índios.

Depois de negociar minha entrada na tribo e arrumar um tradutor de akwáwa (ramo do tupi-guarani), parti para lá acompanhado do brilhante repórter-fotográfico Daniel Kfouri. Passamos alguns dias conversando com os índios da aldeia, trançando de um lado a outro da Transamazônica.

Num dia, demoramos mais que o recomendável na aldeia e voltamos para a cidade já de noite. Os índios nos avisaram que a estrada era perigosa e os assaltos eram frequentes. Como não recebemos convite para pernoitar na aldeia, o jeito foi encarar a Transamazônica de noite.

No caminho, porém, nos deparamos com um caminhão parado, com os faróis acesos, bem no meio da estrada. Parei o carro a cerca de 500 metros. Eu e Daniel ficamos observando, mas nada acontecia. Para nós, aquilo cheirava à emboscada. Decidimos então tomar o rumo contrário da estrada, deserta àquela altura da noite.

Dali a pouco, um carro nos ultrapassou a toda velocidade (nem precisa dizer que nossos corações quase saíram pela boca). De novo, demos meia volta e retomamos nosso rumo original. Chegando mais perto do caminhão suspeito, descobrimos que não era cilada. O caminhão simplesmente havia atolado na rodovia, que apesar de asfaltada tinha buracos onde cabia um fusca inteiro.

Nosso medo nos fez rodar uns 50 quilômetros para nada.

A seguida, a reportagem.

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O SEGREDO DOS ÍNDIOS AIKEWARA

Lucas Figueiredo, para a GQ (abril-2011)

Sob um céu grande angular de nuvens pesadas, o território brasileiro dá um nó – o Norte se encontra com o Nordeste; a Amazônia lambe o Cerrado e três Estados dividem fronteiras (Pará, Maranhão e Tocantins). Talvez poucos lugares do país sejam tão indicados para guardar um segredo como o que ali foi enterrado. Naquele rincão perdido, conhecido como Bico do Papagaio, quatro décadas atrás, teve lugar um dos episódios mais obscuros da história do Brasil: a transformação de índios em mercenários de guerra do Exército para combater a Guerrilha do Araguaia. Agora, o segredo acabou.

Em quatro meses de investigação, GQ reuniu provas que mostram que, no início dos anos 1970, no governo do general-ditador Emílio Garrastazu Médici, a força terrestre fez de pacíficos índios Aikewara – da aldeia Suruí Sororó, no sudeste do Pará – máquinas de caçar e matar homens. Um militar da reserva que participou das operações afirma que, na caçada humana, os índios feitos mercenários não se limitaram a matar. Cortaram cabeças. Era a prova que o Exército exigia do dever cumprido.

Hoje, para chegar à aldeia Suruí Sororó é necessário disposição e paciência. Do aeroporto de Marabá (Pará) – também conhecida como Marabala por causa de seus altos índices de violência com arma de fogo – o carro alugado saltita em zig zag pela Transamazônica, levando a mim e ao fotógrafo e tentando sem muito sucesso evitar as crateras. Quarenta e cinco quilômetros adiante, viramos à direita e pegamos a BR-153, antiga OP-2, construída na época da guerrilha para facilitar a internação de tropas na região. A BR-153, uma via de pistas simples sem acostamento, consegue ser ainda pior que a Transamazônica. A cena é pouco crível, mas real: caminhões atolam no asfalto. Logo à frente, surge São Domingos do Araguaia, uma cidade com pequenas casas de madeira, tristes e feias, muito parecidas com as dos cenários de filmes do velho oeste americano. Mais 50 quilômetros adiante e finalmente alcançamos a entrada da Reserva Indígena Suruí Sororó.

Na aldeia a recepção é tensa. Os Aikewara já sabem qual é o assunto que me traz até lá. Sou conduzido à tenda central da aldeia, a taquapucu, onde, estirados em redes ou sentados em grandes bancos de madeira, cerca de quarenta índios me esperam. São crianças, algumas de colo, jovens e adultos. Entre eles, idosos que, suponho, talvez tenham testemunhado a guerrilha. Mais tarde eu saberia: sob a sombra da taquapucu estavam os sete sobreviventes dos 11 índios feitos mercenários pelo Exército Brasileiro.

Um dos líderes da aldeia, entre gentil e imperial, sugere que eu me sente no banco de madeira à minha frente. Seu nome é Ikatu Suruí (para efeito legal, todos os índios têm o nome da aldeia como sobrenome). Ele tem 34 anos e é o Aikewara mais forte e alto do grupo. Ikatu é amável, o que não o impede de ser firme e extremamente seguro de sua autoridade. É ele quem comanda um quase interrogatório com a palavra franqueada aos demais índios – e muitos perguntam, de forma direta, quando falam português ou, no caso dos monoglotas em akwáwa (ramo do tupi-guarani), por intermédio do intérprete: “O que vem fazer aqui?”, “Por que quer saber as histórias dos índios?”, “Para quem vai contar as histórias os índios?”

A nova geração se empenha em evitar que os mais velhos assumam ter cometido atos de violência. “Os velhinhos são muito inocentes. Nós, que somos novos, respondemos por eles”, assume Ikatu, que grudaria em mim nos dois dias seguintes. O tempo passa e aos poucos, ainda que desconfiados, os índios param de perguntar e começam a responder. Porém, qualquer questão dirigida a um dos sete Aikewara feitos mercenários que envolva as palavras combate, prisioneiro, morto ou corpo é cortada por Ikatu, que nega ter havido confronto direto entre índios e guerrilheiros. No segundo dia na aldeia, entretanto, nos raros momentos em que Ikatu e outros Aikewara jovens se afastam, os mais velhos se aproximam para contar suas histórias.

Desde tempos imemoriais, a vida dos Aikewara é um constante fugir. Primeiro, fugiam da perseguição de índios inimigos. Depois, fugiam de massacres praticados pelos brancos e do risco de extinção. Agora, tentam fugir do passado.

Foi correndo de seus primeiros algozes, os Kayapó Xikrin, no início do século XX, que algumas centenas de Aikewara chegaram à área que ocupam hoje. Era uma gleba de mata tropical fechada, com poucos rios, mas caça abundante. Por ali ficaram. Com a palha das palmeiras, construíram ocas redondas, e com o arco e flecha caçaram macacos, veados, caititus (animal parecido com o javali), tatus e cotias. A ração diária era complementada com o que conseguiam coletar (jabutis, peixes, castanha) e plantar (mandioca, batata doce, milho e banana). Eles não contavam a idade porque isso não era importante, e na aldeia não existia disputa de poder, já que os caciques se sucediam em linha hereditária.

Pela descrição, pode parecer que eram prósperos e felizes, o que não é verdade. Tudo indicava que o destino da tribo era desaparecer.

Como não tinham meios de resistir aos ataques dos Kayapó Xikrin, os Aikewara cultivavam uma tradição terrível: para facilitar as fugas, evitam que as mulheres tivessem dois filhos de colo simultaneamente, e para isso recorriam a meios abortivos ou mesmo ao infanticídio.

O primeiro contato com os Kamará (homem branco) se deu em 1953. Começaram trocando presentes, mas em pouco tempo estavam morrendo pelo chumbo das armas de fogo ou pelas doenças (como varíola e gripe) trazidas por fazendeiros e castanheiros. O impacto do contato com o homem branco, aliado à tradição do controle radical da prole, fez com que os Aikewara entrassem em rota de extinção. Em 1961, sobravam na aldeia apenas 34 índios.

Anos mais tarde, a partir de 1966, os Aikewara começaram a ganhar novos vizinhos: militantes do então clandestino Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que chegavam àquele fim de mundo com a idéia de promover uma revolução armada no país. Era a Guerrilha do Araguaia.

Os índios não tinham a menor idéia do que queriam aqueles homens e mulheres que os habitantes locais chamavam de “paulistas”. “Índio não sabia nada”, explica, num precário português, Warikasú, um dos Aikewara feitos mercenários pelo Exército.

Seis anos depois da chegada dos guerrilheiros, vieram os militares com a missão de destruir o foco de insurreição. Eram 3.400 soldados contra 76 guerrilheiros (69 já estavam no local e sete, a caminho). Ou seja, uma vantagem para as Forças Armadas de 45 para um – vantagem, aliás, ilusória, já que os insurretos dominavam o terreno e os militares, não. Resultado: sem conseguir abafar a guerrilha, a campanha do Exército empacou. Warani, outro ex-mercenário da aldeia, um velho de cabelos brancos na altura dos ombros, encena a desorientação dos militares ao entrar na selva. “Soldado não sabe andar na mata”, sentencia. Foi assim, a partir de uma dificuldade operacional (leia-se, falta de treinamento adequado da tropa para aquele tipo específico de terreno), que surgiu no Exército a idéia de usar os índios para guiar os soldados e, em alguns casos, para assumir os combates. Começava a descida dos Aikewara ao inferno do homem branco.

Na tenda central da aldeia, Tawé se aproxima a passos rápidos, pára abruptamente diante de mim e começa a falar em tom grave. Ele parece ser um dos mais jovens índios feitos mercenários, arregimentado pelo Exército ainda na adolescência. Como nenhum dos índios da geração mais antiga sabe a própria idade, é difícil imaginar com precisão quantos anos aqueles homens à minha frente têm.

Tawé conta que, depois de invadir e tomar a aldeia, os militares semearam o pânico entre os índios. Começaram por queimar as roças e impedir os Aikewara de caçar. “Amarraram o índio e bateram muito, apontaram metralhadora, estupraram mulher do índio”, relata exaltado. “Um dia, soldado pegou Tawé e pai de Tawé [Kuimuá, já falecido] e levou de helicóptero para a mata. Índio tinha muito medo e pensava que tinha feito alguma coisa errada.” Só quando chegaram à selva fechada, Tawé, que na época já falava um pouco de português, soube o motivo do sequestro. “Soldado mostrou fotografia do povo da mata [os guerrilheiros] e disse para índio caçar”. Nos quatro dias em que ficaram na selva, Tawé e Kuimuá não puderam acender fogueiras para cozinhar ou para se aquecer porque corriam o risco de virar alvo dos guerrilheiros. Para sobreviver, comeram jabá cru e alimentos enlatados frios, fornecidos pelos militares.

Umassu, um Aikewara de gestos calmos e sorriso doce, diz que também foi levado para a mata de helicóptero, primeiro para servir de guia dos soldados, depois para “caçar o povo da mata”. Com a ajuda de um intérprete, Warini – aparentemente, o mais velho da aldeia, como demonstram os vincos profundos que cobrem todo seu rosto – conta que quase foi atingido num tiroteio entre soldados e guerrilheiros. Viveu para relatar a história, mas ficou surdo, segundo ele, por causa dos estampidos. Já Warani, o mais bem humorado da aldeia, pára por um momento de rir e de fazer rir e, em português precário, descreve como os soldados o enganaram. “Levaram índio para a mata dizendo que era para caçar macacos e caititus. Mentira! Era para caçar terrorista”, diz ele, usando o termo que aprendeu com os militares. Com sua voz firme e excepcionalmente lenta para um Aikewara, Waiwera narra que, ainda adolescente, foi levado à Serra das Andorinhas, próxima da aldeia, por um homem identificado como cabo Lima, para “caçar guerrilheiros”. Com o dorso nu pintado com pontos pretos a imitar o rasto de um caititu, Massara descreve, com a ajuda do tradutor, que durante “a guerra” ele foi obrigado a passar muitos dias na mata com fome.

Quando pergunto a qualquer um dos ex-mercenários Aikewara como eles lutaram e se no confronto houve vítimas, o clima pesa em torno de nós e os índios se mostram extremamente perturbados. Desviando o olhar, não param de repetir: “Índio tinha muito medo”. Eles admitem ter caçado os militantes do PCdoB – Umassu conta ter presenciado a prisão de Mariadina (Dinaelza Santana Coqueiro), cuja ossada continua desaparecida. E admitem ter visto corpos – Tawé diz que viu cadáveres, e Warini, que presenciou enterros à beira de uma estrada. Mas os Aikewara nada falam sobre as mortes. É como se existisse apenas o antes e o depois, e não o momento em que as vidas foram tiradas.

Para decifrar o limite dos índios, é preciso investigar outra ponta da história, a dos militares. Uma luz surge num documento inédito e de grande valor histórico produzido pelo coronel da reserva Aluisio Madruga de Moura e Souza, veterano dos combates no Araguaia. Num e-mail enviado a um amigo, também coronel da reserva, no dia 6 de abril de 2007, Madruga atesta que os índios de fato participaram da terceira e última campanha militar no Araguaia, a Operação Marajoara. Na mensagem, depois de tecer uma série de comentários sobre os combates, o coronel Madruga faz uma afirmação grave: “O único caso de cabeças cortadas – duas – que tenho conhecimento foi protagonizado pelos índios [da aldeia] Suruí já mais para o final da Operação Marajoara (…)”. Madruga diz também que o caso ficou “restrito” e que mesmo ele desconhece os detalhes.

É a primeira vez que um oficial que serviu no Araguaia atesta no papel que o Exército cooptou índios para a campanha contra a guerrilha. Mais: é a primeira vez que um oficial afirma, por escrito, que, ao cumprir sua missão, os mercenários mutilaram corpos.

Não há porque duvidar da autenticidade do e-mail. Primeiro, porque o endereço do remetente é o mesmo que Madruga usa para vender, pela internet, os livros de sua autoria sobre a luta armada. Segundo porque quem repassou a cópia da mensagem a GQ foi seu destinatário, que datou e assinou o papel de próprio punho.

O coronel Madruga, um carioca de cabelo cuidadosamente penteado e bigode triangular, não é um militar de passado ordinário na caserna. Ele serviu por 35 anos em algumas das instituições mais barra pesada da ditadura – DOI-Codi (Destacamento de Operações de Informações/Centro de Operações de Defesa Interna), SNI (Serviço Nacional de Informações) e CIE (Centro de Informações do Exército). Em 1973, sua experiência na caça a comunistas o levou ao Araguaia. Naquele ano, por seis meses, sob a patente de capitão e o codinome doutor Melo, Madruga participou do comando da Operação Sucuri, que levantou dados sobre a população local (como o grau de simpatia de cada morador em relação à guerrilha) e desvendou o esquema dos insurretos (localização, armamentos e estrutura). Na fase seguinte da campanha, com as informações obtidas pela Sucuri e a ajuda de mercenários (índios e brancos), o Exército dizimou, calcula-se, 56 guerrilheiros.

Hoje, Madruga prefere se calar. “Faz tempo que por decisão pessoal decidi esquecer o assunto Guerrilha do Araguaia”, diz ele. No livro que escreveu 29 anos depois da luta (Guerrilha do Araguaia – Revanchismo – a Grande Verdade), o coronel reconhece que a força terrestre contratou mateiros (homens que conhecem a mata profundamente) para servirem de guias das tropas. Nada diz, porém, sobre os Aikewara. Já no e-mail, ao citar as decapitações, ele insinua que a conduta teria sido de exclusiva responsabilidade dos índios. “(…) [O corte das cabeças de guerrilheiros] causou constrangimento na maioria [dos militares]. Mas índio é índio”, escreveu o coronel.

A suposta vexação dos militares em relação à mutilação de corpos não encontra sustentação na realidade. Uma prova viva disso se acha em Palestina, minúsculo e sombrio município do Pará, distante cerca de 120 quilômetros da aldeia Surui Sororó. Lá, num pequeno sítio com bananeiras, mangueiras e pés de milho, vive Sinésio Martins Ribeiro, de 86 anos, mateiro que serviu de guia para o Exército no Araguaia. Enquanto veste uma camisa para cobrir o dorso com a pele trincada de sol, ele dá um testemunho que ajuda a colocar mais uma peça no quebra-cabeça.

Ribeiro morava em São Geraldo do Araguaia, cidade paraense localizada na divisa com o atual Estado do Tocantins, quando, no final de 1973, o Exército chegou por lá arrepiando. “Queimaram nossas roças e mandaram a gente cortar os pés de banana. O Exército acabou com tudo”, relata. A estratégia das Forças Armadas era estabelecer o controle absoluto sobre a população local, por intermédio do terror, e impedi-la de continuar ajudando os guerrilheiros com alimentos, como vinha acontecendo havia anos. Ribeiro e cerca de 70 moradores da região, todos homens adultos, foram presos e levados para uma base militar montada em Xambioá, outro município do Bico do Papagaio. De acordo com o mateiro, nos dias que se seguiram, os presos foram espancados e alguns deles, obrigados a se sentar em formigueiros ou confinados em buracos escavados no chão e tampados com arame farpado, ao estilo da Guerra do Vietnã. Outros foram mortos. “Mataram muita gente sem necessidade”, diz ele.

As sessões de tortura e maus tratos eram intercaladas com triagens que visavam identificar os melhores mateiros da região – melhores de mata e melhores de tiro. Ribeiro se destacou. Depois de passar dois dias limpando armas do Exército e de mostrar aos militares a diferença de um bagaço de fruta comida por um humano, um boi e uma pipira (ave), ele foi selecionado. É Ribeiro quem conta: “O povo da mata estava isolado, ninguém sabia notícia deles. Aí, [os militares] me chamaram e disseram para eu descobrir onde eles [os guerrilheiros] estavam.”

Para sair dos suplícios da cadeia militar, Ribeiro aceitou a missão. Arregimentou então outros dois experientes mateiros, Iomar Galego e Raimundo Baixinho, e saiu à caça dos guerrilheiros levando como arma apenas a própria espingarda. Antes de partir, o grupo assistiu uma preleção. “Eles [os militares] davam um saco de plástico branco forte e diziam: ‘Derruba o papagaio e tira o bico dele’. Papagaio era como eles chamavam os guerrilheiros, e bico era a cabeça”, relata Ribeiro.

Sentado numa cadeira armada à sombra de uma árvore, o mateiro desenha no chão de terra de seu quintal, com os dedos, para melhor reconstituir a primeira operação do Exército da qual participou. Era final de 1973. Ele e seus companheiros varejavam um local de selva fechada, conhecido como Grota do Cristal, próximo ao município de São Raimundo do Araguaia (PA), quando avistaram três guerrilheiros. Sem serem notados pelos militantes do PCdoB, os mercenários atiraram. Dois insurretos conseguiram fugir, mas Arildo Aírton Valadão, o Ari, ex-estudante de física de 25 anos, caiu morto. No relato, diferentemente dos Aikewara, Ribeiro vai até o fim. “Tiramos a cartucheira e o relógio do Ari. Aí eu peguei meu facão e cortei a cabeça dele. Foi rápido”, conta o mateiro, sem demonstrar qualquer sinal de arrependimento ou orgulho. “Não é difícil, mas tem de arrancar os ossos.” O corpo mutilado foi deixado na Grota do Cristal; a cabeça, levada para uma base do Exército instalada próxima à aldeia Suruí Sororó e entregue a um militar conhecido como dr. César, provavelmente um codinome. “Era a ordem. Não podíamos passar por cima”, explica o mateiro.

Logo depois da operação que resultou na morte de Ari, a primeira realizada exclusivamente por não militares, o Exército soltou todos os moradores da região que ainda se encontravam presos. O tratamento dispensado pelo Exército à população local então mudou – ou, nas palavras de Ribeiro, “amoderou o sofrimento”. O mateiro, na verdade, passou a ser tratado como herói, tanto pela população local, que o via como responsável pela liberdade reconquistada, como pelos militares, que reconheceram nele uma expertise que não possuíam. “Eu cresci lá dentro [no Exército]. Passei a comer na mesa dos militares e tinha intimidade de falar com qualquer comandante”, descreve Ribeiro, agora sim com orgulho.

Diante do resultado considerado satisfatório na ação que terminou com a morte e degola de Ari, a força terrestre formou outros grupos de mercenários (mateiros e índios) e os enviou à mata. “Cortaram cabeças demais”, conta Ribeiro.

Numa dessas novas investidas, o mateiro confirma ter lutado ao lado de índios da aldeia Suruí Sororó. “Diziam que os índios conseguiam rastrear um veado num lajedo. Então, a pedido do Exército, o chefe deles [dos Aikewara] cedeu dois índios”. Ribeiro relata que, nos últimos dias de 1973, retornou à mata com esses dois índios, acompanhado de outros mateiros e alguns militares. Rastreia daqui, procura de lá, e mais uma vez Ribeiro se viu diante dos guerrilheiros, num confronto de vida e morte. “O povo da mata atirou primeiro, de mosquetão, e nós atiramos de volta”, narra ele. “Os índios ficaram assombrados e correram para dentro da mata, chorando. Eles eram frouxos.” (Possivelmente, os índios eram Tawé e Kuimuá, filho e pai que foram levados em pânico à mata. Na aldeia, Tawé foi o único a confirmar ter conhecido Ribeiro.) Terminado o tiroteio, ainda de acordo com o Ribeiro, um militar rastejou até a frente inimiga, encontrando o corpo de Jaime Petit da Silva, ex-professor de 28 anos. “O Jaime estava todo esbagaçado de tiro de FAL (Fuzil Automático Leve, arma utilizada apenas pelos militares)”, descreve o mateiro. Segundo Ribeiro, ele e seus companheiros decapitaram o guerrilheiro.

É verdade que, antes de aderir ao Exército, índios e mateiros foram torturados pelos militares. Mas é verdade também que os mercenários receberam recompensas pelos guerrilheiros abatidos. Quem afirma é Hugo Studart, historiador e pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), observador independente do Grupo de Trabalho Tocantins (GTT), criado pelo Ministério da Defesa para buscar os corpos dos guerrilheiros, e autor do livro A Lei da Selva: Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares na Guerrilha do Araguaia (Geração Editorial). “A tabela de preços, de 5 mil a 15 mil cruzeiros, variava de acordo com a importância e a localização do alvo”, diz o historiador, que prepara um segundo livro sobre a guerrilha. ”Os mateiros cortaram sete ou oito cabeças. Os índios mataram outros tantos, inclusive com decapitados. Ambos, mateiros e índios, foram obrigados a isso para sobreviver. Deve haver até nove corpos de guerrilheiros enterrados em algum ponto da reserva Suruí Sororó”, sustenta Studart.

Outra observadora do GTT que está em contato com os Aikewara, Maria Mercês Pinto de Castro, afirma que, por falta de preparo para o combate na selva, o Exército de fato terceirizou a luta no Araguaia, obrigando índios e mateiros a matar e a mutilar os guerrilheiros. “Todos os homens da região acima de 19 anos, índios e brancos, foram recrutados”, afirma ela. Maria Mercês viaja ao Araguaia desde 1979 a procura da ossada do irmão, o guerrilheiro Antônio Theodoro de Castro (Raul), ex-estudante de farmácia morto aos 28 anos. Hoje, ela auxilia os Aikewara nos processos que eles movem na Comissão da Anistia para receber, na condição de vítimas do regime militar, o benefício financeiro estabelecido pela lei.

Neste trecho da nossa História, a verdade é – e sempre será – perturbadora. Do mesmo modo que é correto dizer que os índios foram vítimas do Exército, é correto também admitir que foi a adesão dos índios à força terrestre que “assegurou-lhes a sobrevivência”. Quem diz isso é Roque de Barros Laraia, professor da UnB e ex-presidente da Associação Brasileira de Antropologia, maior especialista em índios Aikewara no Brasil, com 40 anos de estudos de campo na tribo.

De fato, o fim das operações militares no Araguaia, no início de 1975, coincidiu com uma melhora nas condições de vida dos índios. Em 1977, ainda na ditadura, finalmente a terra dos Aikewara foi demarcada pelo governo federal, alcançando 26,2 mil hectares (o equivalente a 26 mil campos de futebol ou ainda 5% da área de Brasília). É inegável que a posse definitiva da terra e a proteção do Estado trouxe para os índios uma estabilidade até então inédita. Dali em diante, mesmo estando no centro de uma região que crescia com desordem e violência, a aldeia sempre foi um oásis.

Nas duas décadas seguintes, num raio de 150 quilômetros a partir da reserva Suruí Sororó, a terra tremeu com quatro eventos, todos ocorridos no Pará: a construção da maior hidrelétrica 100% brasileira, Tucuruí (1975-84); a invasão de Serra Pelada por 80 mil garimpeiros (1980-92); o início da exploração da maior reserva de mineiro de ferro do mundo, Carajás (1980); e o massacre de 19 sem-terra em Eldorado de Carajás, o pior conflito no campo ocorrido no Brasil (1996). Na região que cerca a aldeia, é possível encontrar hoje, sem grande esforço, quase todos os sinônimos de tragédia social: altos índices de violência, prostituição infantil, extração ilegal de madeira, garimpo, mineração, conflitos por disputa de terra, desmatamento, queimadas, tráfico de drogas, tráfico de armas etc. Não se pode dizer que os Aikewara estejam completamente imunes a tudo isso, mas a vida na aldeia segue tranquila.

Em sua porção de terra, última área de mata nativa da região, os índios têm escola bilíngue, posto de saúde, água encanada e eletricidade. Já são trinta as casas de alvenaria, todas com puxadinho (uma oca de palha e madeira).

De acordo com levantamento feito pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), a aldeia abrigava 330 índios no ano passado. Hoje são aproximadamente 400, segundo os próprios Aikewara. Com o fim da disputa por terra com os Kayapó Xicrin, a tradição de evitar o segundo filho de colo e o infanticídio foram abolidos. As crianças são muitas e brincam descalças na terra fingindo serem onças.

Entre crianças, jovens e adultos, antigos hábitos permanecem inalterados: eles ainda pintam o corpo com tinta de jenipapo e urucum e dançam o Saporahái, evocando seu herói mítico, Mahyra, pai do sol e da lua. E, entre eles, falam preferencialmente o tupi-guarani.

As histórias que os velhos gostam de contar não têm guerrilheiros nem soldados. Só animais que fazem uma grande escada com as flechas dos índios para poder dançar no céu.

Não é difícil entender por que os índios preferem manter no passado o que no passado aconteceu. Mas para uma instituição como as Forças Armadas a coisa não é tão simples assim. Jorge Zaverucha, cientista político e coordenador do Núcleo de Estudos de Instituições Coercitivas da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), defende que a cooptação de índios e de mateiros pelo Exército seja investigada e seus autores, punidos. “Mesmo nas guerras há regras, como a Convenção de Genebra. Mutilar é crime, pois o inimigo já está derrotado, no caso morto.”

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A tentativa de censura ao Blog da kikacastro

Antes tarde do que nunca… Reproduzo abaixo a notícia da infame (e mal sucedida) tentativa de censura ao Blog da kikaCastro.

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Tentativa de censura ao blog

Do blog da kikacastro

Voltei da viagem de férias e encontrei uma surpresinha: uma notificação extrajudicial de uma grande empreiteira, a Caparaó, e da construtora Patrimar Engenharia*, pedindo que tirássemos do ar o post “Novo Ataque à Serra do Curral“, dizendo-se caluniadas, e fazendo uma ameaça de processo judicial.

Não é a primeira vez que recebemos ameaças do tipo, embora a outra interpelação tivesse vindo para um post (“Coronelismo no Ministério Público“) do meu blog anterior, o Tamos com Raiva. E parecia mais perigosa, porque partiu de uma juíza federal. Mas respondemos a ela de forma bem serena, mostrando que conhecemos os direitos constitucionais e que esse negócio de retirar post do ar nada mais é do que uma censura moderna. Também inspiramos a solidariedade de muitos, que a registraram num abaixo-assinado. A juíza desistiu de entrar com o processo e o post continua no ar até hoje, como permite a democracia.

É claro que democracia implica responsabilidades e, se houvesse mesmo calúnia ou difamação, teríamos que arcar com o problema. Diz a Caparaó: “Note-se que a matéria em questão, publicada por V. Sa., no blog em epígrafe, contém informações sensacionalistas e apelativas, imputando fatos falsos e infundados e terceiros, ofendendo a reputação, a dignidade e à imagem das NOTIFICANTES” e mais adiante, que “as informações são falsas e deturpadas”, mas não se dá ao trabalho de apontá-las e, muito menos, refutá-las.

Reli atentamente o artigo agora questionado e não encontrei nele nada além de fatos jornalísticos, análise, interpretação e opinião. No dia em que não pudermos mais fazer isso, é hora de rasgar a Constituição e passar o chapéu do Jornalismo, porque ele terá falido de vez.

Nossos leitores podem ler e concluir sozinhos que o artigo que tanto incomoda à Caparaó não extrapola em nenhum momento o bom jornalismo.

A notificação ainda surpreende mais ao dizer que o post foi publicado também em outro blog, chamado Terrorismo Branco, e exigir que a gente exclua o artigo dos dois blogs! Ora, na verdade, diversos blogs republicaram este post, além daquele, sem comunicar ao autor (porque essa é uma prática comum na blogosfera e que a torna tão especial). E, claro, respeitamos o direito de todos eles de manter o post no ar.

Os dois jornalistas notificados pela Caparaó não somos do tipo que escreve só o que os poderosos querem ouvir (como o faz a revista Encontro, que criticamos naquele post). Nem do tipo que abaixa a cabeça na primeira tentativa de coação dos que se sentiram incomodados pela divulgação de certos fatos e análises. Respeitamos nossos leitores e somos apaixonados pela nossa profissão.

Responderemos por aqui aos notificantes e aos seus advogados: se a empresa quiser se manifestar com um novo artigo, com até o mesmo tamanho que o anterior, não nos objetamos de forma alguma a publicá-lo – até porque respeitamos a inteligência do leitor, que pode ler os dois textos e concluir o que quiser.

No entanto, não vamos retirar o artigo do ar de modo algum, porque isso é submissão a uma censura que nunca deveria existir numa democracia e com a qual não concordamos**. E duvido que algum juiz de bom senso também concorde com isso.

* Na primeira versão do post, esqueci de citar a Patrimar Engenharia, que também entrou como notificante, já que as duas são sócias no empreendimento. Corrijo agora, às 15h05.
** Já nos posicionamos contra a censura em diversos momentos. Vejam alguns, no site do Observatório da Imprensa:
O Empastelamento do Novo Jornal
Elucubrações sobre um arrombamento
A censura está onde a gente menos espera
Por uma imprensa sem demônios

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Ainda a lista dos jornalistas brasileiros mais premiados da história

Outro dia, contei aqui que o site Jornalistas & Cia tinha feito um ranking dos 200 jornalistas brasileiros mais premiados da história. Com o ajuste para correção de dados, pulei da 91º para a 27º posição.

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[ARQUIVO DE REPÓRTER] PC Farias – 10 anos depois

Mais um dia mergulhado na escrito do meu próximo livro. Conforme combinado, segue um novo post da série Arquivo de repórter.

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Em 2006, sem que os culpados tivessem sido apontados pela Justiça, completaram-se dez anos do assassinato de Paulo César Farias (ex-tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello) e sua namorada, Suzana Marcolino. Como o tema me interessava, viajei a Maceió a fim de investigar o que tinha acontecido aos personagens daquela história e, sobretudo, com montanha de dinheiro arrecadado pelo chamado Esquema PC.

Em razão da pauta, dos personagens envolvidos e dos locais que eu iria visitar, um colaborador local, que ajudava com informações, insistiu para que eu andasse com um segurança. Não recusei. O segurança foi escolhido pela própria fonte: um jovem muito sério, empenhadíssimo e extremamente zeloso.

Na véspera de ir embora, me encontrei novamente com minha fonte para agradecer a indicação do segurança. “O rapaz é realmente muito bom”, disse ela. “Se for preciso, ele cozinha, faz serviço de banco e até cava covas”. Foi o jeito que a fonte encontrou para me falar que o homem que tinha feito a minha segurança era também um assassino de aluguel.

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PC Farias – 10 anos depois

Lucas Figueiredo, para o Estado de Minas e Correio Braziliense (28/05/2005)

A cena do crime

Quem matou Paulo César Farias? E onde foi parar a sobra de dinheiro (pelo menos US$ 100 milhões) do Esquema PC? Essas duas perguntas continuam sem resposta mesmo tendo passado 10 anos do assassinato do ex-tesoureiro da campanha presidencial de Fernando Collor de Mello, ocorrido na madrugada de 23 de junho de 1996. O Estado de Minas voltou ao local do crime e descobriu pistas – relacionadas à morte e ao dinheiro – que não foram investigadas à época. Uma delas refere – se à milionária movimentação financeira de Augusto Farias logo após a morte de seu irmão. A ascensão de Augusto – que herdou o comando financeiro e político dos Farias – contrasta com a realidade do restante da família, incluindo os filhos de PC (Ingrid, de 26 anos, e Paulinho, de 24).

O Estado de Minas inicia hoje a publicação de uma série de reportagens especiais que mostrarão o destino de parte do dinheiro do Esquema PC. E que revelarão também fatos novos relacionados ao caso da morte de Paulo César e de sua namorada, Suzana Marcolino.

Fortuna multiplicada

O ano de 1996 representou um marco na vida do ex-deputado federal Augusto Farias. Por dois motivos. Primeiro, no mês de junho, seu irmão Paulo César Farias foi morto com um tiro, juntamente com a namorada, Suzana Marcolino. O crime até hoje não foi solucionado. Segundo, porque, também naquele ano, Augusto iniciou uma impressionante escalada financeira. De forma direta e indireta, em pouco mais de três anos, ele adquiriu quatro fazendas no valor de R$ 700 mil, aumentou seu patrimônio visível em quase 200% e ainda recebeu, por meio de uma empresa, R$ 5,8 milhões sem origem identificada.

Paulo César e Suzana

A súbita ascensão patrimonial de Augusto está registrada em documentos, até hoje inéditos, obtidos pela CPI do Narcotráfico no ano 2000. Na época, Augusto era investigado pela comissão. Entretanto, como ele renunciou ao mandato de deputado federal, as informações referentes à quebra de seus sigilos permaneceram engavetadas, não sendo incluídas no relatório final da comissão. São dados bancários e fiscais de Augusto, de assessores dele (como Marcos Maia) e de empresas (como a Tigre Vigilância Patrimonial) apontadas pela CPI como testas-de-ferro do irmão de PC Farias.

O Estado de Minas resgatou esses dados. Em 1996, Augusto e Marcos Maia (“laranja” e principal assessor do irmão de PC Farias, segundo a comissão) possuíam um patrimônio declarado de R$ 292 mil. Dois anos depois, os bens visíveis da dupla somavam R$ 865 mil, o que equivalente a um aumento de 196%.

Valores ainda mais expressivos constam da movimentação financeira da Tigre Vigilância Patrimonial. Aberta em Maceió em abril de 1997 (dez meses após a morte de PC), a Tigre pertence formalmente a Marcos Maia. A CPI, no entanto, concluiu que, de fato, Augusto era o dono da Tigre, dada a quantidade de documentos pessoais dele encontrados na sede empresa, durante uma blitz realizada em conjunto com a Polícia Federal. De 1997 a 1999, segundo os dados da CPI, a Tigre recebeu R$ 5,8 milhões de origem não esclarecida.

Augusto Farias

O EM entrou em contato com Augusto Farias, mas ele se recusou a falar. “A imprensa só faz matéria negativa. Tem de fazer matéria positiva. Um abraço”, disse ele, desligando o telefone. Contatado pelo celular, Marcos Maia se identificou, mas logo em seguida, após ser informado do teor da reportagem, ficou mudo. O EM ligou novamente e deixou um recado na secretária eletrônica, mas não obteve resposta.

 

Fazendas e casa na praia

Onze meses depois da morte de seu irmão, Augusto Farias comprou quatro fazendas no município de Santana do Mundaú, na zona da mata de Alagoas. Juntas, as fazendas Samambaia, Catuaba, Gruta Funda e Riacho do Brejo somam 2.345 hectares, o equivalente a 125 estádios do Maracanã. Valor do negócio: R$ 700 mil.

A transação foi feita em nome da Bluarte Peças e Serviços,

que controla a Blumare, concessionária da Fiat em Alagoas que pertence à família Farias. Entretanto, documentos encontrados na sede da Tigre, durante uma blitz da CPI do Narcotráfico e da Polícia Federal, indicam que o real dono das fazendas é Augusto Farias. Entre os documentos, estavam uma proposta de filiação da Associação dos Criadores de Alagoas e notas fiscais de compra de equipamentos agrícolas para a fazenda Samambaia, todos emitidos em nome de Augusto.

O EM esteve na fazenda Samambaia, localizada a 120 quilômetros de Maceió. A propriedade, de 2 mil

hectares, destaca-se na região pela sua criação de gado, segundo pessoas ouvidas pela reportagem.

De fato, Augusto é um produtor de porte. Um ano depois da morte de PC Farias, Augusto vendeu 466 cabeças de gado no período de 19 dias. Logo depois, entre julho e outubro de 1997, vendeu mais 220 vacas.

Na mesma época do assassinato de seu irmão, Augusto deu início à construção de uma casa de 387 metros quadrados na Praia Bonita, município de Barra de São Miguel, a 40 quilômetros da capital. Trata-se de uma das regiões mais valorizadas de Alagoas, em razão da beleza de suas praias e de seu forte apelo turístico.

Relatórios da obra encontrados na sede da Tigre, em que aparece o nome de Augusto, mostram o material gasto na casa entre junho de 1996 (mês em que PC morreu) e setembro daquele ano. A certidão de habite-se da propriedade foi emitida em março de 1998. Corretores de Alagoas consultados pelo EM afirmaram que um imóvel como aquele vale no mínimo R$ 300 mil.

O mistério do dinheiro

Procuram-se US$ 100 milhões. Esta seria a sobra do chamado Esquema PC Farias, cujo destino até hoje permanece ignorado. Apesar do mistério, passados 10 anos da morte de Paulo César, é possível apontar, entre personagens que gravitavam em torno de sua órbita, quem ganhou e quem perdeu dinheiro.

Com exceção de Augusto, a família Farias perdeu. É o que demonstram fatos e revelam pessoas bem informadas em Alagoas. A queda no nível financeiro atingiu até mesmo os dois filhos de PC (Ingrid, de 26 anos, e Paulinho, de 24).

Já testas-de-ferro de Paulo César enriqueceram da noite para o dia, confirmando a suspeita do próprio empresário de que ele teria sido roubado durante o período em que esteve na cadeia (dezembro de 1993 a dezembro de 1995).

Na época dos escândalos que culminaram com o impeachment de Collor, a Polícia Federal calculou que o Esquema PC teria arrecadado, entre 1989 e 1992, US$ 1 bilhão. Desconsiderando possíveis exageros, dificilmente o montante recolhido teria sido menor que US$ 600 milhões. Desse total, segundo investigadores que aturam no caso, foram gastos no máximo US$ 500 milhões nas campanhas eleitorais de 1989 (para presidente da República) e 1990 governadores, deputados e senadores) e em gastos pessoais de Collor, dos Farias e de outros participantes do esquema. Sendo assim, pelo menos US$ 100 milhões teriam desaparecido.

Uma coisa é certa: mesmo sendo dono de apenas parte do dinheiro, PC era quem movimentava quase a totalidade dos recursos.

Quem imaginava que a família Farias ficaria com o dinheiro errou. À exceção de Augusto, o clã deu sinais de ter passado por dificuldades financeiras. O jornal Tribuna de Alagoas, criado por PC a um custo de US$ 5 milhões, teve de ser arrendado. Ironia do destino: foi por causa do jornal que Pedro Collor, sócio do concorrente Gazeta de Alagoas, denunciou o esquema de corrupção que tomava conta do governo de seu irmão.

Sem condições de tocar o jornal, os Farias preferiram arrendá-lo para o usineiro Bob Lyra, um dos homens mais ricos do Estado. Dupla ironia. Bob é aliado do governador Ronaldo Lessa (PDT), principal adversário do PTB, partido de Augusto Farias. Ou seja, o jornal criado por PC ainda pertence a sua família, mas na prática serve a interesses políticos contrários aos dos Farias.

Outra perda da família de PC pode ser verificada naquela que, durante anos, foi o sustentáculo empresarial dos Farias: a Blumare, concessionária da Fiat de Maceió. Por causa das dívidas acumuladas, a empresa teve de ceder cotas a outros grupos empresariais do estado. Hoje, a Blumare ainda é dos Farias, mas a participação da família é bem menor do que já foi no passado.

Os filhos de PC têm um padrão de vida elevado, mas não estão nadando em dinheiro. Após a morte do pai, Ingrid e Paulinho fixaram residência em Maceió e passaram a viver do aluguel da casa de PC, uma mansão com cinco suítes e terreno de 4 mil metros quadrados. O dinheiro, no entanto, não foi bastante para arcar com os elevados gastos dos irmãos. Eles então começaram a alugar a casa de praia onde o pai foi morto, no bairro de Guaxuma, Maceió.

A casa está localizada num terreno privilegiado, mas não tem luxo. Tem três quartos, uma pequena piscina e é feita de madeira. A diária custa R$ 400. Muitos dos que a alugam são jovens de Maceió que buscam um lugar discreto e tranqüilo para namorar. Outra ironia do destino. PC usava a casa justamente para namorar, como fazia com Suzana Marcolino, com quem foi encontrado morto.

Procurada pelo Estado de Minas, Ingri não quis se pronunciar. “Não gosto de falar sobre esse assunto (a morte do pai). Procure meu tio (Augusto Farias)”, disse ela. Augusto, no entanto, também se recusou a fazer comentários.

Quem saiu ganhando foram alguns “laranjas” de PC. Após a morte do empresário, vários deles simplesmente embolsaram dinheiro e ficaram com bens que pertenciam a Paulo César. Meses atrás, a família Farias fez uma reunião para discutir como reaver R$ 3 milhões que teriam sido “incorporados” por um testa-de-ferro de PC que vive na Paraíba. Em rodas de amigos, os Farias não se cansam de reclamar dos “laranjas” que enriqueceram da noite para o dia depois da morte de PC. O próprio Paulo César, poucas horas antes de morrer, já reclamava que estava sendo roubado.

Dias antes de ser assassinado, PC reuniu-se com os argentinos Luís Felipe Ricca e Jorge Osvaldo La Salvia, que apareciam como titulares de contas bancárias do empresário no exterior. No encontro, realizado na casa de praia e na presença de Suzana, Paulo César discutiu com La Salvia por achar que o dinheiro guardado pelo argentino encolhera. Foi o próprio Ricca quem contou o caso a procuradores italianos que investigavam os negócios de PC na Europa. Foram os mesmos procuradores, aliás, que conseguiram congelar duas contas bancárias de Paulo César na Suíça, sendo uma delas em nome de sua mulher, Elma, morta em 1994. Até hoje, o governo brasileiro não fez esforços para reaver o dinheiro dessas contas.

Outro que saiu no lucro foi o braço direito de PC, o piloto Jorge Bandeira de Mello. Depois de cozinhar para Paulo César no período em que ambos passaram foragidos no Paraguai e na Argentina, Bandeira abriu vários negócios, mas acabou se firmando como dono de restaurante.

Pertence a Bandeira o Le Corbu, o restaurante mais requintado de Maceió. O lugar tem decoração moderna e oferece uma excelente cozinha francesa contemporânea. Dez entre dez endinheirados de Maceió freqüentam o restaurante. Às sextasfeiras, os irmãos Farias costumam dividir uma mesa. Foi num desses encontros que eles se queixaram do “laranja” da Paraíba que surrupiou os R$ 3 milhões de PC.

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[ARQUIVO DE REPÓRTER] Deu a louca no serviço secreto

Mais um dia mergulhado na escrito do meu próximo livro. Conforme combinado, segue um novo post da série Arquivo de repórter.

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Desde 1998, quando comecei as pesquisas que desaguariam em Ministério do Silêncio – A história do serviço secreto de Washignton Luís a Lula (1927-2005), tenho tentado acompanhar os bastidores do serviço secreto, que hoje responde pela sigla Abin (Agência Brasileira de Inteligência). Em 2007, por intermédio de uma fonte de dentro do serviço, soube que algumas comunidades de agentes da Abin usavam as redes sociais para trocar ideias e opiniões – além de reclamar dos chefes. Segui os rastros e descobri o divã do serviço secreto. O resultado foi uma reportagem especial para a Rolling Stone.

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Deu a louca no Serviço Secreto

Lucas Figueiredo, para a Rolling Stone (outubro de 2007)

“Se os repórteres entrassem aqui, (…) a fachada da Abin iria por água abaixo.” A mensagem, assinada por alguém que se identifica como Desmascarador, era uma entre tantas outras postadas nos fóruns de discussão que pipocam a cada dia patrocinados por funcionários e ex-funcionários da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) – nome e sigla atuais do serviço secreto do Brasil. As salas virtuais onde os arapongas se encontram surgem do nada, crescem como hera e, na maioria das vezes, desaparecem sem deixar rastro. No tempo em que permanecem no ar, entretanto, retratam a fase difícil pela qual passa a Abin.

Nas rodas virtuais de que Desmascarador, mais conhecido nos fóruns do serviço secreto como Desma, participa, ninguém se importa em saber o que é real ou inventado na sua sua ficha-perfil ou identidade. Afinal de contas, segredo é a chave do negócio dessa turma. Todos ali (Desma, Maria Cláudia, Mestre, JClayton, Flobela Dalma, Agente 86, Almeida, 4366, Sun Tzu BR, entre outros) são agentes secretos.

No ano em que o serviço secreto brasileiro completa 80 anos, muitos de seus agentes resolveram usar a internet para debater (e denunciar) a crise que assola a instituição.

Agente 86, o da TV

Nos fóruns, os agentes tratam de temas como a evasão contínua de pessoal causada pelo descontentamento, a falta de rumo da instituição, os baixos salários e um certo apego do órgão ao passado negro da ditadura militar. É roupa suja que não acaba mais. Segui a dica de Desma e durante quatro meses, guiado por uma fonte da Abin, visitei diariamente oito fóruns virtuais mantidos por agentes e ex-agentes secretos. Depois de ler centenas de mensagens, a conclusão é uma só: a barra está pesada.

E pesada para todo mundo. A crise de identidade no serviço secreto não fica restrita ao corpo de agentes. Atinge também a cúpula do órgão. Para comemorar os 80 anos da atividade de inteligência no Brasil, a direção da Abin produziu recentemente uma cartilha com a história da instituição. Em vez de se ater aos fatos, entretanto, a cúpula do órgão optou por reescrever, com tintas mais amenas, o que aconteceu com o órgão nessas oito décadas (e sobretudo o que ele fez acontecer). Em resumo: para tornar seu passado menos sombrio, o serviço secreto encarnou Poliana. Assim, o que era pecado virou virtude. O desvio dos homens foi tratado como caminho natural das coisas. A anomalia se tornou uma regra. E a tragédia, uma realização a ser contemplada.

Somando a delirante releitura da História feita pela direção da Abin com a catarse pública de seus agentes, o quadro final sugere que o problema é coisa para ser resolvida em divã. O serviço secreto, por assim dizer, perdeu o eixo.

Ao contrário do que se poderia imaginar, a quase totalidade dos fóruns virtuais freqüentados por agentes secretos brasileiros é aberta ao público. Para se ter idéia do que isso representa, basta ver o que acontece neste momento nos Estados Unidos. As agências de inteligência norte-americanas, incluindo a CIA, se preparam para ingressar, a partir de dezembro, no A-Space, uma comunidade on-line criada para que agentes de diferentes órgãos possam trocar informações com segurança. Dividido por área de interesse (terrorismo, narcotráfico, lavagem de dinheiro etc.), o A-Space terá acesso restrito, ou seja, quem não for agente secreto não entra. Mesmo com todos os cuidados tomados para barrar a entrada de estranhos, a iniciativa está sendo definida dentro da própria CIA como “o pesadelo da contra-informação” (contra-informação é área encarregada de evitar a espionagem inimiga).

Logo da CIA: nos EUA, águia;. aqui, carcará

Se nos EUA é assim, no Brasil a coisa é diferente. É fácil entrar nas salas de bate-papo da comunidade de inteligência brasileira. Difícil, porém, é encontrá-las. A vida útil dos fóruns é curta, e seus freqüentadores vivem pulando de um endereço virtual para outro. Nos quatro meses em que rastreei conversas dos agentes secretos na internet, quatro salas foram fechadas sem aviso prévio. Do dia para a noite, fóruns que antes davam acesso a discussões acaloradas (como Abin Discussão, Inteligência Civil e Abin Vale Tudo, hospedados no Yahoo) passaram a exibir a irritante expressão “grupo não encontrado”. Dos fóruns que permaneceram na ativa, destacam-se o Analistas da Abin e o Carcará Sanguinolento.

O Carcará Sanguinolento é onde a turma pega mais pesado. Foi criado em abril deste ano pela Associação dos Servidores da Abin (Asbin), entidade que reúne agentes secretos e que, historicamente, mantém uma relação conflituosa com a direção da Abin. Maria Cláudia (a da foto da Shakira) é uma das freqüentadoras do fórum, assim como X Files, Milico, Alvinegro, Coisoruim, LeCarrè e Honesto.

No mesmo dia da inauguração da sala virtual, ASDF fez o seu registro. E, no único comentário que postou, foi direto ao ponto: “Creio haver uma crise de identidade no órgão”. ASDF citou especificamente a “luta fratricida” entre os servidores da Abin, os constantes vazamentos de informações e o descrédito do serviço secreto perante a sociedade.

Outro que joga suas críticas no ventilador é o presidente da Asbin, Nery Kluwe, o único agente que se identifica no fórum com seu nome e sobrenome verdadeiros. “A agência tem um gene de que o governo não gosta. O gene do passado, o gene do araponga, que, antes de ser um observador apto e competente dos fatos, vive de bisbilhotar, de atemorizar, de constranger, de impedir o exercício de direitos, de maldizer, de pré-julgar, enfim, de agir atabalhoadamente, inspirado numa crença inarredável de sua própria idiotização e mediocrização”, escreveu Kluwe num de seus muitos posts explosivos.

Desde a inauguração do Carcará Sanguinolento, o dirigente usa o fórum para bater forte na direção da Abin. “Vivenciamos falta de gestão, formação deficiente, relacionamentos complicados, soberba, entulho autoritário dos tempos negros da História, afronta aos direitos e às garantias fundamentais, assédio moral, enfim…”. Em outra mensagem polêmica, Kluwe relacionou a inércia da Abin, que pouco produz hoje em dia, com os baixos salários pagos aos agentes: “Se ao que parece fingimos que trabalhamos, o Governo, a seu turno, finge que nos paga”. Kluwe, no entanto, também apanha nos fóruns. Já foi acusado por seus colegas de vazar informações da Abin para a imprensa e de criticar muito mas fazer pouco para debelar a crise no órgão. “Todas as reclamações são bem-vindas. Gostamos de porrada (de levar e dar)”, respondeu ele, num post, ao ser criticado por Thumper.

A crise atinge, em especial, os novos agentes. Desde 1994, o ingresso no serviço secreto é feito mediante um concorridíssimo concurso público – uma exigência algo bizarra da Constituição. A peneira é fina. Os candidatos a James Bond tupiniquim têm de dominar pelo menos uma língua estrangeira e ter curso superior. O salário inicial, contudo, é baixo: cerca de R$ 3.500, líquido.

Além do incentivo financeiro pouco expressivo, a jovem guarda do serviço secreto se depara com uma instituição sucateada e dirigida por veteranos do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI), o avô da Abin que serviu de sustentáculo à ditadura militar (1964-1985). Nesse contexto nada promissor, os chamados “concursados” ainda são impedidos de ascender aos cargos mais altos, sobretudo àqueles ligados à área de operações (ou seja, as atividades de espionagem). Na maioria das vezes, eles ficam lotados em áreas mais burocráticas, processando informações de fontes abertas. Em outra palavras, lendo jornais, revistas e publicaçõs especializadas do Brasil e do exterior.

O resultado é um descontentamento gigantesco entre os agentes da nova geração – descontentamento que se transforma em índices de evasão de até 70% nas turmas aprovadas em concurso. “Quer entrar na Abin para ser o quê? Administrador? Tradutor? Instrutor de idiomas? E nada mais? Ou pensam em executar uma atividade de espionagem de Estado propriamente dita? É bom avisar para que não entrem numa furada e se frustrem, se acaso seu objetivo for atuar de verdade como agente secreto”, alertou Desmascarador numa mensagem dirigida aos candidatos a agente secreto, assíduos freqüentadores dos fóruns.

Como dois terços dos novatos acabam tirando o time de campo e o outro terço não tem chances de ascensão, a Abin vem experimentando, nos últimos anos, uma atrofia perigosa. De 5 mil funcionários no início da década de 1980, auge dos tempos do SNI, restam hoje cerca de 1.500, muitos deles à beira da aposentadoria. O fosso entre a nova e a velha guarda, aliado à falta de clareza quanto ao papel institucional da Abin no pós-ditadura, vem provocando uma paralisia no serviço secreto. Em poucas palavras: as atividades clássicas de espionagem são coisa cada vez mais rara na Abin.

A inércia do serviço secreto é um tema recorrente nos fóruns. Que o diga Milico. “Para corroborar com a opinião de todos, declaro que na minha unidade nada se faz”, escreveu o araponga, no Carcará Sanguinolento, às 9h08 do dia 1º de junho. Mais explícito ainda foi Kluwe: “Se não nos insurgirmos contra esse malsinado processo de fazer inteligência com a bunda na cadeira e o dedo na internet, somos desonestos com o país, com a agência e com nós mesmos!”.

Outro campeão de audiência nos fóruns dos arapongas são as medidas implementadas por Márcio Paulo Buzanelli, diretor-geral do serviço secreto demitido no início do mês passado. Nos dois anos de sua turbulenta gestão, uma das principais realizações da Abin foi um programa que visava aproximar a agência das crianças e dos adolescentes. Um dos frutos dessa iniciativa é uma revista em quadrinhos em que o personagem principal, Agente Jovem, conversa com um cachorro chamado Paco (o mesmo nome do cão de Buzanelli), escapa de jacarés na Amazônia e ajuda a prender contrabandistas de animais silvestres. Não pára por aí. No site da agência (www.abin.gov.br), foi criado um teste para crianças com perguntas do tipo “Qual é a cor do cavalo branco de Napoleão?”.

Símbolo da Abin: carcará na área

Buzanelli instituiu também uma nomenclatura nova para os cargos do serviço secreto, inspirada nas Forças Armadas. Com a mudança, o diretor-geral passou a ser chamado de comandante, os agentes são tratados por oficiais, os funcionários de nível mais baixo são subcomissários e assim por diante.

Oficial da reserva do Exército, da arma de infantaria, Buzanelli também criou um hino para a Abin. Ele próprio fez a letra e depois montou uma parceria com o general Paulo Uchôa, titular da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), que fez a música. Em tom marcial, o hino é de fazer inveja nos quartéis. A gravação original é executada por uma banda militar, com fartura de pratos, taróis e uma poderosa tuba. A canção tem passagens como “Nós somos da inteligência brasileira/Anônimos heróis na busca da verdade/Servir sempre em silêncio temos por bandeira/E à pátria consagrar nossa lealdade” e “A Abin é a luz forte que dissipa a escuridão/Desfaz as incertezas e desvenda o sorrateiro” ou ainda “Salve! salve! a nossa pátria brasileira/Orgulho temos nós em tê-la num altar”. Aos amantes da música trash-verde-oliva, vale a pena ouvir o hino, disponível no site da Abin.

A canção, é claro, não poderia passar batida nas discussões virtuais dos agentes secretos. O araponga que se esconde sob o pseudônimo Carcará Sorrateiro (não confundir com o fórum Carcará Sanguinolento) fez uma versão do hino e, como mostram dois trechos da letra, a intenção foi das piores: “Nós somos da insipiência brasileira/Anônimos bocós em busca de copiar/Servir sempre em silêncio temos por arreios/E ao marechal fingimos nossa lealdade” e “Abin é a cruz pesada que temos de carregar/Copiando e colando – tudo muito sorrateiro”.

O pseudônimo escolhido por Carcará Sorrateiro é uma referência jocosa ao símbolo da Abin, outra criação da lavra de Buzanelli. Desde 2005, o serviço secreto brasileiro é representado pelo carcará, espécie de falcão, encontrado na América do Sul, celebrizado na possante voz de Maria Bethânia (“Carcará, pega, mata e come”). A escolha do carcará não agradou a todos, como mostram os fóruns dos arapongas (aliás, outra ave, conhecida pelo grito estridente). “Não é à toa que a ave-símbolo da atual gestão é o carniceiro gavião carcará, ave que disputa território com urubus”, escreveu Libertas. Kluwe vai na mesma linha: “O carcará é uma ave carniceira, que inclusive come seus próprios companheiros. Se nossa ave-símbolo devora os próprios companheiros, o que podemos esperar dos companheiros do governo?”.

Maria Bethânia: "pega, mata e come"

Se dependesse de Carcará Sorrateiro, como ele próprio expôs em suas inconfidências virtuais, seriam outros os personagens a representar a Abin: o inesquecível Agente 86, o não menos desastrado agente Austin Powers, além dos Três Patetas e do boneco Pinocchio. Moral baixa é isso aí. “A Abin não faz nada. O trabalho se resume a elaborar relatórios baseados em informações da imprensa e em alguns poucos dados de origem duvidosa, coletados, em sua maioria, por outros órgãos”, afirma ele.

Durante os preparativos dos Jogos Pan-Americanos no Rio, a baixa produção da Abin foi um tema constante. No dia em que o Jornal Nacional, da TV Globo, exibiu uma reportagem mostrando o Centro de Inteligência dos Jogos (CIJ), coordenado pelo serviço secreto, choveram comentários maliciosos. O primeiro post foi de Milico: “Apareceu (na reportagem) até o grandão que faz o malote no Rio, e o carcará-mor (Buzanelli) com aquele velho discurso de segurança nacional, informação, estratégia. Dizem que vai haver uns telões lá mostrando toda a movimentação. Que movimentação? Alguém tem noção da movimentação que vai haver nesse Pan no Rio? Esse pessoal vai ficar é vendo os jogos, ficar o dia inteiro na internet. Imaginem a final do vôlei ou do futebol com a presença do Brasil. Alguém acredita que eles (agentes designados para o CIJ) não vão ficar vendo os jogos? Isso tem de ser motivo de piada geral na comunidade de inteligência. Só o Brasil mesmo para mostrar (na TV) a sua central de inteligência. Na verdade, não passa de pura propaganda e muito mal feita. Viram só as telinhas de computador com o logotipo do carcará, tudo bonitinho? Viram só as plaquinhas azuis de terrorismo, crime organizado? A Abin analisando crime organizado no Rio de Janeiro? Fala sério!”.

Carcará Sorrateiro foi na mesma linha: “A Abin vai para o Pan-2007 fazer figuração. Quem vai garantir mesmo a segurança são as polícias e as Forças Armadas. Mas a presença da Abin é importante, pois vai render diárias para os apadrinhados”. O comentário recebeu o apoio de Zimmermannac: “O pessoal que está indo agora para o Pan só vai para curtir uma viagenzinha lúdica. As vagas foram disputadas no tapa. O pessoal só está se preocupando em não esquecer a roupa de banho e questões de hospedagem para a curtição total. Trabalho que é bom, nada. Analistas que já estiveram previamente nas instalações do CIJ constataram que na estrutura montada praticamente não há nada para a Abin fazer, a não ser aparecer na foto, como sempre. Tudo que possa ocorrer nos jogos já está devidamente dividido entre os órgãos que realmente vão agir em caso de anormalidades. A Abin não faz nada, como é de praxe”.

A Rolling Stone pediu ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), a quem a Abin é subordinada, que comentasse as críticas expressas nos fóruns virtuais dos agentes secretos. A resposta foi lacônica: “As observações não expressam o pensamento do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República nem da Agência Brasileira de Inteligência”.

A verdade é que a agência se preocupa (e muito) com a lavação de roupa suja em público promovida por seus agentes. Em dezembro do ano passado, por meio da portaria número 472, a Abin instituiu um código de ética em que impõe a lei do silêncio entre seus servidores. Além de, enfática e reiteradamente, proibir os agentes de revelarem informações do serviço secreto, o código estimula os servidores da Abin a denunciar colegas responsáveis por vazamentos. Nas 12 páginas do código, os agentes são lembrados nove vezes do dever de resguardar informações internas e denunciar aqueles que não o fazem. O artigo 5º alerta que “o servidor da Abin deve zelar pela imagem de sua instituição, garantindo a preservação do sigilo das informações e dos métodos e técnicas operacionais”. O estímulo à denúncia aparece várias vezes. Só no artigo 7º, a obrigação de delatar possíveis gargantas profundas é estabelecida quatro vezes. No trecho relativo aos deveres dos servidores, é imposto como norma “ser leal para com a sua instituição e dar conhecimento imediato à autoridade superior de qualquer fato relativo aos interesses” da Associação Brasileira de Inteligência. O código de ética estabelece três sanções para quem violar as normas: censura, encaminhamento do caso à direção geral para abertura de processo administrativo e exoneração daqueles que ocupam cargo de confiança.

Os fóruns, como não poderia deixar de ser, também refletem a preocupação da direção da Abin com a segurança interna. Numa mensagem postada em maio, decorada com uma carinha triste cercada de interrogações, Agente 86 escreveu o seguinte: “Gostaria de sugerir que este fórum (o Carcará Sanguinolento, da Abin) fosse de acesso restrito aos servidores cadastrados, pois acho uma vulnerabilidade tratarmos de assuntos sensíveis em um espaço passível de acesso a qualquer um”.

A sugestão foi rechaçada. Revelações foi o primeiro a discordar do colega. “Sugiro que não se feche à sociedade este fórum. A sociedade é que nos sustenta com seus impostos e não me parece correto deixá-la no escuro ou bloqueada no que se refere ao futuro e ao presente da Abin”. Kluwe, a quem caberia a decisão final sobre o assunto, descartou a possibilidade de restringir o acesso ao fórum: “Cada um de nós deve ter em mente os estritos limites da confidencialidade ou não dos assuntos abordados. Se auto-censurem, se assim o desejarem. O fórum não censurará ninguém. Qualquer perspectiva de cerceamento seria odiosa e inaceitável”.

A atitude de confronto assumida por Kluwe já lhe valeu um processo administrativo por suspeita de vazamento de informações sigilosas. Nada, porém, foi provado. O que é certo é que o agente não perde uma oportunidade de zoar com a falta de rumo da Abin. No ano passado, a Associação dos Servidores da Abin fez uma enquete em seu site em que perguntava quem deveria ser o novo diretor-geral da agência. Seis opções foram colocadas à disposição:

A) Um profissional do quadro;
B) Um servidor estranho ao quadro;
C) Sargento Garcia;
D) Zorro;
E) O cachorro Muttley, parceiro de Dick Vigarista;
F) O cão Paco (o personagem do gibi da Abin).

Muttley: Abin, faça alguma coisa...

Muttley largou na frente e logo estava disparado na liderança. Foi quando a direção da Abin decidiu recuar e alterou a enquete. Assim, restaram somente as opções A e B, as mais recatadas. “Modifiquei em razão de um pensamento, minoritário e conservador, que achava que nós estávamos avacalhando”, explicou Kluwe na época.

(Uma explicação: Muttley – aquele que sempre pede medalha, medalha, medalha – era mais uma referência à gestão Buzanelli, que mandou fazer medalhas para condecorar servidores que se destacam e “personalidades” de fora do serviço secreto. Os galardões estão disponíveis em 17 versões.)

Enquanto agentes secretos passam os dias a maldizer o presente da agência, sua cúpula briga com o passado. Para comemorar os 80 anos da atividade de inteligência no país, a Abin produziu uma cartilha para contar a história do órgão. O problema é que o texto não se fixa, digamos, apenas na realidade. O início até que vai bem: conta como o embrião do serviço secreto foi criado em 1927, dentro do Conselho de Defesa Nacional, pelo presidente Washington Luís, e relembra o primeiro nome do órgão, instituído em 1958 – Serviço Federal de Informações e Contra-informação (Sfici). Daí em diante é que vêm os escorregões.

General Golbery do Couto e Silva: padrinho do serviço secreto

De acordo com a cartilha, no auge da Guera Fria, o Sfici “começou a atuar cooperativamente com os países do chamado bloco ocidental”. Huummm, não foi exatamente assim que a coisa se deu. A criação do Sfici, pelo presidente Juscelino Kubitschek, foi, na verdade, uma imposição dos Estados Unidos, transmitida pelo então secretário de Estado, John Foster Dulles. Uma comitiva brasileira chegou a viajar aos EUA para aprender, com o FBI e a CIA, técnicas de caça aos comunistas. (Um dos integrantes da comitiva era o jovem capitão Rubens Bayma Denys, que mais tarde se tornaria general e ministro de Estado nos governo José Sarney e Itamar Franco.) Um agente da CIA, Alfred Pease, que acompanhou a comitiva brasileira durante todo o tempo, foi posteriormente deslocado para o Rio de Janeiro, onde passou a dar plantão no Sfici. Ou seja, cooperação não é o substantivo mais apropriado para retratar a relação existente, no final de década de 1950, entre o serviço secreto brasileiro e o governo dos Estados Unidos. Subserviência talvez seja mais adequado.

A cartilha da Abin se perde de vez quando trata de temas relacionados à ditadura. Para início de conversa, o golpe militar, que inaugurou 21 anos de trevas no país, é descrito da seguinte maneira: “O Brasil, no início da década de 1960, apresentou um cenário interno bastante conturbado, gerando manifestações de segmentos da sociedade. O quadro evoluiu para uma intervenção militar no processo político nacional em 1964″. O discurso é empolado, mas só serve mesmo para enrolar. “Intervenção militar” é golpe, e ponto final. E golpe militar em regimes democráticos – é preciso que se diga isso com todas as letras – nunca é a evolução de um quadro, mas sim interrupção. Sorte nossa que a cartilha da Abin não é adotada nas aulas de História.

A agência também pisa em ovos ao falar do seu antecessor, o famigerado SNI. A cartilha diz, por exemplo, que o Serviço Nacional de Informações operava com base num “ordenamento jurídico” próprio, criado “em face das exigências conjunturais”. Errado! O que aconteceu de fato foi que, na tentativa de justificar o injustificável, os governos militares baixaram inúmeras normas e diretrizes para o SNI. Era como se o crime passasse a ser legal. Com base nesse “ordenamento jurídico”, o SNI vigiou e perseguiu os adversários do regime e forneceu suporte aos órgãos da repressão, responsáveis pela tortura de milhares de pessoas e pelo assassinato de pelo menos 380 brasileiros. A cartilha também oculta que o fundador do SNI, general Golbery do Couto e Silva, rejeitou a própria cria, na década de 1980, dizendo a célebre frase, à la doutor Victor Frankenstein: “Criei um monstro”.

O fim da ditadura e a redefinição dos rumos do SNI também receberam tintas amenas na cartilha da Abin. O enquadramento do serviço secreto às normas do Estado Democrático de Direito foi chamado de “depuração do organismo” com o objetivo de eliminar “de suas funções as possíveis tarefas que extrapolassem sua efetiva competência”. Trocando em miúdos: o serviço secreto deixava de ditar quem ia morrer, quem seria torturado, quem seria perseguido e quem deveria deixar o país.

Ao narrar a mudança de sigla no serviço secreto, em 1999, quando o órgão passou a se chamar Abin, a cartilha também não conta toda a verdade. “Com o fim da Guerra Fria, houve um novo redirecionamento de interesses no cenário político e econômico mundial. Mudaram os inimigos e os alvos a serem alcançados”, diz o texto. Que a Guerra Fria acabou, não restam dúvidas. Mas daí a dizer que mudaram os inimigos do serviço secreto já é exagero.

Diferentemente do que fazem seus congêneres de países democráticos (como a CIA nos EUA, o MI-6 na Inglaterra, o BnD na Alemanha e a DGSE na França, que só têm autorização para agir no exterior), a Abin atua dentro do território nacional, bisbilhotando a vida de cidadãos brasileiros. O foco no chamado “inimigo interno” pouco mudou. Para a Abin, os movimentos sociais continuam sendo vistos como uma ameaça em potencial ao país, um alvo a ser vigiado e combatido, independentemente se atuam dentro ou fora da lei. Essa visão ficou expressa na resolução final do 1º Encontro Técnico dos Serviços de Inteligência dos Países da América do Sul, patrocinado pela Abin, em outubro de 2003, ou seja, já no décimo mês do governo Luiz Inácio Lula da Silva. No documento, o serviço secreto brasileiro combinava, com seus parceiros, vigiar os movimentos que tratavam da “questão da pobreza”, por temer que eles pudessem “representar ameaças, preocupações ou desafios a interesses estratégicos dos países da América do Sul”. Quer dizer, enquanto Lula inaugurava seu governo apresentando-se, no Brasil e no exterior, como líder do combate à pobreza, seu serviço secreto espionava aqueles que trabalhavam com a questão.

No mês passado, depois de quase 1.700 dias no poder, Lula finalmente deu sinais de que ele também não estava gostando dos rumos do serviço secreto. O presidente demitiu Buzanelli pelos jornais e colocou em seu lugar o delegado Paulo Lacerda, ex-diretor-geral da Polícia Federal, responsável pelas grandes operações que nos últimos anos abateram poderosos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Com a escolha de um servidor público exemplar e, sobretudo, estranho aos quadros da Abin, Lula acena com o desejo de mudanças. Resta saber se Lacerda conseguirá domar o serviço secreto. E se o presidente de fato fará as modificações necessárias no desenho institucional da Abin, como tirar a agência do campo interno para deixá-la voltada exclusivamente para o campo externo, o que demandaria mudanças na legislação.

Se a Abin ignora os erros do passado e não consegue conter as insatisfações internas do presente, que será do futuro? A depender da agência, uma história com final feliz. Detalhe: com Thiago Lacerda no papel de galã e Sheila Mello, a ex-loura do Tchan, no lugar da mocinha.

Thiago Lacerda vive o homem que veio da Abin

Recentemente, na sua enésima tentativa de melhorar a imagem, a Abin resolveu investir no cinema, apoiando a produção de Segurança Nacional, longa-metragem do cineasta Roberto Carminatti ainda não finalizado. O roteiro do filme é um suspiro na vida dura que o serviço secreto tem levado nos últimos anos. Em vez de críticas internas, críticas externas e falta de autocrítica, a Abin irá aparecer muito bem na fita. Em Segurança Nacional, o presidente da República (Milton Gonçalves) aciona a agência para desbaratar uma rede internacional de narcotráfico que ameaça a segurança do país. Um dos melhores agentes da corporação (Thiago Lacerda) sai então a campo para investigar o caso, mas é pego no contrapé quando os bandidos seqüestram sua namorada (Sheila Mello) e ameaçam detonar ataques em diversos pontos do país. O mocinho então tem de salvar o país e a namorada ao mesmo tempo (original, não?). Ah, claro, não faltam carros em alta velocidade, jatos cruzando o céu azul anil de Brasília, bombas e socos, muitos socos.

Carminatti contou com a consultoria do serviço secreto e pôde filmar nas dependências da Abin, uma área gigantesca no Setor Policial Sul, em Brasília. Para compor seu personagem, Thiago Lacerda recebeu dicas de agentes secretos. Agora é esperar pelo resultado.

Conseguirá Thiago Lacerda salvar Sheila Mello e vencer os vilões? E o delegado Paulo Lacerda? Terá ele forças para domar os rebeldes da agência e colocar o bonde nos trilhos? Lula sairá bem desse enrosco? Saiba de tudo nos próximos capítulos da novela da Abin.

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